Chaya Pinkhasovna Lispector

terça-feira, junho 16, 2020

Chaya Pinkhasovna Lispector foi o nome que recebeu ao nascer, em 10 de dezembro de 1920, na localidade ucraniana de Chetchelnik. De origem judaica, foi a terceira filha de Pinkhas e Mania. Seu nascimento motivou uma pausa no caminho de fuga da família numa época de fome, caos e perseguição racial. Seu avô foi assassinado, sua mãe foi estuprada, e seu pai foi exilado, sem dinheiro, para o outro lado do mundo.

No ano seguinte ao nascimento de Clarice, toda a família fugiu dos pogroms antissemitas, primeiro para a Moldávia e Romênia, e mais tarde, em 1922, para Maceió, onde alguns parentes já estavam. Ao chegar ao Brasil, todos adotaram nomes portugueses: Pinkhas se tornou Pedro, Mania virou Marieta, e Chaya recebeu seu novo nome de Clarice.

A mãe dela, que tinha sido estuprada durante a Primeira Guerra Mundial e contraíra sífilis, morreu 10 anos depois. Havia no Leste Europeu a crença popular de que uma gravidez poderia curar uma mulher afetada por essa doença venérea, mas não foi o caso. Clarice nasceu desse afã de salvá-la, e desde muito pequena soube da sua origem, daí o sentimento de culpa ter marcado também sua vida e sua criatividade como escritora.



No Brasil, seu pai, um homem inteligente e liberal, sobrevivia vendendo roupas e mal conseguia sustentar a família. Mas ele estava decidido a mostrar ao mundo quem eram suas filhas. Quando Clarice tinha cinco anos, a família se mudou para o Recife, e aos 10 foi para o Rio. Graças a esse empenho do chefe da família, Clarice continuou sua educação até muito além do que era habitual mesmo para as meninas economicamente mais favorecidas, entrando num dos redutos da elite, a Faculdade de Direito da Universidade do Brasil. Ali, na escola de leis, não havia judeus, e só três mulheres.

Mas seus estudos de Direito deixaram poucas marcas na futura escritora, porque seu sonho ela perseguia nas redações dos jornais da então capital brasileira, onde sua beleza e seu brilhantismo já deslumbravam, com seus traços asiáticos, as maçãs do rosto salientes e os olhos um pouco rasgados. Era, além disso, uma jovem culta, que conhecia e lia com assiduidade os autores nacionais e estrangeiros de maior relevância, como Machado de Assis, Rachel de Queiroz, Eça de Queiroz, Jorge Amado e Fiodor Dostoievski.

Fonte: El Pais.

Clarice Lispector é homenageada por doodle do Google

segunda-feira, dezembro 10, 2018

Escritora completaria 98 anos nesta segunda-feira (10). Ilustração foi feita pela designer Mariana Valente, neta de Clarice.

Clarice Lispector é a homenageada do dia pelo doodle do Google. A escritora completaria 98 anos nesta segunda-feira (10). Para marcar a data, Clarice ganhou uma ilustração especial acima da caixa de buscas da ferramenta. Na imagem, o rosto de Clarice aparece entre livros e imagens que remetem tanto o Brasil, para onde migrou com a família aos dois anos de idade, quanto a Ucrânia, onde nasceu em 1920.

A ilustração foi feita pela designer Mariana Valente, neta de Clarice. Segundo ela, o processo de criação foi manual e começou com uma busca pelo acervo fotográfico da família.

“Digitalizei algumas imagens e texturas e tive a ideia de mostrar ela saindo com a família lá da Ucrânia e chegando ao Brasil, começando a trabalhar como jornalista, e depois se direcionando para o próprio trabalho de escrita”, contou.

“Eu fico muito emocionada quando faço algum trabalho em sua homenagem. Ela é uma grande inspiração para mim no trabalho com colagem, porque eu sinto que ela tem essa habilidade de ressignificar a palavra na própria palavra, assim como tento fazer com as imagens”, conta Mariana, que não chegou a conhecer a avó escritora.

“Perto do Coração Selvagem”, livro de estreia de Clarice, “Laços de Família”, “A Paixão segundo G.H.” e “A Hora da Estrela” estão entre as principais obras da autora. Clarice morreu em 1977, aos 57 anos, em decorrência de um câncer de ovário.

Fonte: G1

Obras de Clarice Lispector aproximam crianças do universo da leitura

domingo, setembro 16, 2018

A partir desse caminho para o pensar, o projeto Clarice busca aproximar as crianças de um colégio de Orlândia, no interior de São Paulo, ao universo da leitura por meio das obras da escritora e jornalista considerada por críticos literários uma das mais importantes do século 20. “A utilização dos textos de Clarice promove uma aproximação com as emoções e as paixões”, diz Fabio Scorsolini-Comin, professor da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP), um dos organizadores do projeto, ao lado do professor Adriano Alves da Silva, do Colégio Logos.

Baseados em temas como o ciclo da vida, da natureza, das espécies e das relações interpessoais, sempre presentes nas obras da escritora, os organizadores buscam promover a reflexão das emoções do ponto de vista psicológico e filosófico para que isso possa repercutir na vida dos alunos.

“As obras da autora são mais conhecidas pelo público adulto. Entretanto, seus  livros infantis abordam uma certa ‘humanidade’ nos animais, o que leva a uma aproximação com uma vida mais instintiva e básica, ligada às paixões e às emoções que circundam o universo infantil”, conta Scorsolini-Comin.

Do conto à escrita
O projeto Clarice foi criado este ano e está sendo desenvolvido ao longo do segundo semestre com crianças de 9 e 10 anos matriculadas no quinto ano do ensino fundamental. São três fases, a primeira é de contação de histórias, com uma obra a cada semana. Nessa fase as obras utilizadas são: O mistério do coelho pensante, A mulher que matou os peixes, A vida íntima de Laura, Quase verdade e Como nasceram as estrelas. Alguns contos como Felicidade clandestina e Cem anos de perdão também estão sendo trabalhados.

Na segunda fase, haverá discussão a respeito das obras da primeira fase. “Nesse momento, a ideia é relacionar alguns elementos encontrados na narrativa com a vida dos alunos”, explica o professor. Na terceira e última fase, ocorre a oficina de produção de textos. A cada semana, as crianças são convidadas a produzir um texto diferente a partir da obra trabalhada, como contos, cartas e bilhetes. Ao final, os coordenadores querem publicar um livro com os textos criados pelos alunos e produzir artigos científicos.

Além de Scorsolini-Comin, o projeto também é coordenado pelo professor de História e Filosofia Adriano Alves da Silva, do Colégio Logos.

Fonte e reportagem completa: Joice Soares.

