Resultado - Concurso Cultural Clarice Lispector: de escrita e vida

sábado, janeiro 29, 2011

Vencedores:

1° lugar - Título: "A Descoberta de uma alma".
Autora: Bruna Mendes Roza Rodrigues.

2° lugar - Título: "Clarice em minha vida".
Autora: Nara França.

3° lugar - Título: "Clarice Lispector: a diva na vida de uma medíocre mortal".
Autora: Lindiane Cardoso.

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Resultado – Seu link no blog

sábado, janeiro 15, 2011

Caros Clariceanos,

O Blog agradece a todos pelo envio dos links. Todos eles foram visitados e revisitados.

Resultado final:


http://nas-entrelinhaas.blogspot.com [visite]
http://aartedaliteratura.blogspot.com [visite]
http://www.obatomdeclarice.blogspot.com [visite]
http://atorremagica.blogspot.com [visite]

Blog Clarice Lispector.

Por Enquanto (A Via Crucis do Corpo)

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Como ele não tinha nada o que fazer, foi fazer pipi. E depois ficou a zero mesmo. Viver tem dessas coisas: de vez em quando se fica a zero. E tudo isso é por enquanto. Enquanto se vive.
Hoje me telefonou uma moça chorando, dizendo que seu pai morrera. E assim: sem mais nem menos.
Um dos meus filhos está fora do Brasil, o outro veio almoçar comigo. A carne estava tão dura que mal se podia mastigar. Mas bebemos um vinho rosé gelado. E conversamos. Eu tinha pedido para ele não sucumbir à imposição do comércio que explora o dia das mães. Ele fez o que pedi: não me deu nada. Ou melhor me deu tudo: a sua presença.
Trabalhei o dia inteiro, são dez para as seis. O telefone não toca. Estou sozinha.
Sozinha no mundo e no espaço. E quando telefono, o telefone chama e ninguém atende. Ou dizem: está dormindo. A questão é saber agüentar. Pois a coisa é assim mesmo. Às vezes não se tem nada a fazer e então se faz pipi.
Mas se Deus nos fez assim, que assim sejamos. De mãos abanando. Sem assunto. Sexta-feira de noite fui a uma festa, eu nem sabia que era o aniversário do meu amigo, sua mulher não me dissera.
Tinha muita gente. Notei que muitas pessoas se sentiam pouco à vontade.
Que faço? telefono a mim mesma? Vai dar um triste sinal de ocupado, eu sei, uma vez já liguei distraída para o meu próprio número. Como acordo quem está dormindo? como chamo quem eu quero chamar? o que fazer? Nada: porque é domingo e até Deus descansou. Mas eu trabalhei sozinha o dia inteiro.
Mas agora quem estava dormindo já acordou e vem me ver às oito horas. São seis e cinco.
Estamos no chamado "veranico de maio": grande calor. Meus dedos doem de tanto eu bater à máquina. Com a ponta dos dedos não se brinca. É pela ponta dos dedos que se recebem os fluidos.
Eu devia ter me oferecido para ir ao enterro do pai da moça? A morte seria hoje demais para mim. Já sei o que vou fazer: vou comer. Depois eu volto. Fui à cozinha, a cozinheira por acaso não está de folga e vai esquentar comida para mim. Minha cozinheira é enorme de gorda: pesa noventa quilos. Noventa quilos de insegurança, noventa quilos de medo. Tenho vontade de beijar seu rosto preto e liso mas ela não entenderia. Voltei à máquina enquanto ela esquentava a comida. Descobri que estou morrendo de fome. Mal posso esperar que ela me chame.
Ah, já sei o que vou fazer: vou mudar de roupa. Depois eu como, e depois volto à máquina. Até já.
Já comi. Estava ótimo. Tomei um pouco de rosé. Agora vou tomar um café. E refrigerar a sala: no Brasil ar refrigerado não é um luxo, é uma necessidade. Sobretudo para pessoa que, como eu, sofre demais com o calor. São seis e meia. Liguei meu rádio de pilha. Para a Ministério de Educação. Mas que música triste! não é preciso ser triste para ser bem-educado. Vou convidar Chico Buarque, Tom Jobim e Caetano Veloso e que cada um traga a sua viola. Quero alegria, a melancolia me mata aos poucos.
Quando a gente começa a se perguntar: para quê? então as coisas não vão bem. E eu estou me perguntando para quê. Mas bem sei que é apenas "por enquanto". São vinte para as sete. E para que é que são vinte para as sete? Nesse intervalo dei um telefonema e, para o meu gáudio, já são dez para as sete. Nunca na vida eu disse essa coisa de "para o meu gáudio". É muito esquisito. De vez em quando eu fico meio machadiana. Por falar em Machado de Assis, estou com saudade dele. Parece mentira mas não tenho nenhum livro dele em minha estante. José de Alencar, eu nem me lembro se li alguma vez.
Estou com saudade. Saudade de meus filhos, sim, carne de minha carne. Carne fraca e eu não li todos os livros. La chair est triste. Mas a gente fuma e melhora logo. São cinco para as sete. Se me descuido, morro. É muito fácil. É uma questão do relógio parar. Faltam três minutos para as sete. Ligo ou não ligo a televisão? Mas é que é tão chato ver televisão sozinha. Mas finalmente resolvi e vou ligar a televisão. A gente morre às vezes.

Obras disponíveis no blog

domingo, janeiro 09, 2011

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Clique nos títulos para ler trechos:

  • Minhas Queridas (2007)

  • Como Nasceram as Estrelas (Infantil 1987)

  • A Descoberta do Mundo (Crônicas 1984)

  • A Bela e a Fera (Contos 1979)

  • Quase de Verdade (Infantil 1978)

  • Um Sopro de Vida (Romance 1978)

  • Para Não Esquecer (Crônicas 1978)

  • A Hora da Estrela (Romance 1977)

  • A Vida Íntima de Laura (Infantil 1974)

  • A Via Crucis do Corpo (Contos 1974)

  • Onde Estivestes de Noite (Contos 1974)

  • Água Viva (Romance 1973)

  • Felicidade Clandestina (Contos 1971)

  • Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres (Romance 1969)

  • A Mulher que Matou os Peixes (Infantil 1968)

  • O Mistério do Coelho Pensante (Infantil 1967)

  • A Paixão Segundo G.H. (Romance 1964)

  • A Legião Estrangeira (Contos 1964)

  • A Maçã no Escuro (Romance 1961)

  • Laços de Família (Contos 1960)

  • A Cidade Sitiada (Romance 1949)

  • O Lustre (Romance 1946)

  • Perto do Coração Selvagem (Romance 1943)


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    Seu link no Blog Clarice Lispector

    quinta-feira, janeiro 06, 2011

    Na barra lateral do Blog Clarice Lispector há um espaço, denominado “visite”, destinado a divulgar blogs e que é preenchida por dez links.
    Envie o link de seu espaço como comentário nessa postagem para que concorra a uma das quatro vagas disponíveis.

    Critério de escolha:
    - Relação do conteúdo do seu blog com o do Blog Clarice Lispector.

    Resultado:
    - Dia 15 de janeiro de 2011.

    Boa sorte!

    Participe do Concurso Cultural “Clarice Lispector: de escrita e vida”.

