Resultado – Seu link no blog

sábado, janeiro 15, 2011

Caros Clariceanos,

O Blog agradece a todos pelo envio dos links. Todos eles foram visitados e revisitados.

Resultado final:


http://nas-entrelinhaas.blogspot.com [visite]
http://aartedaliteratura.blogspot.com [visite]
http://www.obatomdeclarice.blogspot.com [visite]
http://atorremagica.blogspot.com [visite]

Blog Clarice Lispector.

Por Enquanto (A Via Crucis do Corpo)

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Como ele não tinha nada o que fazer, foi fazer pipi. E depois ficou a zero mesmo. Viver tem dessas coisas: de vez em quando se fica a zero. E tudo isso é por enquanto. Enquanto se vive.
Hoje me telefonou uma moça chorando, dizendo que seu pai morrera. E assim: sem mais nem menos.
Um dos meus filhos está fora do Brasil, o outro veio almoçar comigo. A carne estava tão dura que mal se podia mastigar. Mas bebemos um vinho rosé gelado. E conversamos. Eu tinha pedido para ele não sucumbir à imposição do comércio que explora o dia das mães. Ele fez o que pedi: não me deu nada. Ou melhor me deu tudo: a sua presença.
Trabalhei o dia inteiro, são dez para as seis. O telefone não toca. Estou sozinha.
Sozinha no mundo e no espaço. E quando telefono, o telefone chama e ninguém atende. Ou dizem: está dormindo. A questão é saber agüentar. Pois a coisa é assim mesmo. Às vezes não se tem nada a fazer e então se faz pipi.
Mas se Deus nos fez assim, que assim sejamos. De mãos abanando. Sem assunto. Sexta-feira de noite fui a uma festa, eu nem sabia que era o aniversário do meu amigo, sua mulher não me dissera.
Tinha muita gente. Notei que muitas pessoas se sentiam pouco à vontade.
Que faço? telefono a mim mesma? Vai dar um triste sinal de ocupado, eu sei, uma vez já liguei distraída para o meu próprio número. Como acordo quem está dormindo? como chamo quem eu quero chamar? o que fazer? Nada: porque é domingo e até Deus descansou. Mas eu trabalhei sozinha o dia inteiro.
Mas agora quem estava dormindo já acordou e vem me ver às oito horas. São seis e cinco.
Estamos no chamado "veranico de maio": grande calor. Meus dedos doem de tanto eu bater à máquina. Com a ponta dos dedos não se brinca. É pela ponta dos dedos que se recebem os fluidos.
Eu devia ter me oferecido para ir ao enterro do pai da moça? A morte seria hoje demais para mim. Já sei o que vou fazer: vou comer. Depois eu volto. Fui à cozinha, a cozinheira por acaso não está de folga e vai esquentar comida para mim. Minha cozinheira é enorme de gorda: pesa noventa quilos. Noventa quilos de insegurança, noventa quilos de medo. Tenho vontade de beijar seu rosto preto e liso mas ela não entenderia. Voltei à máquina enquanto ela esquentava a comida. Descobri que estou morrendo de fome. Mal posso esperar que ela me chame.
Ah, já sei o que vou fazer: vou mudar de roupa. Depois eu como, e depois volto à máquina. Até já.
Já comi. Estava ótimo. Tomei um pouco de rosé. Agora vou tomar um café. E refrigerar a sala: no Brasil ar refrigerado não é um luxo, é uma necessidade. Sobretudo para pessoa que, como eu, sofre demais com o calor. São seis e meia. Liguei meu rádio de pilha. Para a Ministério de Educação. Mas que música triste! não é preciso ser triste para ser bem-educado. Vou convidar Chico Buarque, Tom Jobim e Caetano Veloso e que cada um traga a sua viola. Quero alegria, a melancolia me mata aos poucos.
Quando a gente começa a se perguntar: para quê? então as coisas não vão bem. E eu estou me perguntando para quê. Mas bem sei que é apenas "por enquanto". São vinte para as sete. E para que é que são vinte para as sete? Nesse intervalo dei um telefonema e, para o meu gáudio, já são dez para as sete. Nunca na vida eu disse essa coisa de "para o meu gáudio". É muito esquisito. De vez em quando eu fico meio machadiana. Por falar em Machado de Assis, estou com saudade dele. Parece mentira mas não tenho nenhum livro dele em minha estante. José de Alencar, eu nem me lembro se li alguma vez.
Estou com saudade. Saudade de meus filhos, sim, carne de minha carne. Carne fraca e eu não li todos os livros. La chair est triste. Mas a gente fuma e melhora logo. São cinco para as sete. Se me descuido, morro. É muito fácil. É uma questão do relógio parar. Faltam três minutos para as sete. Ligo ou não ligo a televisão? Mas é que é tão chato ver televisão sozinha. Mas finalmente resolvi e vou ligar a televisão. A gente morre às vezes.

