O Lustre (trecho)

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

— Eu acho que no fundo todos os homens e mulheres vivem dizen­do: não quero pensar nisso. E pensando que não pensaram, hem? que acha? — terminara rindo muito com sagacidade, apertando os olhos. Ela também ria bastante balançando a cabeça várias vezes em assentimento, engolindo o café cheia de pasmo pela sua perspicácia. E não era verdade? ninguém podia suportar muito o que sentia. E agora a Bíblia...
— Pois sim, pode-se ler, dissera friamente. Ele olhou-a e compreen­deram-se com cuidado, evitando qualquer clareza.
— Mas beba o seu café antes que esfrie! gritou ela alto com intensida­de. Ele fitou-a hesitando um momento com esperança e de repente ale­grou-se, esfregou as mãos rápido:
— É verdade, é verdade!
Na noite seguinte bateu à porta, ela atendeu, viu-o com a pequena Bíblia na mão; de raiva e pudor ela recolheu-se, o corpo rígido, o rosto indiferente. Ele não a olhava. Entrou até o meio da sala, parou indeciso; ela permanecia em pé junto da porta como esperando que ele fosse embo­ra. Fazendo um esforço sobre si mesma disse depois de alguns instantes:
— Quer o café antes ou depois? Ele respondeu apressado:
— A senhora é quem manda...
Ela fez café, tomaram falando de algumas coisas sem importância entre longos momentos de silêncio cheio de suspeita e prudência. Afinal terminaram, ele disse com simplicidade:
— Eu leio ou a senhora?
— O senhor.
— Que pedaço?
— Qualquer serve.
— Não tem preferência?
— Eu conheço pouco.
— Está bem.

O Lustre (trecho)

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Esses eram momentos em que ela sofria mas amava seu sofrimento. Atravessava o dia, a necessidade de cumprir os pequenos deveres, a arrumação dos quartos, a espera, a realidade e as ruas — entre séria e ansiosa, perscrutando-se e ao espaço como se já estivesse misteriosamente ligada a Vicente através da distância. Porque mal acordada sabia que hoje era dia de vê-lo. Talvez não fosse tão subitamente — ela se proporcionava a pequena surpresa para dar-se felicidade mesmo à custa de conservar fechada a consciência e lá encerrada a obscura e estimulante mentira. As primeiras horas queimavam-se difíceis e lentas mas perto das dez da manhã limpa o tempo se precipitava alegre e fugitivo, claro com o dia e num sorriso ela se assistia movendo-se dagora em diante fácil e mansa. Quase não almoçava, era difícil cozinhar só para si e mesmo hoje ela jantaria bem com Vicente — comia uma fruta para contentar a mãe distante. E assim preparava-se para viver-diariamente, disposta a transformar-se no que não era para ficar bem com coisas ao redor. Se Vicente amanhecera informe e áspero ela se conservaria em espera, as mãos delicadas, não se manifestando em nenhum sentido para que ele pudesse mudar sozinho, livre de sua existência. Se ele se mantinha calado e nervoso ela buscava ser larga e apesar de não consegui-lo inteiramente — nem seus olhos um pouco absortos nem seu corpo de gestos pequenos ajudavam essa atitude — Vicente notava seu esforço em apaziguá-lo; e isso tantas vezes bastara para ele sorrir e melhorar com benevolência.

O Lustre (trecho)

