Nélida Piñon lança volume de ensaio onde cita sua relação de amizade com Clarice Lispector
quarta-feira, agosto 28, 2013
Se no clássico 'A república dos sonhos' a romancista, ensaísta e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras Nélida Piñon volta à Galícia, na Espanha, para falar de suas raízes e de seus antepassados, em 'O livro das horas', com o mesmo encantamento, nos envolve em dezenas de histórias vividas ao longo dos anos. Logo nas primeiras linhas, com o coração aberto, confessa: “Não sou forte nem poderosa. Tampouco estou na flor dos 20 anos. Não faz falta enaltecer o meu retrato que a mãe Carmen outrora pendurou em seu quarto antes de morrer, com a intenção de eternizar a juventude da filha na sua retina... A cada dia aprendo a amar. A família, os amigos, as línguas, as instância da vida e da arte.”
Nascida em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio de Janeiro, há 76 anos, Nélida Piñon estreou na literatura em 1961, com o romance 'Guia-mapa' de Gabriel Arcanjo, primeiro passo na carreira literária que a levaria a se tornar uma das escritoras mais respeitadas do país. Na sequência vieram outros livros, como 'Madeira feita de cruz', de 1963; 'O fundador', de 1969; e 'Vozes do deserto', que lhe valeu o Prêmio Jabuti de 2005.
Como uma Sherazade moderna, à qual não falta o poder da sedução, em 'O livro das horas' – que ela lança hoje em Belo Horizonte no projeto Ofício da Palavra –, Nélida Piñon fala de coisas bem íntimas, como da sua relação de amizade com Clarice Lispector. As duas se conheceram em 1961 – Clarice já consagrada e Nélida uma estreante. “Clarice me faz falta, dói-me falar nela. Sua amizade me fez crescer”, diz.
Às vezes costumavam ir juntas visitar uma cartomante chamada Nadir, na qual Clarice acreditava muito. Nélida lembra que a amiga, mesmo sendo de família judaica, gostava de ler o Novo testamento e se interessava pelo catolicismo, tendo inclusive revelado a uma amiga, Olga Borelli, que gostaria de ser enterrada como cristã.
Nélida não se furta também em dizer, com uma sinceridade tocante, que a memória é frágil e que às vezes consulta fontes, no afã de defender seus haveres. “Confundo a coroa de louros com a de espinhos. E quem será dono de mim? Eu ou minha memória, que funciona como um legado paralelo ao meu ser. Uma matéria que mal domino e com a qual não conto quando mais a necessito”, confessa.
OFÍCIO DA PALAVRA
Com Nélida Piñon, que lança 'O livro das horas'
Nesta terça-feira, às 19h30
Local: Museu de Artes e Ofícios, na Praça da Estação s/nº
Informações: (31) 3225-1888
Entrada franca
Nascida em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio de Janeiro, há 76 anos, Nélida Piñon estreou na literatura em 1961, com o romance 'Guia-mapa' de Gabriel Arcanjo, primeiro passo na carreira literária que a levaria a se tornar uma das escritoras mais respeitadas do país. Na sequência vieram outros livros, como 'Madeira feita de cruz', de 1963; 'O fundador', de 1969; e 'Vozes do deserto', que lhe valeu o Prêmio Jabuti de 2005.
Como uma Sherazade moderna, à qual não falta o poder da sedução, em 'O livro das horas' – que ela lança hoje em Belo Horizonte no projeto Ofício da Palavra –, Nélida Piñon fala de coisas bem íntimas, como da sua relação de amizade com Clarice Lispector. As duas se conheceram em 1961 – Clarice já consagrada e Nélida uma estreante. “Clarice me faz falta, dói-me falar nela. Sua amizade me fez crescer”, diz.
Às vezes costumavam ir juntas visitar uma cartomante chamada Nadir, na qual Clarice acreditava muito. Nélida lembra que a amiga, mesmo sendo de família judaica, gostava de ler o Novo testamento e se interessava pelo catolicismo, tendo inclusive revelado a uma amiga, Olga Borelli, que gostaria de ser enterrada como cristã.
