Texto para a Páscoa: A Repartição dos Pães

quinta-feira, março 28, 2013

Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. Quanto a meu sábado - que fora da janela se balançava em acácias e sombras - eu preferia, a gastá-lo mal, fechá-lo na mão dura, onde eu o amarfanhava como a um lenço. À espera do almoço, bebíamos sem prazer, à saúde do ressentimento: amanhã já seria domingo. Não é com você que eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e soprávamos devagar a fumaça do cigarro seco. A avareza de não repartir o sábado ia pouco a pouco roendo e avançando como ferrugem, até que qualquer alegria seria um insulto à alegria maior.
Só a dona da casa não parecia economizar o sábado para usá-lo numa quinta de noite. Ela, no entanto, cujo coração já conhecera outros sábados. Como pudera esquecer que se quer mais e mais? Não se impacientava sequer com o grupo heterogêneo, sonhador e resignado que na sua casa só esperava como pela hora do primeiro trem partir, qualquer trem - menos ficar naquela estação vazia, menos ter que refrear o cavalo que correria de coração batendo para outros, outros cavalos. Passamos afinal à sala para um almoço que não tinha a benção da fome. E foi quando surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós...
Era uma mesa para homens de boa-vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera? Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem? E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos.
A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos - tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse. Junto do prato de cada mal-convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera - mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar - um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.
Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível. Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.
Não havia holocausto: tudo aquilo queria tanto ser comido quanto nós queríamos comê-lo. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho, com os olhos tomava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos. Pão é amor entre estranhos.

Visão de Clarice Lispector

terça-feira, março 05, 2013

O poema abaixo foi escrito por Carlos Drummond de Andrade.

Visão de Clarice Lispector

Clarice,
veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.

O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.

Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia… saberemos amar Clarice.

A Maçã no Escuro

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Primeira parte: Como se faz um homem

