A Maçã no Escuro

quinta-feira, maio 23, 2013

Segunda parte: Nascimento do herói
Dois
 
Até que nessa tarde na encosta Martim começou a se jus­tificar. Chegara o duro tempo de explicação.
Ali, antes de prosseguir, ele devia ser inocente ou culpado. Ali ele tinha que saber se sua mãe, que jamais o entenderia se fosse viva, o amaria sem entendê-lo. Ali ele devia saber se o fantasma de seu pai lhe daria a mão sem espanto. Ali ele se julgaria — e dessa vez com a linguagem dos outros. Agora teria de chamar de crime o que fizera. O homem estremeceu com medo de tocar errado em si, ele que ainda estava todo ferido.
Mas porque profundamente sabia que até a farsa usaria contanto que conseguisse sair inteiro de seu próprio julgamento — de tal modo, se não se absolvesse, ficaria perplexo com um crime nas mãos — porque sabia que não se permitiria sair senão inteiro do perigoso confronto é que teve coragem de se encarar e, se necessário, de se horrorizar.
E mais: como só se permitiria vencer, pois no ponto em que estava precisava ferozmente de si mesmo, já de antemão se disse o seguinte: depois do julgamento necessário é que ele teria à frente a sua grande tarefa. Pois ali ele deveria se lembrar do que um homem quer.
Bem que lhe ocorreu que estava invertendo o que aconte­cera. Que não cometera um crime para se dar a oportunidade de saber o que um homem quer — essa oportunidade nascera casualmente com o crime. Mas procurou ignorar o incômodo sentimento de mistificação: ele precisava desse erro para ir adiante, e usou-o como instrumento. E, voluntariamente pas­sando ao largo de sua confusão, o homem tentou enfim se abor­dar. Com um suspiro, abordou-se em termos claros e pensou assim:
Que não cometera um crime vulgar.
Pensou que com esse crime executara o seu primeiro ato de homem. Sim. Corajosamente fizera o que todo homem tinha que fazer uma vez na sua vida: destruí-la.
Para reconstruí-la em seus próprios termos.
Fora isso então o que ele quisera com o crime?” Seu coração bateu pesado, irredutível, iluminado de paz. Sim, para reconstruí-la em seus próprios termos.
E se não conseguisse reconstruí-la? Pois na sua cólera ele quebrara o que existia em pedaços pequenos demais. Se não conseguisse reconstruí-la? Pois olhou o vazio perfeito da cla­ridade, e ocorreu-lhe a possibilidade estranha de jamais conseguir reconstruir. Mas se não conseguisse, não importava se­quer. Ele tivera a coragem de jogar profundamente. Um homem um dia tinha que arriscar tudo. Sim, ele fizera isso.
E orgulhoso de seu crime, olhou o mundo arrasado.
Por ele mesmo arrasado, a seus pés. O mundo desmontado por um crime. E que só ele, porque ele se fizera o grande cul­pado, poderia reerguer, dar um sentido e montar de novo.
Mas em seus próprios termos.
Era isso, então. Então Martim se perguntou com intensi­dade e com dor: seria isso mesmo? Porque suas verdades não pareciam suportar muito tempo de atenção sem que se defor­massem. E, por um instante, a verdade tanto poderia ser esta como outra: imutável era apenas o campo. Foi pois à custa de um controle de arte que Martim se apegou a uma verdade ape­nas e com dificuldade afastou as outras. (Sem se dar conta, sua reconstrução já começara arquejante.)
Não lhe importava que a origem de sua força presente tivesse sido um ato criminoso. O que importava é que daí ele tomara o impulso da grande reivindicação.
Foi assim, pois, que Martim saiu inteiro do julgamento. Um pouco cansado com o esforço.
Bem, e agora então seria lembrar-se do que um homem quer. Esse era o verdadeiro julgamento — e Martim abaixou a cabeça, confuso, em penitência.
Oh Deus, não era nada fácil para aquele homem exprimir o que queria. Ele queria isto: reconstruir. Mas era como uma ordem que se recebe e que não se sabe cumprir. Por mais livre, uma pessoa estava habituada a ser mandada, mesmo que fosse apenas pelo modo de ser dos outros. E agora Martim estava por sua própria conta.
Era preciso ter muita paciência com ele, ele era lento. Que queria ele? O que quer que quisesse nascera longe dentro dele, e não era fácil trazer à tona o rumorejo gago. Depois acontece que o que ele queria também se confundia estranhamente com o que ele já era — e que no entanto ele nunca atingira.
Sua obscura tarefa seria facilitada se ele se concedesse o uso das palavras já criadas. Mas sua reconstrução tinha de co­meçar pelas próprias palavras, pois palavras eram a voz de um homem. Isso sem falar que havia em Martim uma cautela de ordem meramente prática: do momento em que admitisse as palavras alheias, automaticamente estaria admitindo a palavra “crime” — e ele se tornaria apenas um criminoso vulgar em fuga. E ainda era muito cedo para ele se dar um nome, e para dar um nome ao que queria. Um passo a mais, e saberia. Mas era cedo ainda.
Então Martim desceu da encosta para avisar a Vitória que na manhã seguinte começaria a cavar as valas. Foi ao alpendre e esperou que Vitória acabasse de falar com Francisco.
O fato de ter enfim conseguido pensar não lhe dera ne­nhuma diretiva. Mas, a seu modo, ele assumira o seu crime — e sentia-se um homem inteiro, alto, sereno. Em pé no alpendre, sem pressa, ouvia a voz dura de Vitória e o assentimento de Francisco a ritmar a voz da mulher. Depois, quase sem perceber, passou a ouvir também as palavras.
— ...você tem que reunir os tomates também. E dessa vez empacotá-los melhor, Francisco. Melhor e mais depressa: desta vez o alemão vai mais cedo a Vila.
Martim ouvia, e esperava paciente. E foi então que enten­deu o que ouvira.