Clarice Lispector ganha estátua no Leme, a 1ª de uma artista mulher no Rio

sábado, maio 14, 2016

Estátua foi instalada neste sábado (14) na Pedra do Leme, orla da zona sul



Tendo como paisagem a orla de Copacabana, o morro Dois Irmãos e a Pedra da Gávea, a escritora Clarice Lispector passa a ser homenageada a partir deste sábado (14). A estátua da escritora, projeto acalentado desde 2013, já ocupa a mureta da Pedra do Leme, com a expectativa de atrair ações culturais.

Fonte: R7

95 anos de Clarice Lispector

quinta-feira, dezembro 10, 2015

Faz hoje 95 anos do nascimento de Clarice Lispector, ocorrido numa aldeia ucraniana; ela recebeu o nome de Haia Lispector (modificado para "Clarice" quando a família chegou ao Brasil, em 1922).

Não consigo escolher somente um texto para comemorar esta data, mas este trecho está entre os meus favoritos:

"Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse a casa dele, e é. Trata-se de um cavalo preto e lustroso que apesar de inteiramente selvagem – pois nunca morou antes em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem sela – apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo: come às vezes na minha mão. O seu focinho é úmido e fresco. Eu beijo o seu focinho. Quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer muito. A menos que ele escolha outra casa e que esta casa não tenha medo daquilo que é ao mesmo tempo selvagem e suave. Aviso que o cavalo não tem nome. Basta chamá-lo e acerta-se logo com o nome. Ou não se acerta, mas uma vez chamado com doçura e autoridade, ele vai. Se ele fareja e sente que um corpo-casa é livre, ele trota sem ruídos e vai. Aviso também que não se deve temer o seu relinchar: as pessoas enganam-se e pensam que são elas mesmas que estão a relinchar de prazer ou de cólera, as pessoas assustam-se com o excesso de doçura do que é isto pela primeira vez".

Fonte: Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres (1969).

Hora de Clarice

quarta-feira, dezembro 02, 2015

A Hora de Clarice é um evento organizado pelo IMS para celebrar o aniversário da escritora Clarice Lispector.

Use #HoraDeClarice para compartilhar informações e fotografias do evento.

Clique aqui para acessar a fonte do texto acima e a programação completa.

Entrevista com a atriz Rita Elmôr, que interpreta Clarice em espetáculo teatral

quinta-feira, novembro 05, 2015


Claure comunicação: Como começou a história com a representação da Clarice Lispector?

Rita Elmôr: Começou quando eu tinha 23 anos e ganhei de presente dois livros de Clarice, "Perto do Coração Selvagem” e "A Descoberta do Mundo". Quando comecei a ler, me senti imediatamente íntima dela. Parecia que eu estava sendo apresentada a uma amiga que se tornaria uma amiga-irmã. Sabe aquela sensação boa de encontrar alguém que enxerga as coisas de um jeito parecido com o seu? Agora imagine essa sensação quando você se sente péssima justamente por achar que você enxerga as coisas de um jeito bem esquisito. Encontrar uma igual foi um oásis. Desde criança tenho um sentimento de inadequação, que persistiu na fase adulta. Por causa do meu jeito desencaixado, eu tentava ser do jeito dos outros, mas sempre dava errado, era patético e eu me sentia ainda pior. Entrar em contato com a obra da Clarice me ajudou muito. Continuei a ser desencaixada, mas uma desencaixada que se aceita, afinal de contas, a Clarice soube usar o desencaixe dela como ninguém. Vi que era possível! Pode reparar, todos os desencaixados amam Clarice. Nós formamos uma irmandade.

Claure comunicação: Por que decidiu voltar a interpretar a escritora?

Rita Elmôr: A Clarice foi a primeira personagem que interpretei profissionalmente. Me formei na faculdade de teatro e montei a peça "Que Mistérios Tem Clarice"com o dinheiro que ganhei do seguro após a perda total do meu carro numa enchente no Rio de Janeiro. Nesse meio tempo, 17 anos depois, se eu misturar teatro, televisão e cinema, posso dizer que interpretei quase trinta personagens. Voltar à Clarice depois de tudo isso está sendo muito interessante. Costumo fazer personagens tão distintos e com caracterização física tão forte que as pessoas sentem dificuldade em me associar a trabalhos diferentes. Mas dessa vez, algo novo e curioso aconteceu. Quando comecei a trabalhar na adaptação, ler e selecionar os textos, adequar a linguagem, escrever os textos de ligação e por fim encontrar o eixo da peça, ficou claro para mim e para o diretor, Rubens Camelo, que dessa vez não haveria a necessidade de nenhuma caracterização, que dessa vez eu estaria no palco como Rita. O curioso é que o texto da Clarice ficou mais vivo do que nunca. Acho que só com alguma quilometragem e um pouco de maturidade artística se torna possível estar no palco sem a proteção de um personagem. Pelo menos, no meu caso, está sendo assim. Talvez por isso eu esteja vendo esse trabalho como um recomeço na carreira. 

Claure comunicação: Fale sobre as imagens e a repercussão relativas à semelhança entre as duas.

Rita Elmôr: Já faz muito tempo que vejo as fotos da minha primeira montagem, fotos em que estou caracterizada como Clarice, serem confundidas com as fotos da própria Clarice. No início levei um susto. A primeira vez que isso aconteceu foi quando saiu uma foto enorme na capa do caderno de cultura do extinto Jornal do Brasil. De lá pra cá já apareci em capas de revistas de literatura, em jornais da Holanda, Nova York, Espanha, Berlim. A Clarice também ganhou um novo rosto. O meu. No início achei engraçado, não tinha me dado conta do poder de propagação das redes sociais, mas depois, quando as minha fotos viralizaram me senti roubada. É uma sensação muito estranha quando o seu rosto deixar de ser seu. O pior era quando aparecia a minha foto, um texto de Cecilia Meirelis e a assinatura da Clarice Lispector com 30.000 curtidas. Eu não sabia se ria ou chorava. Depois me acostumei. Aonde tinha Clarice lá estava a minha cara. Quando resolvi montar a nova peça achei que seria interessante usar essa história como ponto de partida. A peça é uma metáfora do que a vida fez com a nossa imagem, nós duas viramos a mesma pessoa. Agora isso vai acontecer no palco.


Claure comunicação: Quem fez a redação do texto atual?

Rita Elmôr: "Clarice e Eu. O Mundo não é chato" é uma peça com textos de Clarice Lispector adaptados por mim. Há textos meus, que falam da minha primeira montagem. Além desses, há breves textos de ligação, que fazem o espectador se perguntar: Quem está falando agora? É a Rita ou a Clarice? Mesmo assim, posso afirmar que a peça é basicamente uma adaptação de textos de Clarice para o teatro.