terça-feira, janeiro 27, 2009

A represa gemia sem interrupção, vibrava no ar e trepidava dentro do seu corpo, deixando-a de algum modo trêmula e quente. Sentou-se sobre uma das pedras ainda sensível de sol. Por um instante, num leve turbilhão silencioso, toda a sua vida ela a passara sentando-se sobre pe­dras; outra realidade é que ela atravessara toda a sua vida olhando antes de dormir o escuro e remexendo-se à procura de um conforto enquanto alguma coisa fina e acordada espreitava: amanhã. Sim, quantas coisas ela via — suspirou devagar olhando em torno com tristeza. Pensara achar na cidade outras espécies... Continuava no entanto a sentar-se sobre pedras, a notar um olhar numa pessoa, a encontrar um cego, a só ouvir certas palavras... via o que enxergara pela primeira vez e que parecia ter completado a capacidade de seus olhos. Um longo bem-estar vazio tomou-a, ela cruzou os dedos com delicadeza e afetação, pôs-se a olhar. Mas o céu esvoaçava tão esgarçado, roçagante, tão sem superfície... O que sentia era sem profundidade... mas o que sentia... sobretudo des­maiando sem forças... sim, desfalecendo no céu... como ela... Círculos rápidos e grossos alargavam-se de seu coração — o som de um sino não ouvido mas pesadamente sentido no corpo em ondas — os círculos bran­cos embargavam-lhe a garganta numa grande e dura bolha de ar — não havia um sorriso sequer, seu coração murchava, murchava, afastava-se pela distância hesitando intangível, já perdido num corpo vazio e limpo cujos contornos se alargavam, afastavam-se, afastavam-se e só existia o ar, assim só existia o ar, o ar sem saber que existia e em silêncio, em silêncio alto como o ar. Quando abriu os olhos as coisas emergiam lentas de águas escuras e rebrilhavam umidamente sonoras à tona de sua cons­ciência ainda vacilante do desmaio. A água da represa rumorejava bem no seu interior, tão distante que já ultrapassara seu corpo infinitamente para trás. A sagacidade do ar frio acordava a carne do rosto picando-a de frescura. Meu Deus, como sou alegre, pensou num fraco e luminoso impulso. Despertando tão moça do desmaio, sorria esgotada, sentia-se como pequena demais para ficar sem pensamentos protetores nem expe­riência no topo de um morro ouvindo o outro morro como outro mundo viver minuciosamente em domingo. Sentia em silêncio que depois de um desmaio estava no maior da vida porque não havia amor nem esperança que ultrapassasse aquela séria sensação de vôo nascente. Mas por que esse instante não a apaziguava com a satisfação do fim atingido... por quê? prolongava-a para o alto, esticava-a quase desesperada com a tensão de um arco pleno de seu próprio movimento... como se vivendo tão no cimo ela sentisse mais do que a potência do seu corpo grande e obscuro e se aniquilasse na própria percepção. Seu coração ainda batia com cansa­ço e ela pensava: desmaiei, foi isso, desmaiei... Olhava a luz acesa e ver­melha vacilando na mataria em penumbra. O que significa sua luz? insis­tiam seus olhos abrindo clareiras na confusão doce de seu cansaço. Ela não poderia compreender, poderia concordar, só isso, e apenas, com a cabeça, assentindo assustada. Concordava com a tarde, concordava com aquela frágil força que a sustentava de encontro ao ar, concordava com o seu medo alegre — o medo de enfrentar o jantar de quase estranhos, o amor de Vicente, suas próprias sensações diariamente falsas? aquele erro atento — concordava com o morro vivo dizendo alto, alto dentro de si: ah sim, sim! ardentemente una e quieta. Não porém no plano da realidade inegável, só numa certa verdade onde podia dizer tudo sem jamais errar, lá onde não havia erro sequer e onde tudo vivia inefavelmen­te por força da mesma permissão, lá onde ela mesma vivia esplendorosa-mente apagada, vaga e coisa, puramente coisa como o piscar úmido de uma cadela deitada contra o ar e arfando, concordando profundamente sem saber como uma cadela. Sentiu-se quase perto de um novo desmaio, junto de desejo de ceder — e mesmo no presente seco ela pertencia ao anterior de sua vida que se perdia numa distância calma.
Depois do desmaio tudo era como fácil. Equilibrou-se. Há anos não desmaiava. A noite agora quase caía e abaixando as pálpebras ela podia sentir os raios amortecidos de luz como música translúcida sombria resva­lando da montanha em macia torrente largada à força do próprio destino. Apertava com uma das mãos o áspero cabo do guarda-chuva. Seria im­possível chover agora, sentia olhando distraída o céu frio de espelho. Pare­cia-lhe confusamente que também lhe seria impossível libertar-se de seu modo e seguir por outro caminho — sorria ela um pouco séria e flutuava numa sensação assustada mas de si mesma tranqüila — tão potentes e aprisionadas ela e a natureza pareciam se achar dentro do tênue equilíbrio de suas vidas. Mas havia uma liberdade — como um desejo, como um desejo — acima da possibilidade de escolher, nela e na natureza, e daí vinha a serenidade esquisita e cansada da quase noite sem chuva nas montanhas, a vaguidão mais uma vez renovada dentro de seu corpo.

