Primeira parte: Como se faz um homem
Quatro
Com a nova limpidez da visibilidade, o torpor do homem desapareceu. E como se agora sua energia estivesse a seu pró¬prio alcance e medida, ele se ergue sem nenhum esforço. Uma alerteza impessoal o tomara como a de um tigre de patas ma¬cias. Agora ele era real e silencioso.
Quando chegou ao ponto da encosta de onde só poderia descer, divisou a casa rodeada de terras verdes lá embaixo, como a seus pés, mas num tamanho diminuto que lhe deu uma idéia da verdadeira distância. Começou então a descer o declive, suavemente encorajado nas costas pelo próprio declive. Guiado pela sede como único pensamento, o homem não sentiu os pas¬sos progressivos e achou-se enfim no mesmo nível do seguinte: a casa distante, um outro homem que ao longe estava sentado sob uma árvore, vários cachorros espalhados pelo chão.
Agora Martim viu o casarão em pé de igualdade: era maior do que pensara e havia um denso agrupamento de árvores es¬curas, ele não podia saber a que espaço da casa mas certamente apenas aos fundos desta. O fim escuro do bosque se confundiu com a própria distância, e moveu-se para a frente e para trás aos seus olhos, como para um homem que pisa em terra firme depois do alto-mar.
Com a leveza do cansaço, como se usasse sapatos de tênis, ele avançava. Uma elegância astuciosa já o tomara: ele estava se preparando para defrontar gente. E quanto mais se aproxi¬mava, mais reconhecia aquele quieto tumulto de vida que horas antes ele farejara e ao qual parecia ter dado o nome íntimo de “ideal” — e que agora, mesmo ainda não dividido em sons, lhe era familiar. Sem a falsa alegria do alto da encosta, que se tor¬nara apenas morto passado, e sem nenhuma promessa; mas assegurador como um lugar onde há água. Sua tontura radiosa do alto da encosta já se transformara em sede apenas, e em indistinta esperteza. É verdade que o roxo céu altíssimo ainda o embebedava um pouco.
Ele avançava flexível. A essa altura sua cabeça vazia já não lhe era mais de nenhum socorro. Na verdade seu avanço parecia ser guiado unicamente pelo fato daquele homem estar entre terra e céu. E o que o sustentava era a impessoalidade extraordi¬nária que ele alcançara, como um rato cuja única individualidade é aquilo que ele herdou de outros ratos. Essa impessoalidade, o homem a manteve em leve repressão de si próprio como se soubesse que, do momento em que se tornasse ele mesmo, cairia emborcado no chão. A própria extrema individualidade que ele tinha alcançado na montanha não devia ter sido senão um es-pasmo da cega totalidade com que ele avançava: levitado pelo cansaço, transladava-se sem sentir os pés tocarem no chão, tendo como único ponto fixo a esperá-lo a nítida casa cada vez maior, cada vez maior. Muito erguida dentro daquela finura de ar que a envolvia e que seria, por mais intocável, o que tanto prende¬ria aquele homem àquele lugar.
Embora soubesse que os cães inquietos já o haviam pres¬sentido, postou-se atrás de uma árvore para observar. Afastando ramos podia investigar bem a situação da casa, agora totalmente visível. O que o confundia é que, bem maior que a casa, era a formiga na folha perto do olho que espiava, emoldurando — eqüestre, ruiva, monumento de um instante — a sua visão. Martim sacudiu várias vezes a cabeça até se libertar do tamanho que a monstruosa formiga tomara.
O andar mais alto da casa não acompanhava a extensão maior do andar térreo, e alteava-se em canhestra torre. Martim, na sua vida anterior, aprendera a almejar torres; sentiu, pois, uma grande satisfação. À beira da casa, tufos de margarida for¬maram a seus olhos cansados nuvens amareladas e vacilantes.
Mas se com a aproximação a casa ganhara em nitidez, per- dera a síntese anterior da distância. E de detrás da árvore o olhar do homem não conseguiu reunir numa única visão a falta de lógica do que via: um alpendre coberto de telhas, janelas que o simples cálculo não lhe ajudou a descobrir para onde po¬deriam dar, portas que estavam entreabertas para ele nada per¬ceber senão a sombra criada pela distância; cercas delimitando cantos que não seriam cantos se não houvesse as cercas arbitrá¬rias. Via-se que aquilo tudo se fizera aos poucos, acrescentando-se à mercê da necessidade ou da fantasia. Era um lugar pobre e pretensioso. Ele gostou logo.
Dando-se conta do que poderia haver de suspeito em estar escondido atrás da árvore, o homem afinal se expôs. Sem sentir, abrira um pouco os braços demonstrando que era indefeso. E à medida em que avançava — recebido pelos cachorros que agora latiam furiosos — percebeu de longe a figura indistinta movendo-se no alpendre.
Já perto dele, porém, estava o homem sentado no chão sob a árvore. O homem comia, e o cheiro de comida fria nau¬seou Martim de desejo. Seu rosto se tornou urgente, tímido e vil como quando uma cara implora. O cheiro voltou-lhe cru ao nariz, ele quase vomitou de nojo, tão puro estava de comida. Mas seu corpo ganhara um impulso novo, os passos difíceis o ultrapassaram — e em breve ele estava à frente do homem, olhando-o com minuciosa sofreguidão.
Sem interromper o mastigar, o trabalhador olhava fixa¬mente para os próprios pés descalços como se deliberadamente não visse o estranho. Com a agudez que a fome dera à sua per¬cepção, Martim não se deixou ludibriar: uma comunicação muda se estabelecera entre ambos como dois homens numa arena, e aquele que não o olhava aguardava para poder saltar. Um leve prazer de raiva tomou então Martim, em vaga promessa de luta que ele só conseguiu manter por um instante. Ter tido uma sensação de força cobriu sua testa de suor frio. Uma alegria levíssima pôs-lhe algum cinismo no rosto.
— De quem é este sítio? perguntou cedendo afinal ao silêncio mais poderoso do outro.
O homem descalço não estremeceu sequer. Afastou deva¬gar o prato, enxugou a boca farta:
— Isto tudo é dela, disse lento fazendo um gesto com a cabeça, e Martim, seguindo com os olhos franzidos a direção apontada, viu agora de mais perto a figura no alpendre. Sou daqui também, acrescentou o homem acompanhando a infor¬mação com um falso bocejo.
Quem fizesse o primeiro movimento dúbio teria dado di¬reito ao outro. A tarde estava linda, clara.
— Eu me perdi, disse Martim suave.
— Saindo de Vila muita gente se perde por aqui, disse o outro ainda mais suave.
— De Vila?
— De Vila Baixa, disse o homem apontando vagamente a cabeça para a esquerda, e pela primeira vez erguendo os olhos com uma desconfiança declarada.
Martim olhou, e à esquerda nada havia senão a infinita extensão de terra, o céu mais baixo e mais sujo. Sentindo-se examinado, tornou-se ainda mais macio:
— Foi o que me aconteceu, disse. Vou voltar para Vila Baixa. Mas antes queria um pouco d’água. Quero água! disse-lhe então arriscando-se totalmente.
O homem olhou-o com fixidez. Em trégua de luta mediu a sede do outro. No seu olhar não havia misericórdia mas humano reconhecimento — e, como se as duas lealdades se encontrassem, olharam-se limpos nos olhos. Que aos poucos foram se enchendo de alguma coisa mais pessoal. Não era ódio — era um amor ao contrário, e ironia, como se ambos despre¬zassem a mesma coisa.
— Só lá dentro, disse afinal o trabalhador. Ergueu-se com uma dificuldade fingida e uma lentidão deliberada. De pé, por um instante os estranhos se mediram com o olhar. A raiva mútua fez com que se olhassem e nada tivessem a se dizer. Embora um permitisse a raiva no outro como inimigos que se respeitam antes de se matarem. Mais fraco que a tranqüila potência do outro, Martim foi o primeiro a desviar os olhos. O outro aceitou sem tirar proveito. Martim, de novo experimentando o cálido contato de uma aversão, co¬meçou a andar rumo a casa, seguido a certa distância pelo vencedor e sentindo na nuca a sua ameaça calma.
Os cães rosnavam indecisos, contendo o esfogueteamento e a alegria de uma luta. A tarde toda, aliás, era de uma grande alegria tranqüila. Um cachorro manco se agregou penoso aos outros, numa aflita expectativa de inválido. Tudo era suave e estimulantemente perigoso, no fundo ninguém parecia se impressionar com o que estava acontecendo, e todos apenas gozavam a mesma oportunidade. As coisas rodavam um pouco, felizes fora de hora. Por Deus, nunca vi nada tão redondo, pensou o homem entontecido. Um cão mais negro de repente afundou a tarde como se Martim tivesse caído num buraco insuspeito. Foi esse cão que o alertou vagamente e pareceu lhe lembrar outras realidades. Ele se sentia tão leve que estava mesmo precisando amarrar uma pedra no pescoço. Então for¬çou-se com dificuldade a lembrar-se. Mas, para a sua própria desvantagem, o lugar era bonito demais, e para a sua própria desvantagem ele estava se sentindo bem — o que lhe tirava da percepção a sua principal utilidade de luta.
O sítio ou fazenda não era muito grande, se se considerasse apenas a parte coberta de trabalho: algumas casinholas quebra¬das, o curral, o campo lavrado. Mas seria enorme se também se contasse com as terras largadas que, em alguns pontos, só para assinalar posse, a cerca mal traçada delimitava. O verde das árvores se balançava sujo, folhas novas espiavam entre as empoeiradas.
