Novas publicações no Blog: o livro "De amor e amizade – Crônicas para jovens" é organizado por Pedro Karp Vasquez.
Clarice Lispector, p. 55:
... Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si.
Org.: Pedro Karp Vasquez.
Dez
Quanto a Martim, ele tinha tempo. Na verdade parecia ter descoberto o tempo. No fim do dia largava o trabalho no campo e ia ao curral. Com a mesma serena avidez com que ia antes ao terreno do depósito. E livre enfim da iminência de ordens de Vitória, livre da presença cada vez mais assediante de Ermelinda — o homem cada dia retomava no curral o instante interrompido do dia anterior, unindo num tema à parte os instantes esparsos que passava com as vacas, e deles fazendo a única seqüência. “Como eu ia sentindo...”, parecia ele pensar ao entrar no curral — e continuava o que interrompera. O escuro calor das vacas enchia o ar do curral. E como se alguma coisa que nenhuma pessoa e nenhuma consciência lhe pudesse dar, ali no curral lhe fosse dado — ele o recebia.
O cheiro sufocante era o do sangue vagaroso nos corpos dos bichos. Não mais o intenso sono das plantas, não mais a mes-quinha prudência em sobreviver que havia nos ratos ariscos. Mas as vacas já começavam a inquietá-lo um pouco. Um dia, por exemplo, ele acordou e abriu a porta do depósito para a primeira luz. E como o dia lhe pareceu dado, assim ele o recebeu. Mas — mas já quis, pela primeira vez, fazer alguma coisa dele. É que à porta do depósito, ele pela primeira vez estava precisando de uma experiência mais funda — mesmo que não a pudesse jamais partilhar com as vacas. Inquieto, ele estava se destacando delas. Era um risco, e uma primeira audá¬cia. Então, olhando o modo como o campo era grande e cheio de luz, ele — ele se arriscou e teve a experiência mais funda. Piscou várias vezes, quieto. Era assim que aquele homem estava crescendo como uma coisa que rolando se avoluma. Crescia calmo, oco, indireto, a avançar paciente. Não olhara uma vez diretamente para a mulata. Mas ela ria. E uma força pacífica acordara nele. Era um poder — ele bem se lembrava ainda. Alerta, sem nenhum plano, ele esperou dia após dia pelo momento em que faria a mulata deixar de rir. Tanto a mulata como a criança o observavam dissimuladas de longe sem se aproximar. Quanto à criança, Martim evitava-a, confuso, evasivo. Mas a mulher ria muito. Na verdade pode-se dizer que ria demais. Sem um pensamento, ele sabia o que significava o riso. E às vezes era como se o riso fosse um mugido: ele então erguia a cabeça, atordoado, chamado, poderoso. Mas aguardava. Como se a paciência fizesse parte do desejo, ele aguardava sem se apressar. A mulata era uma larga natureza, tão larga quanto o seu riso — ela ria antes de saber de quê.
A vida se arranjara nela de um modo escuro e doce, e ela ria de alguma coisa; talvez ti¬vesse prazer nessa coisa. Embora essa mesma coisa às vezes se enovelasse nela em cólera como um cachorro rosna. Era pessoa que errava sem pecar. As bofetadas que dava na filha eram quase de alegria, e revigoravam-na toda. O homem obser- vou, sem concluir, que era muito comum ela começar a cantar depois de bater na menina. A menina se esquivava aos tapas, aprendendo sem ressentimento que assim era, e que mãe era aquela força que ria alto e que sem vingança batia, e ser filha era pertencer àquela mãe onde o vigor ria. O homem fingia estar interessado no “trabalho, só para disfarçar. É que uma pessoa podia se compreender toda na mulata. O homem encon¬trou nela um passado que, se não era seu, lhe servia. O que ela suscitava num homem era ele próprio. Martim mal a olhava, e sabia que ela estava ali. Com ela se podia tratar de homem para homem, só que para chegar a isso ela era uma mulher. Dois dias depois, em vez de ir ao curral, ele enfim se apro¬ximou da mulher que lavava roupa. E ficou de pé sem olhá-la. E sem olhá-lo, ela riu. Ele quebrou meticulosamente um graveto na mão, e sem fitá-la sabia que ela era moça. Seus cabelos tinham cachos duros, compridos. Como Martim era pessoa que gostava imediatamente do que precisava, ele a achou logo bonita. Afinal jogou o graveto longe e olhou-a de frente: seria largá-la ou pegá-la. Ele a pegou sem pressa como um dia pegara um passarinho. — Você é forte como um touro, riu a mulher. Ele estava concentrado. Segurando seu ombro, o homem podia sentir os ossos pequenos e, mais acima, os tendões e as fibras embaixo da carne fina: ela era um bicho novo, ele calculou sua idade apalpando-a. Sentia o calor que vinha dela, e assim devia ser; corpo a corpo com o pulso mais íntimo do desconhecido. Já era escuro quando seus gestos despertaram a moça nova.