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    Ele me Bebeu (A Via Crucis do Corpo)

    domingo, janeiro 02, 2011

    É. Aconteceu mesmo.
    Serjoca era maquilador de mulheres. Mas não queria nada com mulheres.
    Queria homens.
    E maquilava Aurélia Nascimento. Aurélia era bonita e, maquilada, ficava deslumbrante. Era loura, usava peruca e cílios postiços. Ficaram amigos. Saíam juntos, essa coisa de ir jantar em boates.
    Todas as vezes que Aurélia queria ficar linda ligava para Serjoca. Serjoca também era bonito. Era magro e alto.
    E assim corriam as coisas. Um telefonema e marcavam encontro. Ela se vestia bem, era caprichada. Usava lentes de contato. E seios postiços. Mas os seus mesmos eram lindos, pontudos. Só usava os postiços porque tinha pouco busto. Sua boca era um botão de vermelha rosa. E os dentes grandes, brancos. Um dia, às seis horas da tarde, na hora do pior trânsito, Aurélia e Serjoca estavam em pé junto do Copacabana Palace e esperavam inutilmente um táxi. Serjoca, de cansaço, encostara-se numa árvore. Aurélia impaciente. Sugeriu que dessem ao porteiro dez cruzeiros para que ele lhes arranjasse uma condução. Serjoca negou: era
    duro para soltar dinheiro.
    Eram quase sete horas. Escurecia. O que fazer?
    Perto deles estava Affonso Carvalho. Industrial de metalurgia. Esperava o seu Mercedes com chofer. Fazia calor, o carro era refrigerado, tinha telefone e geladeira. Affonso fizera quarenta anos no dia anterior. Viu a impaciência de Aurélia que batia com os pés na calçada. Interessante essa mulher, pensou Affonso. E quer carro. Dirigiu-se a ela:
    — A senhorita está achando dificuldade de condução?
    — Estou aqui desde as seis horas e nada de um táxi passar e nos pegar! Já não agüento mais.
    — Meu chofer vem daqui a pouco, disse Affonso. Posso levá-los a alguma parte?
    — Eu lhe agradeceria muito, inclusive porque estou com dor no pé. Mas não disse que tinha calos. Escondeu o defeito. Estava maquiladíssima e olhou com desejo o homem. Serjoca muito calado. Afinal veio o chofer, desceu, abriu a porta do carro. Entraram os três. Ela na frente, ao lado do chofer, os dois atrás. Tirou discretamente o sapato e suspirou de alívio.
    — Para onde vocês querem ir?
    — Não temos propriamente destino, disse Aurélia cada vez mais acesa pela cara máscula de Affonso.
    Ele disse:
    — E se fôssemos ao Number One tomar um drinque?
    — Eu adoraria, disse Aurélia. Você não gostaria, Serjoca?
    — É claro, preciso de uma bebida forte.
    Então foram para a boate, a essa hora quase vazia. E conversaram. Affonso falou de metalurgia. Os outros dois não entendiam nada. Mas fingiam entender. Era tedioso.
    Mas Affonso estava entusiasmado e, embaixo da mesa, encostou o pé no pé de Aurélia. Justo o pé que tinha calo. Ela correspondeu, excitada. Aí Affonso disse:
    — E se fôssemos jantar na minha casa? Tenho hoje escargots e frango com
    trufas. Que tal?
    — Estou esfaimada.
    E Serjoca mudo. Estava também aceso por Affonso.
    O apartamento era atapetado de branco e lá havia escultura de Bruno Giorgi. Sentaram-se, tomaram outro drinque e foram para a sala de jantar. Mesa de jacarandá. Garçom servindo à esquerda. Serjoca não sabia comer escargots e atrapalhou-se todo com os talheres especiais. Não gostou. Mas Aurélia gostou muito, se bem que tivesse medo de ter hálito de alho. Mas beberam champanha francesa durante o jantar todo.
    Ninguém quis sobremesa, queriam apenas café.
    E foram para a sala. Aí Serjoca se animou. E começou a falar que não acabava mais. Lançava olhos lânguidos para o industrial. Este ficou espantado com a eloqüência do rapaz bonito. No dia seguinte telefonaria para Aurélia para lhe dizer: o Serjoca é um amor de pessoa.
    E marcaram novo encontro. Desta vez num restaurante, o Albamar. Comeram ostras para começar. De novo Serjoca teve dificuldade de comer as ostras. Sou um errado, pensou.
    Mas antes de se encontrarem, Aurélia telefonou para Serjoca: precisava de maquilagem urgente. Ele foi à sua casa.
    Então, enquanto era maquilada, pensou: Serjoca está me tirando o rosto.
    A impressão era a de que ele apagava os seus traços: vazia, uma cara só de
    carne. Carne morena.
    Sentiu mal-estar. Pediu licença e foi ao banheiro para se olhar ao espelho. Era
    isso mesmo que ela imaginara: Serjoca tinha anulado o seu rosto. Mesmo os ossos —
    e tinha uma ossatura espetacular — mesmo os ossos tinham desaparecido. Ele está me
    bebendo, pensou, ele vai me destruir. E é por causa do Affonso.
    Voltou sem graça. No restaurante quase não falou. Affonso falava mais com Serjoca, mal olhava para Aurélia: estava interessado no rapaz.
    Enfim, enfim acabou o almoço.
    Serjoca marcou encontro com Affonso para de noite. Aurélia disse que não podia ir, estava cansada. Era mentira: não ia porque não tinha cara para mostrar.
    Chegou em casa, tomou um longo banho de imersão com espuma, ficou pensando: daqui a pouco ele me tira o corpo também. O que fazer para recuperar o que fora seu? A sua individualidade?
    Saiu da banheira pensativa. Enxugou-se com uma toalha enorme, vermelha.
    Sempre pensativa. Pesou-se na balança: estava com bom peso. Daí a pouco ele me tira também o peso, pensou.
    Foi ao espelho. Olhou-se profundamente. Mas ela não era mais nada.
    — Então — então de súbito deu uma bruta bofetada no lado esquerdo do rosto.
    Para se acordar. Ficou parada olhando-se. E, como se não bastasse, deu mais duas bofetadas na cara. Para encontrar-se.
    E realmente aconteceu.
    No espelho viu enfim um rosto humano, triste, delicado. Ela era Aurélia Nascimento. Acabara de nascer. Nas-ci-men-to.

    Feliz ano novo!

    sexta-feira, dezembro 31, 2010

    Feliz ano novo Clariceanos!

    "Tente entender o que pinto e o que escrevo agora. Vou explicar: na pintura como na escritura procuro ver estritamente no momento em que vejo -e não ver através da memória de ter visto em um instante passado. O instante é este. O instante é de uma iminência que me tira o fôlego. O instante é em si mesmo iminente. Ao mesmo tempo que eu o vivo, lanço-me na sua passagem para outro instante".

    Clarice Lispector
    , Água Viva.

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    Concurso Cultural “Clarice Lispector: de escrita e vida”

    segunda-feira, dezembro 27, 2010

    O Blog Clarice Lispector está realizando uma promoção na qual o vencedor será contemplado com o livro “De Escrita e Vida – Crônicas para jovens”, organizado por Pedro Karp Vasquez. Neste livro, o editor seleciona trechos da obra de Clarice Lispector sobre o ato de escrever.
    Para concorrer ao livro “De Escrita e Vida – Crônicas para jovens”:

    O participante deverá elaborar um texto tratando da influência de Clarice Lispector em sua vida.

    1 - Considerações importantes

    * O texto não poderá ser escrito com utilização da linguagem comumente usada na internet;
    * O texto deverá conter no mínimo quinze linhas;
    * O texto deverá ser escrito em prosa;
    * A atribuição de um título ao seu texto é opcional.

    2 - Dos critérios de escolha

    * O Blog analisará se o escrito atende ao que foi pedido (um texto tratando da influência de Clarice Lispector em sua vida).

    * Clarice Lispector escrevia para se libertar, dessa forma, o concorrente é livre para transpor em palavras sua imaginação. Portanto, o Blog não levará em consideração a teoria literária. O escritor tem liberdade para se expressar, mas deve obedecer as regras da língua portuguesa.

    3 - Dos vencedores

    * O primeiro colocado no concurso será contemplado com um exemplar do livro “De Escrita e Vida – Crônicas para jovens” e terá seu texto postado no Blog Clarice Lispector;
    * O segundo e o terceiro colocados terão seus textos postados no Blog Clarice Lispector.