As raízes eram grossas e cheirosas naquele fim de tarde — e provocaram em Martim uma inexplicável fúria de corpo como um amor indistinto. Faminto que estava, os cheiros o excitavam como a um cachorro esperançoso. A terra, numa promessa de doçura e submissão, parecia friável — e Martim, aparentemente sem outra intenção que a do contato, abaixou-se e quase sem interromper os passos tocou-a um instante com os dedos. Sua cabeça se tonteou ao contato delicioso da umi¬dade, ele se apressou de boca aberta. Mais perto da casa, viu que o alpendre estava agora vazio. O telhado do curral caía aos pedaços, parecia em certos pontos sustentado apenas pela pró¬pria altura do gado invisível, cujos movimentos revolviam len¬tamente a luz vazia.
A água da lata enferrujada escorreu de sua boca para o peito, ensopou a roupa dura de poeira. Do curral veio de novo um tranqüilo mover-se de patas. O sol desaparecera, e uma claridade infinitamente delicada dava a cada coisa a sua calma forma final. Uma casinhola à parte tivera uma porta, cuja lembrança não existia mais senão nos gonzos vazios. Martim molhava o rosto e os cabelos — e mais adiante estava a coberta tosca de garage...
Tendo chegado ao tenso limiar do impossível, Martim re¬cebeu o milagre como o único passo natural ao seu encontro. Não havia como não aceitar o que acontecia pois para tudo o que pode acontecer um homem nascera. Ele não se perguntou se o milagre era a água que o encharcava até a saturação, ou o caminhão sob a garage de lona, ou a luz que se evaporava da terra e da boca iluminada dos cães. Como um homem que alcança, ali estava ele exausto, sem interesse nem alegria. Estava envelhecido como se tudo o que lhe pudesse ser dado já viesse tarde demais.
Sob a coberta, o caminhão velho mas perfeitamente limpo e cuidado. E os pneus? ocorreu-lhe. Seus olhos míopes não distinguiam os detalhes dos pneus. A dificuldade, enchendo-o da dúvida da esperança, rejuvenesceu-o. Depositou fascinado e lento a lata na terra e, com os cílios gotejando, examinou o caminhão, abaixou-se para olhar os pneus calculando suas possi¬bilidades em termos de quilômetros.
— Que é que o senhor deseja, perguntou uma voz baixa e serena.
Sem susto nem pressa, Martim voltou o corpo todo. E seu rosto defrontou um rosto inquisitivo de mulher. Atrás de si, sentiu o homem parado em guarda. Acercou-se do alpendre, gingando devagar. A fome acendia-lhe os olhos em grande ma¬lícia, os lábios escuros sorriam rachando. Ao pé do alpendre, o chão estava coberto de papoulas púrpura, caídas e amontoa¬das. Aquela visão pareceu ao homem a da fartura e da abastança. Olhou as flores vivas, umas despetaladas, outras ainda por abrir em desperdício tranqüilo: seus olhos piscaram de cobiça. Percebia tudo ao mesmo tempo, gingando, gozando a limpidez dos olhos que era a da própria luz.
Mas, sem que soubesse de onde, aparecera de alguma parte uma mulata moça de cabelos enrolados em cachos, e que ali se postara com olhos rápidos, rindo. Não só Martim não sabia de onde ela viera, como em que momento aparecera — o que fez com que ele tomasse cautelosa consciência da possibilidade de outras coisas estarem também lhe escapando. Os cachorros haviam se aproximado arfando, sem coragem de atacar. O vento e o silêncio os rodeavam. O homem sungou o cinturão.
— Então, que é que o senhor deseja.
— Eu estava olhando, respondeu sem pudor.
E aprumou o torso fazendo um esforço de ser citadino.
— Disto eu sei, disse a mulher do alpendre.
— Ele estava com sede, é o que diz, falou o homem atrás de Martim, e a mulher ouviu-o sem no entanto desviar os olhos do estrangeiro.
— Já bebi, disse este com alguma candura, apontando a lata vazia. O sol estava quente, acrescentou mudando a posição das pernas.
Martim tinha uma qualidade de cujo gozo não usufruía porque essa qualidade era ele próprio — uma qualidade a que, em determinadas circunstâncias favoráveis, poucas mulheres resistiriam: a da inocência. O que despertava certa cobiça cor¬rupta numa mulher que é sempre tão maternal e gosta de coisas puras. Salvaguardada a pureza, a mulher era um ogre. A mulher do alpendre olhou-o então com muita frieza:
— Que o senhor bebeu, eu também sei.
De algum modo tudo o que ainda iria suceder àquela mu¬lher já estava acontecendo naquele instante. Ele o percebeu do seguinte modo indireto: passou a mão pela testa.
O excesso de água bebida borbulhava dentro dele, e deu-lhe uma náusea que se confundiu com uma avidez de sono ou de vômito, e a seu rosto uma bondade de sofrimento, como uma auréola:
— Bem, disse então Martim virando-se sem pressa, adeus. Vitória pareceu despertar:
— Que é que o senhor queria?
O olhar de ambos se cruzou e se penetrou sem que um encontrasse nada no outro, como se os dois já tivessem visto muitos outros rostos. Ambos pareciam saber por experiência que aquela era uma das muitas cenas a serem esquecidas. E como se ambos soubessem o que significa essa capacidade de isenção, sem se dar conta do motivo, um procurou calcular a idade do outro. A mulher há muito passara dos cinqüenta. O homem estava pelos seus quarenta. A mulata esperava rindo. Parte da cabeça do homem continuou teimosamente ocupada em procurar determinar o elo que lhe escapara: em que mo¬mento a mulata aparecera?
O que fez com que de novo ele perdesse outro elo impor¬tante: passos miúdos se tinham aproximado e Martim mal teve tempo de distinguir a figura de uma menina preta antes que esta se escondesse como um pássaro dentro de uma moita.
Quando chegou ao ponto da encosta de onde só poderia descer, divisou a casa rodeada de terras verdes lá embaixo, como a seus pés, mas num tamanho diminuto que lhe deu uma idéia da verdadeira distância. Começou então a descer o declive, suavemente encorajado nas costas pelo próprio declive. Guiado pela sede como único pensamento, o homem não sentiu os pas¬sos progressivos e achou-se enfim no mesmo nível do seguinte: a casa distante, um outro homem que ao longe estava sentado sob uma árvore, vários cachorros espalhados pelo chão.
Agora Martim viu o casarão em pé de igualdade: era maior do que pensara e havia um denso agrupamento de árvores es¬curas, ele não podia saber a que espaço da casa mas certamente apenas aos fundos desta. O fim escuro do bosque se confundiu com a própria distância, e moveu-se para a frente e para trás aos seus olhos, como para um homem que pisa em terra firme depois do alto-mar.
Com a leveza do cansaço, como se usasse sapatos de tênis, ele avançava. Uma elegância astuciosa já o tomara: ele estava se preparando para defrontar gente. E quanto mais se aproxi¬mava, mais reconhecia aquele quieto tumulto de vida que horas antes ele farejara e ao qual parecia ter dado o nome íntimo de “ideal” — e que agora, mesmo ainda não dividido em sons, lhe era familiar. Sem a falsa alegria do alto da encosta, que se tor¬nara apenas morto passado, e sem nenhuma promessa; mas assegurador como um lugar onde há água. Sua tontura radiosa do alto da encosta já se transformara em sede apenas, e em indistinta esperteza. É verdade que o roxo céu altíssimo ainda o embebedava um pouco.
Ele avançava flexível. A essa altura sua cabeça vazia já não lhe era mais de nenhum socorro. Na verdade seu avanço parecia ser guiado unicamente pelo fato daquele homem estar entre terra e céu. E o que o sustentava era a impessoalidade extraordi¬nária que ele alcançara, como um rato cuja única individualidade é aquilo que ele herdou de outros ratos. Essa impessoalidade, o homem a manteve em leve repressão de si próprio como se soubesse que, do momento em que se tornasse ele mesmo, cairia emborcado no chão. A própria extrema individualidade que ele tinha alcançado na montanha não devia ter sido senão um es-pasmo da cega totalidade com que ele avançava: levitado pelo cansaço, transladava-se sem sentir os pés tocarem no chão, tendo como único ponto fixo a esperá-lo a nítida casa cada vez maior, cada vez maior. Muito erguida dentro daquela finura de ar que a envolvia e que seria, por mais intocável, o que tanto prende¬ria aquele homem àquele lugar.
Embora soubesse que os cães inquietos já o haviam pres¬sentido, postou-se atrás de uma árvore para observar. Afastando ramos podia investigar bem a situação da casa, agora totalmente visível. O que o confundia é que, bem maior que a casa, era a formiga na folha perto do olho que espiava, emoldurando — eqüestre, ruiva, monumento de um instante — a sua visão. Martim sacudiu várias vezes a cabeça até se libertar do tamanho que a monstruosa formiga tomara.
O andar mais alto da casa não acompanhava a extensão maior do andar térreo, e alteava-se em canhestra torre. Martim, na sua vida anterior, aprendera a almejar torres; sentiu, pois, uma grande satisfação. À beira da casa, tufos de margarida for¬maram a seus olhos cansados nuvens amareladas e vacilantes.
Mas se com a aproximação a casa ganhara em nitidez, per- dera a síntese anterior da distância. E de detrás da árvore o olhar do homem não conseguiu reunir numa única visão a falta de lógica do que via: um alpendre coberto de telhas, janelas que o simples cálculo não lhe ajudou a descobrir para onde po¬deriam dar, portas que estavam entreabertas para ele nada per¬ceber senão a sombra criada pela distância; cercas delimitando cantos que não seriam cantos se não houvesse as cercas arbitrá¬rias. Via-se que aquilo tudo se fizera aos poucos, acrescentando-se à mercê da necessidade ou da fantasia. Era um lugar pobre e pretensioso. Ele gostou logo.