Onze

Mas na tarde em que Martim e Vitória foram a cavalo para que a dona da fazenda lhe mostrasse onde seriam cavadas as valas de sustentação de águas, nessa tarde em que subiram a mesma encosta por onde o homem uma vez viera sozinho — foi quando ele se destacou maduro da escuridão das vacas.
Porque do alto da encosta, a mulher pesquisava o chão, ele inocente e desprevenido reconheceu de súbito o campo como o divisara ao chegar pela primeira vez à fazenda. Daquela vez em que, bêbedo de fuga, apoiara-se exausto naquela coisa vaga que é a promessa que é feita a uma criança quando esta nasce.
Montado no cavalo, num lampejo de incompreensão genial, ele viu o campo. Estonteado, atento, no alto da encosta era aque­la mesma liberdade como se algo se desfraldasse ao vento. E como da primeira vez, a glória do ar livre aproximou-o de alguma coisa que lhe bateu dura no peito e que doeu na extrema perturbação da felicidade que às vezes se sente.
Mas a que desta vez ele quis, numa primeira fome inespe­rada, dar um nome.
Desejar algo mais do que apenas sentir pareceu afligir Martim, este sinal confuso de transição para o desconhecido inquietou-o, sua inquietação se transmitiu ao cavalo que escoi-ceou obscuramente tocado, com o olhar deslumbrado que um cavalo tem.
É que diante daquela extensão de terra enorme e vazia, em sufocado esforço Martim penosamente se aproximava — com a dificuldade de quem nunca vai chegar — se aproximava de alguma coisa a que um homem a pé chamaria humildemente de desejo de homem mas a que um homem montado não pode­ria fugir à tentação de chamar de missão de homem. E o nasci- mento dessa estranha ânsia foi provocado, agora como da primeira vez em que pisara a encosta, pela visão de um mundo enorme que parece fazer uma pergunta. E que parecia clamar por um novo deus que, entendendo, concluísse desse modo a obra do outro Deus. Ali, confuso sobre um cavalo assustado, ele próprio assustado, num segundo apenas de olhar Martim emergiu totalmente e como homem.
No mesmo instante também se sentiu inteiramente incompensado.
Com o rosto batido pelo vento que logo passou a simbolizar alguma coisa, Martim viu embaixo os animais soltos no pasto. Desde que havia entendido as vacas, pela primeira vez se achava acima delas na encosta. E também isto lhe bateu no peito. Com o coração batendo Martim então se lembrou inesperadamente de como um homem costuma ser: era como ele estava sendo agora! Numa sensação agonizante, ele se sentiu uma pessoa.
Martim estava de algum modo humilde, se era ser humilde o modo involuntariamente triunfante como estava montado num cavalo — o que lhe dava altura e espanto e determinação e visão mais larga. Nessa inesperada humildade ele pareceu reconhecer mais um sinal de que estava emergindo porque só os animais eram orgulhosos, e só um homem também era humil­de. Também a essa coisa indefesa e no entanto audaciosa ele quis dar um nome, mas não existia.
De algum modo foi bom que não existisse: não encontrar um nome aumentou imperceptivelmente a inquietação de que ele agora gozava. Pois a verdade é que, embora intimidado, ele estava fruindo a própria inquietação. Como se a tensão em que se achava fosse a medida de sua própria resistência, e ele fruísse as primícias de uma dificuldade como os músculos de um homem se intensificam ao levantar um peso. E ele, ele era o seu próprio peso. O que quer dizer que aquele homem se tinha feito.
Nesse ínterim a impaciência mal refreada dos cavalos au­mentara a instabilidade de Martim e empurrava-o a uma decisão que ele no entanto desconhecia. O vento unia a figura recor­tada de Vitória à dele, o ar puro deixara os cavalos mais negros e maiores. O ar era tão leve que o homem não pôde respirá-lo todo, pois é aos poucos que se respira, pois é aos poucos que uma pessoa vive — e ele sufocou por não ter capacidade de mais ar, e no entanto “não poder” intensificou sua felicidade, a enorme vastidão rodeou-o sem que ele pudesse dominá-la, seu coração bateu grande, generoso, inquieto, os cavalos mexiam as patas com galanteria e destreza. O vento constante terminara por dar ao rosto da mulher um arrebatamento físico suave que não condizia com suas palavras sobre a abertura das valas, e os corpos solitários de ambos estavam tendo um tácito mútuo entendimento assim como concordam corpos com o mesmo último destino: o coração daquele homem bateu grande e con­fuso, reconhecendo. Ser uma pessoa era ser isso tudo.
