Texto para a Páscoa: A Repartição dos Pães

quinta-feira, março 28, 2013

Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. Quanto a meu sábado - que fora da janela se balançava em acácias e sombras - eu preferia, a gastá-lo mal, fechá-lo na mão dura, onde eu o amarfanhava como a um lenço. À espera do almoço, bebíamos sem prazer, à saúde do ressentimento: amanhã já seria domingo. Não é com você que eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e soprávamos devagar a fumaça do cigarro seco. A avareza de não repartir o sábado ia pouco a pouco roendo e avançando como ferrugem, até que qualquer alegria seria um insulto à alegria maior.
Só a dona da casa não parecia economizar o sábado para usá-lo numa quinta de noite. Ela, no entanto, cujo coração já conhecera outros sábados. Como pudera esquecer que se quer mais e mais? Não se impacientava sequer com o grupo heterogêneo, sonhador e resignado que na sua casa só esperava como pela hora do primeiro trem partir, qualquer trem - menos ficar naquela estação vazia, menos ter que refrear o cavalo que correria de coração batendo para outros, outros cavalos. Passamos afinal à sala para um almoço que não tinha a benção da fome. E foi quando surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós...
Era uma mesa para homens de boa-vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera? Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem? E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos.
A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos - tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse. Junto do prato de cada mal-convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera - mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar - um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.
Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível. Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.
Não havia holocausto: tudo aquilo queria tanto ser comido quanto nós queríamos comê-lo. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho, com os olhos tomava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos. Pão é amor entre estranhos.

Visão de Clarice Lispector

terça-feira, março 05, 2013

O poema abaixo foi escrito por Carlos Drummond de Andrade.

Visão de Clarice Lispector

Clarice,
veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.

O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.

Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia… saberemos amar Clarice.

A Maçã no Escuro

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Primeira parte: Como se faz um homem