Assim, pois, ela ia se encontrar com um alemão. Com o alemão. Então ela se avistaria com o alemão. Estupidificado, atento, Martim revirou a frase na própria cabeça para ver se conseguia fazê-la perder o sentido. Mas de qualquer lado por onde a repetisse, era sempre a mesma: “a mulher veria o ale­mão”. Provavelmente vendia-lhe alguns produtos do sítio! pen­sou, de repente recuperando a antiga inteligência voraz da fuga e de um instante para outro dominado por uma esperteza de raciocínio que ultrapassou o seu poder normal, como se agora ele fosse capaz de perder o peso do corpo, rastejar baixo e se confundir com as sombras da parede. Em aguçamento felino de memória, lembrou-se instantaneamente de que vira Francisco limpar o caminhão. . .
“Para ir a Vila Baixa ou apenas por limpar?” Lembrou-se de que já ouvira Vitória falar no alemão — mas quando? quan­do! Ou nunca ouvira? Não, nunca ouvira. . . E Francisco já limpara o caminhão! Mas para o dia de hoje não seria a viagem — seria talvez para o dia seguinte? Então ela se avistará com o alemão, pensou ele com o cuidado de quem estivesse manu­seando algo traiçoeiro que pudesse inesperadamente se rebelar entre seus dedos e ganhar vida própria. Então ela se avistará com o alemão, pensou com cuidado. Mas o pensamento, embora muito claro, não o levou a parte alguma nem o dirigiu a nenhum outro pensamento. Capturado, ele mexeu feroz a cabeça de um lado para outro calculando a distância de um salto para fora do alpendre. Ela se avistará com o alemão, repetiu rápido e mes­quinho como um rato, e até sua cabeça pareceu mais peluda a Vitória — que o olhou um instante sem interromper as ordens para Francisco. “Ele parece um bicho sujo”, constatou a mulher continuando a falar com Francisco.
Mas em breve foi se esgarçando a escuridão íntima que envolvera Martim e na qual ele já estava começando a se mover com habilidade. Sua cabeça foi voltando pouco a pouco ao lugar. E quando Francisco foi embora e Vitória começou a lhe falar e a lhe dar ordens, Martim, esquecido do que viera lhe comuni­car a propósito das valas, olhou-a intensamente nos olhos. E procurou adivinhar, com o auxílio daquele parco elemento que eram dois olhos pretos, se Vitória seria mulher que tagarelasse sobre o que se estava passando na sua própria casa: sobre um novo trabalhador, um estranho à zona. . . Mas mesmo que ela não lhe contasse diretamente, poderia casualmente se referir a ele... e o alemão adivinharia que se tratava daquele mesmo que fugira de noite do hotel...
“Qual seria o grau de sua intimidade com o alemão?”, pro­curou Martim adivinhar, devassando-a avidamente com os olhos. Mas não encontrou resposta nenhuma naquele rosto que, por cansaço, um dia se fechara para sempre. “Talvez ela não fosse mulher que conversasse... mas o próprio alemão talvez falasse daquela noite em que o hóspede lhe escapara — e ela então saberia!” Martim se encolerizou contra si próprio por não ter jamais prestado atenção àquela mulher que ele não conhecia e cujos atos, por isso, ele não era capaz de prever. Por necessidade prática, então examinou-a pela primeira vez. Era um rosto fino e duro, onde os ossos pareciam falar mais que a carne. Era uma cabeça levantada. Mais que isso, ele não soube.
E a viagem, para quando seria? quanto tempo restava-lhe para uma fuga? “A viagem não podia ser para muito breve!”, pensou de repente mais lúcido, “pois Francisco não teria tempo de recolher e de empacotar os tomates! os tomates ainda não tinham sido sequer colhidos, pois agora é que Vitória dera ordem a Francisco!”, lembrou-se ele numa fúria de alegria. “Ou tinham?”, confundiu-se de repente.
— Quando é que a senhora vai a Vila? perguntou não suportando mais a dúvida, e a pergunta que ele não planejara mas quisera casual soou brusca e imperativa, suspeita a seus próprios ouvidos.
Vitória interrompeu-se, sua boca abriu-se em surpresa. Era a primeira vez que o homem lhe dirigia a palavra sem ser pro­vocado.
  Não sei, disse afinal, de sobrancelhas franzidas.
Então Martim, com a mesma perspicácia súbita que o ul­trapassava e ultrapassava a lógica — percebeu que Vitória o denunciaria. Então abaixou os ombros e desfez a tensão. Como se o primeiro instante de certeza só lhe desse o alívio de não duvidar, a quietude tomou-o. Ele olhou cruamente a mulher.
O rosto dela, a esse tranqüilo olhar sem disfarce, se aver­melhou descoberto. Tão nuamente fitada, a cara se contraiu em rápida procura de uma atitude, resolvendo-se afinal por uma expressão de impassibilidade a que o rubor deu mais deter­minação.
Então o homem entendeu ainda mais adiante: que desde o momento em que ele pisara na fazenda, ela se decidira a mandá-lo embora. O único elemento novo que agora viera acres­centar-se é que ela enfim escolhera o modo.
Por que não percebera ele, antes, aquilo que agora era tão claro? pensou surpreendido. Como não percebera que, dia após dia, aquela mulher lutara por se decidir, e que acumulativamente decidira? Como não percebera que cada passo despreocupado que ele dera — fizera com que a mulher, em eco, avançasse mais um passo para a decisão? Pois o homem rememorou ve­lozmente certos olhares da mulher enquanto ele trabalhava, e que ele mal notara; rememorou o tom de voz com que ela tantas vezes lhe perguntara quanto tempo ele se demoraria na fazenda. Mas por que lhe fizera ela essa pergunta? Como se cada vez lhe sugerisse a idéia de voluntariamente partir... Para lhe dar a oportunidade de fugir, e assim libertá-la da decisão difícil? Compreendeu que do momento em que ele pisara na fazenda, ela adivinhara. Adivinhara tão longe quanto se podia adivinhar sem saber. Somente uma coisa ele ainda não com­preendia, e olhou-a com curiosidade: é que ela não o tivesse ainda denunciado. Vitória não suportou o olhar simples do homem, e desviou os olhos.
“Essa era então a sua última resposta”, pensou ele. “E então era pouco o tempo que restava”, foi a próxima constata­ção de Martim.