Obras disponíveis no blog

domingo, janeiro 09, 2011

.
Clique nos títulos para ler trechos:

  • Minhas Queridas (2007)

  • Como Nasceram as Estrelas (Infantil 1987)

  • A Descoberta do Mundo (Crônicas 1984)

  • A Bela e a Fera (Contos 1979)

  • Quase de Verdade (Infantil 1978)

  • Um Sopro de Vida (Romance 1978)

  • Para Não Esquecer (Crônicas 1978)

  • A Hora da Estrela (Romance 1977)

  • A Vida Íntima de Laura (Infantil 1974)

  • A Via Crucis do Corpo (Contos 1974)

  • Onde Estivestes de Noite (Contos 1974)

  • Água Viva (Romance 1973)

  • Felicidade Clandestina (Contos 1971)

  • Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres (Romance 1969)

  • A Mulher que Matou os Peixes (Infantil 1968)

  • O Mistério do Coelho Pensante (Infantil 1967)

  • A Paixão Segundo G.H. (Romance 1964)

  • A Legião Estrangeira (Contos 1964)

  • A Maçã no Escuro (Romance 1961)

  • Laços de Família (Contos 1960)

  • A Cidade Sitiada (Romance 1949)

  • O Lustre (Romance 1946)

  • Perto do Coração Selvagem (Romance 1943)


  • .

    Seu link no Blog Clarice Lispector

    quinta-feira, janeiro 06, 2011

    Na barra lateral do Blog Clarice Lispector há um espaço, denominado “visite”, destinado a divulgar blogs e que é preenchida por dez links.
    Envie o link de seu espaço como comentário nessa postagem para que concorra a uma das quatro vagas disponíveis.

    Critério de escolha:
    - Relação do conteúdo do seu blog com o do Blog Clarice Lispector.

    Resultado:
    - Dia 15 de janeiro de 2011.

    Boa sorte!

    Participe do Concurso Cultural “Clarice Lispector: de escrita e vida”.

    .

    Ele me Bebeu (A Via Crucis do Corpo)