Onze

Mas na tarde em que Martim e Vitória foram a cavalo para que a dona da fazenda lhe mostrasse onde seriam cavadas as valas de sustentação de águas, nessa tarde em que subiram a mesma encosta por onde o homem uma vez viera sozinho — foi quando ele se destacou maduro da escuridão das vacas.
Porque do alto da encosta, a mulher pesquisava o chão, ele inocente e desprevenido reconheceu de súbito o campo como o divisara ao chegar pela primeira vez à fazenda. Daquela vez em que, bêbedo de fuga, apoiara-se exausto naquela coisa vaga que é a promessa que é feita a uma criança quando esta nasce.
Montado no cavalo, num lampejo de incompreensão genial, ele viu o campo. Estonteado, atento, no alto da encosta era aque­la mesma liberdade como se algo se desfraldasse ao vento. E como da primeira vez, a glória do ar livre aproximou-o de alguma coisa que lhe bateu dura no peito e que doeu na extrema perturbação da felicidade que às vezes se sente.
Mas a que desta vez ele quis, numa primeira fome inespe­rada, dar um nome.
Desejar algo mais do que apenas sentir pareceu afligir Martim, este sinal confuso de transição para o desconhecido inquietou-o, sua inquietação se transmitiu ao cavalo que escoi-ceou obscuramente tocado, com o olhar deslumbrado que um cavalo tem.
É que diante daquela extensão de terra enorme e vazia, em sufocado esforço Martim penosamente se aproximava — com a dificuldade de quem nunca vai chegar — se aproximava de alguma coisa a que um homem a pé chamaria humildemente de desejo de homem mas a que um homem montado não pode­ria fugir à tentação de chamar de missão de homem. E o nasci- mento dessa estranha ânsia foi provocado, agora como da primeira vez em que pisara a encosta, pela visão de um mundo enorme que parece fazer uma pergunta. E que parecia clamar por um novo deus que, entendendo, concluísse desse modo a obra do outro Deus. Ali, confuso sobre um cavalo assustado, ele próprio assustado, num segundo apenas de olhar Martim emergiu totalmente e como homem.
No mesmo instante também se sentiu inteiramente incompensado.
Com o rosto batido pelo vento que logo passou a simbolizar alguma coisa, Martim viu embaixo os animais soltos no pasto. Desde que havia entendido as vacas, pela primeira vez se achava acima delas na encosta. E também isto lhe bateu no peito. Com o coração batendo Martim então se lembrou inesperadamente de como um homem costuma ser: era como ele estava sendo agora! Numa sensação agonizante, ele se sentiu uma pessoa.
Martim estava de algum modo humilde, se era ser humilde o modo involuntariamente triunfante como estava montado num cavalo — o que lhe dava altura e espanto e determinação e visão mais larga. Nessa inesperada humildade ele pareceu reconhecer mais um sinal de que estava emergindo porque só os animais eram orgulhosos, e só um homem também era humil­de. Também a essa coisa indefesa e no entanto audaciosa ele quis dar um nome, mas não existia.
De algum modo foi bom que não existisse: não encontrar um nome aumentou imperceptivelmente a inquietação de que ele agora gozava. Pois a verdade é que, embora intimidado, ele estava fruindo a própria inquietação. Como se a tensão em que se achava fosse a medida de sua própria resistência, e ele fruísse as primícias de uma dificuldade como os músculos de um homem se intensificam ao levantar um peso. E ele, ele era o seu próprio peso. O que quer dizer que aquele homem se tinha feito.
Nesse ínterim a impaciência mal refreada dos cavalos au­mentara a instabilidade de Martim e empurrava-o a uma decisão que ele no entanto desconhecia. O vento unia a figura recor­tada de Vitória à dele, o ar puro deixara os cavalos mais negros e maiores. O ar era tão leve que o homem não pôde respirá-lo todo, pois é aos poucos que se respira, pois é aos poucos que uma pessoa vive — e ele sufocou por não ter capacidade de mais ar, e no entanto “não poder” intensificou sua felicidade, a enorme vastidão rodeou-o sem que ele pudesse dominá-la, seu coração bateu grande, generoso, inquieto, os cavalos mexiam as patas com galanteria e destreza. O vento constante terminara por dar ao rosto da mulher um arrebatamento físico suave que não condizia com suas palavras sobre a abertura das valas, e os corpos solitários de ambos estavam tendo um tácito mútuo entendimento assim como concordam corpos com o mesmo último destino: o coração daquele homem bateu grande e con­fuso, reconhecendo. Ser uma pessoa era ser isso tudo.
Foi então que lhe pareceu que a promessa que lhe tinha sido feita era a sua própria missão. Embora ele não entendesse por que cabe a nós cumprir uma promessa que no entanto nos foi feita.
Neste momento estava particularmente bom existir pois havia também o ar muito límpido da tarde. E nesse momento a mulher montada de repente riu de enervamento porque o cavalo recuara e a assustara. Com certa surpresa o homem ouviu o riso naquela mulher que jamais ria. É que tudo estava provavelmente se manifestando para Martim, assim como as flores se abrem em determinado momento e nunca estamos perto para ver. Mas ele estava. Pela primeira vez estava presente no momento em que acontece o que acontece. E ele! ele era esse homem que pela primeira vez se dava conta, não apenas por ouvir dizer, mas inquietantemente de primeira mão. Ele era exatamente esse homem. Estranhou-se então como modo arrebatado de se reconhecer. Acabara de decidir ser, não um outro, mas esse homem.
E mais que isso: ele próprio se tornara de repente o senti­do das terras e da mulher, ele próprio era o aguilhão daquilo que ele via. Foi isso o que sentiu, embora recebesse de seu pensamento apenas o latejar. E contido, alvoroçado, lembrou-se de que este é o lugar-comum onde um homem pode enfim pisar: querer dar um destino ao enorme vazio que aparentemente só um destino enche.
Então, num impulso da mesma natureza do impulso de querer dar nome, procurou se lembrar que gesto se usava para exprimir aquele instante de vento e de alusão ao desconhecido. Procurou se lembrar do que fizera quando estivera um dia no alto do Corcovado com uma namorada. Mas, que se lembrasse, não havia como exprimir. Nessa primeira impotência, por um instante Martim se sentiu angustiadamente preso.