Dando-se conta do que poderia haver de suspeito em estar escondido atrás da árvore, o homem afinal se expôs. Sem sentir, abrira um pouco os braços demonstrando que era indefeso. E à medida em que avançava — recebido pelos cachorros que agora latiam furiosos — percebeu de longe a figura indistinta movendo-se no alpendre.
Já perto dele, porém, estava o homem sentado no chão sob a árvore. O homem comia, e o cheiro de comida fria nau¬seou Martim de desejo. Seu rosto se tornou urgente, tímido e vil como quando uma cara implora. O cheiro voltou-lhe cru ao nariz, ele quase vomitou de nojo, tão puro estava de comida. Mas seu corpo ganhara um impulso novo, os passos difíceis o ultrapassaram — e em breve ele estava à frente do homem, olhando-o com minuciosa sofreguidão.
Sem interromper o mastigar, o trabalhador olhava fixa¬mente para os próprios pés descalços como se deliberadamente não visse o estranho. Com a agudez que a fome dera à sua per¬cepção, Martim não se deixou ludibriar: uma comunicação muda se estabelecera entre ambos como dois homens numa arena, e aquele que não o olhava aguardava para poder saltar. Um leve prazer de raiva tomou então Martim, em vaga promessa de luta que ele só conseguiu manter por um instante. Ter tido uma sensação de força cobriu sua testa de suor frio. Uma alegria levíssima pôs-lhe algum cinismo no rosto.
— De quem é este sítio? perguntou cedendo afinal ao silêncio mais poderoso do outro.
O homem descalço não estremeceu sequer. Afastou deva¬gar o prato, enxugou a boca farta:
— Isto tudo é dela, disse lento fazendo um gesto com a cabeça, e Martim, seguindo com os olhos franzidos a direção apontada, viu agora de mais perto a figura no alpendre. Sou daqui também, acrescentou o homem acompanhando a infor¬mação com um falso bocejo.
Quem fizesse o primeiro movimento dúbio teria dado di¬reito ao outro. A tarde estava linda, clara.
— Eu me perdi, disse Martim suave.
— Saindo de Vila muita gente se perde por aqui, disse o outro ainda mais suave.
— De Vila?
— De Vila Baixa, disse o homem apontando vagamente a cabeça para a esquerda, e pela primeira vez erguendo os olhos com uma desconfiança declarada.
Martim olhou, e à esquerda nada havia senão a infinita extensão de terra, o céu mais baixo e mais sujo. Sentindo-se examinado, tornou-se ainda mais macio:
— Foi o que me aconteceu, disse. Vou voltar para Vila Baixa. Mas antes queria um pouco d’água. Quero água! disse-lhe então arriscando-se totalmente.
O homem olhou-o com fixidez. Em trégua de luta mediu a sede do outro. No seu olhar não havia misericórdia mas humano reconhecimento — e, como se as duas lealdades se encontrassem, olharam-se limpos nos olhos. Que aos poucos foram se enchendo de alguma coisa mais pessoal. Não era ódio — era um amor ao contrário, e ironia, como se ambos despre¬zassem a mesma coisa.
— Só lá dentro, disse afinal o trabalhador. Ergueu-se com uma dificuldade fingida e uma lentidão deliberada. De pé, por um instante os estranhos se mediram com o olhar. A raiva mútua fez com que se olhassem e nada tivessem a se dizer. Embora um permitisse a raiva no outro como inimigos que se respeitam antes de se matarem. Mais fraco que a tranqüila potência do outro, Martim foi o primeiro a desviar os olhos. O outro aceitou sem tirar proveito. Martim, de novo experimentando o cálido contato de uma aversão, co¬meçou a andar rumo a casa, seguido a certa distância pelo vencedor e sentindo na nuca a sua ameaça calma.
Os cães rosnavam indecisos, contendo o esfogueteamento e a alegria de uma luta. A tarde toda, aliás, era de uma grande alegria tranqüila. Um cachorro manco se agregou penoso aos outros, numa aflita expectativa de inválido. Tudo era suave e estimulantemente perigoso, no fundo ninguém parecia se impressionar com o que estava acontecendo, e todos apenas gozavam a mesma oportunidade. As coisas rodavam um pouco, felizes fora de hora. Por Deus, nunca vi nada tão redondo, pensou o homem entontecido. Um cão mais negro de repente afundou a tarde como se Martim tivesse caído num buraco insuspeito. Foi esse cão que o alertou vagamente e pareceu lhe lembrar outras realidades. Ele se sentia tão leve que estava mesmo precisando amarrar uma pedra no pescoço. Então for¬çou-se com dificuldade a lembrar-se. Mas, para a sua própria desvantagem, o lugar era bonito demais, e para a sua própria desvantagem ele estava se sentindo bem — o que lhe tirava da percepção a sua principal utilidade de luta.
O sítio ou fazenda não era muito grande, se se considerasse apenas a parte coberta de trabalho: algumas casinholas quebra¬das, o curral, o campo lavrado. Mas seria enorme se também se contasse com as terras largadas que, em alguns pontos, só para assinalar posse, a cerca mal traçada delimitava. O verde das árvores se balançava sujo, folhas novas espiavam entre as empoeiradas.
As raízes eram grossas e cheirosas naquele fim de tarde — e provocaram em Martim uma inexplicável fúria de corpo como um amor indistinto. Faminto que estava, os cheiros o excitavam como a um cachorro esperançoso. A terra, numa promessa de doçura e submissão, parecia friável — e Martim, aparentemente sem outra intenção que a do contato, abaixou-se e quase sem interromper os passos tocou-a um instante com os dedos. Sua cabeça se tonteou ao contato delicioso da umi¬dade, ele se apressou de boca aberta. Mais perto da casa, viu que o alpendre estava agora vazio. O telhado do curral caía aos pedaços, parecia em certos pontos sustentado apenas pela pró¬pria altura do gado invisível, cujos movimentos revolviam len¬tamente a luz vazia.
A água da lata enferrujada escorreu de sua boca para o peito, ensopou a roupa dura de poeira. Do curral veio de novo um tranqüilo mover-se de patas. O sol desaparecera, e uma claridade infinitamente delicada dava a cada coisa a sua calma forma final. Uma casinhola à parte tivera uma porta, cuja lembrança não existia mais senão nos gonzos vazios. Martim molhava o rosto e os cabelos — e mais adiante estava a coberta tosca de garage...
Tendo chegado ao tenso limiar do impossível, Martim re¬cebeu o milagre como o único passo natural ao seu encontro. Não havia como não aceitar o que acontecia pois para tudo o que pode acontecer um homem nascera. Ele não se perguntou se o milagre era a água que o encharcava até a saturação, ou o caminhão sob a garage de lona, ou a luz que se evaporava da terra e da boca iluminada dos cães. Como um homem que alcança, ali estava ele exausto, sem interesse nem alegria. Estava envelhecido como se tudo o que lhe pudesse ser dado já viesse tarde demais.
Sob a coberta, o caminhão velho mas perfeitamente limpo e cuidado. E os pneus? ocorreu-lhe. Seus olhos míopes não distinguiam os detalhes dos pneus. A dificuldade, enchendo-o da dúvida da esperança, rejuvenesceu-o. Depositou fascinado e lento a lata na terra e, com os cílios gotejando, examinou o caminhão, abaixou-se para olhar os pneus calculando suas possi¬bilidades em termos de quilômetros.
— Que é que o senhor deseja, perguntou uma voz baixa e serena.
Sem susto nem pressa, Martim voltou o corpo todo. E seu rosto defrontou um rosto inquisitivo de mulher. Atrás de si, sentiu o homem parado em guarda. Acercou-se do alpendre, gingando devagar. A fome acendia-lhe os olhos em grande ma¬lícia, os lábios escuros sorriam rachando. Ao pé do alpendre, o chão estava coberto de papoulas púrpura, caídas e amontoa¬das. Aquela visão pareceu ao homem a da fartura e da abastança. Olhou as flores vivas, umas despetaladas, outras ainda por abrir em desperdício tranqüilo: seus olhos piscaram de cobiça. Percebia tudo ao mesmo tempo, gingando, gozando a limpidez dos olhos que era a da própria luz.
Mas, sem que soubesse de onde, aparecera de alguma parte uma mulata moça de cabelos enrolados em cachos, e que ali se postara com olhos rápidos, rindo. Não só Martim não sabia de onde ela viera, como em que momento aparecera — o que fez com que ele tomasse cautelosa consciência da possibilidade de outras coisas estarem também lhe escapando. Os cachorros haviam se aproximado arfando, sem coragem de atacar. O vento e o silêncio os rodeavam. O homem sungou o cinturão.
— Então, que é que o senhor deseja.
— Eu estava olhando, respondeu sem pudor.
E aprumou o torso fazendo um esforço de ser citadino.
— Disto eu sei, disse a mulher do alpendre.
— Ele estava com sede, é o que diz, falou o homem atrás de Martim, e a mulher ouviu-o sem no entanto desviar os olhos do estrangeiro.
— Já bebi, disse este com alguma candura, apontando a lata vazia. O sol estava quente, acrescentou mudando a posição das pernas.
Martim tinha uma qualidade de cujo gozo não usufruía porque essa qualidade era ele próprio — uma qualidade a que, em determinadas circunstâncias favoráveis, poucas mulheres resistiriam: a da inocência. O que despertava certa cobiça cor¬rupta numa mulher que é sempre tão maternal e gosta de coisas puras. Salvaguardada a pureza, a mulher era um ogre. A mulher do alpendre olhou-o então com muita frieza:
— Que o senhor bebeu, eu também sei.