Nélida não se furta também em dizer, com uma sinceridade tocante, que a memória é frágil e que às vezes consulta fontes, no afã de defender seus haveres. “Confundo a coroa de louros com a de espinhos. E quem será dono de mim? Eu ou minha memória, que funciona como um legado paralelo ao meu ser. Uma matéria que mal domino e com a qual não conto quando mais a necessito”, confessa.
OFÍCIO DA PALAVRA
Com Nélida Piñon, que lança 'O livro das horas'
Nesta terça-feira, às 19h30
Local: Museu de Artes e Ofícios, na Praça da Estação s/nº
Informações: (31) 3225-1888
Entrada franca
Fonte: Divirta-se
Segunda parte: Nascimento do herói
Dois
Até que nessa tarde na encosta Martim começou a se justificar.
Chegara o duro tempo de explicação.
Ali, antes de prosseguir, ele devia ser inocente ou
culpado. Ali ele tinha que saber se sua mãe, que jamais o entenderia se fosse viva, o amaria sem
entendê-lo. Ali ele devia saber se o fantasma de seu pai lhe daria a mão sem
espanto. Ali ele se julgaria — e dessa vez com a linguagem dos outros. Agora
teria de chamar de crime o que fizera. O homem estremeceu com medo de tocar
errado em si, ele que ainda estava todo ferido.
Mas porque profundamente
sabia que até
a farsa usaria contanto que conseguisse sair inteiro de seu próprio julgamento
— de tal modo, se não se absolvesse, ficaria perplexo com um crime nas mãos — porque sabia que não se permitiria sair senão inteiro do perigoso
confronto é que teve coragem de se encarar e, se necessário, de se horrorizar.
E mais: como só se permitiria vencer, pois no ponto em que estava
precisava ferozmente de si mesmo, já de antemão se disse o seguinte: depois do
julgamento necessário é que ele teria à frente a sua grande tarefa. Pois ali
ele deveria se lembrar do que um homem quer.
Bem que lhe ocorreu que estava invertendo o que acontecera.
Que não
cometera um crime para se dar a oportunidade de saber o que um homem quer —
essa oportunidade nascera casualmente com o crime. Mas procurou ignorar o
incômodo sentimento de mistificação: ele precisava desse erro para ir adiante,
e usou-o como instrumento. E, voluntariamente passando ao largo de sua
confusão, o homem tentou enfim se abordar. Com um suspiro, abordou-se em
termos claros e pensou assim:
Que não cometera um crime vulgar.
Pensou que com esse crime executara o seu primeiro ato
de homem. Sim. Corajosamente fizera o que todo homem tinha que fazer uma vez na
sua vida: destruí-la.
Para reconstruí-la em seus próprios termos.
Fora isso então o que ele quisera com o crime?” Seu coração bateu
pesado, irredutível, iluminado de paz. Sim, para reconstruí-la em seus próprios
termos.
E se não conseguisse reconstruí-la? Pois na sua cólera ele quebrara
o que existia em pedaços pequenos demais. Se não conseguisse reconstruí-la?
Pois olhou o vazio perfeito da claridade, e ocorreu-lhe a possibilidade
estranha de jamais conseguir reconstruir. Mas se não conseguisse, não importava
sequer. Ele tivera a coragem de jogar profundamente. Um homem um dia tinha que
arriscar tudo. Sim, ele fizera isso.
E orgulhoso de seu crime, olhou o mundo arrasado.
Por ele mesmo arrasado, a seus pés. O mundo desmontado por
um crime. E que só ele, porque ele se fizera o grande culpado, poderia
reerguer, dar um sentido e montar de novo.
Mas em seus próprios termos.
Era isso, então. Então Martim se perguntou com intensidade e com
dor: seria isso mesmo? Porque suas verdades não pareciam suportar muito tempo
de atenção sem que se deformassem. E, por um instante, a verdade tanto poderia
ser esta como outra: imutável era apenas o campo. Foi pois à custa de um controle de arte que Martim se apegou a uma verdade apenas e com
dificuldade afastou as outras. (Sem se dar conta, sua reconstrução já começara
arquejante.)