O homem acendeu a lamparina do depósito e ela deu um pe¬queno grito de raiva. O que quer que fosse se enroscara em cólera. Ele a olhou curioso. Ela vibrava de raiva, Deus sabe por quê. E ele ficou sozinho, à porta do depósito. Martim estava muito surpreendido porque antigamente ele costumava saber de tudo. E agora — como fato no entanto muito mais concreto — ele não sabia de nada. Ele que havia crescido um homem claro, e ao redor dele tudo costumava ser visível. Fora pessoa que soubera respostas, antigamente ele era sem dor. A claridade de que vivera fizera com que ele tivesse sido capaz de executar trabalho com números com uma paciência que não se alterava; e, nu por dentro, as roupas lhe assentavam bem. Esperto e elegante. Mas agora, tirada das coisas a camada de palavras, agora que perdera a linguagem, estava enfim em pé na calma profundidade do mistério. Na porta do depósito, pois, revitalizado pela grande ignorância, permaneceu de pé no escuro. Já era quase noite. É que ele acabara de aprender isso com aquela mulher: a ficar de pé tendo um corpo. Então os dias começaram a passar. Mas se sua língua uma vez engordara demais na boca para exprimir, e se na sua cabeça não circulava ar para que o pensa¬mento pudesse ser mais que ânsia — agora atrás de toda clarida¬de havia a escuridão. E era dela que vinha a escura flama de sua vida. Se um homem tocasse uma vez a escuridão, oferecen¬do-lhe em troca a própria escuridão — e ele a tocara — então os atos perderiam o erro, ele poderia talvez um dia voltar para a cidade e se sentar num restaurante com grande harmonia.
Ou escovar os dentes sem se comprometer. Um homem tinha uma vez que desistir. E só então poderia viver, como ele agora vivia, na latência das coisas. E então, talvez porque um dia se seguisse ao outro, algo começou a acontecer devagar, envolvente, grande, apesar dos elos lhe escaparem. É que vivendo ali era como se aquele ho¬mem já não contasse mais a vida em dias nem em anos. Mas em espirais tão largas que ele já não poderia vê-las assim como não via a larga linha de curvatura da terra. Havia algo que era essência gradual e não para se comer de uma vez. Foi assim que a vida de Martim começou a ultrapassá-lo: os dias eram grandes, bonitos, e sua vida era muito maior que ele. E ele mesmo, aos poucos, tornou-se mais do que um homem sozinho. Fizera-se um desgastamento de seus conheci¬mentos anteriores, e, quanto a palavras, ele meramente as co¬nhecia como pessoa que tivesse uma vez adoecido delas. E se tivesse curado. “Afinal seu crime tinha apenas o tamanho de um fato” — e o que ele queria dizer com isso, não sabia. Também recomeçou a compreender as mulheres. Não as compreendia de um modo pessoal, como se ele fosse o dono de seu próprio nome. Mas pareceu entender para que nascem mulheres quando uma pessoa é um homem. E isso foi um tranqüilo sangue forte que entrava e saía ritmado no seu peito. Tratando das vacas, o desejo de ter mulheres renasceu com calma. Ele o reconheceu logo: era uma espécie de solidão. Como se seu corpo por si mesmo não bastasse.
Era o desejo, sim, ele bem se lembrou. Lembrou-se de que mulher é mais que o amigo de um homem, mulher era o próprio corpo do homem. Com um sorriso um pouco doloroso, acariciou então o couro feminino da vaca e olhou em torno: o mundo era masculino e feminino. Esse modo de ver lhe deu um profundo contentamento físico, a quieta e contida excitação física que ele tinha cada vez que “descortinava”. Uma pessoa tem prazeres altamente espirituais de que ninguém suspeita, a vida dos outros parece sempre vasta, mas a pessoa tem os seus prazeres. É verdade que as vidas individuais ele não as entendia ainda: as duas primas lhe pareciam ao mesmo tempo chatas e abstratas, nem ele suspeitava que sentido havia na vida daquelas duas mulheres, e não lhe ocorrera que entendê-las seria um modo de contato. As vidas individuais ele não as entendia. Mas já ao olhá-las em conjunto — a mulata que fora pesadamente sua e que agora enchia o balde com água cantante, Francisco serrando madeira, Vitória corajosa, Ermelinda espreitando, e a fumaça saindo alta da cozinha — isso, isso ele já pareceu entender como conjunto. E foi como se um calor se evolasse do esforço de todos, e foi como se aquele homem estivesse enfim apren¬dendo que a noite desce e que o dia renasce e que depois a noite vem. E assim era. Seu corpo, nesse entendimento, ficou bom, sem necessidade do erro que seria a maldade. E assim como as vacas contavam quietas com a existência de outras vacas — o homem se envolveu pelo calor indireto dos outros. E mais: às vezes mesmo era como se, olhando, ele fosse o dono de uma grande usina, e o barulho e a fumaça fossem o sinal de um caminhar progressivo. Em que direção? O homem não se per¬guntou. Embora sentisse — com a mesma vaga inquietação com que gradualmente a seca se aproximava — que ele não estava longe da pergunta, por enquanto imatura. Enquanto isso, a seca se aproximava nas espigas de milho. — São dias bonitos, disse Vitória apreensiva, protegendo os olhos com a mão.