De algum modo tudo o que ainda iria suceder àquela mu¬lher já estava acontecendo naquele instante. Ele o percebeu do seguinte modo indireto: passou a mão pela testa.
O excesso de água bebida borbulhava dentro dele, e deu-lhe uma náusea que se confundiu com uma avidez de sono ou de vômito, e a seu rosto uma bondade de sofrimento, como uma auréola:
— Bem, disse então Martim virando-se sem pressa, adeus. Vitória pareceu despertar:
— Que é que o senhor queria?
O olhar de ambos se cruzou e se penetrou sem que um encontrasse nada no outro, como se os dois já tivessem visto muitos outros rostos. Ambos pareciam saber por experiência que aquela era uma das muitas cenas a serem esquecidas. E como se ambos soubessem o que significa essa capacidade de isenção, sem se dar conta do motivo, um procurou calcular a idade do outro. A mulher há muito passara dos cinqüenta. O homem estava pelos seus quarenta. A mulata esperava rindo. Parte da cabeça do homem continuou teimosamente ocupada em procurar determinar o elo que lhe escapara: em que mo¬mento a mulata aparecera?
O que fez com que de novo ele perdesse outro elo impor¬tante: passos miúdos se tinham aproximado e Martim mal teve tempo de distinguir a figura de uma menina preta antes que esta se escondesse como um pássaro dentro de uma moita.
Por Isabelle Barros
Praça Maciel Pinheiro, Boa Vista, centro do Recife. Lugar onde Clarice Lispector (1920-1977) passou alguns dos anos mais importantes de sua infância e a fez afirmar, em entrevista próxima à sua morte: “O Recife está todo em mim”. Para evocar a memória da moradora ilustre, o lugar abriga uma das 12 estátuas de concreto que integram o Circuito da Poesia, homenagem feita a artistas que tiveram Pernambuco como parte integrante de sua vida e obra. Esta é uma imprecisão histórica, pois a escritora jamais publicou poemas.
A Clarice de cimento está sentada, com a máquina de escrever no colo. Tem como vizinhança os trapos da lendária Juraci, moradora de rua conhecida como a Rainha do Real. Dizem os taxistas da região que, de vez em quando, ônibus escolares e turísticos fazem uma rápida parada para tirar fotos da escultura antes de seguirem viagem. A atenção atraída pela homenagem é medida por outra variável, distante do mundo literário. “Não tem aquele abajur vermelho ali, ao lado da estátua? Sempre roubam”, alertam os flanelinhas.
Era sábado de liquidação nas lojas de móveis dos arredores. No meio do burburinho, uma família de classe média fazia imagens de todos os ângulos da praça. Quem empunhava a câmera era uma mulher, de aproximadamente 40 anos, que fazia parte de um clube de fotografia chamado Amantes da Zona Norte. Pergunto se ela estaria lá também para ver a antiga casa da escritora. Ela, a princípio, nega, mas se apressa a dizer que adora a obra de Clarice e vai, sim, tirar fotos do sobrado de número 387. “Ela é muito do nosso dia-a-dia, não é?”. A frase tamborila nos ouvidos. Não deixa de ser irônico ouvir isso a respeito de uma escritora conhecida por seus saltos metafísicos, com trechos de tons epifânicos procurando tatear um espaço além da linguagem.
Mais do que qualquer outro autor da língua portuguesa, Clarice virou um fenômeno pop, ao mesmo tempo em que se transformou em uma espécie de panaceia intelectual. Sua obra, dedicada ao espanto do estar no mundo, passou a ser considerada como prova de bom gosto em presentes de aniversário ou usada em epígrafes ao final de e-mails. “Em vida, ela era admirada principalmente por intelectuais e artistas. Próximo à sua morte, também atraiu os leitores da classe media carioca que a conheceram por meio de suas crônicas no Jornal do Brasil. Ela chega tão ao âmago das pessoas que nos vemos refletidos nela como em poucos escritores - até diria em nenhum escritor - que conheço. “Clarice escreveu: ‘Eu sou vós mesmos’. Então, eu diria: as pessoas esperam tudo dela. E, hoje, ela se tornou realmente um objeto de culto”, avalia o escritor e autor da biografia Clarice, Benjamin Moser.
CLARICE, A ELEITA
A profundidade e amplidão de sua literatura, junto à sua figura misteriosa, propensa a mitificações, a tornaram uma tábula rasa, sobre a qual nenhuma interpretação parece ser suficientemente absurda. Quem a lê e se deixa envolver por sua prosa quer tomá-la para si, o que acontece até hoje com intelectuais, estudantes, celebridades. Pilhas de livros tentaram compreendê-la, ligá-la ao feminismo, ao judaísmo e até ao zen-budismo. As hipóteses para decodificar esse estado de coisas são variadas. “Ela não era banal. Ucraniana, falava iídiche e teve uma vida de peripécias. Belíssima, tinha mesmo tudo para se transformar em ícone. As pessoas se identificam porque a sensibilidade dela está em um ponto entre a mulher e o homem. Ainda não há quem possa ocupar o seu lugar”, avalia a poetisa e professora de Letras da UFPE, Lucila Nogueira.
Para o crítico literário e escritor José Castello, sua morte deu curso a um processo involuntário e, ao mesmo tempo, relativamente comum a quem se destaca como artista: o de santificação. “Quando Clarice estava viva, muita gente dizia que ela era uma mulher desequilibrada, difícil, intratável até. Que escrevia uma literatura ilegível, que não passava de um transe. O que não tem relação alguma com sua grandeza como escritora. Ela é um dos maiores nomes da literatura em língua portuguesa em todos os tempos, mas não foi uma mulher perfeita. Ao contrário, acentuou sempre sua humanidade e sua imperfeição. Sua literatura, em vez de explicar, abre um rombo. Ela nos deixa diante da fragilidade absoluta do existir”.
Outra razão apontada pelo interesse despertado por essa brasileira nascida na Ucrânia é a divulgação consistente de seus livros ao longo das últimas décadas. Atualmente, a editora Rocco é a única dona dos direitos de publicação de seu material, o que facilita as reedições. “É preciso lembrar uma coisa: a obra de Clarice Lispector sempre teve repercussão significativa. Ela mesma declarou ter recebido muitas cartas e telefonemas dos leitores. O investimento em publicações após sua morte, as inúmeras adaptações de sua obra para o teatro e o cinema e a organização de exposições também ajudaram a mantê-la em evidência”, sentencia a pesquisadora Teresa Montero, autora da biografia Eu sou uma Pergunta, lançada em 1999, e organizadora de seis dessas edições póstumas. “A ampliação dos meios de comunicação também tornaram possível uma circulação mais rápida de seus livros”, emenda.
O resultado disso é uma constante renovação dos leitores, o que a reveste de uma característica adicional. “Ela é muito lida por adolescentes entre 15 e 20 anos, mas continua sendo procurada após essa fase da vida, ao contrário de outros criadores. Quem cai de amores, vai lê-la sempre, o que não ocorre com outros autores de romances de formação”, observa o professor de Letras da UFPE, Anco Márcio. “É como se o escritor criasse uma ambiência, um modo de estar no mundo talvez almejado pelo leitor. A literatura revela o mundo e Clarice tinha essa consciência”.
CLARICE E A INTERNET
A internet opera um papel especial – e ambíguo - com relação ao legado da autora de A hora da estrela. Frases retiradas de contexto se tornaram aforismos a serem pinçados de sites, onde disputam espaço com anúncios de compras coletivas e de encontros amorosos. Trechos das obras se multiplicam em redes sociais como Orkut, Twitter e Facebook, vocalizando os mais diversos estados de espírito para pessoas as mais surpreendentes.
Um exemplo curioso é o da autointitulada atriz, apresentadora e empresária Ângela Bismarchi. Conhecida por suas apresentações no Carnaval carioca e pelas especulações sobre quantas vezes já passou por cirurgias plásticas, ela citou a escritora em seu perfil no Twitter. “Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito”. Perguntei se ela já havia lido algum livro de Clarice Lispector, mas não houve resposta. “Acho que essas passagens (da internet) são sintomas do nosso tempo. É uma carência das pessoas. Vivemos numa época muito impessoal. E essa obra tão singular é dada a frases lapidares, então é possível fragmentar sua obra dessa forma”, diz Lucila.
No dia 1º de setembro, foram colocados mais alguns tijolos no muro de admiração construído em torno da imagem da escritora. A partir de uma coluna do jornal O Globo, espalhou-se o boato de que a atriz Meryl Streep viveria Clarice no cinema. A “barriga” repercutiu nos meios de comunicação do país inteiro e entrou nos trending topics do Twitter, com reações variando entre a histeria (“Seria a glória!”) e o enfado (“Já pode dar block nesse filme?”). Difícil foi ficar indiferente. “Acho que devemos colocar isso como mais um exemplo da ‘lenda de Clarice Lispector’. Só fiquei sabendo pelo filho dela, que viu essa história no jornal e teve de passar dias e dias desmentindo. Acho fascinante ver como sua obra tem se expandido depois de sua morte, como se ela ainda escrevesse”, pontua Moser.
É fácil encontrar quem se disponha a espalhar pílulas de Clarice em 140 caracteres. Pululam no Twitter perfis como @FrasesdeClarice, @C_Lispector, @clariclispector e afins. O mais popular deles, @clalispector, tem pouco mais de 159 mil seguidores e foi criado por Lucas Freire, designer, escritor em formação e mantenedor do blog Conversa oca. “As frases que eu posto tem, em média, mais de 500 retweets. As que contêm as palavras ‘amor’ ou ‘paixão’ são sempre as mais populares, mas não acho isso bom. A maioria das pessoas não separa um minuto para prestar atenção, tentar captar o que aquilo representa. Parece inacreditável, mas muita gente quer entrar em contato com a Clarice Lispector em pessoa, e não comigo. Há até quem responda ‘eu te amo’. Tenho de relembrar várias vezes aos seguidores da minha conta que ela morreu há mais de 30 anos, e quem tuíta sou eu, um leitor”.