Não lhe importava que a origem de sua força presente tivesse
sido um ato criminoso. O que importava é que daí ele tomara o impulso da grande
reivindicação.
Foi assim, pois, que Martim saiu inteiro do julgamento.
Um pouco cansado com o esforço.
Bem, e agora então seria lembrar-se do que um homem quer. Esse era o
verdadeiro julgamento — e Martim abaixou a cabeça, confuso, em penitência.
Oh Deus, não era nada fácil para aquele homem exprimir o que
queria. Ele queria isto: reconstruir. Mas era como uma ordem que se recebe e
que não se sabe cumprir. Por mais livre, uma pessoa estava habituada a ser
mandada, mesmo que fosse apenas pelo modo de ser dos outros. E agora Martim
estava por sua própria conta.
Era preciso ter muita paciência com ele, ele era
lento. Que queria ele? O que quer que quisesse nascera longe dentro dele, e não
era fácil trazer à tona o rumorejo gago. Depois acontece que o que ele queria
também se confundia estranhamente com o que ele já era — e que no entanto ele
nunca atingira.
Sua obscura tarefa seria facilitada se ele se
concedesse o uso das palavras já criadas. Mas sua reconstrução tinha de começar pelas
próprias palavras, pois palavras eram a voz de um homem. Isso sem falar que
havia em Martim uma cautela de ordem meramente prática: do momento em que
admitisse as palavras alheias, automaticamente estaria admitindo a palavra “crime”
— e ele se tornaria apenas um criminoso vulgar em fuga. E ainda era muito cedo
para ele se dar um nome, e para dar um nome ao que queria. Um passo a mais, e
saberia. Mas era cedo ainda.
Então Martim desceu da encosta para avisar a Vitória que na
manhã seguinte começaria a cavar as valas. Foi ao alpendre e esperou que
Vitória acabasse de falar com Francisco.
O fato de ter enfim conseguido pensar não lhe dera nenhuma
diretiva. Mas, a seu modo, ele assumira o seu crime — e sentia-se um homem
inteiro, alto, sereno. Em pé no alpendre, sem pressa, ouvia a voz dura de Vitória
e o assentimento de Francisco a ritmar a voz da mulher. Depois, quase sem
perceber, passou a ouvir também as palavras.
—
...você tem que reunir os tomates também. E dessa vez empacotá-los melhor,
Francisco. Melhor e mais depressa: desta vez o alemão vai mais cedo a Vila.
Martim ouvia, e esperava paciente. E foi então que entendeu o que
ouvira.
Assim, pois, ela ia se encontrar com um alemão. Com o alemão. Então ela
se avistaria com o alemão. Estupidificado, atento, Martim revirou a frase na
própria cabeça para ver se conseguia fazê-la perder o sentido. Mas de qualquer
lado por onde a repetisse, era sempre a mesma: “a mulher veria o alemão”.
Provavelmente vendia-lhe alguns produtos do sítio! pensou, de repente
recuperando a antiga inteligência voraz da fuga e de um instante para outro
dominado por uma esperteza de raciocínio que ultrapassou o seu poder normal,
como se agora ele fosse capaz de perder o peso do corpo, rastejar baixo e se
confundir com as sombras da parede. Em aguçamento felino de memória, lembrou-se
instantaneamente de que vira Francisco limpar o caminhão. . .
“Para ir a Vila Baixa ou apenas por limpar?” Lembrou-se
de que já
ouvira Vitória falar no alemão — mas quando? quando! Ou nunca ouvira? Não,
nunca ouvira. . . E Francisco já limpara o caminhão! Mas para o dia de hoje não
seria a viagem — seria talvez para o dia seguinte? Então ela se avistará com o
alemão, pensou ele com o cuidado de quem estivesse manuseando algo traiçoeiro
que pudesse inesperadamente se rebelar entre seus dedos e ganhar vida própria.