Foi então que lhe pareceu que a promessa que lhe tinha sido feita era a sua própria missão. Embora ele não entendesse por que cabe a nós cumprir uma promessa que no entanto nos foi feita.
Neste momento estava particularmente bom existir pois havia também o ar muito límpido da tarde. E nesse momento a mulher montada de repente riu de enervamento porque o cavalo recuara e a assustara. Com certa surpresa o homem ouviu o riso naquela mulher que jamais ria. É que tudo estava provavelmente se manifestando para Martim, assim como as flores se abrem em determinado momento e nunca estamos perto para ver. Mas ele estava. Pela primeira vez estava presente no momento em que acontece o que acontece. E ele! ele era esse homem que pela primeira vez se dava conta, não apenas por ouvir dizer, mas inquietantemente de primeira mão. Ele era exatamente esse homem. Estranhou-se então como modo arrebatado de se reconhecer. Acabara de decidir ser, não um outro, mas esse homem.
E mais que isso: ele próprio se tornara de repente o senti­do das terras e da mulher, ele próprio era o aguilhão daquilo que ele via. Foi isso o que sentiu, embora recebesse de seu pensamento apenas o latejar. E contido, alvoroçado, lembrou-se de que este é o lugar-comum onde um homem pode enfim pisar: querer dar um destino ao enorme vazio que aparentemente só um destino enche.
Então, num impulso da mesma natureza do impulso de querer dar nome, procurou se lembrar que gesto se usava para exprimir aquele instante de vento e de alusão ao desconhecido. Procurou se lembrar do que fizera quando estivera um dia no alto do Corcovado com uma namorada. Mas, que se lembrasse, não havia como exprimir. Nessa primeira impotência, por um instante Martim se sentiu angustiadamente preso.
Mas também sentir-se angustiadamente preso era ser uma pessoa, ele bem se lembrava ainda! oh ele bem se lembrou: com angústia lembrou-se de que essa angústia era ser gente — e no alto do Corcovado ele beijara a namorada com uma fero­cidade de amor. Lembrou-se a tempo de que não havia como exprimir a alegria e então se construía uma casa ou se fazia uma viagem ou se amava. Também ele, montado no cavalo, com o ar apreensivo de quem pode errar, estava atentamente pro­curando copiar para a realidade o ser que ele era, e nesse parto estava se fazendo a sua vida. E a coisa se fez de um modo tão impossível — que na impossibilidade estava a dura garra da beleza. São momentos que não se narram, acontecem entre trens que passam ou no. ar que desperta nosso rosto e nos dá o nosso final tamanho, e então por um instante somos a quarta dimensão do que existe, são momentos que não contam. Mas quem sabe se é essa ânsia de peixe de boca aberta que o afogado tem antes de morrer, e então se diz que antes de mergulhar para sempre um homem vê passar a seus olhos a vida inteira; se em um instante se nasce, e se morre em um instante, um instante é bastante para a vida inteira.
O homem, pois, se lembrara enfim do que fizera com a namorada ao vento do Corcovado. Para se exprimir ele poderia talvez apoderar-se de Vitória, já que sendo ele agora um homem, ela se tornara uma mulher. Mas não só ela não era dócil, como este seria um ato gratuito sem o peso perfeito de fatali­dade que o desejo de corpo dá. Ficou pois quieto, embaraçado, sem saber que fazer de tudo aquilo em que tão subitamente ele se transformara. Foi então que, vindo do nada, por puro estabanamento, ele quis ser “bom” como solução. Quis tanto ser bom que de novo sentiu uma espécie de impotência.