Eram dias grandes, claros, e, enquanto duravam, ameaçadoramente infinitos. — São lindos! exclamou Ermelinda, até já tomei o meu calmante! As lagartixas, atraídas pela promessa de fulguração e glória, apareciam em maior abundância, surgidas não se sabia de onde. Estalavam na terra seca e crepitavam. Vitória olhou os corpos áridos que se multiplicavam, examinou de perto algumas folhas que já se enrolavam nos bordos, levantou o rosto inquisitivo para um céu puro e deserto. No campo, o sol cheio de borboletas empoeiradas: — Dias bonitos assim precedem seca. — Ah, fez Ermelinda com a mão no coração, são tão bonitos que não se sabe o que fazer com eles. E Martim? o cheiro de terra arrebentava-se sob a enxada de Martim. Os grãos se esfarelavam, o cheiro de capim à luz, o cheiro de certas ervas secretas que o calor fazia exalar, as ervas confusas que davam no seu entrelaçamento sombra para algum reino mais obscuro que o visível: Martim trabalhava, a enxada subia e descia, subia e descia. Um galho na sombra de súbito se despregou de outro galho, sobressaltou a abelha, fazendo-a voar até se perder na distância da claridade... seu vôo deixou pressentir um mundo feito de lonjuras e repercussões, aquele mundo profundo que parecia bastar ao claro-escuro de uma vaca e que basta a um homem que levanta e abaixa uma enxada. O suor era uma das melhores coisas que já lhe tinham acontecido: Martim levantava e abaixava a enxada. Essa coisa sem nome que é o cheiro da terra incomodando quente e lem¬brando com insistência, quem sabe por quê, que se nasceu para amar, e então não se entende. Foi quando a abelha voltou iluminada. O que fez o homem parar de trabalhar e enxugar vagarosamente o suor, com os olhos franzidos pela claridade — por essa claridade que pouco a pouco já estava começando a ser também de Martim. Seu esforço de entender foi rude, encabulado: — O campo parece uma jóia, disse então enrubescendo violentamente. Olhou depois inquieto ao redor como se alguém o tivesse visto fazer uma coisa feia. Parecia um homem que sem jeito quisesse dar uma flor, e ficasse com a flor na mão. — O campo parece uma jóia coisa nenhuma! disse furio¬so.
A abelha então se emaranhou em ervas como em cabelos, as formigas em longa fila ondeante — e tudo isso começava a ser de Martim. Esse era o abismo sem fundo em que ele se lançara na sua passagem das plantas para o futuro mais largo daquele cavalão negro que, naquele mesmo instante, passou ao longe puxando o arado. E no arado Francisco sentado ereto, no silencioso esforço da atenção. Tudo isso estava começando a ser de Martim, porque uma pessoa olha e vê. As vacas babavam, a abelha cada vez mais minuciosa azucrinava o ar se aproximando mais e mais de um centro imaginário. E o grito de Francisco deu de repente dimensão a distância. — Eu precisava lhe falar, disse-lhe nesse instante Ermelinda. O homem não interrompeu o movimento da enxada na terra. — O senhor podia pedir a Vitória para se plantar sempre-viva, continuou com um sorriso faceiro. — Peça a Dona Vitória, respondeu o homem sem olhá-la. — Aí é que está, tenho medo dela. Aliás — disse de re¬pente íntima — o senhor também precisa tomar cuidado. Não me interprete mal: ela é muito boa, mas é tão severa. Ela é muito nervosa. Como o rosto do homem continuasse inclinado para a cova, a moça também se inclinou e de baixo para cima tentou adivinhar a sua expressão: — Imagine, disse sempre abaixada e falando mais alto pois não tinha certeza se ele tomara conhecimento de sua pre¬sença, imagine, disse quase berrando, que uma vez ela me pisou, viu? Sem interromper o trabalho, ele olhou-a rapidamente. — Depois ela disse que foi sem querer, acrescentou Ermelinda em tom mais baixo, agora que estava segura de que o homem a notara. Talvez tenha sido mesmo sem querer, acres¬centou já hesitante em continuar a mentir pois ele finalmente a olhara. — Eu disse que ela disse que foi sem querer! repetiu ao vê-lo de novo desatento, mas acho que não é verdade! que ela me pisou tenho certeza absoluta! gritou-lhe atenta, espreitando a ressonância de suas palavras no rosto do homem. Mas as tentativas malogradas não desanimaram Ermelinda: “era assim mesmo”, pensava, pois “o tempo ainda não era propício”. Qual seria o tempo propício, não saberia dizer. Talvez em pequena tivesse ouvido falar nas épocas em que a lua atinge a sua plenitude.