Claure comunicação: Qual a essência dele?

Rita Elmôr: A Clarice tem uma obra muito grande. É possível fazer inúmeros recortes. A primeira decisão que tomei para a adaptação foi sobre o que eu não queria que entrasse no texto. Eu não queria que fosse uma peça auto biográfica, não queria falar sobre as suas angústias mais pungentes e não queria falar sobre o seu doloroso processo de criação. Senti vontade de fazer uma peça que levasse luz às suas reflexões criadas a partir de encontros transformadores entre pessoas. O humor foi determinante na seleção dos textos. A meu ver, esse recorte facilita a relação do público com a obra de Clarice e torna possível brincar com a fusão entre atriz e autora. O desafio dessa adaptação foi o de criar uma comunicação simples, direta, sem empobrecer o texto, mas unicamente com o objetivo de tornar o espetáculo atraente tanto para os que conhecem Clarice, quanto para aqueles que nunca leram um livro inteiro na vida. É uma peça democrática. Não é Clarice para poucos. O mais surpreendente é que encontrei um material enorme que atendeu o meu desejo. Podem até não gostar da peça, mas ninguém vai sair do teatro dizendo que Clarice é uma escritora difícil. Isso eu posso afirmar.

Entrevista realizada por: Claure comunicação.

Espetáculo sobre Clarice Lispector tem estreia nacional em Curitiba

segunda-feira, outubro 19, 2015


Peça com atriz Rita Elmôr será apresentada no Teatro Bom Jesus nos dias 7 e 8 de novembro.

"Clarice e eu. O mundo não é chato" é uma adaptação para o teatro de textos de Clarice Lispector, feita por Rita Elmôr. Textos da atriz também são inseridos ao longo da peça. Ela conta como iniciou a carreira interpretando Clarice Lispector em um monólogo, destacando o fato das fotos da personagem serem frequentemente confundidas com as fotos da escritora, chegando mesmo a estampar capas de revistas especializadas em literatura e a figurar em jornais internacionais. De forma quase imperceptível, o texto da atriz funde-se aos textos da escritora, e o fato inusitado da imagem de uma ser confundida com a imagem da outra se reproduz no plano linguístico.
A adaptação priorizou os textos em que Clarice revela, com seu humor inteligente, maneiras mais criativas de levar a vida. O recorte escolhido foi o do comportamento humano diante de situações constrangedoras e engraçadas. A peça faz um passeio pela obra da escritora, priorizando crônicas, contos, cartas e trechos de livros que ressaltam a faceta mais bem humorada de Clarice Lispector, ainda pouco explorada. O resultado final é surpreendentemente leve, embora alguns textos selecionados apresentem o olhar crítico da escritora para dramas sociais que remetem à questões políticas contemporâneas. A atriz e a autora se misturam em suas experiências, deixando o espectador atento para captar o olhar generoso e agudo de Clarice.

Sobre o processo

Em 1998 a atriz Rita Elmôr fez um monólogo com textos de Clarice Lispector intitulado "Que Mistérios têm Clarice"que privilegiou o processo de criação, a biografia da escritora e a caracterização física da intérprete. Nesse espetáculo, que foi a primeira peça profissional de sua carreira, Rita foi indicada ao prêmio Shell de melhor atriz.
Dezessete anos depois, surgiu a ideia de montar um novo espetáculo sobre Clarice, mas dessa vez, em"Clarice e Eu. O Mundo não é chato,"o relato da atriz sobre a sua experiência na primeira montagem serve apenas como ponto de partida para uma nova tradução de Clarice.

Serviço:
 

"Clarice e eu. O mundo não é chato"

Dias: 7 de novembro, às 21h, e 8 de novembro, às 20h.
Local: Teatro Bom Jesus (Rua 24 de Maio, 135. Centro. Curitiba-PR)
Ingresso: R$ 86,00 (inteira), R$ 46,00 (meia), disponível em www.diskingressos.com.br.
Informações: Oxigene Cultural - (41)3273-1200  (41)9611-5622

Texto: Clarice Lispector
Adaptação: Rita Elmôr
Elenco: Rita Elmôr
Direção: Rubens Camelo
Assistente de direção: Radha Barcelos
Trilha Sonora: Marcelo Neves
Figurino: Mel Akerman
Cenário e Iluminação: Paulo Denizot
Produção Local: Oxigene Cultural
Assessoria de Imprensa: Diogo Cavazotti Comunicação
Web: Claure Comunicação

No enterro de Clarice Lispector, 200 pessoas (reportagem)

quinta-feira, junho 25, 2015


Duzentas pessoas compareceram ao enterro da escritora Clarice Lispector no Cemitério Comunal Israelita, no Caju (RIO). Seu corpo, velado desde sexta-feira no oratório do cemitério, foi colocado no túmulo 123, da fila G. depois de ter sido purificado por quatro mulheres da Irmandade Sagrada "Hevra Kadisha", de acordo com o ritual judaico. O caixão fechado e coberto apenas por um manto negro com uma estrela de David, bordada, foi visitado pelos escritores Rubem Braga, Fernando Sabino, Nélida Piñon e José Rubem Fonseca, além do embaixador Vasco Leitão da Cunha.

Clarice, um enterro simples
O corpo de Clarice Lispector ficou no cemitério Comunal Israelita

Numa cerimonia simples, sem discursos, na qual a família chegou até a dispensar a presença do grão-rabino Henrique Lemle, substituido pelo cantor-mór Joseph Aronsohn, a escritora e jornalista Clarice Lispector - ela completaria anteontem 53 anos de idade - foi sepultada ontem no Cemitério Comunal Israelita, no Caju. Cerca de 200 pessoas, entre parentes e amigos, acompanharam o corpo - velado desde sexta-feira no oratório do Cemitério - até o túmulo 123, da fila G, onde ao lado, repousa o corpo do deputado Francisco Silbert Sobrinho.

Antes de ser enterrado o corpo da escritora, de acordo com o ritual judaico, foi purificado, sendo lavado, interna e externamente, por quatro mulheres da Irmandade sagrada "Havra Kadisha". No oratório, o caixão, fechado, coberto apenas por um manto negro com uma Estrela de David bordada em prateado foi visitado pelos escritores Rubem Braga, Fernando Sabino, Nélida Piñon e José Rubem Fonseca e pelo embaixador Vasco Leitão da Cunha. Nélida Piñon e José Rubem Fonseca acompanharam Clarice nos seu últimos momentos no Hospital da Lagoa, onde a escritora morreu vitimada por um câncer.