    4 - Da inscrição e divulgação do resultado

    * O texto deverá ser enviado para o e-mail blogclispector@gmail.com.
    * O participante receberá uma confirmação por e-mail de que o texto foi recebido e está concorrendo.
    * Envie seu texto em arquivo .doc do Microsoft Office Word;
    * Utilize a fonte Times New Roman, tamanho 12;
    * Se houver título, coloque-o centralizado e em negrito;
    * O nome do autor do texto é obrigatório e deverá vir logo abaixo do título (se houver).

    * Os textos serão aceitos até o dia 27 de janeiro de 2011.
    * Os vencedores serão comunicados via e-mail.
    * O resultado será divulgado no dia 29 de janeiro de 2011 no Blog Clarice Lispector..

    De amor e amizade

    sábado, dezembro 25, 2010

    Amor e amizade inspiraram Clarice Lispector dezenas de vezes. Prova disso são as quatro dezenas de textos selecionadas pelo editor Pedro Karp Vasquez para a coletânea De amor e amizade – crônicas para jovens, primeiro de uma coleção que reunirá crônicas, escolhidas por temas, de Clarice Lispector.
    Sem prender-se a significados prosaicos, a escritora criou durante anos histórias que remetem a amizades daquelas sem tamanho, a amores para o resto da vida, a relacionamentos baseados na superficialidade e até mesmo ao episódio daquele amor destruído por causa de um bule de bico rachado. Passadas mais de três décadas da morte de Clarice Lispector, os textos confirmam que esses sentimentos permeiam relações e gerações.
    Os textos escolhidos apresentam-se impregnados pela forma incomum com que a escritora transporta para o papel seu jeito de ver o mundo e de lidar com o amor e a amizade. Linha após linha, Clarice conduz seus leitores pela “mistura de observações das miudezas do cotidiano com vastos voos do espírito”, como define o editor no prefácio. Leitores de Clarice Lispector não tem idade, mas desta vez a seleção foi pensada para provocar uma experiência inspiradora em jovens leitores, aqueles que “estão começando a descobrir os mistérios e os prazeres do amor e da amizade”.
    Histórias fictícias intercalam-se com relatos pessoais, nos quais Clarice parece prestar uma homenagem a amigos queridos. Aparecem nesses momentos, companheiros de episódios de alguma fase da vida da autora, como é o caso do matemático Leopoldo Nachbin. Clarice e Leopoldo encontraram-se no primeiro dia de aula do Grupo Escolar João Barbalho, em Recife. Durante alguns anos, os dois foram os mais impossíveis da turma, com boas notas em todas as disciplinas, exceto em comportamento.
    Clarice escreve ainda sobre outro tipo de amor/amizade, aquele com toques genuínos de admiração, algo próximo ao sentimento que levou a leitora anônima a fazer um suéter especialmente para a escritora. A resposta, em tom de agradecimento, foi escrita com a delicadeza que Clarice costumava dedicar aos leitores – a quem chegava a responder cartas e a escrever crônicas baseadas em suas sugestões e seus questionamentos: “E eis-me dona de repente do suéter mais bonito que os homens da terra já criaram.”
    De amor e de amizade – crônicas para jovens não se restringe, porém, somente àqueles que encontram-se com Clarice pela primeira vez, mas serve também como um “sopro de renovação e reflexão para os leitores mais maduros”, aqueles que há muito já descobriram que a vida não foi feita para ser vivida automaticamente e que tanto a amizade quanto o amor devem ser experimentados até a última gota – “sem nenhum medo”, como ressalta em determinado momento a escritora.

    Mais informações: Editora Rocco.

    De Escrita e Vida

    sábado, dezembro 25, 2010

    Avessa a teorias e análises técnicas da literatura, Clarice Lispector nunca deixou de refletir sobre a escrita e o ato de escrever em seus romances, contos e crônicas. “Em Clarice vida e escrita se fundem e se confundem de tal forma que é difícil dizer onde começa uma e onde termina a outra”, afirma Pedro Vasquez, organizador da coletânea De escrita e vida – Crônicas para jovens, que chega às livrarias pelo selo Rocco Jovens Leitores.

    Segundo título da coleção que reúne crônicas de Clarice Lispector escolhidas por temas e selecionadas especialmente para os jovens que travam os primeiros contatos com a obra da autora, De escrita e vida traz as crônicas da escritora sobre o ofício de escrever. Depois de falar De amor e amizade no primeiro livro da coleção Crônicas para Jovens, os textos deste De escrita e vida revelam as alegrias, dores, angústias e, acima de tudo, a estreita ligação entre o simples ato de respirar e a necessidade de escrever da autora de A hora da estrela e A paixão segundo G. H. , entre outros clássicos da literatura brasileira
    Um dos temas centrais, portanto, da obra de Clarice e mesmo de sua existência, o ato de escrever e a escrita como forma de investigação dos mistérios da condição humana são o fio condutor que permeia as crônicas reunidas no livro, formando um revelador autorretrato da escritora, uma das mais importantes da língua portuguesa.
    Pensado especialmente para os jovens, De escrita e vida, assim como De amor e de amizade, não se restringe, porém, somente àqueles que se encontram com Clarice pela primeira vez, mas serve também como um “sopro de renovação e reflexão para os leitores mais maduros”, como sugere o organizador da coletânea na introdução do primeiro livro. Afinal, sua obra permanece vibrante a cada leitura, sendo capaz de arrebatar igualmente iniciantes e iniciados com a mesma intensidade, entrega e deslumbramento.

    Mais informações: Editora Rocco.

    Clarice respira!

    quinta-feira, dezembro 09, 2010

    Clarice respira em cada um de nós, à medida que nos faz sentir.

    Dia 09/12, 33 anos da morte de Clarice Lispector.

    Água Viva

    Fixo instantes súbitos que trazem em si a própria morte e outros nascem - fixo os instantes de metamorfose e é de terrível beleza a sua seqüência e concomitância.

    Agora está amanhecendo e a aurora é de neblina branca nas areias da praia. Tudo é meu, então. Mal toco em alimentos, não quero me despertar para além do despertar do dia. Vou crescendo
    com o dia que ao crescer me mata certa vaga esperança e me obriga a olhar cara a cara o duro sol. A ventania sopra e desarruma os meus papéis. Ouço esse vento de gritos, estertor de pássaro aberto em oblíquo vôo. E eu aqui me obrigo à severidade de uma linguagem tensa, obrigo-me à nudez de um esqueleto branco que está livre de humores. Mas o esqueleto é livre de vida e enquanto vivo me estremeço toda. Não conseguirei a nudez final. E ainda não a quero, ao que parece.
    Esta é a vida vista pela vida. Posso não ter sentido mas é a mesma falta de sentido que tem a veia que pulsa.

    Blog Clarice Lispector - Selo IV

    terça-feira, novembro 30, 2010

    O Blog Clarice Lispector disponibiliza a todos o seu IV selo*.

    O selo pode ser utilizado por todos os blogs que, de alguma forma, tratem de literatura.

    *Os selos são disponibilizados a cada 100 mil visitas recebidas.