Talvez também soubesse de como bichos precisam de um mínimo de segurança ao estarem juntos para ao menos terem a garantia primária de não serem interrom¬pidos. Talvez tivesse ouvido mais histórias do que pudera en¬tender — e o que lhe restara, inquietantemente incompleta, fosse a noção de um tempo propício. Oh, seus planos eram vagos, muito vagos. Ela nem sequer tinha plano: seus planos eram tão vagos que ela entrefechou os olhos encabulada, e sorriu. Se por acaso seus planos se tornavam por um instante mais claros, sinceramente espantada, ela se ofendia. É que andava muito suscetível.
Quando é que Martim começou finalmente a individualizá-la? Era quase feia, embora graciosa. Os cílios curtos e muito negros delineavam olhos que eram percebidos mesmo a distân¬cia, no meio da claridade de uma pele onde nem a boca tomara cor. Os olhos piscavam sempre, sabidos ou talvez aflitos, como se a moça estivesse sempre a calcular a distância entre ela própria e as coisas. Só os olhos eram positivos. Os outros traços eram tanto mais indecisos quanto se podia imaginar que eles poderiam se desmanchar para formar novo conjunto, tão prudente em não se definir quanto o primeiro. Era uma adolescente envelhecida e, se houvera pesares, não teriam sido de molde a lhe dar rugas ou durezas, mas a afiná-la e a apagá-la. Os rápidos instantes esparsos em que o homem a olhara de frente tinham sido inúteis, pois ele não havia encontrado apoio em nenhum ponto rememorável, mais feio ou mais bonito. Embora, em certos momentos em que ficava desprotegida, lhe aparecesse no rosto uma certa franqueza expectante que se lhe dava beleza era a de uma cara paciente de cão. Seu rosto era então visto em toda a sua nudez como a de um cego.
Foi essa cara fraca, auditiva e confiante — sem as mentiras de expressão com que a moça se enfeitava tanto — que o homem terminou enfim por gravar. E ele passou a “não pensar nela”, como forma de pensar. — Quando eu era casada, eu tinha tudo, não me faltava nada! retornou ela no dia seguinte, perseverantemente cercando-o e abrindo a cesta de ovos duros para fazer piquenique enquan¬to ele trabalhava. Falando sem parar, a moça viu de novo aquela cara de duras rugas, e de novo foi tocada pela firmeza do homem en¬quanto o vento parecia tentar em vão desgastá-lo. E, quem sabe, se ela se agarrasse a ele, como que o vento também não a sacudiria. Então a moça se encheu de uma esperança tão forte, e maligna que sem parar de falar tirou da cesta o calmante, engoliu com dificuldade a pílula seca: — Quanto tempo mesmo o senhor fica aqui? perguntou-lhe. E quando ele disse que não sabia, de novo a pressa vazia e dolorosa a turbilhonou, o tempo era curto, o tempo era curto, ela não sabia para quê, só sabia que tinha que se apressar. Então começou a falar com tal volubilidade que o homem sentiu seu trabalho tornar-se suave como se as suas marteladas tivessem agora um contraponto, e a moça fosse a repercussão de um homem enchendo a distância. Martim então olhou para o sol e cuspiu longe com orgulho. Ermelinda abaixou os olhos com pudor.
Contato dos autores: lucassbonafe@gmail.com
UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES
Autora: Clarice Lispector
ISBN: 978-85-64126-03-9
Narração: Beth Goulart
Duração: 4 horas e 10 minutos
CD´s: 1 CD MP3
http://www.claricelispector.com.br/Audio/orelha_umaApredizagem.html
No dia 03 de outubro de 2007, coloquei na cabeça – como uma espécie de dogma: lerei tudo o que Clarice Lispector já escreveu, E LI! A alternativa mais viável para atingir a esse objetivo me pareceu ser a internet. Decidi, então, popularizar a obra da “Flor de Lis” (sem hifens mesmo) pelo ciberespaço. Criei – com o que na época era um conhecimento extremamente introdutório de design – o mais importante blog sobre Clarice Lispector do BRASIL e do MUNDO:
Blog Clarice Lispector:
Links vencedores:
Autor(a): Elandia Duarte
Link: http://www.elandiafduarte.blogspot.com.br
Autor(a): Paulo Roberto Wovst Leite
Link: http://prwleite.blogspot.com.br
Autor(a): Fabiana Novaes
Link: http://anafavas.blogspot.com.br
Autor(a): Mateus Gomes
Link: http://poesiaanexa.blogspot.com.br
Autor(a): Vencer Barreiras
Link: http://poemasepoesias1914.blogspot.com.br
Autor(a): Anita Garibalde Ramos Carneiro
Link: http://gabecarneiro.blogspot.com.br
Autor(a): Claudete da Mata
Link: http://oficinaliterariabocadeleao.blogspot.com.br
Autor(a): Nat Nunes
Link: www.blogdanatnunes.blogspot.com
Primeira parte: Como se faz um homem
Oito
Logo nos primeiros dias sentiu-se que havia um homem no sítio. E também se poderia adivinhar que quem mandava era uma mulher: pois apesar da ameaça de seca e das necessidades fundamentais daquela tentativa pobre de fazenda, o que de repente mais preocupava Vitória era a aparência do sítio. Como se até a vinda do homem ela não tivesse percebido o desmazelo das terras, encarniçava-se agora em transformá-las. Parecia ter à frente a data certa de uma festa antes da qual tudo deveria estar pronto. Uma febre de precisão a tomara. E as minúcias a que descia lembravam uma mosca se lavando. Na manhã alta, eis que ela apontava a cerca torta. E a força calma do homem desentortava a cerca. De muito longe Francisco, cismarento e céptico, viu a mulher apontando a desordem dos raros canteiros — e sorrindo viu que em silêncio Martim cavava, limpava, podava. Entre Martim e Vitória estabelecera-se uma muda relação já mecanizada e em pleno funcionamento: constituída da coincidência da mulher querer mandar e dele aquiescer em obedecer. Com avidez, a mulher era dona. E alguma coisa nela se intensificara: a feliz severidade com que ela agora pisava sobre o que era seu, disfarçando a glória da posse com um olhar desafiador para as nuvens que passavam.