    domingo, janeiro 02, 2011

    É. Aconteceu mesmo.
    Serjoca era maquilador de mulheres. Mas não queria nada com mulheres.
    Queria homens.
    E maquilava Aurélia Nascimento. Aurélia era bonita e, maquilada, ficava deslumbrante. Era loura, usava peruca e cílios postiços. Ficaram amigos. Saíam juntos, essa coisa de ir jantar em boates.
    Todas as vezes que Aurélia queria ficar linda ligava para Serjoca. Serjoca também era bonito. Era magro e alto.
    E assim corriam as coisas. Um telefonema e marcavam encontro. Ela se vestia bem, era caprichada. Usava lentes de contato. E seios postiços. Mas os seus mesmos eram lindos, pontudos. Só usava os postiços porque tinha pouco busto. Sua boca era um botão de vermelha rosa. E os dentes grandes, brancos. Um dia, às seis horas da tarde, na hora do pior trânsito, Aurélia e Serjoca estavam em pé junto do Copacabana Palace e esperavam inutilmente um táxi. Serjoca, de cansaço, encostara-se numa árvore. Aurélia impaciente. Sugeriu que dessem ao porteiro dez cruzeiros para que ele lhes arranjasse uma condução. Serjoca negou: era
    duro para soltar dinheiro.
    Eram quase sete horas. Escurecia. O que fazer?
    Perto deles estava Affonso Carvalho. Industrial de metalurgia. Esperava o seu Mercedes com chofer. Fazia calor, o carro era refrigerado, tinha telefone e geladeira. Affonso fizera quarenta anos no dia anterior. Viu a impaciência de Aurélia que batia com os pés na calçada. Interessante essa mulher, pensou Affonso. E quer carro. Dirigiu-se a ela:
    — A senhorita está achando dificuldade de condução?
    — Estou aqui desde as seis horas e nada de um táxi passar e nos pegar! Já não agüento mais.
    — Meu chofer vem daqui a pouco, disse Affonso. Posso levá-los a alguma parte?
    — Eu lhe agradeceria muito, inclusive porque estou com dor no pé. Mas não disse que tinha calos. Escondeu o defeito. Estava maquiladíssima e olhou com desejo o homem. Serjoca muito calado. Afinal veio o chofer, desceu, abriu a porta do carro. Entraram os três. Ela na frente, ao lado do chofer, os dois atrás. Tirou discretamente o sapato e suspirou de alívio.
    — Para onde vocês querem ir?
    — Não temos propriamente destino, disse Aurélia cada vez mais acesa pela cara máscula de Affonso.
    Ele disse:
    — E se fôssemos ao Number One tomar um drinque?
    — Eu adoraria, disse Aurélia. Você não gostaria, Serjoca?
    — É claro, preciso de uma bebida forte.
    Então foram para a boate, a essa hora quase vazia. E conversaram. Affonso falou de metalurgia. Os outros dois não entendiam nada. Mas fingiam entender. Era tedioso.
    Mas Affonso estava entusiasmado e, embaixo da mesa, encostou o pé no pé de Aurélia. Justo o pé que tinha calo. Ela correspondeu, excitada. Aí Affonso disse:
    — E se fôssemos jantar na minha casa? Tenho hoje escargots e frango com
    trufas. Que tal?
    — Estou esfaimada.
    E Serjoca mudo. Estava também aceso por Affonso.
    O apartamento era atapetado de branco e lá havia escultura de Bruno Giorgi. Sentaram-se, tomaram outro drinque e foram para a sala de jantar. Mesa de jacarandá. Garçom servindo à esquerda. Serjoca não sabia comer escargots e atrapalhou-se todo com os talheres especiais. Não gostou. Mas Aurélia gostou muito, se bem que tivesse medo de ter hálito de alho. Mas beberam champanha francesa durante o jantar todo.
    Ninguém quis sobremesa, queriam apenas café.
    E foram para a sala. Aí Serjoca se animou. E começou a falar que não acabava mais. Lançava olhos lânguidos para o industrial. Este ficou espantado com a eloqüência do rapaz bonito. No dia seguinte telefonaria para Aurélia para lhe dizer: o Serjoca é um amor de pessoa.
    E marcaram novo encontro. Desta vez num restaurante, o Albamar. Comeram ostras para começar. De novo Serjoca teve dificuldade de comer as ostras. Sou um errado, pensou.
    Mas antes de se encontrarem, Aurélia telefonou para Serjoca: precisava de maquilagem urgente. Ele foi à sua casa.
    Então, enquanto era maquilada, pensou: Serjoca está me tirando o rosto.
    A impressão era a de que ele apagava os seus traços: vazia, uma cara só de
    carne. Carne morena.
    Sentiu mal-estar. Pediu licença e foi ao banheiro para se olhar ao espelho. Era
    isso mesmo que ela imaginara: Serjoca tinha anulado o seu rosto. Mesmo os ossos —
    e tinha uma ossatura espetacular — mesmo os ossos tinham desaparecido. Ele está me
    bebendo, pensou, ele vai me destruir. E é por causa do Affonso.
    Voltou sem graça. No restaurante quase não falou. Affonso falava mais com Serjoca, mal olhava para Aurélia: estava interessado no rapaz.
    Enfim, enfim acabou o almoço.
    Serjoca marcou encontro com Affonso para de noite. Aurélia disse que não podia ir, estava cansada. Era mentira: não ia porque não tinha cara para mostrar.
    Chegou em casa, tomou um longo banho de imersão com espuma, ficou pensando: daqui a pouco ele me tira o corpo também. O que fazer para recuperar o que fora seu? A sua individualidade?
    Saiu da banheira pensativa. Enxugou-se com uma toalha enorme, vermelha.
    Sempre pensativa. Pesou-se na balança: estava com bom peso. Daí a pouco ele me tira também o peso, pensou.
    Foi ao espelho. Olhou-se profundamente. Mas ela não era mais nada.
    — Então — então de súbito deu uma bruta bofetada no lado esquerdo do rosto.
    Para se acordar. Ficou parada olhando-se. E, como se não bastasse, deu mais duas bofetadas na cara. Para encontrar-se.
    E realmente aconteceu.
    No espelho viu enfim um rosto humano, triste, delicado. Ela era Aurélia Nascimento. Acabara de nascer. Nas-ci-men-to.