Então ela se avistará com o alemão, pensou com cuidado. Mas o pensamento,
embora muito claro, não o levou a parte alguma nem o dirigiu a nenhum outro
pensamento. Capturado, ele mexeu feroz a cabeça de um lado para outro
calculando a distância de um salto para fora do alpendre. Ela se avistará com o
alemão, repetiu rápido e mesquinho como um rato, e até sua cabeça pareceu mais
peluda a Vitória — que o olhou um instante sem interromper as ordens para
Francisco. “Ele parece um bicho sujo”, constatou a mulher continuando a falar
com Francisco.
Mas em breve foi se esgarçando a escuridão íntima que envolvera Martim e na qual
ele já estava começando a se mover com habilidade. Sua cabeça foi voltando
pouco a pouco ao lugar. E quando Francisco foi embora e Vitória começou a lhe
falar e a lhe dar ordens, Martim, esquecido do que viera lhe comunicar a
propósito das valas, olhou-a intensamente nos olhos. E procurou adivinhar, com
o auxílio daquele parco elemento que eram dois olhos pretos,
se Vitória
seria mulher que tagarelasse sobre o que se estava passando na sua própria
casa: sobre um novo trabalhador, um estranho à zona. . . Mas mesmo que ela não
lhe contasse diretamente, poderia casualmente se referir a ele... e o alemão
adivinharia que se tratava daquele mesmo que fugira de noite do hotel...
“Qual seria o grau de sua intimidade com o alemão?”, procurou Martim
adivinhar, devassando-a avidamente com os olhos. Mas não encontrou resposta
nenhuma naquele rosto que, por cansaço, um dia se fechara para sempre. “Talvez
ela não fosse mulher que conversasse... mas o próprio alemão talvez falasse
daquela noite em que o hóspede lhe escapara — e ela então saberia!” Martim se
encolerizou contra si próprio por não ter jamais prestado atenção àquela mulher
que ele não conhecia e cujos atos, por isso, ele não era capaz de prever. Por
necessidade prática, então examinou-a pela primeira vez. Era um rosto fino e
duro, onde os ossos pareciam falar mais que a carne. Era uma cabeça levantada.
Mais que isso, ele não soube.
E a viagem, para quando seria? quanto tempo restava-lhe
para uma fuga? “A viagem não podia ser para muito breve!”, pensou de repente mais
lúcido, “pois Francisco não teria tempo de recolher e de empacotar os tomates!
os tomates ainda não tinham sido sequer colhidos, pois agora é que Vitória dera
ordem a Francisco!”, lembrou-se ele numa fúria de alegria. “Ou tinham?”,
confundiu-se de repente.
—
Quando é que a senhora vai a Vila? perguntou não suportando mais a dúvida, e a
pergunta que ele não planejara mas quisera casual soou brusca e imperativa,
suspeita a seus próprios ouvidos.
Vitória interrompeu-se, sua boca abriu-se em surpresa. Era a
primeira vez que o homem lhe dirigia a palavra sem ser provocado.
— Não sei, disse afinal, de sobrancelhas franzidas.
Então Martim, com a mesma perspicácia súbita que o ultrapassava
e ultrapassava a lógica — percebeu que Vitória o denunciaria. Então abaixou os
ombros e desfez a tensão. Como se o primeiro instante de certeza só lhe desse o
alívio de não duvidar, a quietude tomou-o. Ele olhou cruamente a mulher.
O rosto dela, a esse tranqüilo olhar sem disfarce, se
avermelhou descoberto. Tão nuamente fitada, a cara se contraiu em rápida
procura de uma atitude, resolvendo-se afinal por uma expressão
de impassibilidade a que o rubor deu mais determinação.
Então o homem entendeu ainda mais adiante: que desde o momento
em que ele pisara na fazenda, ela se decidira a mandá-lo embora. O único
elemento novo que agora viera acrescentar-se é que ela enfim escolhera o modo.