Ainda no oratório, precisamente às 11 horas, o substituto do rabino deu início à liturgia lendo, em aramaico, o Salmo 91, do Artigo Testamento, seguido de cânticos em hebraico e de uma leitura, agora em português, de alguns Salmos. Ali, antes do caixão ser conduzido à sepultura, Joseph Aronsohn ainda fez a despedida do corpo, rezando o "El Molê Rachamim". De lá o caixão seguiu até o túmulo 123, onde o filho de Clarice, Paulo Gurgel Valente (o filho Pedro não compareceu por se encontrar com o pai, o embaixador Mauri Gurgel Valente, em Montevidéu) chorou, sendo constantemente amparado pelas tias Elvira e Tânia, também escritoras.

A beira do túmulo, Joseph Aronsohn, tendo ao lado Pedro Gurgel Valente, rezou o "Kadish" - oração fúnebre -, enquanto a última homenagem a Clarice Lispector era prestada com o lançamento de três pás de terra sobre o caixão, indicando que "da terra viestes, à terra voltarás". A cerimônia foi encerrada com o substituto do rabino pedindo aos presentes que se voltassem para a direita, em direção ao Oriente, indicando o sentido de Jerusalém.

Esse texto, integralmente, foi retirado de:
Fonte: http://almanaque.folha.uol.com.br/ilustrada_12dez1977.htm

Nélida Piñon lança volume de ensaio onde cita sua relação de amizade com Clarice Lispector

quarta-feira, agosto 28, 2013

Se no clássico 'A república dos sonhos' a romancista, ensaísta e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras Nélida Piñon volta à Galícia, na Espanha, para falar de suas raízes e de seus antepassados, em 'O livro das horas', com o mesmo encantamento, nos envolve em dezenas de histórias vividas ao longo dos anos. Logo nas primeiras linhas, com o coração aberto, confessa: “Não sou forte nem poderosa. Tampouco estou na flor dos 20 anos. Não faz falta enaltecer o meu retrato que a mãe Carmen outrora pendurou em seu quarto antes de morrer, com a intenção de eternizar a juventude da filha na sua retina... A cada dia aprendo a amar. A família, os amigos, as línguas, as instância da vida e da arte.”

Nascida em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio de Janeiro, há 76 anos, Nélida Piñon estreou na literatura em 1961, com o romance 'Guia-mapa' de Gabriel Arcanjo, primeiro passo na carreira literária que a levaria a se tornar uma das escritoras mais respeitadas do país. Na sequência vieram outros livros, como 'Madeira feita de cruz', de 1963; 'O fundador', de 1969; e 'Vozes do deserto', que lhe valeu o Prêmio Jabuti de 2005.

Como uma Sherazade moderna, à qual não falta o poder da sedução, em 'O livro das horas' – que ela lança hoje em Belo Horizonte no projeto Ofício da Palavra –, Nélida Piñon fala de coisas bem íntimas, como da sua relação de amizade com Clarice Lispector. As duas se conheceram em 1961 – Clarice já consagrada e Nélida uma estreante. “Clarice me faz falta, dói-me falar nela. Sua amizade me fez crescer”, diz.

Às vezes costumavam ir juntas visitar uma cartomante chamada Nadir, na qual Clarice acreditava muito. Nélida lembra que a amiga, mesmo sendo de família judaica, gostava de ler o Novo testamento e se interessava pelo catolicismo, tendo inclusive revelado a uma amiga, Olga Borelli, que gostaria de ser enterrada como cristã.

Nélida não se furta também em dizer, com uma sinceridade tocante, que a memória é frágil e que às vezes consulta fontes, no afã de defender seus haveres. “Confundo a coroa de louros com a de espinhos. E quem será dono de mim? Eu ou minha memória, que funciona como um legado paralelo ao meu ser. Uma matéria que mal domino e com a qual não conto quando mais a necessito”, confessa.


OFÍCIO DA PALAVRA
Com Nélida Piñon, que lança 'O livro das horas'

Nesta terça-feira, às 19h30

Local: Museu de Artes e Ofícios, na Praça da Estação s/nº

Informações: (31) 3225-1888

Entrada franca

Fonte: Divirta-se

Sem medo algum de ser Clarice Lispector

segunda-feira, novembro 21, 2011

Por Isabelle Barros

Praça Maciel Pinheiro, Boa Vista, centro do Recife. Lugar onde Clarice Lispector (1920-1977) passou alguns dos anos mais importantes de sua infância e a fez afirmar, em entrevista próxima à sua morte: “O Recife está todo em mim”. Para evocar a memória da moradora ilustre, o lugar abriga uma das 12 estátuas de concreto que integram o Circuito da Poesia, homenagem feita a artistas que tiveram Pernambuco como parte integrante de sua vida e obra. Esta é uma imprecisão histórica, pois a escritora jamais publicou poemas.

A Clarice de cimento está sentada, com a máquina de escrever no colo. Tem como vizinhança os trapos da lendária Juraci, moradora de rua conhecida como a Rainha do Real. Dizem os taxistas da região que, de vez em quando, ônibus escolares e turísticos fazem uma rápida parada para tirar fotos da escultura antes de seguirem viagem. A atenção atraída pela homenagem é medida por outra variável, distante do mundo literário. “Não tem aquele abajur vermelho ali, ao lado da estátua? Sempre roubam”, alertam os flanelinhas.

Era sábado de liquidação nas lojas de móveis dos arredores. No meio do burburinho, uma família de classe média fazia imagens de todos os ângulos da praça. Quem empunhava a câmera era uma mulher, de aproximadamente 40 anos, que fazia parte de um clube de fotografia chamado Amantes da Zona Norte. Pergunto se ela estaria lá também para ver a antiga casa da escritora. Ela, a princípio, nega, mas se apressa a dizer que adora a obra de Clarice e vai, sim, tirar fotos do sobrado de número 387. “Ela é muito do nosso dia-a-dia, não é?”. A frase tamborila nos ouvidos. Não deixa de ser irônico ouvir isso a respeito de uma escritora conhecida por seus saltos metafísicos, com trechos de tons epifânicos procurando tatear um espaço além da linguagem.

Mais do que qualquer outro autor da língua portuguesa, Clarice virou um fenômeno pop, ao mesmo tempo em que se transformou em uma espécie de panaceia intelectual. Sua obra, dedicada ao espanto do estar no mundo, passou a ser considerada como prova de bom gosto em presentes de aniversário ou usada em epígrafes ao final de e-mails. “Em vida, ela era admirada principalmente por intelectuais e artistas. Próximo à sua morte, também atraiu os leitores da classe media carioca que a conheceram por meio de suas crônicas no Jornal do Brasil. Ela chega tão ao âmago das pessoas que nos vemos refletidos nela como em poucos escritores - até diria em nenhum escritor - que conheço. “Clarice escreveu: ‘Eu sou vós mesmos’. Então, eu diria: as pessoas esperam tudo dela. E, hoje, ela se tornou realmente um objeto de culto”, avalia o escritor e autor da biografia Clarice, Benjamin Moser.