Entre os sites de divulgação feitos por admiradores, o mais acessado é o blog Clarice Lispector, alimentado pela historiadora e poetisa Keidy Costa, de Natal. A página tem mais de 500 mil pageviews e uma média de 1300 visitas diárias. A ideia é reunir tudo o que Clarice escreveu para uso pessoal. “O conteúdo reflete a minha disponibilidade de tempo, o livro que leio no momento e a necessidade de levar ao conhecimento público um trecho de uma obra que deixo de citar por muito tempo”. Embora acredite que gostar de Clarice se tornou moda, ela não acredita que a obra dela se torne “gasta” algum dia. “Sempre há alguém querendo se libertar por meio de seus escritos. O importante é as pessoas desenvolverem o hábito de lê-la, seja algumas frases ou a obra inteira”.
A escritora dispõe de outros indicadores de popularidade mais controversos, como a profusão de escritos atribuídos a ela cuja autenticidade é duvidosa. Para verificar isso, basta digitar “Clarice Lispector poemas” em qualquer site de busca. Um dos links tem como resultado os versos “Não te amo mais / Estarei mentindo dizendo que / Ainda te quero como sempre quis”, com a indicação de leitura na ordem inversa. Não é preciso ler mais para descartar a suposição de autoria. “Uma das maiores deferências que se pode fazer a um escritor é colocar o nome dele em algo feito por outros. É como se o apropriador dissesse: eu não mostro minha cara, mas digo tudo o que tenho para dizer por meio desse artista”, observa Anco.
NÃO ESTOU LÁ
Em certos casos, a atenção dispensada à obra de Clarice chega às raias da falsidade ideológica, como ilustra uma experiência vivida por Moser. “Alguém no Pará tentou me vender uma segunda edição autografada de A hora da estrela. Achei muito interessante, pois a primeira foi publicada semanas antes da morte de Clarice. Tenho um desses raríssimos livros autografados. Mas, para mim, a segunda edição seria mais rara ainda, pois não sabia de nenhuma reimpressão feita antes de sua morte”. Para se garantir, o biógrafo pediu uma foto da dedicatória e da página de copyright. “Lá, havia o seguinte: ‘Lispector, Clarice, 1925-1977 ... José Olympio, 1978.’. Ela estava autografando livros depois de sua morte! Por um lado, essa fraude é muito séria, ainda que malfeita, mas é possível ver esse caso como uma perversa homenagem”.
A ânsia em ver Clarice mesmo onde ela não existe levou até a pendengas judiciais. Em 1997, o empresário e escritor Edson Marques diz ter escrito o poema Mude, atribuído posteriormente a autores tão díspares quanto Pedro Bial, Paulo Coelho, Cecília Meireles e também à caçula da família Lispector. “O que pode ter levado as pessoas a supor que meu poema é ‘de Clarice’, imagino, é que ambos escrevemos bem. E que ambos, cada um a seu modo, somos existencialistas. Os temas dela são o amor e a liberdade, a solidão e o nada. E as pessoas geralmente gostam disso. Vistos de bem perto, nossos estilos não se parecem, mas, no fundo, sinto-me altamente lisonjeado por ser ‘confundido’ com ela”.
Mas, em 2001, quando os versos foram declamados no comercial de uma montadora, o autor entrou com uma ação contra o filho da escritora, Paulo Gurgel Valente, que supostamente teria vendido os direitos à agência de publicidade que detinha a conta da multinacional. A ação está em segunda instância. Na primeira, o ganho de causa foi de Edson. “A maioria dos leitores de Clarice não acredita que sou eu o autor, mesmo depois de ter publicado o registro na Biblioteca Nacional. Seus fãs se recusam a supor que tal poema não seja dela”. Mesmo que a escritora tivesse, algum dia, escrito poemas, a leitura rápida de dois versos não deixa margem a especulações estilísticas. “O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. / Só o que está morto não muda”.
CLARICE E A HISTERIA
Se os livros de Clarice pedem a renúncia à ideia de um cotidiano plácido para dar lugar à intensidade da experiência humana, o efeito que sua obra causa em seus leitores dá margem a reações exaltadas. É famoso o episódio no qual a cantora Maria Bethânia, contrariando sua postura reservada, se curvou diante de Clarice e exclamou “minha deusa!”, para desgosto da escritora. Outro exemplo é um comentário retirado da postagem de uma entrevista de Clarice Lispector no YouTube. “Não se gosta de Clarice como se gosta de abacaxi! Você não gosta de Clarice, você ama Clarice! Você não entende Clarice, você sente Clarice!”. Doze pessoas “curtiram” essa observação no site. “Vivemos uma era de tecnologia avançada, mas nosso fascínio pelos mitos se parece com o dos homens primitivos. Muitos adotam Clarice como Grande Mãe, outros a odeiam como uma bruxa doida. As duas posições conduzem à mesma cegueira diante de Clarice e de sua obra. A propósito, a literatura dela fala justamente disso. É uma questão de lê-la com atenção, sem idealização”, reflete Castello.
Tanta paparicação de seus leitores também dá margem a reações de desagrado, embora Clarice esteja em uma situação próxima da unanimidade. “Vejo certa irritação na área de Letras, pois ela é uma das escritoras mais lidas e, ao mesmo tempo, faz parte de uma vanguarda. Ainda vivemos em um país muito machista, e pessoas de visão conservadora talvez se chateiem com seus textos”, opina Lucila. Segundo a poetisa, é surpreendente que ela seja bem aceita em um país como o Brasil, onde a expressão mais adotada é o realismo, situação muito diferente do resto da América Latina. “Basta ver qual é o maior escritor brasileiro vivo: Rubem Fonseca. Clarice, por sua vez, não pode ser chamada de realista”.
Não à toa, quem se identifica com a autora se dá o nome de “clariciano” ou “clariciana”, como se fosse membro de um universo à parte, uma comunidade secreta. Para Castello, Clarice é vítima de muitos preconceitos. Eles começam não com seus inimigos, mas com seus admiradores. “Alguns a leem como uma filósofa, outros como uma bruxa, outros ainda como um mestre. Ou seja: congelam suas ideias, transformam-nas em ‘lições’, reduzem-na a meia dúzia de chavões. Mas transformá-la em mestre das grandes respostas é recusá-la, é não ler o que ela escreveu”.
Muitas vezes, essa leitura redutora ou incompleta não é privilégio duvidoso de neófitos ou desavisados. “A impressão geral é de que ninguém entende o que ela de fato escreveu, exceto os textos mais elementares, como Laços de família. A paixão segundo G.H e Água viva já são outra história. Durante uma das minhas aulas, perguntei a meus alunos sobre o que esse último livro tratava e ninguém soube responder”, recorda Lucila.
Castello argumenta que Clarice foi um gênio e eles são, quase sempre, reduzidos a imagens grandiosas e fixas. E que a literatura dela não foi feita para jogos de espíritos de intelectuais, ou divertimentos para beiras de piscinas e salas de espera de aviões. “Isso mata seu pensamento e a mata pela segunda vez. Ela coloca-nos diante do humano, sempre vivo e por isso mesmo instável e ‘sem solução’. Mas as pessoas, em geral, não suportam isso, então a transformam numa autora de frases do ‘bem viver’ e assumem o papel de seguidores. Formam-se comunidades, séquitos, clubes. Ela odiaria tudo isso”.
Dona de uma obra que devassa o íntimo do leitor, como se o atravessasse, Clarice paira acima da vida e da morte para seus leitores, para o bem e para o mal. Uma pista sobre o que Clarice realmente pensaria de toda a atenção em torno de si após sua morte estaria em seus textos, como nas palavras escritas em Um sopro de vida (Pulsações), da fase final de sua carreira. “Quando acabardes este livro chorai por mim um aleluia. Quando fechardes as últimas páginas deste malogrado e afoito e brincalhão livro da vida então esquecei-me. Que Deus vos abençoe então e este livro acabará bem. Para enfim eu ter repouso. Que a paz esteja entre nós, entre vós e mim. Estou caindo no discurso? Que me perdoem os fieis do templo: eu escrevo e assim me livro de mim e posso, então, descansar”.
Isabelle Barros é jornalista e mestranda em Comunicação Social
Fonte: http://www.suplementopernambuco.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=437&Itemid=2
Parte 2: http://www.suplementopernambuco.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=440&Itemid=2
Praça Maciel Pinheiro, Boa Vista, centro do Recife. Lugar onde Clarice Lispector (1920-1977) passou alguns dos anos mais importantes de sua infância e a fez afirmar, em entrevista próxima à sua morte: “O Recife está todo em mim”. Para evocar a memória da moradora ilustre, o lugar abriga uma das 12 estátuas de concreto que integram o Circuito da Poesia, homenagem feita a artistas que tiveram Pernambuco como parte integrante de sua vida e obra. Esta é uma imprecisão histórica, pois a escritora jamais publicou poemas.
A Clarice de cimento está sentada, com a máquina de escrever no colo. Tem como vizinhança os trapos da lendária Juraci, moradora de rua conhecida como a Rainha do Real. Dizem os taxistas da região que, de vez em quando, ônibus escolares e turísticos fazem uma rápida parada para tirar fotos da escultura antes de seguirem viagem. A atenção atraída pela homenagem é medida por outra variável, distante do mundo literário. “Não tem aquele abajur vermelho ali, ao lado da estátua? Sempre roubam”, alertam os flanelinhas.