Por que não percebera ele, antes, aquilo que agora era tão claro?
pensou surpreendido. Como não percebera que, dia após dia, aquela mulher lutara
por se decidir, e que acumulativamente decidira? Como não percebera que cada
passo despreocupado que ele dera — fizera com que a mulher, em eco, avançasse
mais um passo para a decisão? Pois o homem rememorou velozmente certos olhares
da mulher enquanto ele trabalhava, e que ele mal notara; rememorou o tom de voz
com que ela tantas vezes lhe perguntara quanto tempo ele se demoraria na
fazenda. Mas por que lhe fizera ela essa pergunta? Como se cada vez lhe
sugerisse a idéia de voluntariamente partir... Para lhe dar a oportunidade de
fugir, e assim libertá-la da decisão difícil? Compreendeu que do momento em que
ele pisara na fazenda, ela adivinhara. Adivinhara tão longe quanto se podia
adivinhar sem saber. Somente uma coisa ele ainda não compreendia, e olhou-a
com curiosidade: é que ela não o tivesse ainda denunciado. Vitória não suportou
o olhar simples do homem, e desviou os olhos.
“Essa era então a sua última resposta”, pensou ele. “E então era
pouco o tempo que restava”, foi a próxima constatação de Martim.
Segunda parte: Nascimento do herói
Um
Mas nessa mesma noite, andando excitado de um lado para outro dentro da pequenez do depósito, Martim mal se conteve com o que ganhara. Era a alegria. Não sabia o que fazer de si como se tivesse uma notícia e não houvesse a quem dá-la. Estava muito contente de ser uma pessoa, este era um dos grandes prazeres da vida. No entanto, inconsolável, parecia-lhe que jamais seria indenizado.
E pela primeira vez desde que fugira tinha necessidade
de se comunicar. Sentou-se no bordo da cama, a cabeça feliz entre as mãos. Não
sabia por onde começar a pensar. Então lembrou-se de seu filho que um dia
dissera na hora do jantar: não quero esta comida! A mãe retrucara: que comida
você quer? O menino terminara dizendo com o doloroso espanto da descoberta:
— Nenhuma!
Ele, Martim, então lhe dissera:
— É muito simples: se você não está com fome,
não precisa comer.
Mas a criança começara a chorar:
— Não estou com fome, não estou com fome. . .
E como o rádio também estava ligado, o homem gritara:
— Já lhe disse que se você não tem fome não
precisa comer! por que então está chorando?
O menino respondera:
— Estou chorando porque não estou com fome.
— Prometo que amanhã você vai ter fome,
prometo! dissera-lhe Martim perturbado, entrando por amor na verdade de uma
criança.
Sentado na cama, com a cabeça entre as mãos, Martim
fechou os olhos rindo muito emocionado. Era a alegria. Sua alegria vinha de que
ele estava com fome, e quando um homem tem fome ele se alegra.
Afinal uma pessoa se mede pela sua fome — não existe outro modo de se calcular. E a verdade é
que na encosta a grande carência lhe renascera. Era estranho que ele não
tivesse comida mas que se rejubilasse com a fome. Com o coração batendo de
grande fome, Martim se deitou. Ouvia seu coração pedir, e riu alto, bestial,
desamparado.
No dia seguinte Ermelinda cada vez mais sistemática voltou:
— O senhor pode pensar que sou doida, disse-lhe
com o ar persistente dos cegos, mas tem um lugar dentro de mim onde vou quando
quero dormir! ah, eu sei que isso é engraçado, mas é assim... Se esse lugar fosse
perto, eu até podia dizer que ficava no canto esquerdo de minha cabeça — é que
eu durmo deitada do lado esquerdo, explicou-lhe de passagem, lambendo os lábios
— mas esse lugar é tão mais longe, é como se fosse muito depois que eu acabo. .
. mas é ainda dentro de mim, sou eu ainda, entendeu?
Como eram os particulares detalhes de sua vida que a
tornavam, a seus próprios olhos, insubstituível por outra pessoa, ao descrever suas
especialidades ela tentava com esforço provar ao homem que ela era ela mesma. Como
Martim não a olhara, então arriscou-se ainda mais:
— É um lugar que fica depois de minha morte,
disse afinal, e tornou-se de repente tão pálida que, levado a fitá-la por
causa do silêncio inesperado da moça, ele deixou de sorrir sem saber por quê.