CLARICE, A ELEITA
A profundidade e amplidão de sua literatura, junto à sua figura misteriosa, propensa a mitificações, a tornaram uma tábula rasa, sobre a qual nenhuma interpretação parece ser suficientemente absurda. Quem a lê e se deixa envolver por sua prosa quer tomá-la para si, o que acontece até hoje com intelectuais, estudantes, celebridades. Pilhas de livros tentaram compreendê-la, ligá-la ao feminismo, ao judaísmo e até ao zen-budismo. As hipóteses para decodificar esse estado de coisas são variadas. “Ela não era banal. Ucraniana, falava iídiche e teve uma vida de peripécias. Belíssima, tinha mesmo tudo para se transformar em ícone. As pessoas se identificam porque a sensibilidade dela está em um ponto entre a mulher e o homem. Ainda não há quem possa ocupar o seu lugar”, avalia a poetisa e professora de Letras da UFPE, Lucila Nogueira.

Para o crítico literário e escritor José Castello, sua morte deu curso a um processo involuntário e, ao mesmo tempo, relativamente comum a quem se destaca como artista: o de santificação. “Quando Clarice estava viva, muita gente dizia que ela era uma mulher desequilibrada, difícil, intratável até. Que escrevia uma literatura ilegível, que não passava de um transe. O que não tem relação alguma com sua grandeza como escritora. Ela é um dos maiores nomes da literatura em língua portuguesa em todos os tempos, mas não foi uma mulher perfeita. Ao contrário, acentuou sempre sua humanidade e sua imperfeição. Sua literatura, em vez de explicar, abre um rombo. Ela nos deixa diante da fragilidade absoluta do existir”.

Outra razão apontada pelo interesse despertado por essa brasileira nascida na Ucrânia é a divulgação consistente de seus livros ao longo das últimas décadas. Atualmente, a editora Rocco é a única dona dos direitos de publicação de seu material, o que facilita as reedições. “É preciso lembrar uma coisa: a obra de Clarice Lispector sempre teve repercussão significativa. Ela mesma declarou ter recebido muitas cartas e telefonemas dos leitores. O investimento em publicações após sua morte, as inúmeras adaptações de sua obra para o teatro e o cinema e a organização de exposições também ajudaram a mantê-la em evidência”, sentencia a pesquisadora Teresa Montero, autora da biografia Eu sou uma Pergunta, lançada em 1999, e organizadora de seis dessas edições póstumas. “A ampliação dos meios de comunicação também tornaram possível uma circulação mais rápida de seus livros”, emenda.

O resultado disso é uma constante renovação dos leitores, o que a reveste de uma característica adicional. “Ela é muito lida por adolescentes entre 15 e 20 anos, mas continua sendo procurada após essa fase da vida, ao contrário de outros criadores. Quem cai de amores, vai lê-la sempre, o que não ocorre com outros autores de romances de formação”, observa o professor de Letras da UFPE, Anco Márcio. “É como se o escritor criasse uma ambiência, um modo de estar no mundo talvez almejado pelo leitor. A literatura revela o mundo e Clarice tinha essa consciência”.

CLARICE E A INTERNET
A internet opera um papel especial – e ambíguo - com relação ao legado da autora de A hora da estrela. Frases retiradas de contexto se tornaram aforismos a serem pinçados de sites, onde disputam espaço com anúncios de compras coletivas e de encontros amorosos. Trechos das obras se multiplicam em redes sociais como Orkut, Twitter e Facebook, vocalizando os mais diversos estados de espírito para pessoas as mais surpreendentes.

Um exemplo curioso é o da autointitulada atriz, apresentadora e empresária Ângela Bismarchi. Conhecida por suas apresentações no Carnaval carioca e pelas especulações sobre quantas vezes já passou por cirurgias plásticas, ela citou a escritora em seu perfil no Twitter. “Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito”. Perguntei se ela já havia lido algum livro de Clarice Lispector, mas não houve resposta. “Acho que essas passagens (da internet) são sintomas do nosso tempo. É uma carência das pessoas. Vivemos numa época muito impessoal. E essa obra tão singular é dada a frases lapidares, então é possível fragmentar sua obra dessa forma”, diz Lucila.

No dia 1º de setembro, foram colocados mais alguns tijolos no muro de admiração construído em torno da imagem da escritora. A partir de uma coluna do jornal O Globo, espalhou-se o boato de que a atriz Meryl Streep viveria Clarice no cinema. A “barriga” repercutiu nos meios de comunicação do país inteiro e entrou nos trending topics do Twitter, com reações variando entre a histeria (“Seria a glória!”) e o enfado (“Já pode dar block nesse filme?”). Difícil foi ficar indiferente. “Acho que devemos colocar isso como mais um exemplo da ‘lenda de Clarice Lispector’. Só fiquei sabendo pelo filho dela, que viu essa história no jornal e teve de passar dias e dias desmentindo. Acho fascinante ver como sua obra tem se expandido depois de sua morte, como se ela ainda escrevesse”, pontua Moser.

É fácil encontrar quem se disponha a espalhar pílulas de Clarice em 140 caracteres. Pululam no Twitter perfis como @FrasesdeClarice, @C_Lispector, @clariclispector e afins. O mais popular deles, @clalispector, tem pouco mais de 159 mil seguidores e foi criado por Lucas Freire, designer, escritor em formação e mantenedor do blog Conversa oca. “As frases que eu posto tem, em média, mais de 500 retweets. As que contêm as palavras ‘amor’ ou ‘paixão’ são sempre as mais populares, mas não acho isso bom. A maioria das pessoas não separa um minuto para prestar atenção, tentar captar o que aquilo representa. Parece inacreditável, mas muita gente quer entrar em contato com a Clarice Lispector em pessoa, e não comigo. Há até quem responda ‘eu te amo’. Tenho de relembrar várias vezes aos seguidores da minha conta que ela morreu há mais de 30 anos, e quem tuíta sou eu, um leitor”.

Entre os sites de divulgação feitos por admiradores, o mais acessado é o blog Clarice Lispector, alimentado pela historiadora e poetisa Keidy Costa, de Natal. A página tem mais de 500 mil pageviews e uma média de 1300 visitas diárias. A ideia é reunir tudo o que Clarice escreveu para uso pessoal. “O conteúdo reflete a minha disponibilidade de tempo, o livro que leio no momento e a necessidade de levar ao conhecimento público um trecho de uma obra que deixo de citar por muito tempo”. Embora acredite que gostar de Clarice se tornou moda, ela não acredita que a obra dela se torne “gasta” algum dia. “Sempre há alguém querendo se libertar por meio de seus escritos. O importante é as pessoas desenvolverem o hábito de lê-la, seja algumas frases ou a obra inteira”.