É verdade que o pensamento fugitivo que tivera sobre a mulher não se perdeu de todo no ar. Alguns restos dele a mulher os sentiu, obscuramente ofendida como os gatos se ofendem no telhado. Vitória voltou-se para ele e enquanto falava sobre as valas encarou-o, e ele era indubitavelmente aquele homem: nele, ela viu ele. O que foi inesperado. Com a curiosi­dade de quem visse se rebentar uma artéria e um sangue insus­peito jorrar, com repugnância e grande altivez, ela o olhou — e ele era aquele homem, não um outro jamais, mas ele mesmo, o que a fez desviar os olhos severa. Ela se lembrou de que uma noite passara pelo depósito e ouvira o homem roncar. A lem­brança disso não só o tornou inegável, como a probabilidade razoável dele não saber que roncava entregou-o de novo a ela mesma em todo o seu peso de inconsciência, como uma vez o cão desmaiado fora dela.
Até que — até que nova onda de brisa apagou tudo. Deixando como realidade apenas o homem e a mulher sobre os cavalos.
E de tudo restou para o homem apenas a sensação um pouco inútil de ter enfim emergido. E o coração de uma pessoa viva. O que, se era pouco, lhe deu um poder muito grande; como pessoa ele era capaz de tudo. Talvez tenha sido isso o que ele sentiu. E para lhe mostrar até que ponto tudo estava convergindo para uma realização — como quando a graça existe — Vitória neste mesmo momento estendeu o braço apontando ao longe uma montanha de encostas suavizadas pela impossibi­lidade de serem tocadas... Martim teve então uma espécie de certeza de que este era o gesto que ele procurara: tanto as distâncias parecem precisar de alguém que as determine com um gesto. Assim o homem escolheu concluir que é este o gesto humano com que se alude: apontar.
E não lhe importou sequer que a mulher o tivesse feito inconscientemente. Nem sequer que fosse ela, e não ele, a executá-lo. Na muda potência em que estava, qualquer coisa que falasse seria considerado por ele como voz sua e qualquer coisa que se mexesse seria movimento seu; e ele poderia talvez dizer “o melhor momento de minha vida foi quando as tropas de Napoleão entraram em Paris”, e poderia dizer “o melhor momento de minha vida foi quando um homem disse dai pão aos que têm fome”, e tornar-se trabalho seu dos mais duros e deslumbrados o crescimento das árvores — a largueza do mundo alargara penosamente seu peito. E se assim foi é porque, tendo-se feito, de muito ele passou a precisar, e de muito mais do que ele era. De modo que, tendo a mulher apontado com a mão estendida a montanha ao longe, já não importava ao homem que fosse ela ou uma pedra ou uma ave que o executasse, o que importava é que o gesto fosse cumprido. Isso, sem relutância, ele admitiu. Só que, em reivindicação, queria pegar a tarefa no ponto em que a mulher a deixara, e pleiteava que de agora em diante se incumbisse ele mesmo de determinar. E nesse instante foi como se todo um futuro ali mesmo se estivesse esboçando, e ele só fosse conhecer os detalhes à medida que os criasse. Martim passara a pertencer a seus próprios passos. Ele era dele mesmo.
Nesse ínterim, o que aconteceu apenas é que a mulher olhava em torno procurando boa terra onde as valas se cavassem sem obstáculos. E para reduzir a verdade à pura realidade, o que é que acontecia com Martim?
Na verdade Martim tivera apenas uma consciência física muito aguda de ambos alteados pelos cavalos, e, numa percep­ção mais aguda ainda, sentia os cavalos soltos no ar. O que lhe dera uma vaga sensação de beleza, do modo como se tem uma sensação inquietante de beleza: quando alguma coisa parece dizer alguma coisa e há aquele encontro obscuro com um sentido. Perceber mesmo, pode-se dizer honestamente que Martim não percebeu nada. De modo que, com o relinchar dos cavalos, eles simplesmente se voltaram um para o outro e, sem que tivesse havido um instante sequer de interrupção na conversa sobre as valas, a mulher falou sobre a seca, e ele ouviu-a, e concordou. E assim como, se houvesse reencarnação do espírito depois da morte, a lei mandaria que não se tivesse consciência de ter vivido, o momento de contato de Martim com aquilo que se é passou despercebido dele. Restou claro apenas o pen­samento de que o sítio era um lugar onde ele bem poderia ficar mais tempo. Martim estava muito satisfeito consigo mesmo.
O que fazia com que a satisfação já não lhe bastasse era a espécie de dura tenacidade que, como primeiro passo geral, foi se tornando sua atitude à medida que desciam devagar a encosta. Eles eretos, os cavalos bamboleando as ilhargas.