Mas Ermelinda bem sabia que ainda era cedo para deixar
de mentir e deixar de encantá-lo. Sabia que era cedo para se mostrar a ele, e que poderia
afugentá-lo se fosse verdadeira, as pessoas tinham tanto medo da verdade dos
outros. Só por meios indiretos conseguiria. A idéia de que, se não o
divertisse, ela o afugentaria, apavorava-a: logo agora que já ganhara tanto
terreno a ponto de conseguir que ele a ouvisse, mesmo que não a olhasse! Então,
receosa de ter ido adiante demais e de tê-lo espantado, ela riu muito e disse
brincando:
— Sei que para ir a esse lugar aonde vou quando
estou com sono, se toma a esquerda, é assim que eu consigo dormir, imagine! Às
vezes, para não ficar nervosa, quero levar para o sono uma coisa comigo, uma
coisa do dia, entende? um lenço para torcer na mão, um livro de missa, só para
me dar segurança e eu não ir sozinha, imagine só que bobinha que sou! disse
com ternura, olhando-o bem fixo para ver se conseguira contagiá-lo com a
ternura para consigo mesma. Mas não se pode levar coisa nenhuma ou
alguém, senão
não se vai. Parece um lugar só para se dormir ou para pensar. Eu, é claro, não
quero nem gosto mesmo de voltar lá! Mas — disse desamparada — mas depois que a
gente vai uma só vez, fica logo um vício. O senhor acredita — acrescentou
gulosa — o senhor acredita que eu não consigo deixar de pensar no que penso? —
mas não lhe disse no que pensava, e sentiu o prazer de quem se confessa à
revelia de quem ouve, como se o roubasse enquanto ele dormia.
— O senhor por acaso consegue não pensar no que
pensa? É, como se costuma dizer, uma obsessão! uma verdadeira obsessão!
— dizia tudo brincando, sem esquecer um
instante que, num trabalho paciente e perfeito, devia sempre lisonjear o homem.
Mas sem também esquecer que tinha pressa. Ocorreu-lhe que, ao falar
com ele, poderia sem querer deixar escapar o que ela era, e o homem então
perceberia quanto ela precisava dele, e por isso não a quereria mais, como
acontece com as pessoas. À simples possibilidade dele nunca vir a gostar dela,
Ermelinda se arrepiou solitária, olhou os pássaros que voavam. Seu trabalho
junto ao homem foi sempre tão delicado, e exigiu tanta precisão, que ela não o
saberia fazer se apenas o decidisse ou se lhe mandassem fazê-lo. Era um labor
de infinita cautela, onde um passo mais e o homem jamais a amaria, onde um
passo a mais e ela mesma talvez deixasse de amá-lo: ela protegia ambos contra o
erro. E às vezes mais parecia proteger ambos contra a verdade.
— É como uma obsessão! Você acha que sou doida?
perguntou-lhe, pois ela sabia que vivia de uma idéia e que isso não era “normal”.
— Não.
— Mas as outras pessoas não parecem pensar que
a morte. .. — Ermelinda disfarçou
depressa a palavra reveladora com um sorriso de faceirice. Não mesmo? indagou
coquete, não sou doida, hein? Sou tão bobinha que o senhor nem pode imaginar! disse-lhe como se lhe prometesse todo um
futuro de atraente bobagem que ele perdia apenas porque queria.
— É doida porque fala, disse ele afinal,
pesado.
— Ah, disse ela com o ar sabido de quem não se
deixaria enganar, então já estou vendo tudo: você acha que sou doida! já vi
tudo, você não me engana! disse toda risonha usando o “você” com intenção — mas
seus olhos abertos estavam pensando em outra coisa.
Martim se lembrou de um homem que ele conhecera e que
viajara sozinho durante muito tempo pelo interior e que, ao voltar, vivia
falando sobre árvores
e cobras e passarinhos, para o cansaço e a incompreensão de todos; até que o
homem percebera que uma pessoa não fala sobre árvores e passarinhos e cobras,
e parara de falar:
— Não, repetiu então olhando-a, e com um
primeiro carinho de curiosidade na voz, você não é doida. É que você
vive muito isolada e já não sabe mais o que se conta aos outros e o que não se
conta — o homem parou e olhou-a, intrigado por ter falado tanto.
Ele nunca falara tanto, e o coração da moça começou a
bater:
— Pois é, disse ela galante.