O Lustre (trecho)

terça-feira, janeiro 27, 2009

Parecia-lhe ter mergulhado na vileza com a Sociedade das Sombras.
Olhava-se ao espelho, o rosto branco e delicado perdido em penum­bra, os olhos abertos, os lábios sem expressão. Ela se agradava, gostava daquele seu jeito, fino, tão sinuoso, dos cabelos sombreados, de seus om­bros pequenos e magrinhos. Como sou linda, disse. Quem me compra? quem me compra? — fazia um ligeiro muxoxo ao espelho — quem me compra: ágil, engraçada, tão engraçada como se fosse loura mas não sou loura: tenho lindos, frios, extraordinários cabelos castanhos. Mas eu quero que me comprem tanto que... que... que me mato! exclamou e espiando seu rosto espantado com a frase, orgulhosa de seu próprio ardor, riu uma gargalhada falsa, baixa e brilhante. Sim, sim, precisava de uma vida secre­ta para poder existir. De um instante para outro estava de novo séria, cansada — seu coração pulsava na sombra, lento e vermelho. Um novo elemento até agora estranho penetrara em seu corpo desde que existia a Sociedade das Sombras. Agora ela sabia que era boa mas que sua bon­dade não impedia sua maldade. Esta sensação era quase velha, fora des­coberta há dias. E um novo desejo tocava-lhe o coração: o de livrar-se ainda mais. Sair dos limites de sua vida — era uma frase sem palavras que rodava em seu corpo como uma força apenas. Sair dos limites de minha vida, não sabia ela que dizia olhando-se ao espelho do quarto de hóspedes. Eu poderia matá-los a todos, pensava com um sorriso e uma nova liberdade, fitando infantilmente sua imagem. Esperava um instante atenta. Mas não: nada se criara nela mesma com a sensação provocada, nem a alegria nem o pavor. E donde lhe nascera a idéia? — desde a manhã passada no porão as perguntas surgiam fáceis; e a cada momento ela progredia em que direção? ia adiante aprendendo coisas das quais em toda a sua vida não sentira sequer o começo. Donde nascera a idéia? de seu corpo; e se seu corpo era o seu destino... Ou ela aspirava os pensa­mentos do ar e devolvia-os como próprios, obrigando-se a segui-los?... Lá estava ela no espelho! gritou-se bruta e feliz. Mas o que podia e o que não podia? Não, não queria aguardar uma condição para matar, se havia de matar desejava-o livremente sem ocasião... isso seria sair dos limites de sua vida, não sabia ela que pensava. Numa súbita exaustão onde havia certa volúpia e bem-estar, deitou-se no leito dos hóspedes. E como uma porta que se fecha depressa sem estrépito, rapidamente ador­meceu. E rapidamente sonhou. Sonhou que sua força dizia alto e para o longe do mundo: quero sair dos limites de minha vida, sem palavras, só a força escura dirigindo-se. Um impulso cruel e vivo empurrava-a para a frente e ela desejaria morrer para sempre se morrer lhe desse um só instante de prazer, tal a gravidade a que chegara o seu corpo. Ela entrega­ria o próprio coração para ser mordido, ela queria sair dos limites de sua própria vida como suprema crueldade. Então caminhou para fora de casa e andou buscando, buscando com tudo de mais feroz que possuía; procu­rava uma inspiração, as narinas sensíveis como as de um animal fino e assustado, mas tudo ao seu redor era doçura e a doçura ela já conhecia, e já agora doçura era a ausência de medo e de perigo. Ela faria alguma coisa tão fora de seus limites que jamais a compreenderia — mas não tinha forças, ah não podia sair do que podia. Era preciso fechar um instan­te os olhos e rezar para si mesma brutalmente com desprezo até que um suspiro profundo, despindo-se da última dor, enfim esquecendo, caminhasse para o sacrifício do destino. Porque se eu sou livre, se com um gesto posso renovar tudo — caminhava ela no campo sob um céu esbranquiçado — então nada me impede de realizar esse gesto; essa era a sensa­ção turva e inquieta. Enquanto andava via um cão e num esforço arque-jante como o de sair de águas fechadas, como sair do que podia, resolvia matá-lo enquanto andava. Ele movia a cauda indefeso — pensou em matá-lo e a idéia era fria mas ela teve medo de estar enganando a si própria dizendo-se que a idéia era fria para fugir-lhe. Então guiou o cão com acenos até a ponte sobre o rio e com o pé empurrou-o seguramente até a morte nas águas, ouviu-o ganindo, viu-o debatendo-se, arrastado pela correnteza e viu-o morrer — nada restava, nem um chapéu. Seguiu serenamente. Serenamente continuava a buscar. Viu um homem, um ho­mem, um homem. Suas largas calças colavam-se ao vento, as pernas, as pernas magras. Era mulato o homem, o homem.