Primeira parte: Como se faz um homem
Sete
O fato de ter aceito a tarefa já fora talvez um começo da necessidade de estar sozinha e deixar-se ficar absorta. Ficar absorta era o modo usual como Ermelinda chamava “estar pensando”. Nessa tarde, de onde Ermelinda o via, a distância tornava o homem um ponto negro que a moça fixamente acompanhou como único ponto de referência no campo. Até que sua visão se ofuscou pela claridade, e milhares de pontos negros e luminosos fizeram-na fechar os olhos como se o homem se tivesse esti¬lhaçado. Quando reabriu os olhos agora penumbrosos, o campo es¬tava de novo vazio: Martim desaparecera. O que lhe restou a ver foram os passarinhos odiados voando calmos. E as ervas altas e mal-assombradas estremecendo à menor hesitação da brisa. Tudo se tornara de novo antena sensível ao que jamais chegava a ser dito. Como numa visitação, com ânsia de espera Ermelinda olhou. Estava muito pensativa. Foi a essa altura que Martim apareceu de novo no seu campo de visão.
Ele, o homem concreto que parecia impedir que as coisas voassem. Pois o modo de ver de Ermelinda costumava deixar tudo tão instável e leve como ela própria. Ele, o homem, reapareceu. Assegurando a realidade. E aquele corpo grosseiro contrabalançava a suavidade do milharal, a suavidade das mu¬lheres e das flores. Com a firmeza ingênua que um homem tem, e que é a sua força, ele contrabalançava a nauseante delicadeza da morte. Aquela firmeza inocente que mesmo o marido de Ermelinda tivera, mesmo Francisco, mesmo todos os outros ho¬mens que haviam temporariamente trabalhado no sítio.
Com uma solidez que ignorava o próprio valor, o corpo estúpido de Martim parecia garantir que nunca a morte, a morte delicadíssima, venceria. E a força do homem justificava que ela, Ermelinda, fosse tão suave — essa suavidade que sem um homem era tão gratuita como uma flor e, como uma flor, parecia se dar ao nada, e o nada era a morte espalhada com tal sutileza que até parecia vida. Ermelinda não estava pensando em nada: estava absorta. Com o rosto inclinado, descaroçou automaticamente o mi¬lho. E distinta das marteladas de Martim — que ela ouvia uma a uma, esperando em doce tortura pela próxima — ela se disse com o maior cuidado, no começo de uma sensação de exasperante prazer que ela temeu destruir se lhe desse mais força: “mas quem está falando em morte, mulher? estou tão viva”, disse ela como se fruísse de um desfalecimento e de um coração no campo. Seu rosto inclinado para o milho não via Martim. Mas a cada martelada ele dava enfim matéria ao campo desfral¬dado, e dava ao corpo daquela moça, tão vago, um corpo. Erme¬linda sentiu uma moleza envergonhada contra a qual, sem mo¬tivo nenhum, lutou erguendo a cabeça com certo brio. É verdade que seu desafio não conseguiu se sustentar por muito tempo, e aos poucos a cabeça pesada de novo se inclinou meditando. Os dedos mecânicos continuaram pois a trabalhar. Mas às vezes ela fazia um leve movimento de cabeça, muito quieto e bonito, como se afastasse uma mosca. Meditar era olhar o vazio.
A moça meditava. Foi então que levantou a cabeça e fitou o ar com alguma intensidade. É que alguma coisa branca e insidiosa se misturara a seu sangue, e ela se lembrou de como se falava de amor como de um veneno, e concordou submissa. Era alguma coisa adoci¬cada e cheia de mal-estar. Que ela, conivente, reconheceu com suavidade supliciada como uma mulher que apertando os dentes reconhece com altivez o primeiro sinal de que a criança vai nascer. Reconheceu, pois, com alegria e impassível resignação, o ritual que se fazia nela. Então suspirou: era a gravidade pela qual ela esperara a vida inteira. Depois, como uma mulher que se torna desordenadamente ativa em momentos críticos, imprimiu mais força na espiga crua, vários caroços tombaram, um relinchar de cavalo atravessou o campo e Francisco deu-lhe ordem de parada, vários caroços tom¬baram na lata. Era alguma coisa que seria amor ou não seria. Caberia a ela, entre milhares de segundos, dar a leve ênfase de que o amor apenas carecia para ser. Ermelinda parou com a espiga na mão, sua cabeça rodava um pouco, satisfeita, vexada. Porque, num segundo perdido en¬tre milhares de outros na vastidão do campo, sujeita à lei da única célula que se fecunda entre as que fenecem, ela acabara de saber, como se escolhesse, que o amava. Não diretamente, pois não era moça com hábitos de coragem. Mas deste modo ela escolhera saber que o amava: “estou viva”, pensara ela. E ao pensar “estou viva” tomara pela primeira vez consciência de que antes também pensara na morte, e que também pensara no homem.