Com uma sabedoria instintiva, Ermelinda não demonstrou que notara o
seu primeiro passo para ela, assim como não se dá um grito de alegria quando
uma criança começa a andar para que esta não pare assustada por meses.
Quanto a ele, ele não percebia nada. Quanto a ele, aguardava com paciente
ansiedade pelo momento de terminar o trabalho.
Para ir — não ao terreno das plantas, não às vacas do curral — mas,
com a incerta determinação de uma geléia viva, ir de novo à encosta para
retomar cada dia o instante de sua formação do dia anterior. Onde ficava de pé,
bastando-lhe estar de pé, sem saber o que fazer. Essa necessidade que uma
pessoa tem de subir uma montanha — e olhar. Esse era o primeiro símbolo que ele
tocara desde que saíra de casa: “subir uma montanha”. E neste obscuro ato ele
se fecundava. Aquele lugar era um velho pensamento jamais formulado. Como se o
pai de seu pai o tivesse aspirado. E como se da invenção de uma lenda antiga
tivesse nascido aquela realidade. Aquele lugar já lhe tinha acontecido antes,
não importava quando, talvez apenas em promessa e em invenção.
E só Deus sabe que Martim não sabia o que vinha fazer na
encosta. Mas tanto é verdade que alguma coisa objetiva devia lhe estar
acontecendo ali que — já que ele se habituara a revalidar sua própria natureza
com o argumento final da natureza dos animais — que bastava ele se lembrar de
como um boi fica de pé no morro. Olhando. Essa coisa objetiva como um ato:
olhar. Às vezes também um cachorro olha, embora rápido e logo em seguida
inquieto, pois um cachorro não tem tempo, ele precisa muito de carinho e é nervoso, e tem um
sentimento aflito do tempo que passa, e tem nos olhos o peso de uma alma
intransmissível, só o amor cura um cachorro. Mas acontece que aquele homem, por
circunstâncias casuais, estava mais perto da natureza do boi, e olhava. Se é
verdade que se lhe perguntassem para quê, não saberia responder, é também
verdade que se uma pessoa fizesse apenas o que entende, jamais avançaria um
passo.
Oh, pode-se dizer que nada acontecia enquanto ele
estava na encosta. E nem ele exigia ainda que algo acontecesse. Parecia
bastar-lhe a tarde de luz rasgada, o ar nu e o espaço vazio. Até mesmo uma
palavra pensada afundaria o ar. Ele se abstinha. Ali, existir já era uma
ênfase. Como se já fossem uma audácia e um avanço uma pessoa estar de pé na
claridade. E era como se ali Martim se tornasse o símbolo dele mesmo. Ele que,
enfim, se encarnara em si próprio. Os passarinhos, escapulindo da luz, se
mantinham dentro da escuridão dos galhos cheios. A claridade restava solitária,
azul, fina. Era a tarde. E Martim olhava como se olhar fosse ser um homem. Ele
gozava seu estado. Era uma generosidade do mundo para com ele. Recebia-a sem
pejo. Pois, não se sabe por quê, ele não tinha mais vergonha.
Ao ponto de um dia, diante da claridade inóspita e sem nenhum
sentido, ele ter enfim pensado, um pouco inquieto e avançando: “por Deus, se
não criássemos um mundo, este mundo apenas divino não nos receberia”. Foi
quando começou a escurecer. Cachorros apareceram atentos ao longe. Os passarinhos
saíram da folhagem, e cada um se arriscou um pouco mais. Aos poucos o ar se
adensou, os sentimentos começaram enfim a mostrar sua natureza pouco divina, um
desejo profundamente confuso de ser amado misturou-se ao cheiro humano da
noite, e um vago suor começou a porejar, espalhando seu cheiro bom e ruim de
terra e de vacas e de rato e de axilas e de escuridão — esse furtivo modo como
aos poucos tomamos conta da terra: tínhamos enfim criado um mundo e tínhamos
lhe dado a nossa vontade. O máximo de claridade cedera à nossa habitada escuridão:
seria isso talvez o que Martim cada dia aguardava ali em pé? Como se nesse vergar-se
da claridade lhe ensinassem como se faz a união harmoniosa — não inteligível
mas harmoniosa, não com uma finalidade mas harmoniosa — como se nesse vergar-se
da claridade para a escuridão se fizesse enfim a união das plantas, das vacas e
do homem que ele começara a ser. Cada vez, pois, que o dia se tornava noite,
renovava-se o domínio do homem, e um passo era dado para a
frente, às
cegas, finalmente às cegas como é o avanço de uma pessoa no querer.