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    O Homem que Apareceu (A Via Crucis do Corpo)

    sábado, outubro 23, 2010

    Era sábado de tarde, por volta das seis horas. Quase sete. Desci e fui comprar coca-cola e cigarros. Atravessei a rua e dirigi-me ao botequim do português Manuel.
    Enquanto eu esperava que me atendessem, um homem tocando uma pequena gaita se aproximou, olhou-me, tocou uma musiquinha e falou meu nome. Disse que me conhecera na Cultura Inglesa, onde só estudei na verdade dois ou três meses. Ele me disse:
    — Não tenha medo de mim. Respondi:
    — Não estou com medo. Qual é o seu nome?
    Ele respondeu com um sorriso triste, em inglês: o que importa um nome?
    Disse a seu Manuel:
    — Aqui só é superior a mim essa mulher porque ela escreve e eu não.
    Seu Manuel nem piscou. E o homem estava completamente bêbedo. Apanhei as minhas compras e ia embora quando ele disse:
    — Posso ter a honra de segurar a garrafa e o pacote de cigarros?
    Entreguei minhas compras para ele. Na porta do meu edifício, peguei a coca-cola e os cigarros. Ele parado diante de mim. Então, achando seu rosto muito familiar, tornei a perguntar-lhe o nome.
    — Sou Cláudio.
    — Cláudio de quê?
    — Ora essa, de que o quê? Eu me chamava Cláudio Brito…
    — Cláudio! gritei eu. Oh, meu Deus, por favor suba comigo e venha para a
    minha casa!
    — Que andar é?
    Eu disse o número do apartamento e o andar. Ele disse que ia pagar a conta no botequim e que depois subia.
    Em casa estava uma amiga. Contei-lhe o que me acontecera, disse-lhe: ele é capaz de não vir por vergonha.
    Minha amiga disse: ele não vem, bêbedo esquece número de apartamento. E, se vier, não sairá mais daqui. Me avise para eu ir para o quarto e deixar vocês dois sozinhos.
    Esperei — e nada. Estava impressionada pela derrota de Cláudio Brito.
    Desanimei e mudei de roupa.
    Então tocaram a campainha. Perguntei através da porta fechada quem era. Ele disse: Cláudio. Eu disse: você espere aí sentado no banco do vestíbulo que eu abro já.
    Troquei de roupa. Ele era um bom poeta, Cláudio. Por onde andara esse tempo todo?
    Entrou e foi logo brincando com o meu cachorro, dizendo que só os bichos o entendiam. Perguntei-lhe se queria café. Ele disse: só bebo álcool, há três dias que estou bebendo. Eu menti: disse-lhe que infelizmente não tinha nenhum álcool em casa.
    E insisti no café. Ele me olhou sério e disse:
    — Não mande em mim. Respondi:
    — Não estou mandando, estou lhe pedindo para tomar café, tenho na copa uma garrafa térmica cheia de bom café. Ele disse que gostava de café forte. Eu lhe trouxe uma xícara de chá cheia de café, com pouco açúcar.
    E ele nada de beber. E eu a insistir. Então ele bebeu o café, falando com o meu cachorro:
    — Se você quebrar esta xícara vai apanhar de mim. Veja como ele me olha, ele me entende.
    — Eu também entendo você.
    — Você? a você só importa a literatura.
    — Pois você está enganado. Filhos, famílias, amigos, vêm em primeiro lugar.
    Olhou-me desconfiado, meio de lado. E perguntou:
    — Você jura que a literatura não importa?
    — Juro, respondi com a segurança que vem de íntima veracidade. E acrescentei:
    qualquer gato, qualquer cachorro vale mais do que a literatura.
    — Então, disse muito emocionado, aperte minha mão. Eu acredito em você.
    — Você é casado?
    — Umas mil vezes, já não me lembro mais.
    — Você tem filhos?
    — Tenho um garoto de cinco anos.
    — Vou lhe dar mais café.
    Trouxe-lhe a xícara de novo quase cheia. Ele bebeu aos poucos. Disse:
    — Você é uma mulher estranha.
    — Não sou não, respondi, sou muito simples, nada sofisticada.
    Ele me contou uma história em que entrava um tal de Francisquinho, que não entendi bem quem era. Perguntei-lhe:
    — Em que é que você trabalha?
    — Não trabalho. Sou aposentado como alcoólatra e doente mental.
    — Você não tem nada de doente mental. Só que bebe mais do que devia.
    Ele me contou que tinha feito a guerra do Vietnã. E que fora durante dois anos marinheiro. Que se dava muito bem com o mar. E seus olhos se encheram de lágrimas.
    Eu disse:
    — Seja homem e chore, chore quanto quiser; tenha a grande coragem de chorar.
    Você deve ter muito motivo para chorar.
    — E eu aqui, bebendo café e chorando…
    — Não importa, chore e faça de conta que eu não existo.
    Ele chorou um pouco. Era um belo homem, com barba por fazer e abatidíssimo.
    Via-se que havia fracassado. Como todos nós. Ele me perguntou se podia ler para mim um poema. Eu disse que queria ouvir. Ele abriu uma sacola, tirou de dentro um caderno grosso, pôs-se a rir, ao abrir as folhas.
    Então leu o poema. Era simplesmente uma beleza. Misturava palavrões com as maiores delicadezas. Oh Cláudio — tinha eu vontade de gritar — nós todos somos fracassados, nós todos vamos morrer um dia! Quem? mas quem pode dizer com sinceridade que se realizou na vida? O sucesso é uma mentira.
    Eu disse:
    — É tão bonito o seu poema. Você tem outros?
    — Tenho mais um, mas com certeza você está sendo importunada por mim.
    Com certeza você quer que eu vá embora.
    — Não quero que você vá embora por enquanto. Aviso-lhe quando for a hora de você sair. Porque eu durmo cedo.
    Ele procurou o poema nas páginas do caderno, não encontrou, desistiu. Disse:
    — Eu sei um bocado de coisas de você. E até conheci o seu ex-marido.
    Fiquei quieta.
    — Você é bonita. Fiquei quieta.
    Eu estava muito triste. E sem saber o que fazer para ajudá-lo. É uma terrível impotência, essa de não saber como ajudar.
    Ele me disse:
    — Se eu um dia me suicidar…
    — Você não vai se suicidar coisa alguma, interrompi-o. Porque é dever da gente viver. E viver pode ser bom. Acredite.
    Quem só faltava chorar era eu.
    Não havia nada que eu pudesse fazer.
    Perguntei-lhe onde morava. Respondeu que tinha um apartamentozinho em Botafogo. Eu disse: vá para a sua casa e durma.
    — Antes tenho que ver meu filho, ele está com febre.
    — Como se chama seu filho?
    Ele disse. Retruquei: tenho um filho com esse nome.
    — Eu sei disso.
    — Vou lhe dar um livro de história infantil que eu uma vez escrevi para os meus filhos. Leia alto para o seu.
    Dei-lhe o livro, escrevi a dedicatória. Ele guardou o livro na sua espécie de maleta. E eu em desespero.
    — Quer coca-cola?
    — Você tem mania de oferecer café e coca-cola.
    — É porque não tenho mais nada para oferecer.
    A porta ele beijou minha mão. Acompanhei-o até o elevador, apertei o botão do térreo e lhe disse: vá com Deus, pelo amor de Deus.
    O elevador desceu. Entrei em casa, fui fechando as luzes, avisei minha amiga que logo em seguida saiu, mudei de roupa, tomei um remédio para dormir — e me sentei na sala escura fumando um cigarro. Lembrei-me que Cláudio, há poucos minutos, tinha pedido o cigarro que eu estava fumando. Eu dei. Ele fumou. Ele também disse: um dia mato alguém.
    — Não é verdade, eu não acredito.
    Tinha me falado também num tiro de misericórdia que dera num cachorro que estava sofrendo. Perguntei-lhe se vira um filme chamado em inglês They do kill horses, don’t they? e que em português se chamara A noite dos desesperados. Ele tinha visto, sim.
    Fiquei fumando. Meu cachorro no escuro me olhava.
    Isso foi ontem, sábado. Hoje é domingo, 12 de maio, Dia das mães. Como é que posso ser mãe para este homem? pergunto-me e não há resposta.
    Não há resposta para nada.
    Fui me deitar. Eu tinha morrido.