Era sábado de liquidação nas lojas de móveis dos arredores. No meio do burburinho, uma família de classe média fazia imagens de todos os ângulos da praça. Quem empunhava a câmera era uma mulher, de aproximadamente 40 anos, que fazia parte de um clube de fotografia chamado Amantes da Zona Norte. Pergunto se ela estaria lá também para ver a antiga casa da escritora. Ela, a princípio, nega, mas se apressa a dizer que adora a obra de Clarice e vai, sim, tirar fotos do sobrado de número 387. “Ela é muito do nosso dia-a-dia, não é?”. A frase tamborila nos ouvidos. Não deixa de ser irônico ouvir isso a respeito de uma escritora conhecida por seus saltos metafísicos, com trechos de tons epifânicos procurando tatear um espaço além da linguagem.
Mais do que qualquer outro autor da língua portuguesa, Clarice virou um fenômeno pop, ao mesmo tempo em que se transformou em uma espécie de panaceia intelectual. Sua obra, dedicada ao espanto do estar no mundo, passou a ser considerada como prova de bom gosto em presentes de aniversário ou usada em epígrafes ao final de e-mails. “Em vida, ela era admirada principalmente por intelectuais e artistas. Próximo à sua morte, também atraiu os leitores da classe media carioca que a conheceram por meio de suas crônicas no Jornal do Brasil. Ela chega tão ao âmago das pessoas que nos vemos refletidos nela como em poucos escritores - até diria em nenhum escritor - que conheço. “Clarice escreveu: ‘Eu sou vós mesmos’. Então, eu diria: as pessoas esperam tudo dela. E, hoje, ela se tornou realmente um objeto de culto”, avalia o escritor e autor da biografia Clarice, Benjamin Moser.
CLARICE, A ELEITA
A profundidade e amplidão de sua literatura, junto à sua figura misteriosa, propensa a mitificações, a tornaram uma tábula rasa, sobre a qual nenhuma interpretação parece ser suficientemente absurda. Quem a lê e se deixa envolver por sua prosa quer tomá-la para si, o que acontece até hoje com intelectuais, estudantes, celebridades. Pilhas de livros tentaram compreendê-la, ligá-la ao feminismo, ao judaísmo e até ao zen-budismo. As hipóteses para decodificar esse estado de coisas são variadas. “Ela não era banal. Ucraniana, falava iídiche e teve uma vida de peripécias. Belíssima, tinha mesmo tudo para se transformar em ícone. As pessoas se identificam porque a sensibilidade dela está em um ponto entre a mulher e o homem. Ainda não há quem possa ocupar o seu lugar”, avalia a poetisa e professora de Letras da UFPE, Lucila Nogueira.
Para o crítico literário e escritor José Castello, sua morte deu curso a um processo involuntário e, ao mesmo tempo, relativamente comum a quem se destaca como artista: o de santificação. “Quando Clarice estava viva, muita gente dizia que ela era uma mulher desequilibrada, difícil, intratável até. Que escrevia uma literatura ilegível, que não passava de um transe. O que não tem relação alguma com sua grandeza como escritora. Ela é um dos maiores nomes da literatura em língua portuguesa em todos os tempos, mas não foi uma mulher perfeita. Ao contrário, acentuou sempre sua humanidade e sua imperfeição. Sua literatura, em vez de explicar, abre um rombo. Ela nos deixa diante da fragilidade absoluta do existir”.
Outra razão apontada pelo interesse despertado por essa brasileira nascida na Ucrânia é a divulgação consistente de seus livros ao longo das últimas décadas. Atualmente, a editora Rocco é a única dona dos direitos de publicação de seu material, o que facilita as reedições. “É preciso lembrar uma coisa: a obra de Clarice Lispector sempre teve repercussão significativa. Ela mesma declarou ter recebido muitas cartas e telefonemas dos leitores. O investimento em publicações após sua morte, as inúmeras adaptações de sua obra para o teatro e o cinema e a organização de exposições também ajudaram a mantê-la em evidência”, sentencia a pesquisadora Teresa Montero, autora da biografia Eu sou uma Pergunta, lançada em 1999, e organizadora de seis dessas edições póstumas. “A ampliação dos meios de comunicação também tornaram possível uma circulação mais rápida de seus livros”, emenda.
O resultado disso é uma constante renovação dos leitores, o que a reveste de uma característica adicional. “Ela é muito lida por adolescentes entre 15 e 20 anos, mas continua sendo procurada após essa fase da vida, ao contrário de outros criadores. Quem cai de amores, vai lê-la sempre, o que não ocorre com outros autores de romances de formação”, observa o professor de Letras da UFPE, Anco Márcio. “É como se o escritor criasse uma ambiência, um modo de estar no mundo talvez almejado pelo leitor. A literatura revela o mundo e Clarice tinha essa consciência”.
CLARICE E A INTERNET
A internet opera um papel especial – e ambíguo - com relação ao legado da autora de A hora da estrela. Frases retiradas de contexto se tornaram aforismos a serem pinçados de sites, onde disputam espaço com anúncios de compras coletivas e de encontros amorosos. Trechos das obras se multiplicam em redes sociais como Orkut, Twitter e Facebook, vocalizando os mais diversos estados de espírito para pessoas as mais surpreendentes.
Um exemplo curioso é o da autointitulada atriz, apresentadora e empresária Ângela Bismarchi. Conhecida por suas apresentações no Carnaval carioca e pelas especulações sobre quantas vezes já passou por cirurgias plásticas, ela citou a escritora em seu perfil no Twitter. “Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito”. Perguntei se ela já havia lido algum livro de Clarice Lispector, mas não houve resposta. “Acho que essas passagens (da internet) são sintomas do nosso tempo. É uma carência das pessoas. Vivemos numa época muito impessoal. E essa obra tão singular é dada a frases lapidares, então é possível fragmentar sua obra dessa forma”, diz Lucila.
No dia 1º de setembro, foram colocados mais alguns tijolos no muro de admiração construído em torno da imagem da escritora. A partir de uma coluna do jornal O Globo, espalhou-se o boato de que a atriz Meryl Streep viveria Clarice no cinema. A “barriga” repercutiu nos meios de comunicação do país inteiro e entrou nos trending topics do Twitter, com reações variando entre a histeria (“Seria a glória!”) e o enfado (“Já pode dar block nesse filme?”). Difícil foi ficar indiferente. “Acho que devemos colocar isso como mais um exemplo da ‘lenda de Clarice Lispector’. Só fiquei sabendo pelo filho dela, que viu essa história no jornal e teve de passar dias e dias desmentindo. Acho fascinante ver como sua obra tem se expandido depois de sua morte, como se ela ainda escrevesse”, pontua Moser.
É fácil encontrar quem se disponha a espalhar pílulas de Clarice em 140 caracteres. Pululam no Twitter perfis como @FrasesdeClarice, @C_Lispector, @clariclispector e afins. O mais popular deles, @clalispector, tem pouco mais de 159 mil seguidores e foi criado por Lucas Freire, designer, escritor em formação e mantenedor do blog Conversa oca. “As frases que eu posto tem, em média, mais de 500 retweets. As que contêm as palavras ‘amor’ ou ‘paixão’ são sempre as mais populares, mas não acho isso bom. A maioria das pessoas não separa um minuto para prestar atenção, tentar captar o que aquilo representa. Parece inacreditável, mas muita gente quer entrar em contato com a Clarice Lispector em pessoa, e não comigo. Há até quem responda ‘eu te amo’. Tenho de relembrar várias vezes aos seguidores da minha conta que ela morreu há mais de 30 anos, e quem tuíta sou eu, um leitor”.
Entre os sites de divulgação feitos por admiradores, o mais acessado é o blog Clarice Lispector, alimentado pela historiadora e poetisa Keidy Costa, de Natal. A página tem mais de 500 mil pageviews e uma média de 1300 visitas diárias. A ideia é reunir tudo o que Clarice escreveu para uso pessoal. “O conteúdo reflete a minha disponibilidade de tempo, o livro que leio no momento e a necessidade de levar ao conhecimento público um trecho de uma obra que deixo de citar por muito tempo”. Embora acredite que gostar de Clarice se tornou moda, ela não acredita que a obra dela se torne “gasta” algum dia. “Sempre há alguém querendo se libertar por meio de seus escritos. O importante é as pessoas desenvolverem o hábito de lê-la, seja algumas frases ou a obra inteira”.
A escritora dispõe de outros indicadores de popularidade mais controversos, como a profusão de escritos atribuídos a ela cuja autenticidade é duvidosa. Para verificar isso, basta digitar “Clarice Lispector poemas” em qualquer site de busca. Um dos links tem como resultado os versos “Não te amo mais / Estarei mentindo dizendo que / Ainda te quero como sempre quis”, com a indicação de leitura na ordem inversa. Não é preciso ler mais para descartar a suposição de autoria. “Uma das maiores deferências que se pode fazer a um escritor é colocar o nome dele em algo feito por outros. É como se o apropriador dissesse: eu não mostro minha cara, mas digo tudo o que tenho para dizer por meio desse artista”, observa Anco.
NÃO ESTOU LÁ
Em certos casos, a atenção dispensada à obra de Clarice chega às raias da falsidade ideológica, como ilustra uma experiência vivida por Moser. “Alguém no Pará tentou me vender uma segunda edição autografada de A hora da estrela. Achei muito interessante, pois a primeira foi publicada semanas antes da morte de Clarice. Tenho um desses raríssimos livros autografados. Mas, para mim, a segunda edição seria mais rara ainda, pois não sabia de nenhuma reimpressão feita antes de sua morte”. Para se garantir, o biógrafo pediu uma foto da dedicatória e da página de copyright. “Lá, havia o seguinte: ‘Lispector, Clarice, 1925-1977 ... José Olympio, 1978.’. Ela estava autografando livros depois de sua morte! Por um lado, essa fraude é muito séria, ainda que malfeita, mas é possível ver esse caso como uma perversa homenagem”.