A Maçã no Escuro

quinta-feira, maio 23, 2013

Segunda parte: Nascimento do herói
Um


Mas nessa mesma noite, andando excitado de um lado para outro dentro da pequenez do depósito, Martim mal se conteve com o que ganhara. Era a alegria. Não sabia o que fazer de si como se tivesse uma notícia e não houvesse a quem dá-la. Estava muito contente de ser uma pessoa, este era um dos grandes pra­zeres da vida. No entanto, inconsolável, parecia-lhe que jamais seria indenizado.
E pela primeira vez desde que fugira tinha necessidade de se comunicar. Sentou-se no bordo da cama, a cabeça feliz entre as mãos. Não sabia por onde começar a pensar. Então lembrou-se de seu filho que um dia dissera na hora do jantar: não quero esta comida! A mãe retrucara: que comida você quer? O me­nino terminara dizendo com o doloroso espanto da descoberta:
  Nenhuma!
Ele, Martim, então lhe dissera:
  É muito simples: se você não está com fome, não pre­cisa comer.
Mas a criança começara a chorar:
  Não estou com fome, não estou com fome. . .
E como o rádio também estava ligado, o homem gritara:
  Já lhe disse que se você não tem fome não precisa comer! por que então está chorando?
O menino respondera:
  Estou chorando porque não estou com fome.
  Prometo que amanhã você vai ter fome, prometo! dis­sera-lhe Martim perturbado, entrando por amor na verdade de uma criança.
Sentado na cama, com a cabeça entre as mãos, Martim fechou os olhos rindo muito emocionado. Era a alegria. Sua alegria vinha de que ele estava com fome, e quando um homem tem fome ele se alegra. Afinal uma pessoa se mede pela sua fome — não existe outro modo de se calcular. E a verdade é que na encosta a grande carência lhe renascera. Era estranho que ele não tivesse comida mas que se rejubilasse com a fome. Com o coração batendo de grande fome, Martim se deitou. Ouvia seu coração pedir, e riu alto, bestial, desamparado.
No dia seguinte Ermelinda cada vez mais sistemática voltou:
  O senhor pode pensar que sou doida, disse-lhe com o ar persistente dos cegos, mas tem um lugar dentro de mim onde vou quando quero dormir! ah, eu sei que isso é engraçado, mas é assim... Se esse lugar fosse perto, eu até podia dizer que ficava no canto esquerdo de minha cabeça — é que eu durmo deitada do lado esquerdo, explicou-lhe de passagem, lambendo os lábios — mas esse lugar é tão mais longe, é como se fosse muito depois que eu acabo. . . mas é ainda dentro de mim, sou eu ainda, entendeu?
Como eram os particulares detalhes de sua vida que a tor­navam, a seus próprios olhos, insubstituível por outra pessoa, ao descrever suas especialidades ela tentava com esforço provar ao homem que ela era ela mesma. Como Martim não a olhara, então arriscou-se ainda mais:
  É um lugar que fica depois de minha morte, disse afi­nal, e tornou-se de repente tão pálida que, levado a fitá-la por causa do silêncio inesperado da moça, ele deixou de sorrir sem saber por quê.
Mas Ermelinda bem sabia que ainda era cedo para deixar de mentir e deixar de encantá-lo. Sabia que era cedo para se mostrar a ele, e que poderia afugentá-lo se fosse verdadeira, as pessoas tinham tanto medo da verdade dos outros. Só por meios indiretos conseguiria. A idéia de que, se não o divertisse, ela o afugentaria, apavorava-a: logo agora que já ganhara tanto terreno a ponto de conseguir que ele a ouvisse, mesmo que não a olhasse! Então, receosa de ter ido adiante demais e de tê-lo espantado, ela riu muito e disse brincando:
  Sei que para ir a esse lugar aonde vou quando estou com sono, se toma a esquerda, é assim que eu consigo dormir, imagine! Às vezes, para não ficar nervosa, quero levar para o sono uma coisa comigo, uma coisa do dia, entende? um lenço para torcer na mão, um livro de missa, só para me dar seguran­ça e eu não ir sozinha, imagine só que bobinha que sou! disse com ternura, olhando-o bem fixo para ver se conseguira con­tagiá-lo com a ternura para consigo mesma. Mas não se pode levar coisa nenhuma ou alguém, senão não se vai. Parece um lugar só para se dormir ou para pensar. Eu, é claro, não quero nem gosto mesmo de voltar lá! Mas — disse desamparada — mas depois que a gente vai uma só vez, fica logo um vício. O senhor acredita — acrescentou gulosa — o senhor acredita que eu não consigo deixar de pensar no que penso? — mas não lhe disse no que pensava, e sentiu o prazer de quem se confessa à revelia de quem ouve, como se o roubasse enquanto ele dormia.