A escritora dispõe de outros indicadores de popularidade mais controversos, como a profusão de escritos atribuídos a ela cuja autenticidade é duvidosa. Para verificar isso, basta digitar “Clarice Lispector poemas” em qualquer site de busca. Um dos links tem como resultado os versos “Não te amo mais / Estarei mentindo dizendo que / Ainda te quero como sempre quis”, com a indicação de leitura na ordem inversa. Não é preciso ler mais para descartar a suposição de autoria. “Uma das maiores deferências que se pode fazer a um escritor é colocar o nome dele em algo feito por outros. É como se o apropriador dissesse: eu não mostro minha cara, mas digo tudo o que tenho para dizer por meio desse artista”, observa Anco.

NÃO ESTOU LÁ
Em certos casos, a atenção dispensada à obra de Clarice chega às raias da falsidade ideológica, como ilustra uma experiência vivida por Moser. “Alguém no Pará tentou me vender uma segunda edição autografada de A hora da estrela. Achei muito interessante, pois a primeira foi publicada semanas antes da morte de Clarice. Tenho um desses raríssimos livros autografados. Mas, para mim, a segunda edição seria mais rara ainda, pois não sabia de nenhuma reimpressão feita antes de sua morte”. Para se garantir, o biógrafo pediu uma foto da dedicatória e da página de copyright. “Lá, havia o seguinte: ‘Lispector, Clarice, 1925-1977 ... José Olympio, 1978.’. Ela estava autografando livros depois de sua morte! Por um lado, essa fraude é muito séria, ainda que malfeita, mas é possível ver esse caso como uma perversa homenagem”.

A ânsia em ver Clarice mesmo onde ela não existe levou até a pendengas judiciais. Em 1997, o empresário e escritor Edson Marques diz ter escrito o poema Mude, atribuído posteriormente a autores tão díspares quanto Pedro Bial, Paulo Coelho, Cecília Meireles e também à caçula da família Lispector. “O que pode ter levado as pessoas a supor que meu poema é ‘de Clarice’, imagino, é que ambos escrevemos bem. E que ambos, cada um a seu modo, somos existencialistas. Os temas dela são o amor e a liberdade, a solidão e o nada. E as pessoas geralmente gostam disso. Vistos de bem perto, nossos estilos não se parecem, mas, no fundo, sinto-me altamente lisonjeado por ser ‘confundido’ com ela”.

Mas, em 2001, quando os versos foram declamados no comercial de uma montadora, o autor entrou com uma ação contra o filho da escritora, Paulo Gurgel Valente, que supostamente teria vendido os direitos à agência de publicidade que detinha a conta da multinacional. A ação está em segunda instância. Na primeira, o ganho de causa foi de Edson. “A maioria dos leitores de Clarice não acredita que sou eu o autor, mesmo depois de ter publicado o registro na Biblioteca Nacional. Seus fãs se recusam a supor que tal poema não seja dela”. Mesmo que a escritora tivesse, algum dia, escrito poemas, a leitura rápida de dois versos não deixa margem a especulações estilísticas. “O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. / Só o que está morto não muda”.

CLARICE E A HISTERIA
Se os livros de Clarice pedem a renúncia à ideia de um cotidiano plácido para dar lugar à intensidade da experiência humana, o efeito que sua obra causa em seus leitores dá margem a reações exaltadas. É famoso o episódio no qual a cantora Maria Bethânia, contrariando sua postura reservada, se curvou diante de Clarice e exclamou “minha deusa!”, para desgosto da escritora. Outro exemplo é um comentário retirado da postagem de uma entrevista de Clarice Lispector no YouTube. “Não se gosta de Clarice como se gosta de abacaxi! Você não gosta de Clarice, você ama Clarice! Você não entende Clarice, você sente Clarice!”. Doze pessoas “curtiram” essa observação no site. “Vivemos uma era de tecnologia avançada, mas nosso fascínio pelos mitos se parece com o dos homens primitivos. Muitos adotam Clarice como Grande Mãe, outros a odeiam como uma bruxa doida. As duas posições conduzem à mesma cegueira diante de Clarice e de sua obra. A propósito, a literatura dela fala justamente disso. É uma questão de lê-la com atenção, sem idealização”, reflete Castello.

Tanta paparicação de seus leitores também dá margem a reações de desagrado, embora Clarice esteja em uma situação próxima da unanimidade. “Vejo certa irritação na área de Letras, pois ela é uma das escritoras mais lidas e, ao mesmo tempo, faz parte de uma vanguarda. Ainda vivemos em um país muito machista, e pessoas de visão conservadora talvez se chateiem com seus textos”, opina Lucila. Segundo a poetisa, é surpreendente que ela seja bem aceita em um país como o Brasil, onde a expressão mais adotada é o realismo, situação muito diferente do resto da América Latina. “Basta ver qual é o maior escritor brasileiro vivo: Rubem Fonseca. Clarice, por sua vez, não pode ser chamada de realista”.

Não à toa, quem se identifica com a autora se dá o nome de “clariciano” ou “clariciana”, como se fosse membro de um universo à parte, uma comunidade secreta. Para Castello, Clarice é vítima de muitos preconceitos. Eles começam não com seus inimigos, mas com seus admiradores. “Alguns a leem como uma filósofa, outros como uma bruxa, outros ainda como um mestre. Ou seja: congelam suas ideias, transformam-nas em ‘lições’, reduzem-na a meia dúzia de chavões. Mas transformá-la em mestre das grandes respostas é recusá-la, é não ler o que ela escreveu”.

Muitas vezes, essa leitura redutora ou incompleta não é privilégio duvidoso de neófitos ou desavisados. “A impressão geral é de que ninguém entende o que ela de fato escreveu, exceto os textos mais elementares, como Laços de família. A paixão segundo G.H e Água viva já são outra história. Durante uma das minhas aulas, perguntei a meus alunos sobre o que esse último livro tratava e ninguém soube responder”, recorda Lucila.

Castello argumenta que Clarice foi um gênio e eles são, quase sempre, reduzidos a imagens grandiosas e fixas. E que a literatura dela não foi feita para jogos de espíritos de intelectuais, ou divertimentos para beiras de piscinas e salas de espera de aviões. “Isso mata seu pensamento e a mata pela segunda vez. Ela coloca-nos diante do humano, sempre vivo e por isso mesmo instável e ‘sem solução’. Mas as pessoas, em geral, não suportam isso, então a transformam numa autora de frases do ‘bem viver’ e assumem o papel de seguidores. Formam-se comunidades, séquitos, clubes. Ela odiaria tudo isso”.