Martim não se indagou por que na encosta ele se completava tão bem,
ficando ele próprio harmonioso — ininteligível mas harmonioso — enquanto olhava
a imortalidade do campo. Por enquanto isso lhe bastava. Um homem que andou
muito tem o direito de ter um prazer inexplicável, harmonia apenas, mesmo sem
entender — por enquanto sem entender. Pois, com tranqüila presunção, ele se
dizia: “é cedo ainda”. Não era, porém, apenas presunção. É que agora ele
aprendera a contar com o amadurecimento do tempo, assim como as vacas disso
vivem taticamente. Ele agora parecia entender que não se podia brutalizar o
tempo, e que o largo movimento deste era insubstituível por um movimento
voluntário.
Assim, cada dia, quando se livrava das ordens de Vitória, ia esperar na encosta
pela volta daquele instante quando, entorpecido, se aproximara da fazenda pela
primeira vez e pela primeira vez fora alertado. E de novo e de novo voltava.
Repetir lhe parecia essencial. Cada vez que se repetia, algo se acrescentava.
Tanto que Martim já estava começando a se perturbar — ele era um homem,
mas restava algo inquieto: que é que um homem faz?
Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada
um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos.
Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu
queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e
fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu
não queria a ninguém. Quanto a meu sábado - que fora da janela se
balançava em acácias e sombras - eu preferia, a gastá-lo mal, fechá-lo
na mão dura, onde eu o amarfanhava como a um lenço. À espera do almoço,
bebíamos sem prazer, à saúde do ressentimento: amanhã já seria domingo.
Não é com você que eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e soprávamos
devagar a fumaça do cigarro seco. A avareza de não repartir o sábado ia
pouco a pouco roendo e avançando como ferrugem, até que qualquer
alegria seria um insulto à alegria maior.
Só a dona da casa não parecia economizar o sábado para usá-lo numa quinta de noite. Ela, no entanto, cujo coração já conhecera outros sábados. Como pudera esquecer que se quer mais e mais? Não se impacientava sequer com o grupo heterogêneo, sonhador e resignado que na sua casa só esperava como pela hora do primeiro trem partir, qualquer trem - menos ficar naquela estação vazia, menos ter que refrear o cavalo que correria de coração batendo para outros, outros cavalos. Passamos afinal à sala para um almoço que não tinha a benção da fome. E foi quando surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós...
Era uma mesa para homens de boa-vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera? Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem? E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos.
A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos - tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse. Junto do prato de cada mal-convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera - mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar - um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.
Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível. Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.
Não havia holocausto: tudo aquilo queria tanto ser comido quanto nós queríamos comê-lo. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho, com os olhos tomava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos. Pão é amor entre estranhos.
Só a dona da casa não parecia economizar o sábado para usá-lo numa quinta de noite. Ela, no entanto, cujo coração já conhecera outros sábados. Como pudera esquecer que se quer mais e mais? Não se impacientava sequer com o grupo heterogêneo, sonhador e resignado que na sua casa só esperava como pela hora do primeiro trem partir, qualquer trem - menos ficar naquela estação vazia, menos ter que refrear o cavalo que correria de coração batendo para outros, outros cavalos. Passamos afinal à sala para um almoço que não tinha a benção da fome. E foi quando surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós...
Era uma mesa para homens de boa-vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera? Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem? E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos.
A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos - tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse. Junto do prato de cada mal-convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera - mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar - um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.
Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível. Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.
Não havia holocausto: tudo aquilo queria tanto ser comido quanto nós queríamos comê-lo. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho, com os olhos tomava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos. Pão é amor entre estranhos.