  O senhor por acaso consegue não pensar no que pensa? É, como se costuma dizer, uma obsessão! uma verdadeira obsessão!
  dizia tudo brincando, sem esquecer um instante que, num trabalho paciente e perfeito, devia sempre lisonjear o homem.
Mas sem também esquecer que tinha pressa. Ocorreu-lhe que, ao falar com ele, poderia sem querer deixar escapar o que ela era, e o homem então perceberia quanto ela precisava dele, e por isso não a quereria mais, como acontece com as pessoas. À simples possibilidade dele nunca vir a gostar dela, Ermelinda se arrepiou solitária, olhou os pássaros que voavam. Seu traba­lho junto ao homem foi sempre tão delicado, e exigiu tanta precisão, que ela não o saberia fazer se apenas o decidisse ou se lhe mandassem fazê-lo. Era um labor de infinita cautela, onde um passo mais e o homem jamais a amaria, onde um passo a mais e ela mesma talvez deixasse de amá-lo: ela protegia ambos contra o erro. E às vezes mais parecia proteger ambos contra a verdade.
  É como uma obsessão! Você acha que sou doida? per­guntou-lhe, pois ela sabia que vivia de uma idéia e que isso não era “normal”.
  Não.
  Mas as outras pessoas não parecem pensar que a mor­te. ..   — Ermelinda disfarçou depressa a palavra reveladora com um sorriso de faceirice. Não mesmo? indagou coquete, não sou doida, hein? Sou tão bobinha que o senhor nem pode ima­ginar!  disse-lhe como se lhe prometesse todo um futuro de atraente bobagem que ele perdia apenas porque queria.
  É doida porque fala, disse ele afinal, pesado.
  Ah, disse ela com o ar sabido de quem não se deixaria enganar, então já estou vendo tudo: você acha que sou doida! já vi tudo, você não me engana! disse toda risonha usando o “você” com intenção — mas seus olhos abertos estavam pen­sando em outra coisa.
Martim se lembrou de um homem que ele conhecera e que viajara sozinho durante muito tempo pelo interior e que, ao voltar, vivia falando sobre árvores e cobras e passarinhos, para o cansaço e a incompreensão de todos; até que o homem per­cebera que uma pessoa não fala sobre árvores e passarinhos e cobras, e parara de falar:
  Não, repetiu então olhando-a, e com um primeiro ca­rinho de curiosidade na voz, você não é doida. É que você vive muito isolada e já não sabe mais o que se conta aos outros e o que não se conta — o homem parou e olhou-a, intrigado por ter falado tanto.
Ele nunca falara tanto, e o coração da moça começou a bater:
  Pois é, disse ela galante.
Com uma sabedoria instintiva, Ermelinda não demonstrou que notara o seu primeiro passo para ela, assim como não se dá um grito de alegria quando uma criança começa a andar para que esta não pare assustada por meses.
Quanto a ele, ele não percebia nada. Quanto a ele, aguar­dava com paciente ansiedade pelo momento de terminar o tra­balho.
Para ir — não ao terreno das plantas, não às vacas do curral — mas, com a incerta determinação de uma geléia viva, ir de novo à encosta para retomar cada dia o instante de sua formação do dia anterior. Onde ficava de pé, bastando-lhe estar de pé, sem saber o que fazer. Essa necessidade que uma pessoa tem de subir uma montanha — e olhar. Esse era o primeiro símbolo que ele tocara desde que saíra de casa: “subir uma montanha”. E neste obscuro ato ele se fecundava. Aquele lugar era um velho pensamento jamais formulado. Como se o pai de seu pai o tivesse aspirado. E como se da invenção de uma lenda antiga tivesse nascido aquela realidade. Aquele lugar já lhe tinha acontecido antes, não importava quando, talvez apenas em pro­messa e em invenção.