    O Corpo (A Via Crucis do Corpo)

    terça-feira, setembro 07, 2010

    Xavier era um homem truculento e sangüíneo. Muito forte esse homem. Adorava tangos. Foi ver O último tango em Paris e excitou-se terrivelmente. Não compreendeu o filme: achava que se tratava de filme de sexo. Não descobriu que aquela era a história de um homem desesperado. Na noite em que viu O último tango em Paris foram os três para cama: Xavier, Carmem e Beatriz. Todo o mundo sabia que Xavier era bígamo: vivia com duas mulheres.
    Cada noite era uma. Às vezes duas vezes por noite. A que sobrava ficava assistindo. Uma não tinha ciúme da outra. Beatriz comia que não era vida: era gorda e enxundiosa. Já Carmem era alta e magra. A noite do último tango em Paris foi memorável para os três. De madrugada estavam exaustos. Mas Carmem se levantou de manhã, preparou um lautíssimo desjejum — com gordas colheres de grosso creme de leite — e levou-o para Beatriz e Xavier. Estava estremunhada. Precisou tomar um banho de chuveiro gelado para se pôr em forma de novo. Nesse dia — domingo — almoçaram às três horas da tarde. Quem cozinhou foi Beatriz, a gorda. Xavier bebeu vinho francês. E comeu sozinho um frango inteiro. As duas comeram o outro frango. Os frangos eram recheados de farofa de passas e ameixas, tudo úmido e bom. Às seis horas da tarde foram os três para a igreja. Pareciam um bolero. O bolero de Ravel. E de noite ficaram em casa vendo televisão e comendo. Nessa noite não aconteceu nada: os três estavam muito cansados.
    E assim era, dia após dia.
    Xavier trabalhava muito para sustentar as duas e a si mesmo, as grandes comidas. E às vezes enganava a ambas com uma prostituta ótima. Mas nada contava em casa pois não era doido. Passavam-se dias, meses, anos. Ninguém morria. Xavier tinha quarenta e sete anos. Carmem tinha trinta e nove. E Beatriz já completara os cinqüenta. A vida lhes era boa. Às vezes Carmem e Beatriz saíam a fim de comprar camisolas cheias de sexo. E comprar perfume. Carmem era mais elegante. Beatriz, com suas banhas, escolhia biquíni e um sutiã mínimo para os enormes seios que tinha. Um dia Xavier só chegou de noite bem tarde: as duas desesperadas. Mal sabiam que ele estava com a sua prostituta. Os três na verdade eram quatro, como os três mosqueteiros.
    Xavier chegou com uma fome que não acabava mais. E abriu uma garrafa de champanha. Estava em pleno vigor. Conversou animadamente com as duas, contoulhes que a indústria farmacêutica que lhe pertencia ia bem de finanças. E propôs às duas irem os três a Montevidéu, para um hotel de luxo. Foi uma tal azáfama a preparação das três malas. Carmem levou toda a sua complicada maquilagem.
    Beatriz saiu e comprou uma minissaia. Foram de avião. Sentaram-se em banco de três lugares: ele no meio das duas. Em Montevidéu compraram tudo o que quiseram. Inclusive uma máquina de costura para Beatriz e uma máquina de escrever que Carmem quis para aprender a manipulá-la. Na verdade não precisava de nada, era uma pobre desgraçada. Mantinha um diário: anotava nas páginas do grosso caderno encadernado de vermelho as datas em que Xavier a procurava. Dava o diário a Beatriz para ler.
    Em Montevidéu compraram um livro de receitas culinárias. Só que era em francês e elas nada entendiam. As palavras mais pareciam palavrões. Então compraram um receituário em castelhano. E se esmeraram nos molhos e nas sopas. Aprenderam a fazer rosbife. Xavier engordou três quilos e sua força de touro acresceu-se.
    Às vezes as duas se deitavam na cama. Longo era o dia. E, apesar de não serem homossexuais, se excitavam uma à outra e faziam amor. Amor triste. Um dia contaram esse fato a Xavier. Xavier vibrou. E quis que nessa noite as duas se amassem na frente dele. Mas, assim encomendado, terminou tudo em nada. As duas choraram e Xavier encolerizouse danadamente.
    Durante três dias ele não disse nenhuma palavra às duas. Mas, nesse intervalo, e sem encomenda, as duas foram para a cama e com sucesso. Ao teatro os três não iam. Preferiam ver televisão. Ou jantar fora. Xavier comia com maus modos: pegava a comida com as mãos, fazia muito barulho para mastigar, além de comer com a boca aberta. Carmem, que era mais fina, ficava com nojo e vergonha. Sem vergonha mesmo era Beatriz que até nua andava pela casa.
    Não se sabe como começou. Mas começou.
    Um dia Xavier veio do trabalho com marcas de batom na camisa. Não pôde negar que estivera com a sua prostituta preferida. Carmem e Beatriz pegaram cada uma um pedaço de pau e correram pela casa toda atrás de Xavier. Este corria feito um desesperado, gritando: perdão! perdão! perdão! As duas, também cansadas, afinal deixaram de persegui-lo. Às três horas da manhã Xavier teve vontade de ter mulher. Chamou Beatriz porque ela era menos rancorosa. Beatriz, mole e cansada, prestou-se aos desejos do homem que parecia um super-homem.
    Mas no dia seguinte avisaram-lhe que não cozinhariam mais para ele. Que se arranjasse com a terceira mulher. As duas de vez em quando choravam e Beatriz preparou para ambas uma salada de batata com maionese. De tarde foram ao cinema. Jantaram fora e só voltaram para casa à meia-noite.
    Encontrando um Xavier abatido, triste e com fome. Ele tentou explicar:
    — É porque às vezes tenho vontade durante o dia!
    — Então, disse-lhe Carmem, então por que não volta para casa?
    Ele prometeu que assim faria. E chorou. Quando chorou, Carmem e Beatriz ficaram de coração partido. Nessa noite as duas fizeram amor na sua frente e ele roeuse de inveja. Como é que começou o desejo de vingança? As duas cada vez mais amigas e desprezando-o.
    Ele não cumpriu a promessa e procurou a prostituta. Esta excitava-o porque dizia muito palavrão. E chamava-o de filho da puta. Ele aceitava tudo. Até que veio um certo dia.
    Ou melhor, uma noite. Xavier dormia placidamente como um bom cidadão que era. As duas ficaram sentadas junto de uma mesa, pensativas. Cada uma pensava na infância perdida. E pensaram na morte. Carmem disse:
    — Um dia nós três morreremos. Beatriz retrucou:
    — E à toa.
    Tinham que esperar pacientemente pelo dia em que fechariam os olhos para sempre. E Xavier? O que fariam com Xavier? Este parecia uma criança dormindo.
    — Vamos esperar que Xavier morra de morte morrida? perguntou Beatriz.
    Carmem pensou, pensou e disse:
    — Acho que devemos as duas dar um jeito.
    — Que jeito?
    — Ainda não sei.
    — Mas temos que resolver.
    — Pode deixar por minha conta, eu sei o que faço.
    E nada de fazerem nada. Daqui a pouco seria madrugada e nada teria acontecido. Carmem fez para as duas um café bem forte. E comeram chocolate até à náusea. E nada, nada mesmo.
    Ligaram o rádio de pilha e ouviram uma lancinante música de Schubert. Era piano puro. Carmem disse:
    — Tem que ser hoje.
    Carmem liderava e Beatriz obedecia. Era uma noite especial: cheia de estrelas que as olhavam faiscantes e tranqüilas. Que silêncio. Mas que silêncio. Foram as duas para perto de Xavier para ver se se inspiravam. Xavier roncava. Carmem realmente inspirou-se. Disse para Beatriz:
    — Na cozinha há dois facões.
    — E daí?
    — E daí nós somos duas e temos dois facões.
    — E daí?
    — E daí, sua burra, nós duas temos armas e poderemos fazer o que precisamos fazer. Deus manda.
    — Não é melhor não falar em Deus nessa hora?
    — Você quer que eu fale no Diabo? Não, falo em Deus que é dono de tudo. Do espaço e do tempo.
    Então foram à cozinha. Os dois facões eram amolados, de fino aço polido.
    Teriam força?
    Teriam, sim.
    Foram armadas. O quarto estava escuro. Elas faquejaram erradamente, apunhalando o cobertor. Era noite fria. Então conseguiram distinguir o corpo adormecido de Xavier. O rico sangue de Xavier escorria pela cama, pelo chão, um desperdício.
    Carmem e Beatriz sentaram-se junto à mesa da sala de jantar, sob a luz amarela da lâmpada nua, estavam exaustas. Matar requer força. Força humana. Força divina. As duas estavam suadas, mudas, abatidas. Se tivessem podido, não teriam matado o seu grande amor.
    E agora? Agora tinham que se desfazer do corpo. O corpo era grande. O corpo pesava.
    Então as duas foram ao jardim e com auxílio de duas pás abriram no chão uma cova.
    E, no escuro da noite — carregaram o corpo pelo jardim afora. Era difícil porque Xavier morto parecia pesar mais do que quando vivo, pois escapara-lhe o espírito.
    Enquanto o carregavam, gemiam de cansaço e de dor. Beatriz chorava.
    Puseram o grande corpo dentro da cova, cobriram-na com a terra úmida e cheirosa do jardim, terra de bom plantio. Depois entraram em casa, fizeram de novo café, e revigoraram-se um pouco.
    Beatriz, muito romântica que era — vivia lendo foto-novelas onde acontecia amor contrariado ou perdido — Beatriz teve a idéia de plantarem rosas naquela terra fértil.
    Então foram de novo ao jardim, pegaram uma muda de rosas vermelhas e plantaram-na na sepultura do pranteado Xavier. Amanhecia. O jardim orvalhado. O orvalho era uma bênção ao assassinato. Assim elas pensaram, sentadas no banco branco que lá havia.
    Passaram-se dias. As duas mulheres compraram vestidos pretos. E mal comiam.
    Quando anoitecia a tristeza caía sobre elas. Não tinham mais gosto de cozinhar. De raiva, Carmem, a colérica, rasgou o livro de receitas em francês. Guardou o castelhano: nunca sabia se ainda não seria necessário.
    Beatriz passou a ocupar-se da cozinha. Ambas comiam e bebiam em silêncio. O pé de rosas vermelhas parecia ter pegado. Boa mão de plantio, boa terra próspera. Tudo resolvido.
    E assim ficaria encerrado o problema.
    Mas acontece que o secretário de Xavier estranhou a longa ausência. Havia papéis urgentes a assinar. Como a casa de Xavier não tinha telefone, foi até lá. A casa parecia banhada de mala suerte. As duas mulheres disseram-lhe que Xavier viajara, que fora a Montevidéu. O secretário não acreditou muito mas pareceu engolir a história.
    Na semana seguinte o secretário foi à Polícia. Com Polícia não se brinca. Antes os policiais não quiseram dar crédito à história. Mas, diante da insistência do secretário, resolveram preguiçosamente dar ordem de busca na casa do polígamo. Tudo em vão: nada de Xavier. Então Carmem falou assim:
    — Xavier está no jardim.
    — No jardim? fazendo o quê?
    — Só Deus sabe o quê.
    — Mas nós não vimos nada nem ninguém. Foram ao jardim: Carmem, Beatriz, o secretário de nome Alberto, dois policiais, e mais dois homens que não se sabia quem eram. Sete pessoas. Então Beatriz, sem uma lágrima nos olhos, mostrou-lhes a cova florida. Três homens abriram a cova, destroçando o pé de rosas que sofriam à toa a brutalidade humana.
    E viram Xavier. Estava horrível, deformado, já meio roído, de olhos abertos.
    — E agora? disse um dos policiais.
    — E agora é prender as duas mulheres.
    — Mas, disse Carmem, que seja numa mesma cela.
    — Olhe, disse um dos policiais diante do secretário atônito, o melhor é fingir que nada aconteceu senão vai dar muito barulho, muito papel escrito, muita falação.
    — Vocês duas, disse o outro policial, arrumem as malas e vão viver em
    Montevidéu. Não nos dêem maior amolação.
    As duas disseram: muito obrigada.
    E Xavier não disse nada. Nada havia mesmo a dizer.