Dona de uma obra que devassa o íntimo do leitor, como se o atravessasse, Clarice paira acima da vida e da morte para seus leitores, para o bem e para o mal. Uma pista sobre o que Clarice realmente pensaria de toda a atenção em torno de si após sua morte estaria em seus textos, como nas palavras escritas em Um sopro de vida (Pulsações), da fase final de sua carreira. “Quando acabardes este livro chorai por mim um aleluia. Quando fechardes as últimas páginas deste malogrado e afoito e brincalhão livro da vida então esquecei-me. Que Deus vos abençoe então e este livro acabará bem. Para enfim eu ter repouso. Que a paz esteja entre nós, entre vós e mim. Estou caindo no discurso? Que me perdoem os fieis do templo: eu escrevo e assim me livro de mim e posso, então, descansar”.

Isabelle Barros é jornalista e mestranda em Comunicação Social

Fonte: http://www.suplementopernambuco.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=437&Itemid=2

Parte 2: http://www.suplementopernambuco.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=440&Itemid=2

Imprensa

quinta-feira, maio 08, 2008

Fotobiografia celebra lado pop de Clarice Lispector

Toda estrela que se preze já ganhou biografia não-autorizada ou álbum de fotos de sua carreira. Com Clarice Lispector (1920-1977) não poderia ser diferente. "Clarice - Fotobiografia" (Imprensa Oficial; R$ 90, 656 págs.), livro com 800 imagens, muitas delas inéditas, reforça o apelo extraliterário, o "star quality" da autora de "A Paixão Segundo G. H.", cujos traços singulares muitas vezes pareciam ecoar a estranheza de seus próprios livros.
Reprodução
Fotobiografia reforça sucesso de Clarice Lispector (foto) entre jovens
Esse apelo é reconhecível sobretudo entre os jovens, cujo fascínio por Clarice tem um forte termômetro na internet. O site de relacionamentos Orkut, por exemplo, tem 103 comunidades dedicadas a Clarice. Ali, a escritora bate os poetas Carlos Drummond de Andrade (77) e Manuel Bandeira (58), com grupos chamados "Clarice Lispector sexy!" ("para quem acha Clarice a escritora mais sexy da literatura brasileira!") ou "Clarice Lispector me dá tesão!" ("como se não bastasse ela ser inteligente, tinha que ter essa boca e esses olhos?").
Na blogosfera, não é diferente. Há seis meses, a estudante Keidy Lee Costa, 19, administra, do Rio Grande do Norte, o blog claricelispector.blogspot.com, que chega a ter mais de 4.700 visitas diárias. Para a estudante, a recém-lançada fotobiografia tem "800 novas maneiras de tentar entendê-la e de se apaixonar ainda mais", pois, "quando se olha nos olhos de uma foto de Clarice, a sensação que se tem é de mistério".
Imagem a favor da obra
Autora do livro "Clarice - Uma Vida que se Conta", a professora da USP Nádia Battella Gotlib, que organizou a fotobiografia, diz que não pensou no "estrelato" de Clarice, e sim na história da literatura por trás das fotografias. Gotlib acredita que o apelo entre os jovens se dê pela capacidade de Clarice de traduzir traços da personalidade humana, sobretudo em fase de formação e em ritos de passagem.
"Ela possuía uma capacidade de fisgar o leitor em pontos sensíveis. E o adolescente está com a sensibilidade à flor da pele, tem uma percepção lisérgica das coisas", diz a professora, numa referência ao escritor Hélio Pellegrino (1924-1988), para quem Clarice tinha uma "personalidade lisérgica". Gotlib também reconhece que a figura da escritora é forte e encantadora. Mas ressalva: "É uma imagem a favor da literatura, porque instiga a pessoa a ler a sua obra".
Clarice é emo?
Outro altar de celebração da imagem de Clarice é o YouTube, em que uma busca pelo nome da escritora gera mais de 170 resultados, entre eles videopoemas em sua homenagem e trechos da última entrevista que ela concedeu, em 1977, à TV Cultura.
Após ver uma passagem da tal entrevista em que Clarice comenta que seu conto "O Ovo e a Galinha" era um mistério para ela mesma, uma leitora do blog Ovos Não Voam chegou a comentar: "Clarice Lispector é emo!", referindo-se ao lado "emotional hardcore" (emocionalmente pesado) da escritora.
Fã de Clarice, a estudante Fernanda Markus, 17, também parece identificar a tal faceta "hardcore": "Ela atrai os jovens porque era confusa, vivia num mundo de paradoxos em que nós, jovens, também vivemos. Ler Clarice parece um remédio para tanto desconforto".
Autora do perfil "Clarice Lispector" (Publifolha), Yudith Rosenbaum acredita que a obra de Clarice seja uma literatura de iniciação de adolescentes, mais "abertos" ao que a escritora chamava de "experiência de contato" de seus textos.
Rosenbaum, no entanto, não concorda que a fotobiografia estimule a idolatria ou celebre o lado "pop" da autora. Para ela, "o livro mostra faces novas da escritora e renova o quadro de imagens já estabelecido sobre ela. Tudo se mostra mais contextualizado e inter-relacionado, criando condições para uma apreciação menos idealizada e mais fundamentada sobre a trama vida/obra de Clarice".
Amor antigo
Há quem discorde. O poeta Ferreira Gullar, colunista da Folha, diz que foi "vítima" da beleza de Clarice na sua juventude. Gullar tem até hoje uma foto da musa, recortada de uma revista, sobre uma estante. Ele conta que, quando a conheceu, em 1954, na casa da escultora Zélia Salgado, ficou impressionado com a beleza exótica da mulher de "traços asiáticos, pomos saltados e olhos oblíquos".
"Não por acaso se faz um álbum assim com Clarice. É justamente porque ela é uma mulher bonita e misteriosa. Clarice tem algo raro, a beleza estranha, diferente da brasileira, que se junta ao talento, também fora do comum, um talento estranho, indagador de coisas que não têm respostas. Vai ser assim pro resto da vida".