E só Deus sabe que Martim não sabia o que vinha fazer na encosta. Mas tanto é verdade que alguma coisa objetiva devia lhe estar acontecendo ali que — já que ele se habituara a reva­lidar sua própria natureza com o argumento final da natureza dos animais — que bastava ele se lembrar de como um boi fica de pé no morro. Olhando. Essa coisa objetiva como um ato: olhar. Às vezes também um cachorro olha, embora rápido e logo em seguida inquieto, pois um cachorro não tem tempo, ele precisa muito de carinho e é nervoso, e tem um sentimento aflito do tempo que passa, e tem nos olhos o peso de uma alma intransmissível, só o amor cura um cachorro. Mas acontece que aquele homem, por circunstâncias casuais, estava mais perto da natureza do boi, e olhava. Se é verdade que se lhe perguntassem para quê, não saberia responder, é também verdade que se uma pessoa fizesse apenas o que entende, jamais avançaria um passo.
Oh, pode-se dizer que nada acontecia enquanto ele estava na encosta. E nem ele exigia ainda que algo acontecesse. Pare­cia bastar-lhe a tarde de luz rasgada, o ar nu e o espaço vazio. Até mesmo uma palavra pensada afundaria o ar. Ele se abstinha. Ali, existir já era uma ênfase. Como se já fossem uma audácia e um avanço uma pessoa estar de pé na claridade. E era como se ali Martim se tornasse o símbolo dele mesmo. Ele que, enfim, se encarnara em si próprio. Os passarinhos, escapulindo da luz, se mantinham dentro da escuridão dos galhos cheios. A claridade restava solitária, azul, fina. Era a tarde. E Martim olhava como se olhar fosse ser um homem. Ele gozava seu estado. Era uma generosidade do mundo para com ele. Rece­bia-a sem pejo. Pois, não se sabe por quê, ele não tinha mais vergonha.
Ao ponto de um dia, diante da claridade inóspita e sem nenhum sentido, ele ter enfim pensado, um pouco inquieto e avançando: “por Deus, se não criássemos um mundo, este mun­do apenas divino não nos receberia”. Foi quando começou a escurecer. Cachorros apareceram atentos ao longe. Os passari­nhos saíram da folhagem, e cada um se arriscou um pouco mais. Aos poucos o ar se adensou, os sentimentos começaram enfim a mostrar sua natureza pouco divina, um desejo profundamente confuso de ser amado misturou-se ao cheiro humano da noite, e um vago suor começou a porejar, espalhando seu cheiro bom e ruim de terra e de vacas e de rato e de axilas e de escuridão — esse furtivo modo como aos poucos tomamos conta da terra: tínhamos enfim criado um mundo e tínhamos lhe dado a nossa vontade. O máximo de claridade cedera à nossa habitada escuri­dão: seria isso talvez o que Martim cada dia aguardava ali em pé? Como se nesse vergar-se da claridade lhe ensinassem como se faz a união harmoniosa — não inteligível mas harmoniosa, não com uma finalidade mas harmoniosa — como se nesse ver­gar-se da claridade para a escuridão se fizesse enfim a união das plantas, das vacas e do homem que ele começara a ser. Cada vez, pois, que o dia se tornava noite, renovava-se o domínio do homem, e um passo era dado para a frente, às cegas, finalmente às cegas como é o avanço de uma pessoa no querer.
Martim não se indagou por que na encosta ele se comple­tava tão bem, ficando ele próprio harmonioso — ininteligível mas harmonioso — enquanto olhava a imortalidade do campo. Por enquanto isso lhe bastava. Um homem que andou muito tem o direito de ter um prazer inexplicável, harmonia apenas, mesmo sem entender — por enquanto sem entender. Pois, com tranqüila presunção, ele se dizia: “é cedo ainda”. Não era, porém, apenas presunção. É que agora ele aprendera a contar com o amadurecimento do tempo, assim como as vacas disso vivem taticamente. Ele agora parecia entender que não se podia brutalizar o tempo, e que o largo movimento deste era insubs­tituível por um movimento voluntário.
Assim, cada dia, quando se livrava das ordens de Vitória, ia esperar na encosta pela volta daquele instante quando, entor­pecido, se aproximara da fazenda pela primeira vez e pela pri­meira vez fora alertado. E de novo e de novo voltava. Repetir lhe parecia essencial. Cada vez que se repetia, algo se acres­centava.
Tanto que Martim já estava começando a se perturbar — ele era um homem, mas restava algo inquieto: que é que um homem faz?