O Lustre (trecho)

terça-feira, janeiro 27, 2009

Ela estacara. Um grande silêncio seguira-se. Olhara-o e descobrira na sua trêmula vitória a mesma perturbação. Ele lhe trouxera timidamente um grito. Fitaram-se um instante e tudo era indeciso, frágil, tão novo e nascente. E tudo era tão perigoso e revolvido que ambos desviaram quase bruscamente os olhos. Mas havia alguma coisa encantada entre eles nesse momento. Embora ela jamais se ocupasse verdadeiramente de Deus e raramente rezasse. Diante da idéia dele permanecia surpreendentemente calma e inocente, sem um pensamento sequer. Daniel afastava-se. Naque­le tempo ele começara a pensar e a dizer coisas difíceis com gosto e amor. Ela ouvia inquieta. Ele passeava de ida e de volta pelos corredores penumbrosos do casarão com os braços cruzados, abstraído. Virgínia perscruta­va-lhe inutilmente o rosto de boca cerrada, os olhos escuros indecisos, aquela quase feiúra que se agravava com a idade, o sofrimento e o orgu­lho.

Uma Revolta

domingo, janeiro 25, 2009

Quando o amor é grande demais torna-se inútil: já não é mais aplicável, e nem a pessoa amada tem a capacidade de receber tanto. Fico perplexa como uma criança ao notar que mesmo no amor tem-se que ter bom senso e senso de medida. Ah, a vida dos sentimentos é extremamente burguesa.

Sobre a Escrita...

domingo, janeiro 25, 2009

Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio.
Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma idéia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.
Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos. Sempre achei que o traço de um escultor é identificável por um extrema simplicidade de linhas. Todas as palavras que digo - é por esconderem outras palavras.
Qual é mesmo a palavra secreta? Não sei é porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não pode e não deve ser pronunciada. Parece-me que todo o resto não é proibido. Mas acontece que eu quero é exatamente me unir a essa palavra proibida. Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma fruta proibida. As palavras é que me impedem de dizer a verdade.
Simplesmente não há palavras.
O que não sei dizer é mais importante do que o que eu digo. Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal, e mineral e vegetal também. Sim, mas é a sorte às vezes.
Sempre quis atingir através da palavra alguma coisa que fosse ao mesmo tempo sem moeda e que fosse e transmitisse tranqüilidade ou simplesmente a verdade mais profunda existente no ser humano e nas coisas. Cada vez mais eu escrevo com menos palavras. Meu livro melhor acontecerá quando eu de todo não escrever. Eu tenho uma falta de assunto essencial. Todo homem tem sina obscura de pensamento que pode ser o de um crepúsculo e pode ser uma aurora.
Simplesmente as palavras do homem.