Mas também sentir-se angustiadamente preso era ser uma pessoa, ele bem se lembrava ainda! oh ele bem se lembrou: com angústia lembrou-se de que essa angústia era ser gente — e no alto do Corcovado ele beijara a namorada com uma fero­cidade de amor. Lembrou-se a tempo de que não havia como exprimir a alegria e então se construía uma casa ou se fazia uma viagem ou se amava. Também ele, montado no cavalo, com o ar apreensivo de quem pode errar, estava atentamente pro­curando copiar para a realidade o ser que ele era, e nesse parto estava se fazendo a sua vida. E a coisa se fez de um modo tão impossível — que na impossibilidade estava a dura garra da beleza. São momentos que não se narram, acontecem entre trens que passam ou no. ar que desperta nosso rosto e nos dá o nosso final tamanho, e então por um instante somos a quarta dimensão do que existe, são momentos que não contam. Mas quem sabe se é essa ânsia de peixe de boca aberta que o afogado tem antes de morrer, e então se diz que antes de mergulhar para sempre um homem vê passar a seus olhos a vida inteira; se em um instante se nasce, e se morre em um instante, um instante é bastante para a vida inteira.
O homem, pois, se lembrara enfim do que fizera com a namorada ao vento do Corcovado. Para se exprimir ele poderia talvez apoderar-se de Vitória, já que sendo ele agora um homem, ela se tornara uma mulher. Mas não só ela não era dócil, como este seria um ato gratuito sem o peso perfeito de fatali­dade que o desejo de corpo dá. Ficou pois quieto, embaraçado, sem saber que fazer de tudo aquilo em que tão subitamente ele se transformara. Foi então que, vindo do nada, por puro estabanamento, ele quis ser “bom” como solução. Quis tanto ser bom que de novo sentiu uma espécie de impotência.
É verdade que o pensamento fugitivo que tivera sobre a mulher não se perdeu de todo no ar. Alguns restos dele a mulher os sentiu, obscuramente ofendida como os gatos se ofendem no telhado. Vitória voltou-se para ele e enquanto falava sobre as valas encarou-o, e ele era indubitavelmente aquele homem: nele, ela viu ele. O que foi inesperado. Com a curiosi­dade de quem visse se rebentar uma artéria e um sangue insus­peito jorrar, com repugnância e grande altivez, ela o olhou — e ele era aquele homem, não um outro jamais, mas ele mesmo, o que a fez desviar os olhos severa. Ela se lembrou de que uma noite passara pelo depósito e ouvira o homem roncar. A lem­brança disso não só o tornou inegável, como a probabilidade razoável dele não saber que roncava entregou-o de novo a ela mesma em todo o seu peso de inconsciência, como uma vez o cão desmaiado fora dela.
Até que — até que nova onda de brisa apagou tudo. Deixando como realidade apenas o homem e a mulher sobre os cavalos.
E de tudo restou para o homem apenas a sensação um pouco inútil de ter enfim emergido. E o coração de uma pessoa viva. O que, se era pouco, lhe deu um poder muito grande; como pessoa ele era capaz de tudo. Talvez tenha sido isso o que ele sentiu. E para lhe mostrar até que ponto tudo estava convergindo para uma realização — como quando a graça existe — Vitória neste mesmo momento estendeu o braço apontando ao longe uma montanha de encostas suavizadas pela impossibi­lidade de serem tocadas... Martim teve então uma espécie de certeza de que este era o gesto que ele procurara: tanto as distâncias parecem precisar de alguém que as determine com um gesto. Assim o homem escolheu concluir que é este o gesto humano com que se alude: apontar.
E não lhe importou sequer que a mulher o tivesse feito inconscientemente. Nem sequer que fosse ela, e não ele, a executá-lo. Na muda potência em que estava, qualquer coisa que falasse seria considerado por ele como voz sua e qualquer coisa que se mexesse seria movimento seu; e ele poderia talvez dizer “o melhor momento de minha vida foi quando as tropas de Napoleão entraram em Paris”, e poderia dizer “o melhor momento de minha vida foi quando um homem disse dai pão aos que têm fome”, e tornar-se trabalho seu dos mais duros e deslumbrados o crescimento das árvores — a largueza do mundo alargara penosamente seu peito. E se assim foi é porque, tendo-se feito, de muito ele passou a precisar, e de muito mais do que ele era. De modo que, tendo a mulher apontado com a mão estendida a montanha ao longe, já não importava ao homem que fosse ela ou uma pedra ou uma ave que o executasse, o que importava é que o gesto fosse cumprido. Isso, sem relutância, ele admitiu. Só que, em reivindicação, queria pegar a tarefa no ponto em que a mulher a deixara, e pleiteava que de agora em diante se incumbisse ele mesmo de determinar. E nesse instante foi como se todo um futuro ali mesmo se estivesse esboçando, e ele só fosse conhecer os detalhes à medida que os criasse. Martim passara a pertencer a seus próprios passos. Ele era dele mesmo.
Nesse ínterim, o que aconteceu apenas é que a mulher olhava em torno procurando boa terra onde as valas se cavassem sem obstáculos. E para reduzir a verdade à pura realidade, o que é que acontecia com Martim?
Na verdade Martim tivera apenas uma consciência física muito aguda de ambos alteados pelos cavalos, e, numa percep­ção mais aguda ainda, sentia os cavalos soltos no ar. O que lhe dera uma vaga sensação de beleza, do modo como se tem uma sensação inquietante de beleza: quando alguma coisa parece dizer alguma coisa e há aquele encontro obscuro com um sentido. Perceber mesmo, pode-se dizer honestamente que Martim não percebeu nada. De modo que, com o relinchar dos cavalos, eles simplesmente se voltaram um para o outro e, sem que tivesse havido um instante sequer de interrupção na conversa sobre as valas, a mulher falou sobre a seca, e ele ouviu-a, e concordou. E assim como, se houvesse reencarnação do espírito depois da morte, a lei mandaria que não se tivesse consciência de ter vivido, o momento de contato de Martim com aquilo que se é passou despercebido dele. Restou claro apenas o pen­samento de que o sítio era um lugar onde ele bem poderia ficar mais tempo. Martim estava muito satisfeito consigo mesmo.
O que fazia com que a satisfação já não lhe bastasse era a espécie de dura tenacidade que, como primeiro passo geral, foi se tornando sua atitude à medida que desciam devagar a encosta. Eles eretos, os cavalos bamboleando as ilhargas.