    Explicação (A Via Crucis do Corpo)

    segunda-feira, setembro 06, 2010

    O poeta Álvaro Pacheco, meu editor na Artenova, me encomendou três histórias que, disse ele, realmente aconteceram. Os fatos eu tinha, faltava a imaginação. E era assunto perigoso. Respondi-lhe que não sabia fazer história de encomenda. Mas — enquanto ele me falava ao telefone — eu já sentia nascer em mim a inspiração. A conversa telefônica foi na sexta-feira. Comecei no sábado. No domingo de manhã as três histórias estavam prontas: "Miss Algrave", "O Corpo" e "Via Crucis". Eu mesma espantada. Todas as histórias deste livro são contundentes. E quem mais sofreu fui eu mesma. Fiquei chocada com a realidade. Se há indecências nas histórias a culpa não é minha. Inútil dizer que não aconteceram comigo, com minha família e com meus
    amigos. Como é que sei? Sabendo. Artistas sabem de coisas. Quero apenas avisar que não escrevo por dinheiro e sim por impulso. Vão me jogar pedras. Pouco importa. Não sou de brincadeiras, sou mulher séria. Além do mais tratava-se de um desafio.
    Hoje é dia 12 de maio, Dia das Mães. Não fazia sentido escrever nesse dia histórias que eu não queria que meus filhos lessem porque eu teria vergonha. Então disse ao editor: só publico sob pseudônimo. Até já tinha escolhido um nome bastante simpático: Cláudio Lemos. Mas ele não aceitou. Disse que eu devia ter liberdade de escrever o que quisesse. Sucumbi. Que podia fazer? senão ser a vítima de mim mesma. Só peço a Deus que ninguém me encomende mais nada. Porque, ao que parece, sou capaz de revoltadamente obedecer, eu a inliberta.
    Uma pessoa leu meus contos e disse que aquilo não era literatura, era lixo. Concordo. Mas há hora para tudo. Há também a hora do lixo. Este livro é um pouco triste porque eu descobri, como criança boba, que este é um mundo-cão.
    É um livro de treze histórias. Mas podia ser de quatorze. Eu não quero. Porque estaria desrespeitando a confidência de um homem simples que me contou a sua vida. Ele é charreteiro numa fazenda. E disse-me: para não derramar sangue, separei-me de minha mulher, ela se desencaminhou e desencaminhou minha filha de dezesseis anos. Ele tem um filho de dezoito anos que nem quer ouvir falar no nome da própria mãe. E assim são as coisas.

    CL.

    PS. — "O homem que apareceu" e "Por enquanto" também foram escritos no mesmo domingo maldito. Hoje, 13 de maio, segunda-feira, dia da libertação dos escravos — portanto da minha também — escrevi "Danúbio Azul", "A língua do 'p'" e "Praça Mauá". "Ruído de passos" foi escrito dias depois numa fazenda, no escuro da grande noite.
    Já tentei olhar bem de perto o rosto de uma pessoa — uma bilheteira de cinema. Para saber do segredo de sua vida. Inútil. A outra pessoa é um enigma. E seus olhos são de estátua: cegos.