A ignorância de seu próprio processo deu-lhe a surpresa da inocência. E somente então percebeu que agora era tarde demais, que só poderia amá-lo. Dolorosamente, altivamente, perdera para sempre a possibilidade de resolver. Com alívio, como quando é tarde demais. Um segundo antes ainda poderia não amá-lo. Mas agora, suavemente, vaidosamente: nunca mais. No mesmo instante teve uma sensação de tragédia. E agora era tarde demais — qualquer que tivesse sido o sentimento gerador, este para sempre se volatizara. Era tarde demais: a dor ficara na carne como quando a abelha já está longe. A dor, tão reconhecível, ficara. Mas para suportá-la fo¬mos feitos. Um pouco espantada, o calor da tarde então envolveu-a, inquieto, pesado. Nada se transformara no campo que continuou cheio de imóvel sol. No entanto por um instante a moça não o reconheceu e não se reconheceu, e se se olhasse ao espelho veria grandes olhos olhando-a mas não se veria. Com a acuidade da estranheza, notou na própria mão uma veia que havia anos não notava, e viu que tinha dedos magros e curtos, e viu uma saia cobrindo os joelhos. E sob tudo o que ela era, sentiu alguma coisa: sua própria atenção. Um pouco aflita, olhou em torno. Por uma obscura necessidade de preservação, estava procurando recuperar no campo aquele minuto em que ela ousadamente aceitara amar o homem: procurava recuperar o minuto para des¬truí-lo. Mas, estonteada, talvez soubesse que também a neces¬sidade de destruir amor era o próprio amor porque amor é tam¬bém luta contra amor, e se ela o soube é porque uma pessoa sabe. Procurou, desesperada e ofendida, aquele minuto que já agora nunca mais ela saberia se fora fatal a ponto de submetê-la — ou se nesse minuto ela própria fora tão extremamente livre que, numa gratuidade que já era pecado e que depois se pagava, ela o apontara.
Procurou recuperar o instante para destruí-lo, mas isso foi penoso e inútil. Pois tudo acontecera rápido demais. E a moça ficou apenas com o seguinte: com um balde cheio de caroços de milho, sem ter sequer contra o que lutar. E tão abandonada, e tão solitária, como se tudo o que no futuro se fosse seguir nada tivesse a ver com o solitário minuto de glória que há muito já se perdera para sempre entre as mar¬teladas. Essas marteladas que a moça, agora emergida e espan¬tada, ouviu mais fortes e mais próximas, fatais, fatais, fatais. Sua estranha liberdade: ela escolhera ir de encontro ao fatal. Era a gravidade pela qual esperara a vida toda. De novo um senso de tragédia a envolveu. E, estranhamente, dentro desta ela era apenas anônima. Olhou então as moscas sobre a roseira. A graça do que ela estava vivendo encheu-a de modéstia cristã, e ela humilde¬mente procurou apoio moral nas moscas que por dentro eram azuis. Mas o que viu apenas foram moscas azuladas e a rosa trêmula pela mosca que acabara de deixá-la trêmula. Depois que por um instante o mundo inteiro se tornara seu cúmplice, a moça fora largada por sua própria conta. Então abaixou a cabeça e retomou o trabalho: os caroços de milho tombaram na lata cadenciadamente, gota dura por gota dura. O sol se alargara subitamente em grande luz, o vento quente soprou. Mas alguma coisa certamente acontecera. Por¬que o grito da mulata no fundo da casa crispou o rosto da moça como se o tivesse ferido. Inconfortável dentro da inesperada grandeza que sua vida tomara, a moça fingiu não perceber nada. Depois, revoltada e refugiando-se na consoladora mesquinharia, onde pelo menos ela era ela própria, ela se disse em desafio: “se não cuidar de mim, ninguém cuida! vou é tomar mais leite para me fortificar que não sou tola!”, disse com brutalidade. Mas ao que disse, ela própria abaixou uma cabeça inteiramente distraída, respirando, respirando.