O presente

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Novas publicações no Blog: o livro "De amor e amizade – Crônicas para jovens" é organizado por Pedro Karp Vasquez.

Clarice Lispector, p. 55:

... Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si.


Do Rio de Janeiro e seus personagens - Uma coisa

domingo, janeiro 27, 2013

Novas publicações no Blog: o livro "Do Rio de Janeiro e seus personagens – Crônicas para jovens" é organizado por Pedro Karp Vasquez.

Clarice Lispector, página 33:

Eu vi uma coisa. Coisa mesmo. Eram dez horas da noite na Praça Tiradentes e o táxi corria. Então eu vi uma rua que nunca mais vou esquecer. Não vou descrevê-la: ela é minha. Só posso dizer que estava vazia e eram dez horas da noite. Nada mais. Fui porém germinada.

Como cronista, Clarice Lispector sempre procurou seus temas nas ruas da cidade ou em conversas com seus mais bem informados habitantes. Em Do Rio de Janeiro e seus personagens – Crônicas para jovens, a autora conduz o jovem leitor a um instigante passeio pela Cidade Maravilhosa por meio de suas crônicas. Nessa coletânea de crônicas – terceira de uma coleção que reúne textos de Clarice por temas, com o objetivo de apresentar a faceta cronista de umas das maiores escritoras brasileiras às novas gerações –, o leitor conhecerá tanto o Rio pessoal e secreto da autora quanto o coletivo, numa mescla hábil do espírito carioca com seu modo único de ver o mundo.

Org.: Pedro Karp Vasquez.

A Maçã no Escuro

quinta-feira, janeiro 03, 2013

Primeira parte: Como se faz um homem

Dez

Quanto a Martim, ele tinha tempo. Na verdade parecia ter descoberto o tempo. No fim do dia largava o trabalho no campo e ia ao curral. Com a mesma serena avidez com que ia antes ao terreno do depósito. E livre enfim da iminência de ordens de Vitória, livre da presença cada vez mais assediante de Ermelinda — o homem cada dia retomava no curral o instante interrompido do dia anterior, unindo num tema à parte os instantes esparsos que passava com as vacas, e deles fazendo a única seqüência. “Como eu ia sentindo...”, parecia ele pensar ao entrar no curral — e continuava o que interrompera. O escuro calor das vacas enchia o ar do curral. E como se alguma coisa que nenhuma pessoa e nenhuma consciência lhe pudesse dar, ali no curral lhe fosse dado — ele o recebia.

O cheiro sufocante era o do sangue vagaroso nos corpos dos bichos. Não mais o intenso sono das plantas, não mais a mes-quinha prudência em sobreviver que havia nos ratos ariscos. Mas as vacas já começavam a inquietá-lo um pouco. Um dia, por exemplo, ele acordou e abriu a porta do depósito para a primeira luz. E como o dia lhe pareceu dado, assim ele o recebeu. Mas — mas já quis, pela primeira vez, fazer alguma coisa dele. É que à porta do depósito, ele pela primeira vez estava precisando de uma experiência mais funda — mesmo que não a pudesse jamais partilhar com as vacas. Inquieto, ele estava se destacando delas. Era um risco, e uma primeira audá¬cia. Então, olhando o modo como o campo era grande e cheio de luz, ele — ele se arriscou e teve a experiência mais funda. Piscou várias vezes, quieto. Era assim que aquele homem estava crescendo como uma coisa que rolando se avoluma. Crescia calmo, oco, indireto, a avançar paciente. Não olhara uma vez diretamente para a mulata. Mas ela ria. E uma força pacífica acordara nele. Era um poder — ele bem se lembrava ainda. Alerta, sem nenhum plano, ele esperou dia após dia pelo momento em que faria a mulata deixar de rir. Tanto a mulata como a criança o observavam dissimuladas de longe sem se aproximar. Quanto à criança, Martim evitava-a, confuso, evasivo. Mas a mulher ria muito. Na verdade pode-se dizer que ria demais. Sem um pensamento, ele sabia o que significava o riso. E às vezes era como se o riso fosse um mugido: ele então erguia a cabeça, atordoado, chamado, poderoso. Mas aguardava. Como se a paciência fizesse parte do desejo, ele aguardava sem se apressar. A mulata era uma larga natureza, tão larga quanto o seu riso — ela ria antes de saber de quê.