    Via Crucis (A Via Crucis do Corpo)

    sábado, agosto 07, 2010

    Maria das Dores se assustou. Mas se assustou de fato.
    Começou pela menstruação que não veio. Isso a surpreendeu porque ela era muito regular.
    Passaram-se mais de dois meses e nada. Foi a uma ginecologista. Esta diagnosticou uma evidente gravidez.
    — Não pode ser! gritou Maria das Dores.
    — Por quê? a senhora não é casada?
    — Sou, mas sou virgem, meu marido nunca me tocou. Primeiro porque ele é homem paciente, segundo porque já é meio impotente.
    A ginecologista tentou argumentar:
    — Quem sabe se a senhora em alguma noite…
    — Nunca! mas nunca mesmo!
    — Então, concluiu a ginecologista, não sei como explicar. A senhora já está no fim do terceiro mês.
    Maria das Dores saiu do consultório toda tonta. Teve que parar num restaurante e tomar um café. Para conseguir entender.
    O que é que estava lhe acontecendo? Grande angústia tomou-a. Mas saiu do restaurante mais calma.
    Na rua, de volta para casa, comprou um casaquinho para o bebê. Azul, pois tinha certeza que seria menino. Que nome lhe daria? Só podia lhe dar um nome: Jesus.
    Em casa encontrou o marido lendo jornal e de chinelos. Contou-lhe o que acontecia. O homem se assustou:
    — Então eu sou São José?
    — É, foi a resposta lacônica. Caíram ambos em grande meditação.
    Maria das Dores mandou a empregada comprar as vitaminas que a ginecologista receitara. Eram para o benefício de seu filho.
    Filho divino. Ela fora escolhida por Deus para dar ao mundo o novo Messias.
    Comprou o berço azul. Começou a tricotar casaquinhos e a fazer fraldas macias.
    Enquanto isso a barriga crescia. O feto era dinâmico: dava-lhe violentos pontapés. Às vezes ela chamava São José para pôr a mão na sua barriga e sentir o filho vivendo com força.
    São José então ficava com os olhos molhados de lágrimas. Tratava-se de um Jesus vigoroso. Ela se sentia toda iluminada.
    A uma amiga mais íntima Maria das Dores contou a história abismante. A amiga também se assustou:
    — Maria das Dores, mas que destino privilegiado você tem!
    — Privilegiado, sim, suspirou Maria das Dores. Mas que posso fazer para que meu filho não siga a via crucis?
    — Reze, aconselhou a amiga, reze muito.
    E Maria das Dores começou a acreditar em milagres. Uma vez julgou ver de pé ao seu lado a Virgem Maria que lhe sorria. Outra vez ela mesma fez o milagre: o marido estava com uma ferida aberta na perna, Maria das Dores beijou a ferida. No dia seguinte nem marca havia.
    Fazia frio, era mês de julho. Em outubro nasceria a criança.
    Mas onde encontrar um estábulo? Só se fosse para uma fazenda do interior de Minas Gerais. Então resolveu ir à fazenda da tia Mininha.
    O que lhe preocupava é que a criança não nasceria em vinte e cinco de dezembro.
    Ia à igreja todos os dias e, mesmo barriguda, ficava horas ajoelhada. Como madrinha do filho escolhera a Virgem Maria. E para padrinho o Cristo.
    E assim foi se passando o tempo. Maria das Dores engordara brutalmente e tinha desejos estranhos. Como o de comer uvas geladas. São José foi com ela para a fazenda. E lá fazia seus trabalhos de marcenaria.
    Um dia Maria das Dores empanturrou-se demais — vomitou muito e chorou. E pensou: começou a via crucis de meu sagrado filho.
    Mas parecia-lhe que se desse à criança o nome de Jesus, ele seria, quando homem, crucificado. Era melhor dar-lhe o nome de Emmanuel. Nome simples. Nome bom.
    Esperava Emmanuel sentada debaixo de uma jabuticabeira. E pensava:
    Quando chegar a hora, não vou gritar, vou só dizer: ai Jesus!
    E comia jabuticabas. Empanturrava-se a mãe de Jesus.
    A tia — a par de tudo — preparava o quarto com cortinas azuis. O estábulo estava ali, com seu cheiro bom de estrume e suas vacas.
    De noite Maria das Dores olhava para o céu estrelado à procura da estrela-guia.
    Quem seriam os três reis magos? quem lhe traria incenso e mirra?
    Dava longos passeios porque a médica lhe recomendara caminhar muito. São José deixara crescer a barba grisalha e os longos cabelos chegavam-lhe aos ombros.
    Era difícil esperar. O tempo não passava. A tia fazia-lhes, para o café da manhã, brevidades que se desmanchavam na boca. E o frio deixava-lhes as mãos vermelhas e duras.
    De noite acendiam a lareira e ficavam sentados ali a se esquentarem. São José arranjava para si um cajado. E, como não mudava de roupa, tinha um cheiro sufocante.
    Sua túnica era de estopa. Ele tomava vinho junto da lareira. Maria das Dores tomava grosso leite branco, com o terço na mão.
    De manhã bem cedo ia espiar as vacas no estábulo. As vacas mugiam. Maria das Dores sorria-lhes. Todos humildes: vacas e mulher. Maria das Dores a ponto de chorar. Ajeitava as palhas no chão, preparando lugar onde se deitar quando chegasse a hora. A hora da iluminação.
    São José, com seu cajado ia meditar na montanha. A tia preparava lombinho de porco e todos comiam danadamente. E a criança nada de nascer.
    Até que numa noite, às três horas da madrugada, Maria das Dores sentiu a primeira dor. Acendeu a lamparina, acordou São José, acordou a tia. Vestiram-se. E com um archote iluminando-lhes o caminho, dirigiram-se através das árvores para o estábulo. Uma grossa estrela faiscava no céu negro.
    As vacas, acordadas, ficaram inquietas, começaram a mugir.
    Daí a pouco nova dor. Maria das Dores mordeu a própria mão para não gritar. E não amanhecia.
    São José tremia de frio. Maria das Dores, deitada na palha, sob um cobertor, aguardava.
    Então veio uma dor forte demais. Ai Jesus, gemeu Maria das Dores. Ai Jesus, pareciam mugir as vacas.
    As estrelas no céu.
    Então aconteceu.
    Nasceu Emmanuel.
    E o estábulo pareceu iluminar-se todo.
    Era um forte e belo menino que deu um berro na madrugada.
    São José cortou o cordão umbilical. E a mãe sorria. A tia chorava.
    Não se sabe se essa criança teve que passar pela via crucis. Todos passam.

    O Mistério do Coelho Pensante (trecho)

    quinta-feira, julho 29, 2010

    Esta história só serve para criança que simpatiza com coelho. Foi escrita a pedido-ordem de Paulo, quando ele era menor e ainda não tinha descoberto simpatias mais fortes. O mistério do coelho pensante é também minha discreta homenagem a dois coelhos que pertenceram a Pedro e Paulo. meus filhos. Coelhos aqueles que nos deram muita dor de cabeça e muita surpresa de encantamento. Como a história foi escrita para exclusivo uso doméstico, deixei todas as entrelinhas para as explicações orais. Peço desculpas a pais e mães, tios e tias, e avós, pela contribuição forçada que serão obrigados a dar. Mas pelo menos posso garantir, por experiência própria, que a parte oral desta história é o melhor dela. Conversar sobre coelho é muito bom. Aliás, esse “mistério” é mais uma conversa íntima do que uma história. Daí ser muito mais extensa que o seu aparente número de páginas. Na verdade só acaba quando a criança descobre outros mistérios.