Texto para a Páscoa: A Repartição dos Pães

quinta-feira, março 28, 2013

Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. Quanto a meu sábado - que fora da janela se balançava em acácias e sombras - eu preferia, a gastá-lo mal, fechá-lo na mão dura, onde eu o amarfanhava como a um lenço. À espera do almoço, bebíamos sem prazer, à saúde do ressentimento: amanhã já seria domingo. Não é com você que eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e soprávamos devagar a fumaça do cigarro seco. A avareza de não repartir o sábado ia pouco a pouco roendo e avançando como ferrugem, até que qualquer alegria seria um insulto à alegria maior.
Só a dona da casa não parecia economizar o sábado para usá-lo numa quinta de noite. Ela, no entanto, cujo coração já conhecera outros sábados. Como pudera esquecer que se quer mais e mais? Não se impacientava sequer com o grupo heterogêneo, sonhador e resignado que na sua casa só esperava como pela hora do primeiro trem partir, qualquer trem - menos ficar naquela estação vazia, menos ter que refrear o cavalo que correria de coração batendo para outros, outros cavalos. Passamos afinal à sala para um almoço que não tinha a benção da fome. E foi quando surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós...
Era uma mesa para homens de boa-vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera? Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem? E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos.
A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos - tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse. Junto do prato de cada mal-convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera - mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar - um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.
Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível. Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.
Não havia holocausto: tudo aquilo queria tanto ser comido quanto nós queríamos comê-lo. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho, com os olhos tomava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos. Pão é amor entre estranhos.

Visão de Clarice Lispector

terça-feira, março 05, 2013

O poema abaixo foi escrito por Carlos Drummond de Andrade.

Visão de Clarice Lispector

Clarice,
veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.

O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.

Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia… saberemos amar Clarice.

A Maçã no Escuro

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Primeira parte: Como se faz um homem