A vida se arranjara nela de um modo escuro e doce, e ela ria de alguma coisa; talvez ti¬vesse prazer nessa coisa. Embora essa mesma coisa às vezes se enovelasse nela em cólera como um cachorro rosna. Era pessoa que errava sem pecar. As bofetadas que dava na filha eram quase de alegria, e revigoravam-na toda. O homem obser- vou, sem concluir, que era muito comum ela começar a cantar depois de bater na menina. A menina se esquivava aos tapas, aprendendo sem ressentimento que assim era, e que mãe era aquela força que ria alto e que sem vingança batia, e ser filha era pertencer àquela mãe onde o vigor ria. O homem fingia estar interessado no “trabalho, só para disfarçar. É que uma pessoa podia se compreender toda na mulata. O homem encon¬trou nela um passado que, se não era seu, lhe servia. O que ela suscitava num homem era ele próprio. Martim mal a olhava, e sabia que ela estava ali. Com ela se podia tratar de homem para homem, só que para chegar a isso ela era uma mulher. Dois dias depois, em vez de ir ao curral, ele enfim se apro¬ximou da mulher que lavava roupa. E ficou de pé sem olhá-la. E sem olhá-lo, ela riu. Ele quebrou meticulosamente um graveto na mão, e sem fitá-la sabia que ela era moça. Seus cabelos tinham cachos duros, compridos. Como Martim era pessoa que gostava imediatamente do que precisava, ele a achou logo bonita. Afinal jogou o graveto longe e olhou-a de frente: seria largá-la ou pegá-la. Ele a pegou sem pressa como um dia pegara um passarinho. — Você é forte como um touro, riu a mulher. Ele estava concentrado. Segurando seu ombro, o homem podia sentir os ossos pequenos e, mais acima, os tendões e as fibras embaixo da carne fina: ela era um bicho novo, ele calculou sua idade apalpando-a. Sentia o calor que vinha dela, e assim devia ser; corpo a corpo com o pulso mais íntimo do desconhecido. Já era escuro quando seus gestos despertaram a moça nova.

O homem acendeu a lamparina do depósito e ela deu um pe¬queno grito de raiva. O que quer que fosse se enroscara em cólera. Ele a olhou curioso. Ela vibrava de raiva, Deus sabe por quê. E ele ficou sozinho, à porta do depósito. Martim estava muito surpreendido porque antigamente ele costumava saber de tudo. E agora — como fato no entanto muito mais concreto — ele não sabia de nada. Ele que havia crescido um homem claro, e ao redor dele tudo costumava ser visível. Fora pessoa que soubera respostas, antigamente ele era sem dor. A claridade de que vivera fizera com que ele tivesse sido capaz de executar trabalho com números com uma paciência que não se alterava; e, nu por dentro, as roupas lhe assentavam bem. Esperto e elegante. Mas agora, tirada das coisas a camada de palavras, agora que perdera a linguagem, estava enfim em pé na calma profundidade do mistério. Na porta do depósito, pois, revitalizado pela grande ignorância, permaneceu de pé no escuro. Já era quase noite. É que ele acabara de aprender isso com aquela mulher: a ficar de pé tendo um corpo. Então os dias começaram a passar. Mas se sua língua uma vez engordara demais na boca para exprimir, e se na sua cabeça não circulava ar para que o pensa¬mento pudesse ser mais que ânsia — agora atrás de toda clarida¬de havia a escuridão. E era dela que vinha a escura flama de sua vida. Se um homem tocasse uma vez a escuridão, oferecen¬do-lhe em troca a própria escuridão — e ele a tocara — então os atos perderiam o erro, ele poderia talvez um dia voltar para a cidade e se sentar num restaurante com grande harmonia.