O presente

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Novas publicações no Blog: o livro "De amor e amizade – Crônicas para jovens" é organizado por Pedro Karp Vasquez.

Clarice Lispector, p. 55:

... Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si.


Do Rio de Janeiro e seus personagens - Uma coisa

domingo, janeiro 27, 2013

Novas publicações no Blog: o livro "Do Rio de Janeiro e seus personagens – Crônicas para jovens" é organizado por Pedro Karp Vasquez.

Clarice Lispector, página 33:

Eu vi uma coisa. Coisa mesmo. Eram dez horas da noite na Praça Tiradentes e o táxi corria. Então eu vi uma rua que nunca mais vou esquecer. Não vou descrevê-la: ela é minha. Só posso dizer que estava vazia e eram dez horas da noite. Nada mais. Fui porém germinada.

Como cronista, Clarice Lispector sempre procurou seus temas nas ruas da cidade ou em conversas com seus mais bem informados habitantes. Em Do Rio de Janeiro e seus personagens – Crônicas para jovens, a autora conduz o jovem leitor a um instigante passeio pela Cidade Maravilhosa por meio de suas crônicas. Nessa coletânea de crônicas – terceira de uma coleção que reúne textos de Clarice por temas, com o objetivo de apresentar a faceta cronista de umas das maiores escritoras brasileiras às novas gerações –, o leitor conhecerá tanto o Rio pessoal e secreto da autora quanto o coletivo, numa mescla hábil do espírito carioca com seu modo único de ver o mundo.

Org.: Pedro Karp Vasquez.