Onze

Mas na tarde em que Martim e Vitória foram a cavalo para que a dona da fazenda lhe mostrasse onde seriam cavadas as valas de sustentação de águas, nessa tarde em que subiram a mesma encosta por onde o homem uma vez viera sozinho — foi quando ele se destacou maduro da escuridão das vacas.
Porque do alto da encosta, a mulher pesquisava o chão, ele inocente e desprevenido reconheceu de súbito o campo como o divisara ao chegar pela primeira vez à fazenda. Daquela vez em que, bêbedo de fuga, apoiara-se exausto naquela coisa vaga que é a promessa que é feita a uma criança quando esta nasce.
Montado no cavalo, num lampejo de incompreensão genial, ele viu o campo. Estonteado, atento, no alto da encosta era aque­la mesma liberdade como se algo se desfraldasse ao vento. E como da primeira vez, a glória do ar livre aproximou-o de alguma coisa que lhe bateu dura no peito e que doeu na extrema perturbação da felicidade que às vezes se sente.
Mas a que desta vez ele quis, numa primeira fome inespe­rada, dar um nome.
Desejar algo mais do que apenas sentir pareceu afligir Martim, este sinal confuso de transição para o desconhecido inquietou-o, sua inquietação se transmitiu ao cavalo que escoi-ceou obscuramente tocado, com o olhar deslumbrado que um cavalo tem.
É que diante daquela extensão de terra enorme e vazia, em sufocado esforço Martim penosamente se aproximava — com a dificuldade de quem nunca vai chegar — se aproximava de alguma coisa a que um homem a pé chamaria humildemente de desejo de homem mas a que um homem montado não pode­ria fugir à tentação de chamar de missão de homem. E o nasci- mento dessa estranha ânsia foi provocado, agora como da primeira vez em que pisara a encosta, pela visão de um mundo enorme que parece fazer uma pergunta. E que parecia clamar por um novo deus que, entendendo, concluísse desse modo a obra do outro Deus. Ali, confuso sobre um cavalo assustado, ele próprio assustado, num segundo apenas de olhar Martim emergiu totalmente e como homem.
No mesmo instante também se sentiu inteiramente incompensado.
Com o rosto batido pelo vento que logo passou a simbolizar alguma coisa, Martim viu embaixo os animais soltos no pasto. Desde que havia entendido as vacas, pela primeira vez se achava acima delas na encosta. E também isto lhe bateu no peito. Com o coração batendo Martim então se lembrou inesperadamente de como um homem costuma ser: era como ele estava sendo agora! Numa sensação agonizante, ele se sentiu uma pessoa.
Martim estava de algum modo humilde, se era ser humilde o modo involuntariamente triunfante como estava montado num cavalo — o que lhe dava altura e espanto e determinação e visão mais larga. Nessa inesperada humildade ele pareceu reconhecer mais um sinal de que estava emergindo porque só os animais eram orgulhosos, e só um homem também era humil­de. Também a essa coisa indefesa e no entanto audaciosa ele quis dar um nome, mas não existia.
De algum modo foi bom que não existisse: não encontrar um nome aumentou imperceptivelmente a inquietação de que ele agora gozava. Pois a verdade é que, embora intimidado, ele estava fruindo a própria inquietação. Como se a tensão em que se achava fosse a medida de sua própria resistência, e ele fruísse as primícias de uma dificuldade como os músculos de um homem se intensificam ao levantar um peso. E ele, ele era o seu próprio peso. O que quer dizer que aquele homem se tinha feito.
Nesse ínterim a impaciência mal refreada dos cavalos au­mentara a instabilidade de Martim e empurrava-o a uma decisão que ele no entanto desconhecia. O vento unia a figura recor­tada de Vitória à dele, o ar puro deixara os cavalos mais negros e maiores. O ar era tão leve que o homem não pôde respirá-lo todo, pois é aos poucos que se respira, pois é aos poucos que uma pessoa vive — e ele sufocou por não ter capacidade de mais ar, e no entanto “não poder” intensificou sua felicidade, a enorme vastidão rodeou-o sem que ele pudesse dominá-la, seu coração bateu grande, generoso, inquieto, os cavalos mexiam as patas com galanteria e destreza. O vento constante terminara por dar ao rosto da mulher um arrebatamento físico suave que não condizia com suas palavras sobre a abertura das valas, e os corpos solitários de ambos estavam tendo um tácito mútuo entendimento assim como concordam corpos com o mesmo último destino: o coração daquele homem bateu grande e con­fuso, reconhecendo. Ser uma pessoa era ser isso tudo.
Foi então que lhe pareceu que a promessa que lhe tinha sido feita era a sua própria missão. Embora ele não entendesse por que cabe a nós cumprir uma promessa que no entanto nos foi feita.
Neste momento estava particularmente bom existir pois havia também o ar muito límpido da tarde. E nesse momento a mulher montada de repente riu de enervamento porque o cavalo recuara e a assustara. Com certa surpresa o homem ouviu o riso naquela mulher que jamais ria. É que tudo estava provavelmente se manifestando para Martim, assim como as flores se abrem em determinado momento e nunca estamos perto para ver. Mas ele estava. Pela primeira vez estava presente no momento em que acontece o que acontece. E ele! ele era esse homem que pela primeira vez se dava conta, não apenas por ouvir dizer, mas inquietantemente de primeira mão. Ele era exatamente esse homem. Estranhou-se então como modo arrebatado de se reconhecer. Acabara de decidir ser, não um outro, mas esse homem.
E mais que isso: ele próprio se tornara de repente o senti­do das terras e da mulher, ele próprio era o aguilhão daquilo que ele via. Foi isso o que sentiu, embora recebesse de seu pensamento apenas o latejar. E contido, alvoroçado, lembrou-se de que este é o lugar-comum onde um homem pode enfim pisar: querer dar um destino ao enorme vazio que aparentemente só um destino enche.
Então, num impulso da mesma natureza do impulso de querer dar nome, procurou se lembrar que gesto se usava para exprimir aquele instante de vento e de alusão ao desconhecido. Procurou se lembrar do que fizera quando estivera um dia no alto do Corcovado com uma namorada. Mas, que se lembrasse, não havia como exprimir. Nessa primeira impotência, por um instante Martim se sentiu angustiadamente preso.