Ou escovar os dentes sem se comprometer. Um homem tinha uma vez que desistir. E só então poderia viver, como ele agora vivia, na latência das coisas. E então, talvez porque um dia se seguisse ao outro, algo começou a acontecer devagar, envolvente, grande, apesar dos elos lhe escaparem. É que vivendo ali era como se aquele ho¬mem já não contasse mais a vida em dias nem em anos. Mas em espirais tão largas que ele já não poderia vê-las assim como não via a larga linha de curvatura da terra. Havia algo que era essência gradual e não para se comer de uma vez. Foi assim que a vida de Martim começou a ultrapassá-lo: os dias eram grandes, bonitos, e sua vida era muito maior que ele. E ele mesmo, aos poucos, tornou-se mais do que um homem sozinho. Fizera-se um desgastamento de seus conheci¬mentos anteriores, e, quanto a palavras, ele meramente as co¬nhecia como pessoa que tivesse uma vez adoecido delas. E se tivesse curado. “Afinal seu crime tinha apenas o tamanho de um fato” — e o que ele queria dizer com isso, não sabia. Também recomeçou a compreender as mulheres. Não as compreendia de um modo pessoal, como se ele fosse o dono de seu próprio nome. Mas pareceu entender para que nascem mulheres quando uma pessoa é um homem. E isso foi um tranqüilo sangue forte que entrava e saía ritmado no seu peito. Tratando das vacas, o desejo de ter mulheres renasceu com calma. Ele o reconheceu logo: era uma espécie de solidão. Como se seu corpo por si mesmo não bastasse.

Era o desejo, sim, ele bem se lembrou. Lembrou-se de que mulher é mais que o amigo de um homem, mulher era o próprio corpo do homem. Com um sorriso um pouco doloroso, acariciou então o couro feminino da vaca e olhou em torno: o mundo era masculino e feminino. Esse modo de ver lhe deu um profundo contentamento físico, a quieta e contida excitação física que ele tinha cada vez que “descortinava”. Uma pessoa tem prazeres altamente espirituais de que ninguém suspeita, a vida dos outros parece sempre vasta, mas a pessoa tem os seus prazeres. É verdade que as vidas individuais ele não as entendia ainda: as duas primas lhe pareciam ao mesmo tempo chatas e abstratas, nem ele suspeitava que sentido havia na vida daquelas duas mulheres, e não lhe ocorrera que entendê-las seria um modo de contato. As vidas individuais ele não as entendia. Mas já ao olhá-las em conjunto — a mulata que fora pesadamente sua e que agora enchia o balde com água cantante, Francisco serrando madeira, Vitória corajosa, Ermelinda espreitando, e a fumaça saindo alta da cozinha — isso, isso ele já pareceu entender como conjunto. E foi como se um calor se evolasse do esforço de todos, e foi como se aquele homem estivesse enfim apren¬dendo que a noite desce e que o dia renasce e que depois a noite vem. E assim era. Seu corpo, nesse entendimento, ficou bom, sem necessidade do erro que seria a maldade. E assim como as vacas contavam quietas com a existência de outras vacas — o homem se envolveu pelo calor indireto dos outros. E mais: às vezes mesmo era como se, olhando, ele fosse o dono de uma grande usina, e o barulho e a fumaça fossem o sinal de um caminhar progressivo. Em que direção? O homem não se per¬guntou. Embora sentisse — com a mesma vaga inquietação com que gradualmente a seca se aproximava — que ele não estava longe da pergunta, por enquanto imatura. Enquanto isso, a seca se aproximava nas espigas de milho. — São dias bonitos, disse Vitória apreensiva, protegendo os olhos com a mão.