Depois enxugou o suor. — A cerca ainda não foi consertada! disse neste momento Vitória a Martim. Ermelinda estremeceu espantada pelo fato de alguém falar com o homem: ela não o imaginara, então! Ressentiu-se com a intrusão do estranho como se ele tivesse se imiscuído no amor que acabara de nascer. — A cerca está em pedaços, acrescentou Vitória exigente. Martim jamais parecia se perturbar por ter que interromper o trabalho que apenas começara e iniciar outro: começava a nova tarefa com a mesma indiferença concentrada com que fora perfeito no trabalho anterior. — O senhor não prefere acabar antes o que está fazendo? sugeriu Vitória afinal, ela mesma tendo que suprir o argumento que ele não dera. Mas ele não parecia se surpreender com coisa alguma do que Vitória pudesse lhe dizer. A princípio a obediência com que ele a ouvia deu a Vitória uma escura raiva no peito. Nas suas fantasias, Vitória tinha a impressão de que, se dissesse ao ho¬mem: “de noite eu durmo embaixo da cama”, ele responderia: “pois não, minha senhora”. O fato dele admitir nela o que quer que fosse e as ordens mais contraditórias, ofendia-a; e, pior ainda, isso tirava sub-repticiamente uma viga do heroísmo vago de que ela vivia e cujos motivos já se haviam perdido. Mas, aos poucos, foi sendo envolvida pelo modo como ele admitia tudo nela ou em si mesmo. Era como se ele dissesse: “não vejo mal nem bem em se dormir embaixo da cama”. Pouco à vontade, ela não conseguiu descobrir o mal que haveria em dormir sob uma cama: a mulher piscou os olhos, perturbada. A solidez e a calma do homem não lhe transmitiam nem solidez nem calma — irritavam-na apenas. Quanto ao homem, seus músculos trabalhavam com exatidão, lentidão e certeza. E nada o alterava como se ele carregasse consigo, em defesa intransponível pelos outros, o grande silêncio das plantas de seu terreno terciário. Para as quais voltava todas as tardes como um homem volta à sua casa.
E onde ficava sentado sobre uma pedra. E lá era bom. Lá nenhuma planta sabia quem ele era; e ele não sabia quem ele era; e ele não sabia o que as plantas eram; e as plantas não sabiam o que elas eram. E todos no entanto estavam tão vivos quanto se pode estar vivo: esta provavelmente era a grande meditação daquele homem. Assim como o sol brilha e assim como rato é apenas um passo além da grossa folha espalmada daquela planta — esta era a sua meditação. Martim tinha olhos azuis e sobrancelhas baixas; seus pés e mãos eram grandes. Tratava-se de um homem pesado, com uma idéia na cabeça. Tinha uma presença móvel, atenciosa, como se só fosse replicar depois de ouvir tudo. Esse era o seu lado verdadeiro, e também o seu lado de fora, visível pelos outros. Por dentro — custando muito mais a atingir a sua forma exterior que o precedera — por dentro ele era um homem de compreensão lenta, o que no fundo era uma paciência, um homem com um modo de pensar atrapalhado que às vezes, num sorriso embaraçado de criança, se sentia intimidado pela própria estupidez, como se ele não merecesse tanto: é verdade que por dentro ele também era sagaz, com uma possibilidade sempre pronta a tirar proveito e vantagem.
O que no passado o levara a ignorar vários escrúpulos e a fazer vários atos que seriam pecaminosos se ele fosse uma pessoa importante. Mas ele era uma dessas pessoas que morrem sem se saber o que realmente aconteceu com elas. Na verdade, sentado na pedra de seu reinado, sua medita¬ção por assim dizer se reduzia a ser um homem de pés grandes sentado numa pedra. O que ele não notou é que já estava começando a tomar algum cuidado em ser exatamente apenas aquilo que ele estava sendo. No seu alerta adormecimento às vezes um pensamento já faiscava nele como numa lasca de pedra: — A região é árida, meditava ele com bastante profundeza. Todavia o carvão existe, parecia ele pensar, sentado ereto na pedra. Constatar era de uma surda virilidade. E era como se um homem, sabendo esperar sentado na pedra, pois bem! se um homem soubesse esperar sentado numa pedra, então a umidade favorecia o apodrecimento de raízes, nozes, frutos e sementes. Essa lógica obscura lhe parecia perfeita e suficiente. Sentado na pedra, ele também se sentia satisfeito pelo fato de agora saber trabalhar tão bem no campo. Seu conhecimento era pouco, mas suas mãos tinham ganho uma sabedoria. “Um homem é lento e demora muito para entender suas mãos”, pensou ele olhando-as. Seus pensamentos eram quase que voluntariamente enigmáticos. E no seu terreno ele sentia aquele prazer que em certos momentos nulos se sente, como se tudo na ver¬dade fosse essencialmente feito de prazer.
A planta, por exemplo, era apenas prazer. É verdade que às vezes a intensa quietude das plantas já parecia surdamente perturbá-lo, e dava-lhe uma primeira inquie¬tação. Então ele mudava a posição das pernas, paciente, sem entender. Não se dava conta de que ali estava lentamente fabri¬cando a sua primeira flecha e polindo o seu primeiro dardo. Nem se deu conta de que já era totalmente diferente daque¬le homem que olhara o terreno de madrugada. Não se deu conta de que, mudando tantas vezes a posição das pernas, estava tendo a sua primeira impaciência, ao olhar esse mundo pronto para ser caçado. Obscuramente, inquietava-se por começar a se sentir superior às plantas, e por sentir-se de algum modo homem em relação a elas. Pois só homem era impaciente: ele então mudou de novo a posição das pernas. E mais: só um homem se orgulhava da própria impaciência. Como ele, mudando de novo a posição das pernas, perturbadoramente se orgulhou.