A ânsia em ver Clarice mesmo onde ela não existe levou até a pendengas judiciais. Em 1997, o empresário e escritor Edson Marques diz ter escrito o poema Mude, atribuído posteriormente a autores tão díspares quanto Pedro Bial, Paulo Coelho, Cecília Meireles e também à caçula da família Lispector. “O que pode ter levado as pessoas a supor que meu poema é ‘de Clarice’, imagino, é que ambos escrevemos bem. E que ambos, cada um a seu modo, somos existencialistas. Os temas dela são o amor e a liberdade, a solidão e o nada. E as pessoas geralmente gostam disso. Vistos de bem perto, nossos estilos não se parecem, mas, no fundo, sinto-me altamente lisonjeado por ser ‘confundido’ com ela”.
Mas, em 2001, quando os versos foram declamados no comercial de uma montadora, o autor entrou com uma ação contra o filho da escritora, Paulo Gurgel Valente, que supostamente teria vendido os direitos à agência de publicidade que detinha a conta da multinacional. A ação está em segunda instância. Na primeira, o ganho de causa foi de Edson. “A maioria dos leitores de Clarice não acredita que sou eu o autor, mesmo depois de ter publicado o registro na Biblioteca Nacional. Seus fãs se recusam a supor que tal poema não seja dela”. Mesmo que a escritora tivesse, algum dia, escrito poemas, a leitura rápida de dois versos não deixa margem a especulações estilísticas. “O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. / Só o que está morto não muda”.
CLARICE E A HISTERIA
Se os livros de Clarice pedem a renúncia à ideia de um cotidiano plácido para dar lugar à intensidade da experiência humana, o efeito que sua obra causa em seus leitores dá margem a reações exaltadas. É famoso o episódio no qual a cantora Maria Bethânia, contrariando sua postura reservada, se curvou diante de Clarice e exclamou “minha deusa!”, para desgosto da escritora. Outro exemplo é um comentário retirado da postagem de uma entrevista de Clarice Lispector no YouTube. “Não se gosta de Clarice como se gosta de abacaxi! Você não gosta de Clarice, você ama Clarice! Você não entende Clarice, você sente Clarice!”. Doze pessoas “curtiram” essa observação no site. “Vivemos uma era de tecnologia avançada, mas nosso fascínio pelos mitos se parece com o dos homens primitivos. Muitos adotam Clarice como Grande Mãe, outros a odeiam como uma bruxa doida. As duas posições conduzem à mesma cegueira diante de Clarice e de sua obra. A propósito, a literatura dela fala justamente disso. É uma questão de lê-la com atenção, sem idealização”, reflete Castello.
Tanta paparicação de seus leitores também dá margem a reações de desagrado, embora Clarice esteja em uma situação próxima da unanimidade. “Vejo certa irritação na área de Letras, pois ela é uma das escritoras mais lidas e, ao mesmo tempo, faz parte de uma vanguarda. Ainda vivemos em um país muito machista, e pessoas de visão conservadora talvez se chateiem com seus textos”, opina Lucila. Segundo a poetisa, é surpreendente que ela seja bem aceita em um país como o Brasil, onde a expressão mais adotada é o realismo, situação muito diferente do resto da América Latina. “Basta ver qual é o maior escritor brasileiro vivo: Rubem Fonseca. Clarice, por sua vez, não pode ser chamada de realista”.
Não à toa, quem se identifica com a autora se dá o nome de “clariciano” ou “clariciana”, como se fosse membro de um universo à parte, uma comunidade secreta. Para Castello, Clarice é vítima de muitos preconceitos. Eles começam não com seus inimigos, mas com seus admiradores. “Alguns a leem como uma filósofa, outros como uma bruxa, outros ainda como um mestre. Ou seja: congelam suas ideias, transformam-nas em ‘lições’, reduzem-na a meia dúzia de chavões. Mas transformá-la em mestre das grandes respostas é recusá-la, é não ler o que ela escreveu”.
Muitas vezes, essa leitura redutora ou incompleta não é privilégio duvidoso de neófitos ou desavisados. “A impressão geral é de que ninguém entende o que ela de fato escreveu, exceto os textos mais elementares, como Laços de família. A paixão segundo G.H e Água viva já são outra história. Durante uma das minhas aulas, perguntei a meus alunos sobre o que esse último livro tratava e ninguém soube responder”, recorda Lucila.
Castello argumenta que Clarice foi um gênio e eles são, quase sempre, reduzidos a imagens grandiosas e fixas. E que a literatura dela não foi feita para jogos de espíritos de intelectuais, ou divertimentos para beiras de piscinas e salas de espera de aviões. “Isso mata seu pensamento e a mata pela segunda vez. Ela coloca-nos diante do humano, sempre vivo e por isso mesmo instável e ‘sem solução’. Mas as pessoas, em geral, não suportam isso, então a transformam numa autora de frases do ‘bem viver’ e assumem o papel de seguidores. Formam-se comunidades, séquitos, clubes. Ela odiaria tudo isso”.
Dona de uma obra que devassa o íntimo do leitor, como se o atravessasse, Clarice paira acima da vida e da morte para seus leitores, para o bem e para o mal. Uma pista sobre o que Clarice realmente pensaria de toda a atenção em torno de si após sua morte estaria em seus textos, como nas palavras escritas em Um sopro de vida (Pulsações), da fase final de sua carreira. “Quando acabardes este livro chorai por mim um aleluia. Quando fechardes as últimas páginas deste malogrado e afoito e brincalhão livro da vida então esquecei-me. Que Deus vos abençoe então e este livro acabará bem. Para enfim eu ter repouso. Que a paz esteja entre nós, entre vós e mim. Estou caindo no discurso? Que me perdoem os fieis do templo: eu escrevo e assim me livro de mim e posso, então, descansar”.
Isabelle Barros é jornalista e mestranda em Comunicação Social
Fonte: http://www.suplementopernambuco.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=437&Itemid=2
Parte 2: http://www.suplementopernambuco.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=440&Itemid=2
Primeira parte: Como se faz um homem
Três
De tardinha Martim começou a imaginar — pela qualida¬de da terra mais fina e pelo encontro eventual de árvores com frutas — que se aproximava talvez de algum povoado. Tentou comer uma das frutas desconhecidas que, verdes e sem sumo, apenas lhe arranharam a boca ávida. Mas um ar mais fresco soprava, e trazia cheiro de água corrente. A terra ali era mais negra. E o encontro de samambaiaçu lhe deu uma sensação de molhado que arrepiou em lubricidade suas costas secas.
O próprio silêncio se tornara diferente. Embora o homem não percebesse nenhum som, os passarinhos voavam mais agi¬tados como se ouvissem o que ele não ouvia. O homem parou atento. Havia um deslocamento de ar como se um dinossauro se transladasse lento em alguma parte do globo.
E, continuando a andar, por vezes o vento lhe trazia um clamor vago, uma reivindicação mais intensa. Era um alarme de vida que delicadamente alertou o homem. Mas com o qual ele nada soube fazer como se visse uma flor se entreabrir e apenas olhasse.
Martim mal e mal constatou a própria sensação, tendo o cuidado de não constatar demais e deixar de perceber. O des¬feito alarido lhe chegava como se de muito longe lhe soprassem perto do ouvido: foi esta a obscura noção de distância que ele teve, e parou farejando. Embaraçadamente entregue ao recurso de si mesmo, parecia tentar usar o próprio desamparo como bússola. Experimentou calcular se estaria perto ou infinitamente longe daquilo que acontecia em algum lugar. Mas parava, e de novo o silêncio do sol se refazia e o desorientava.
[...]
Com que sentido o homem cansado o percebeu, não se sabe dizer, talvez com a aguda sede e com sua derradeira desis¬tência e com a nudez de sua incompreensão: mas havia júbilo no ar. Que na verdade lhe foi tão inassimilável quanto aquele azul quase inventado do céu e que, como todo azul suavíssimo, terminou por tonteá-lo em glória tola e em nobre glória. A ar¬madura interior do homem faiscou. Inatingível, sim, mas havia júbilo no ar como lhe tinha sido prometido alguma vez em pro¬cissões ou em algum rosto quieto de mulher ou na idéia de um dia alcançar que termina por precipitar o alcance. E àquele homem, que era um exagerado, pareceu que por assim dizer trabalhara duramente para chegar a essa coisa valiosa e inútil. Seria um sorriso imbecil o seu, se um espelho o refletisse.
O próprio silêncio se tornara diferente. Embora o homem não percebesse nenhum som, os passarinhos voavam mais agi¬tados como se ouvissem o que ele não ouvia. O homem parou atento. Havia um deslocamento de ar como se um dinossauro se transladasse lento em alguma parte do globo.
E, continuando a andar, por vezes o vento lhe trazia um clamor vago, uma reivindicação mais intensa. Era um alarme de vida que delicadamente alertou o homem. Mas com o qual ele nada soube fazer como se visse uma flor se entreabrir e apenas olhasse.
Martim mal e mal constatou a própria sensação, tendo o cuidado de não constatar demais e deixar de perceber. O des¬feito alarido lhe chegava como se de muito longe lhe soprassem perto do ouvido: foi esta a obscura noção de distância que ele teve, e parou farejando. Embaraçadamente entregue ao recurso de si mesmo, parecia tentar usar o próprio desamparo como bússola. Experimentou calcular se estaria perto ou infinitamente longe daquilo que acontecia em algum lugar. Mas parava, e de novo o silêncio do sol se refazia e o desorientava.