Mas também sentir-se angustiadamente preso era ser uma pessoa, ele bem se lembrava ainda! oh ele bem se lembrou: com angústia lembrou-se de que essa angústia era ser gente — e no alto do Corcovado ele beijara a namorada com uma fero­cidade de amor. Lembrou-se a tempo de que não havia como exprimir a alegria e então se construía uma casa ou se fazia uma viagem ou se amava. Também ele, montado no cavalo, com o ar apreensivo de quem pode errar, estava atentamente pro­curando copiar para a realidade o ser que ele era, e nesse parto estava se fazendo a sua vida. E a coisa se fez de um modo tão impossível — que na impossibilidade estava a dura garra da beleza. São momentos que não se narram, acontecem entre trens que passam ou no. ar que desperta nosso rosto e nos dá o nosso final tamanho, e então por um instante somos a quarta dimensão do que existe, são momentos que não contam. Mas quem sabe se é essa ânsia de peixe de boca aberta que o afogado tem antes de morrer, e então se diz que antes de mergulhar para sempre um homem vê passar a seus olhos a vida inteira; se em um instante se nasce, e se morre em um instante, um instante é bastante para a vida inteira.
O homem, pois, se lembrara enfim do que fizera com a namorada ao vento do Corcovado. Para se exprimir ele poderia talvez apoderar-se de Vitória, já que sendo ele agora um homem, ela se tornara uma mulher. Mas não só ela não era dócil, como este seria um ato gratuito sem o peso perfeito de fatali­dade que o desejo de corpo dá. Ficou pois quieto, embaraçado, sem saber que fazer de tudo aquilo em que tão subitamente ele se transformara. Foi então que, vindo do nada, por puro estabanamento, ele quis ser “bom” como solução. Quis tanto ser bom que de novo sentiu uma espécie de impotência.
É verdade que o pensamento fugitivo que tivera sobre a mulher não se perdeu de todo no ar. Alguns restos dele a mulher os sentiu, obscuramente ofendida como os gatos se ofendem no telhado. Vitória voltou-se para ele e enquanto falava sobre as valas encarou-o, e ele era indubitavelmente aquele homem: nele, ela viu ele. O que foi inesperado. Com a curiosi­dade de quem visse se rebentar uma artéria e um sangue insus­peito jorrar, com repugnância e grande altivez, ela o olhou — e ele era aquele homem, não um outro jamais, mas ele mesmo, o que a fez desviar os olhos severa. Ela se lembrou de que uma noite passara pelo depósito e ouvira o homem roncar. A lem­brança disso não só o tornou inegável, como a probabilidade razoável dele não saber que roncava entregou-o de novo a ela mesma em todo o seu peso de inconsciência, como uma vez o cão desmaiado fora dela.
Até que — até que nova onda de brisa apagou tudo. Deixando como realidade apenas o homem e a mulher sobre os cavalos.
E de tudo restou para o homem apenas a sensação um pouco inútil de ter enfim emergido. E o coração de uma pessoa viva. O que, se era pouco, lhe deu um poder muito grande; como pessoa ele era capaz de tudo. Talvez tenha sido isso o que ele sentiu. E para lhe mostrar até que ponto tudo estava convergindo para uma realização — como quando a graça existe — Vitória neste mesmo momento estendeu o braço apontando ao longe uma montanha de encostas suavizadas pela impossibi­lidade de serem tocadas... Martim teve então uma espécie de certeza de que este era o gesto que ele procurara: tanto as distâncias parecem precisar de alguém que as determine com um gesto. Assim o homem escolheu concluir que é este o gesto humano com que se alude: apontar.
E não lhe importou sequer que a mulher o tivesse feito inconscientemente. Nem sequer que fosse ela, e não ele, a executá-lo. Na muda potência em que estava, qualquer coisa que falasse seria considerado por ele como voz sua e qualquer coisa que se mexesse seria movimento seu; e ele poderia talvez dizer “o melhor momento de minha vida foi quando as tropas de Napoleão entraram em Paris”, e poderia dizer “o melhor momento de minha vida foi quando um homem disse dai pão aos que têm fome”, e tornar-se trabalho seu dos mais duros e deslumbrados o crescimento das árvores — a largueza do mundo alargara penosamente seu peito. E se assim foi é porque, tendo-se feito, de muito ele passou a precisar, e de muito mais do que ele era. De modo que, tendo a mulher apontado com a mão estendida a montanha ao longe, já não importava ao homem que fosse ela ou uma pedra ou uma ave que o executasse, o que importava é que o gesto fosse cumprido. Isso, sem relutância, ele admitiu. Só que, em reivindicação, queria pegar a tarefa no ponto em que a mulher a deixara, e pleiteava que de agora em diante se incumbisse ele mesmo de determinar. E nesse instante foi como se todo um futuro ali mesmo se estivesse esboçando, e ele só fosse conhecer os detalhes à medida que os criasse. Martim passara a pertencer a seus próprios passos. Ele era dele mesmo.
Nesse ínterim, o que aconteceu apenas é que a mulher olhava em torno procurando boa terra onde as valas se cavassem sem obstáculos. E para reduzir a verdade à pura realidade, o que é que acontecia com Martim?
Na verdade Martim tivera apenas uma consciência física muito aguda de ambos alteados pelos cavalos, e, numa percep­ção mais aguda ainda, sentia os cavalos soltos no ar. O que lhe dera uma vaga sensação de beleza, do modo como se tem uma sensação inquietante de beleza: quando alguma coisa parece dizer alguma coisa e há aquele encontro obscuro com um sentido. Perceber mesmo, pode-se dizer honestamente que Martim não percebeu nada. De modo que, com o relinchar dos cavalos, eles simplesmente se voltaram um para o outro e, sem que tivesse havido um instante sequer de interrupção na conversa sobre as valas, a mulher falou sobre a seca, e ele ouviu-a, e concordou. E assim como, se houvesse reencarnação do espírito depois da morte, a lei mandaria que não se tivesse consciência de ter vivido, o momento de contato de Martim com aquilo que se é passou despercebido dele. Restou claro apenas o pen­samento de que o sítio era um lugar onde ele bem poderia ficar mais tempo. Martim estava muito satisfeito consigo mesmo.
O que fazia com que a satisfação já não lhe bastasse era a espécie de dura tenacidade que, como primeiro passo geral, foi se tornando sua atitude à medida que desciam devagar a encosta. Eles eretos, os cavalos bamboleando as ilhargas.