Data: 19/04/2008
Por: Eduardo Simões
Fonte: Folha de S. Paulo
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Visões de Clarice Lispector

Volumosa fotobiografia refaz a trajetória da escritora e lança olhares sobre sua personalidade

A menina Clarice Lispector (1920-1977) aparece sozinha, sentada em um sofá. Mira seu observador e instaura uma enigmática atmosfera que a acompanhará por toda a vida e fará de sua escrita um dos mais instigantes capítulos da literatura brasileira. Agora, a autora ganha novo olhar sobre sua sua vida e obra, não a partir de textos, mas de imagens, no livro Clarice fotobiografia, organizado por Nádia Battella Gotlib, professora da Universidade de São Paulo e uma das maiores especialistas na obra da autora.
São mais de 800 imagens, entre fotografias, trechos manuscritos de obras, documentos pessoais, cartas e capas de livros, além de pinturas e desenhos. Mais que registro documental, o que o livro traz é uma nova possibilidade de análise da singular personalidade de Lispector. “Em muitas fotos, é possível perceber algo que é praticamente intocável, como acontece também com sua própria literatura. Tem algo que se esvai, como em suas personagens. Quando pensamos que os capturamos, percebemos que o âmago de cada um é intocável, imposível de se dar conta ou de traduzir em palavras”, observa Nádia Gotlib, em entrevista por telefone, do Rio de Janeiro.
Se em algumas fotos, como nota Gotlib, ela parece preservar essa solidão inerente a muitas de suas personagens, em outras, porém, traduz o que não era conhecido ou não estava explícito, como a entrega nas situações de afeto ou de dor – como nas imagens de quando perdeu sua mãe, com a tia Dora, ou feliz com a amiga Mafalda Verissimo, esposa de Erico. Em ordem cronológica, as reproduções refazem a trajetória da escritora a partir dos lugares onde ela morou. “Clarice nasceu em uma viagem de exílio. Ela dizia ter sempre a sensação de não pertencer a lugar nenhum”, comenta a professora.
Viagens - Ucraniana de Tchechelnik, a autora chegou ao Brasil em março de 1922, junto com a família, que fugia da guerra civil que tomava conta do país. Aqui, moraram em Maceió, Recife e Rio de Janeiro. Casada com o diplomata Maury Gurgel Valente, entre 1943 e 1959, viveu em Belém (Pará), em Nápoles (Itália), Berna (Suíça), Troquay (Inglaterra) e Chevy Chase (EUA). Das décadas de 1960 e 1970, a fotobiografia traz uma Clarice dedicada aos filhos, à literatura e a viagens eventuais, como também à gradativa divulgação de sua obra.
Todo esse percurso foi refeito por Nádia que, para a construção da fotobiografia, visitou lugares onde a escritora viveu, perscrutando arquivos públicos e particulares. Há fotos das famílias paterna e materna, imagens que permitem reconstituir desde uma infância rústica até os elegantes cerimoniais que freqüentava como esposa de diplomata. “É um novo texto que surge sobre ela a partir dessa narrativa visual. Há gestos, olhares e espaços que permitem que o leitor, que se torna também espectador, construa sentidos”, observa Gotlib.
Além das fotos, muito dizem sobre a escritora também as pinturas de sua autoria e os retratos que fizeram dela pintores como Giorgio de Chirico, Carlos Scliar e Dimitri Ismalovitch. Completam o mosaico também detalhes de sua relação com as irmãs, Elisa e Tânia, com amigos, como Lucio Cardoso, Rubem Braga, Antonio Callado, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Raul Bopp, Ribeiro Couto, Erico Verissimo e Giuseppe Ungaretti. Também estão lá o nascimento dos filhos, a separação do marido, a volta definitiva ao Brasil, a produção jornalística e seus posicionamentos políticos.
Espólio – Para cada imagem, Nádia faz uma descrição das situações, com legendas concisas. No final do livro, informações complementares, como Comentários, além de uma cronologia detalhada com afirmações adicionais. Há também uma bibliografia de Clarice Lispector, sucinta e, ao mesmo tempo, bastante completa, buscando atender aos objetivos do livro de esclarecer novos aspectos referentes à história da sua obra literária e jornalística. “É uma produção chamada por ela mesma de ‘pulsações’, pautada pelo questionamento de valores, desconstrução de regras e certezas, movida pelo desejo dramático de narrar aquilo que constata ser inenarrável”, observa.
Para reunir todo esse material, Nádia Gotlib se dedicou a anos de pesquisa, iniciada ainda na década de 1980. A professora aguardou, inclusive, que parte do espólio da escritora fosse depositado pela família na Casa de Ruy Barbosa, no Rio de Janeiro. “Não havia catalogação das fotos. Vi uma por uma e segui atrás de pistas para identificá-las, contextualizá-las e problematizá-las”.
Da escritora com mais de 30 livros publicados – entre romances, livros infantis e conjuntos de contos, entre eles Perto do coração selvagem (1943) e Laços de família (1960), A paixão segundo G.H. (1964), A hora da estrela (1977) – e produção jornalística, muito já se pesquisou e escreveu. Exatamente por esse motivo vale o olhar agora para a fotobiografia de Nádia, que diz, em poucas palvras, porque Clarice é escritora tão especial. “A recepção de sua obra depende muito de quem a lê e em que fase da vida faz isso. O que surge pode ser totalmente diferente a cada vez que a relemos”, pontua.

Ficha
Livro: Clarice fotobiografia
Autor: Nádia Battella Gotlib
Editora: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Edusp
Preço: R$90 (656 páginas)
Por: Margareth Xavier
Fonte: Folha da Bahia
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Peça inspirada em Clarice Lispector será apresentada às 16h

Inspirada na obra de Clarice Lispector, a peça “No gosto doce e amargo das coisas de que somos feitos”, do diretor Nill Amaral, vai ser apresentada hoje (3) no 5° Festival América do Sul (FAS), às 16h, no Instituto Luis de Albuquerque (ILA).
O espetáculo “No gosto doce e amargo das coisas de que somos feitos” é o resultado de uma pesquisa e mergulho na obra da escritora Clarice Lispector. Numa experiência teatral, este trabalho transpõe o texto literário para a linguagem dramática do teatro.
Na peça, quatro personagens, três mulheres e um homem, mostram mulheres com personalidades diferentes em diversas situações. Todas trazem traços da autora Clarice Lispector e cada uma mostra uma face da escritora. O encontro com o outro, representado pelo homem, faz o contraponto da feminilidade no texto de Clarice. Formam o elenco Aline Duenha, Luciana Kreutzer, Ligia Prieto e Bruno Moser. A dramaturgia é de Claudia Pucci e a iluminação é de Mauro Alves Guimarães.
O texto foi baseado em três obras da escritora: A paixão segundo GH, Água viva e Um aprendizado ou o Livro dos prazeres.
FAS
O 5º Festival América do Sul (FAS) acontece até 4 de maio, em Corumbá. Busca produzir ações concretas para a aceleração da integração das nações sul-americanas promovendo um grande encontro que revela a diversidade cultural no continente, além de discutir temas relativos ao meio ambiente, à cultura, ao turismo e ao desenvolvimento sustentável.

Data: 03/05/2008
Por: Fernanda Bernardes, informações Noticias Ms