[...]
Com que sentido o homem cansado o percebeu, não se sabe dizer, talvez com a aguda sede e com sua derradeira desis¬tência e com a nudez de sua incompreensão: mas havia júbilo no ar. Que na verdade lhe foi tão inassimilável quanto aquele azul quase inventado do céu e que, como todo azul suavíssimo, terminou por tonteá-lo em glória tola e em nobre glória. A ar¬madura interior do homem faiscou. Inatingível, sim, mas havia júbilo no ar como lhe tinha sido prometido alguma vez em pro¬cissões ou em algum rosto quieto de mulher ou na idéia de um dia alcançar que termina por precipitar o alcance. E àquele homem, que era um exagerado, pareceu que por assim dizer trabalhara duramente para chegar a essa coisa valiosa e inútil. Seria um sorriso imbecil o seu, se um espelho o refletisse.
Primeira parte: Como se faz um homem
Dois
Aquele homem andou léguas deixando o casarão cada vez mais para trás. Procurou andar em linha reta e às vezes se imo¬bilizava um segundo agarrando com cautela o ar. Como andava nas trevas não poderia sequer adivinhar em que direção deixara o hotel. O que o guiava no escuro era apenas a própria inten¬ção de andar em linha reta. O homem bem poderia ser um negro, tão pouco lhe servia a claridade da própria pele, e ele só sabia quem era pela sensação em si próprio dos movimentos que ele próprio fazia.
Com a mansidão de um escravo, ele fugia. Certa doçura o tomara, só que ele vigiava a própria submissão e de algum modo a dirigia. Nenhum pensamento perturbava sua marcha constante e já insensível, senão de vez em quando a idéia mal aclarada de que talvez estivesse andando em círculos, com a desconcertante possibilidade de se achar de novo diante das paredes do hotel.
Sempre, além do chão que os passos alcançavam, era a escuridão. Já caminhara horas, o que pôde calcular pelos pés grossos de cansaço. Só descobriria aonde se delineava o horizon¬te quando o dia raiasse e dissolvesse as brumas. Como a escuri¬dão ainda se mantinha tão colada aos olhos inutilmente abertos, terminou por concluir que escapara do hotel não de madrugada, mas em plena noite. Tendo dentro de si o grande espaço vazio de um cego, ele avançava.
Já que não precisava de olhos, experimentou andar de olhos fechados, pois numa precaução generalizada ele economi¬zava o que podia. De olhos cerrados pareceu-lhe que rodava em torno de si próprio numa tontura não de todo desagradável.
À medida que caminhava o homem sentia nas narinas aquela aguda falta de cheiro que é peculiar a um ar muito puro e que se mantém distinta de qualquer outra fragrância que tam¬bém se possa sentir — e isso o guiava como se seu único des¬tino fosse encontrar-se com o mais fino do fundo do ar. Mas seus pés tinham a milenar desconfiança da possibilidade de pisar em alguma coisa que se mova — os pés apalpavam a moleza suspeita daquilo que aproveita a escuridão para existir. Pelos pés ele entrou em contato com esse modo de ceder e poder ser moldado que é por onde se entra no pior da noite: na sua per¬missão. Não sabia onde pisava, se bem que através dos sapatos que se haviam tornado um meio de comunicação, ele sentisse a dubiedade da terra.
O homem nada poderia fazer senão esperar que a primeira penumbra lhe revelasse um caminho. Enquanto isso poderia dormir no chão que, distanciado pelas trevas, lhe pareceu inalcançável. Já não mais atiçado pelo perigo, desaparecera a saga¬cidade que lhe seria agora apenas um entrave. E de novo o embrutecimento suave o dominava. O chão era tão longe que, abandonando o corpo, este por um instante experimentou a queda no vácuo. Mal porém tocara numa terra que aos pés se esquivara, e esta instantaneamente se desencantou em algo re¬sistente, cujas duras rugas estáveis pareciam as do céu da boca de um cavalo. O homem estirou as pernas e encostou a cabeça. Agora que se imobilizara, o ar afiara-se e doía extremamente limpo. O homem não estava com sono mas no escuro não sa¬beria o que fazer da grande vigília. Além do mais não tinha assunto.
A essa altura já se havia habituado à música estranha que de noite se ouve e que é feita da possibilidade de alguma coisa piar e da fricção delicada do silêncio contra o silêncio. Era um lamento sem tristeza. O homem estava no coração do Brasil. E o silêncio fruía a si mesmo. Mas se a brandura era o modo como se ouvia a noite, para a noite a brandura era a sua pró¬pria espada, e na brandura a noite toda estava contida. O homem não se deixou enfeitiçar pela delícia que sentiu na sua¬vidade; adivinhava que léguas além a escuridão sabia que ele estava ali. Manteve-se pois em espreita, tendo sob um perfeito controle os meios de comunicação da noite.
Dois
Aquele homem andou léguas deixando o casarão cada vez mais para trás. Procurou andar em linha reta e às vezes se imo¬bilizava um segundo agarrando com cautela o ar. Como andava nas trevas não poderia sequer adivinhar em que direção deixara o hotel. O que o guiava no escuro era apenas a própria inten¬ção de andar em linha reta. O homem bem poderia ser um negro, tão pouco lhe servia a claridade da própria pele, e ele só sabia quem era pela sensação em si próprio dos movimentos que ele próprio fazia.
Com a mansidão de um escravo, ele fugia. Certa doçura o tomara, só que ele vigiava a própria submissão e de algum modo a dirigia. Nenhum pensamento perturbava sua marcha constante e já insensível, senão de vez em quando a idéia mal aclarada de que talvez estivesse andando em círculos, com a desconcertante possibilidade de se achar de novo diante das paredes do hotel.
Sempre, além do chão que os passos alcançavam, era a escuridão. Já caminhara horas, o que pôde calcular pelos pés grossos de cansaço. Só descobriria aonde se delineava o horizon¬te quando o dia raiasse e dissolvesse as brumas. Como a escuri¬dão ainda se mantinha tão colada aos olhos inutilmente abertos, terminou por concluir que escapara do hotel não de madrugada, mas em plena noite. Tendo dentro de si o grande espaço vazio de um cego, ele avançava.
Já que não precisava de olhos, experimentou andar de olhos fechados, pois numa precaução generalizada ele economi¬zava o que podia. De olhos cerrados pareceu-lhe que rodava em torno de si próprio numa tontura não de todo desagradável.
À medida que caminhava o homem sentia nas narinas aquela aguda falta de cheiro que é peculiar a um ar muito puro e que se mantém distinta de qualquer outra fragrância que tam¬bém se possa sentir — e isso o guiava como se seu único des¬tino fosse encontrar-se com o mais fino do fundo do ar. Mas seus pés tinham a milenar desconfiança da possibilidade de pisar em alguma coisa que se mova — os pés apalpavam a moleza suspeita daquilo que aproveita a escuridão para existir. Pelos pés ele entrou em contato com esse modo de ceder e poder ser moldado que é por onde se entra no pior da noite: na sua per¬missão. Não sabia onde pisava, se bem que através dos sapatos que se haviam tornado um meio de comunicação, ele sentisse a dubiedade da terra.
O homem nada poderia fazer senão esperar que a primeira penumbra lhe revelasse um caminho. Enquanto isso poderia dormir no chão que, distanciado pelas trevas, lhe pareceu inalcançável. Já não mais atiçado pelo perigo, desaparecera a saga¬cidade que lhe seria agora apenas um entrave. E de novo o embrutecimento suave o dominava. O chão era tão longe que, abandonando o corpo, este por um instante experimentou a queda no vácuo. Mal porém tocara numa terra que aos pés se esquivara, e esta instantaneamente se desencantou em algo re¬sistente, cujas duras rugas estáveis pareciam as do céu da boca de um cavalo. O homem estirou as pernas e encostou a cabeça. Agora que se imobilizara, o ar afiara-se e doía extremamente limpo. O homem não estava com sono mas no escuro não sa¬beria o que fazer da grande vigília. Além do mais não tinha assunto.
A essa altura já se havia habituado à música estranha que de noite se ouve e que é feita da possibilidade de alguma coisa piar e da fricção delicada do silêncio contra o silêncio. Era um lamento sem tristeza. O homem estava no coração do Brasil. E o silêncio fruía a si mesmo. Mas se a brandura era o modo como se ouvia a noite, para a noite a brandura era a sua pró¬pria espada, e na brandura a noite toda estava contida. O homem não se deixou enfeitiçar pela delícia que sentiu na sua¬vidade; adivinhava que léguas além a escuridão sabia que ele estava ali. Manteve-se pois em espreita, tendo sob um perfeito controle os meios de comunicação da noite.
O Blog Clarice Lispector completou meio milhão de visitas! Obrigado a todos os clariceanos e clariceanas. O Blog disponibiliza aos leitores de Clarice um selo comemorativo.
Olhara-o e descobrira na sua trêmula vitória a mesma perturbação. Ele lhe trouxera timidamente um grito. Fitaram-se um instante e tudo era indeciso, frágil, tão novo e nascente.
Clarice Lispector - O Lustre, trecho.Olhara-o e descobrira na sua trêmula vitória a mesma perturbação. Ele lhe trouxera timidamente um grito. Fitaram-se um instante e tudo era indeciso, frágil, tão novo e nascente.

Clarice é presença dentro e fora da pele. Lê-la é soltar a alma ao ar livre. É aprender a respirar no fundo do mar, ou no espaço sideral: no início, morre-se de asfixia. Mas, logo depois, a atmosfera de Clarice invade a antiga forma de viver, e então se necessita respirá-la para estar vivo.
Autoria: Solange Frigatto
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