    A Maçã no Escuro (trecho)

    quarta-feira, julho 28, 2010

    Primeira parte: Como se faz um homem
    Um

    Esta história começa numa noite de março tão escura quanto é a noite enquanto se dorme. O modo como, tranqüilo, o tempo decorria era a lua altíssima passando pelo céu. Até que mais profundamente tarde também a lua desapareceu.
    Nada agora diferenciava o sono de Martim do lento jardim sem lua: quando um homem dormia tão no fundo passava a não ser mais do que aquela árvore de pé ou o pulo do sapo no escuro.
    Algumas árvores haviam ali crescido com enraizado vagar até atingir o alto das próprias copas e o limite de seu destino. Outras já haviam saído da terra em bruscos tufos. Os canteiros tinham uma ordem que procurava concentradamente servir a uma simetria. Se esta era discernível do alto da sacada do grande hotel, uma pessoa estando ao nível dos canteiros não descobria essa ordem; entre os canteiros o caminho se pormenorizava em pequenas pedras talhadas.
    Sobretudo numa das alamedas o Ford estava parado há tanto tempo que já fazia parte do grande jardim entrelaçado e de seu silêncio.
    No entanto, de dia a paisagem era outra, e os grilos vibrando ocos e duros deixavam a extensão inteiramente aberta, sem uma sombra. Enquanto o cheiro era o seco cheiro de pedra exasperada que o dia tem no campo. Ainda nesse mesmo dia Martim ficara de pé na sacada procurando, com inútil obediência, não perder nada do que se passava. Mas o que se passava não era muito: antes de começar a estrada que se perdia em suspensa poeira de sol, apenas o jardim nada mais que contemplável; compreensível e simétrico do alto da sacada; emaranhado quando se fazia parte dele — e esta lembrança o homem há duas semanas guardava nos pés com aplicação cuidadosa, conservando-a para um uso eventual. Por mais atenção, no entanto, o dia era inescalável; e como um ponto desenhado sobre o mesmo ponto, a voz do grilo era o próprio corpo do grilo, e nada informava. A única vantagem do dia é que na extrema luz o carro se tornava um pequeno besouro que facilmente alcançaria a estrada.
    Mas enquanto o homem dormia o carro se tornava enorme como é gigantesca uma máquina parada. E de noite o jardim era ocupado pela secreta urdidura com que o escuro se mantém, num trabalho cuja existência os vaga-lumes inesperadamente traem; certa umidade também denunciava o labor. E a noite era um elemento em que a vida, por se tornar estranha, era reconhecível.

    [...]

    Dentro do silêncio de novo intacto, o homem agora olhou estupidamente o teto invisível que no escuro era tão alto quanto o céu. Largado de costas na cama, tentou num esforço de prazer gratuito reconstituir o ruído das rodas, pois enquanto não sentia dor era de um modo geral prazer que ele sentia. Da cama não via o jardim. Um pouco de bruma entrava pelas venezianas abertas, o que se denunciou ao homem pelo cheiro de algodão úmido e por uma certa ânsia física de felicidade que a cerração dá. Fora apenas um sonho, então. Cético, embora, ele se ergueu.
    Nas trevas nada viu da sacada, e nem sequer adivinhou a simetria dos canteiros. Algumas manchas mais negras que o próprio negrume indicaram o provável lugar das árvores. O jardim não passava ainda de um esforço de sua memória, e o homem olhou quieto, adormecido. Um ou outro vaga-lume tornava mais vasta a escuridão.
    Esquecido do sonho que o guiara até a sacada, o corpo do homem achou bom se sentir saudavelmente de pé: é que o ar suspenso mal alterava a escura posição das folhas. Ali, pois, deixou-se ficar, dócil, atordoado, com a sucessão de quartos desocupados atrás de si. Sem emoção aqueles quartos vazios repetiam-no e repetiam-no até se apagarem aonde o homem já não se alcançava mais. Martim suspirou dentro de seu largo sono acordado. Sem insistir demais, tentou atingir a noção dos últimos quartos como se ele próprio se tivesse tornado grande demais e espalhado, e, por algum motivo que já esquecera, precisasse obscuramente se recolher para talvez pensar ou sentir. Mas não conseguiu, e estava muito aprazível. Assim ele ficou, com o ar cortês de um homem que levou uma pancada na cabeça. Até que — como quando um relógio pára de bater e só então nos adverte que antes batia — Martim percebeu o silêncio e dentro do silêncio a sua própria presença. Agora, através de uma incompreensão muito familiar, o homem começou enfim a ser indistintamente ele mesmo.
    Então as coisas passaram a se reorganizar a partir dele próprio: trevas foram sendo entendidas, ramos começaram lentamente a se formar sob o balcão, sombras se dividiram em flores ainda irresolutas — com os limites ocultos pelo viço imóvel das plantas, os canteiros se delinearam cheios, macios. O homem grunhiu aprovando: com certa dificuldade acabara de reconhecer o jardim que nessas duas semanas de sono constituíra em intervalos a sua irredutível visão.
    Foi nesse momento que uma lua desfalecida perpassou uma nuvem em grande silêncio, em silêncio derramou-se sobre pedras calmas, desaparecendo em silêncio na escuridão. A cara enluarada do homem se dirigiu então para a alameda onde o Ford estaria imóvel.
    Mas o carro desaparecera.
    O corpo inteiro do homem subitamente despertou. Num relance astuto seus olhos percorreram a escuridão toda do jardim — e, sem um gesto de aviso, ele se virou para o quarto em leve pulo de macaco.
    Nada porém se mexia no oco do aposento que de escuro se tornara enorme. O homem ficou resfolegando atento e inutilmente feroz, com as mãos avançadas para o ataque. Mas o silêncio do hotel era o mesmo da noite. E sem limites visíveis, o quarto prolongava no mesmo exalar-se a escuridão do jardim. Para se despertar o homem esfregou várias vezes os olhos com o dorso de uma das mãos enquanto deixava a outra livre para a defesa. Foi inútil sua nova sensibilidade: nas trevas os olhos totalmente abertos não viram sequer as paredes.
    Era como se o tivessem depositado solto num campo. E enfim ele acordasse de um longo sonho do qual haviam feito parte um hotel agora desmanchado num chão vazio, um carro apenas imaginado pelo desejo, e sobretudo tivessem desaparecido os motivos de um homem estar todo expectante num lugar que também este era expectativa.
    De real só lhe restou a sagacidade que o fizera dar um pulo para indistintamente se defender. A mesma que o levava agora a raciocinar com inesperada lucidez que se o alemão tivesse ido denunciá-lo levaria algum tempo para ir e voltar com a Polícia.
    O que ainda o deixava temporariamente livre — a menos que o criado tivesse sido encarregado de vigiá-lo. E nesse caso o criado, se o era, estaria neste mesmo instante à porta daquele mesmo quarto com o ouvido atento ao menor movimento do hóspede.
    Assim pensou ele. E findo o raciocínio, ao qual chegara com a maleabilidade com que um invertebrado se torna menor para deslizar, Martim mergulhou de novo na mesma ausência anterior de razões e na mesma obtusa imparcialidade, como se nada tivesse a ver consigo mesmo, e a espécie se encarregasse dele. Sem um olhar para trás, guiado por uma escorregadia destreza de movimentos, começou a descer pela sacada apoiando pés inesperadamente flexíveis na saliência dos tijolos. Na sua atenta remotidão o homem sentia perto da cara o cheiro malévolo das heras quebradas como se nunca o fosse esquecer. Sua alma agora apenas alerta não distinguia o que era ou não importante, e a toda operação ele deu a mesma consideração escrupulosa.
    Num pulo macio, que fez o jardim asfixiar-se em suspiro retido, ele se achou em pleno centro de um canteiro — que se arrepiou todo e depois se fechou. Com o corpo advertido o homem esperou que a mensagem de seu pulo fosse transmitida de secreto em secreto eco até se transformar em longínquo silêncio; seu baque terminou se espraiando nas encostas de alguma montanha. Ninguém ensinara ao homem essa conivência com o que se passa de noite, mas um corpo sabe.
    Ele esperou um pouco mais. Até que nada aconteceu. Só então tateou com minúcia os óculos no bolso: estavam inteiros. Suspirou com cuidado e finalmente olhou em torno. A noite era de uma grande e escura delicadeza.