Era uma vaidade generalizada que às vezes o tomava, e que ainda não se embaraçava por existir ao mesmo tempo que a prudência em não se arriscar além da sonolência asseguradora do terreno do depósito. Asseguradora mas já não suficiente. O homem estava incomodamente crescendo. Mas essa inquietação quase apenas física sucedia-lhe apenas por instantes. E ainda lhe acontecia tão distante dele próprio que ainda não alterara a inteireza do sistema de mundo em que ele se movia. E, em breve, com o grande prazer que existe na contenção da própria energia, de novo ele se punha em estado de “pouco saber”. Pois essa era a condição essencial ao terreno. Em não saber, havia no homem uma alegria sem sorriso assim como a planta se cumpre, grossa. Às vezes aquele homem, a quem sempre haviam escapado elos importantes, pegava na terra como uma pessoa que possui uma terra. E ficava com o punhado de terra na mão. Bronco, com a terra na mão; como melhor forma de ser. Quais eram os pensamentos daquele homem? Eram pensamentos apenas pro¬fundos, satisfatórios e substanciais. Uma tarde ele chegou ao ponto de pensar assim: — A fauna extinta é uma legião. Esse era o tipo de pensamento sem contestação possível. Ainda nesse mesmo dia ele pensou assim: — Há mais de um bilhão de anos, uma vez... — Martim não estava informado de quanto tempo exato existia atrás dele, mas como não havia ali ninguém que o impedisse de errar, ele se aprumou impassível, grande. E continuou a fazer constatações da melhor qualidade. Por exemplo, outra vez pensou assim: “sob dois metros de despojos, talvez haja aqui um crânio de mastodonte”. Pensar se transformara agora num modo de se esfregar no chão. Foi, pois, com o prazer mais legítimo da meditação que ele numa tarde se lembrou, sem mais nem menos, de que “existem búfalos”. O que deu grande espaço ao terreno, pois búfalos se movem devagar e longe.
E quem o olhasse — tão satisfeito o dominador — balançaria a cabeça em inveja pela sorte que aquele homem tivera em nascer quando as massas de gelo do globo já se haviam fundido; ele estava usufruindo de uma terra favorável. Veio-lhe, por exemplo, a vontade de comer — e ele anotou-a com aprovação. Tinha agora todos os sentidos que um rato tem, e mais um com o qual constatava o que acontecia: o pensamento. Era o modo menos pervertido de usá-lo. Deixava-se sanear pela coisa completa que havia nas plantas: com alívio, encostava seus pedaços crestados na frescura do que existe. Era danado de bom não mentir. Pois, sentado na pedra, ele não fazia nada mais que isso: não mentia. Por exemplo, Martim não estava triste. O que era estar enfim livre de todo um dever moral de ternura. Aquele homem tinha vindo de uma cidade onde o ar estava cheio dos sacrifícios de pessoas que, sendo infelizes, se aproximavam de um ideal. — Rebento a cara de quem mexer comigo! disse então alto exercitando sua alma e talvez procurando provocar em si uma cólera que de algum modo o sintonizaria com aquela calma energia ao seu redor. Depois do quê, levantou-se e urinou sereno olhando para o céu. As nuvens passavam altas. Ficou de pé, estúpido, modesto, aureolado. Sua unidade se dava como unidade. — A região é árida, pensou em seguida. O que lhe deu um gosto muito satisfatório. Olhou para o árido céu. O céu ali estava, alto. E ele embaixo. Perfeição maior não se pode imaginar. Quando dormia, dormia. Quando trabalhava, trabalhava. Vitória mandava nele, ele mandava no próprio corpo. E algo crescia com rumor informe.
Seis
Primeira parte: Como se faz um homem
Cinco
O teste foi elaborado com a consultoria da professora Mona Lisa Bezerra Teixeira, doutora em Letras pela Universidade de São Paulo. Descubra quem é você na obra de Clarice Lispector.
O Blog agradece a atenção de todos.
O projeto “3ª Investigação Estética” consiste na realização de um processo de pesquisa das linguagens artísticas focadas nas obras dos artistas selecionados pela organização do evento que considerará a representatividade destes no contexto da sua obra para a produção artística. Difundir e expandir a leitura das diversas possibilidades criadoras no universo das artes em geral. A 3ª Investigação opta por reunir a obra de duas grandes artistas, que possuem um espírito de inquietação e ousadia.
Data do evento: 31/03/12.
Local: Paulo Afonso, Bahia.
E-mail: dancaeteatro@yahoo.com.br.
Organização: Associação Pauloafonsina de Dança e Teatro (APDT).
Pintura: Medo. Clarice Lispector
Não Soltar os Cavalos