Eram dias grandes, claros, e, enquanto duravam, ameaçadoramente infinitos. — São lindos! exclamou Ermelinda, até já tomei o meu calmante! As lagartixas, atraídas pela promessa de fulguração e glória, apareciam em maior abundância, surgidas não se sabia de onde. Estalavam na terra seca e crepitavam. Vitória olhou os corpos áridos que se multiplicavam, examinou de perto algumas folhas que já se enrolavam nos bordos, levantou o rosto inquisitivo para um céu puro e deserto. No campo, o sol cheio de borboletas empoeiradas: — Dias bonitos assim precedem seca. — Ah, fez Ermelinda com a mão no coração, são tão bonitos que não se sabe o que fazer com eles. E Martim? o cheiro de terra arrebentava-se sob a enxada de Martim. Os grãos se esfarelavam, o cheiro de capim à luz, o cheiro de certas ervas secretas que o calor fazia exalar, as ervas confusas que davam no seu entrelaçamento sombra para algum reino mais obscuro que o visível: Martim trabalhava, a enxada subia e descia, subia e descia. Um galho na sombra de súbito se despregou de outro galho, sobressaltou a abelha, fazendo-a voar até se perder na distância da claridade... seu vôo deixou pressentir um mundo feito de lonjuras e repercussões, aquele mundo profundo que parecia bastar ao claro-escuro de uma vaca e que basta a um homem que levanta e abaixa uma enxada. O suor era uma das melhores coisas que já lhe tinham acontecido: Martim levantava e abaixava a enxada. Essa coisa sem nome que é o cheiro da terra incomodando quente e lem¬brando com insistência, quem sabe por quê, que se nasceu para amar, e então não se entende. Foi quando a abelha voltou iluminada. O que fez o homem parar de trabalhar e enxugar vagarosamente o suor, com os olhos franzidos pela claridade — por essa claridade que pouco a pouco já estava começando a ser também de Martim. Seu esforço de entender foi rude, encabulado: — O campo parece uma jóia, disse então enrubescendo violentamente. Olhou depois inquieto ao redor como se alguém o tivesse visto fazer uma coisa feia. Parecia um homem que sem jeito quisesse dar uma flor, e ficasse com a flor na mão. — O campo parece uma jóia coisa nenhuma! disse furio¬so.

A abelha então se emaranhou em ervas como em cabelos, as formigas em longa fila ondeante — e tudo isso começava a ser de Martim. Esse era o abismo sem fundo em que ele se lançara na sua passagem das plantas para o futuro mais largo daquele cavalão negro que, naquele mesmo instante, passou ao longe puxando o arado. E no arado Francisco sentado ereto, no silencioso esforço da atenção. Tudo isso estava começando a ser de Martim, porque uma pessoa olha e vê. As vacas babavam, a abelha cada vez mais minuciosa azucrinava o ar se aproximando mais e mais de um centro imaginário. E o grito de Francisco deu de repente dimensão a distância. — Eu precisava lhe falar, disse-lhe nesse instante Ermelinda. O homem não interrompeu o movimento da enxada na terra. — O senhor podia pedir a Vitória para se plantar sempre-viva, continuou com um sorriso faceiro. — Peça a Dona Vitória, respondeu o homem sem olhá-la. — Aí é que está, tenho medo dela. Aliás — disse de re¬pente íntima — o senhor também precisa tomar cuidado. Não me interprete mal: ela é muito boa, mas é tão severa. Ela é muito nervosa. Como o rosto do homem continuasse inclinado para a cova, a moça também se inclinou e de baixo para cima tentou adivinhar a sua expressão: — Imagine, disse sempre abaixada e falando mais alto pois não tinha certeza se ele tomara conhecimento de sua pre¬sença, imagine, disse quase berrando, que uma vez ela me pisou, viu? Sem interromper o trabalho, ele olhou-a rapidamente. — Depois ela disse que foi sem querer, acrescentou Ermelinda em tom mais baixo, agora que estava segura de que o homem a notara. Talvez tenha sido mesmo sem querer, acres¬centou já hesitante em continuar a mentir pois ele finalmente a olhara. — Eu disse que ela disse que foi sem querer! repetiu ao vê-lo de novo desatento, mas acho que não é verdade! que ela me pisou tenho certeza absoluta! gritou-lhe atenta, espreitando a ressonância de suas palavras no rosto do homem. Mas as tentativas malogradas não desanimaram Ermelinda: “era assim mesmo”, pensava, pois “o tempo ainda não era propício”. Qual seria o tempo propício, não saberia dizer. Talvez em pequena tivesse ouvido falar nas épocas em que a lua atinge a sua plenitude.

Talvez também soubesse de como bichos precisam de um mínimo de segurança ao estarem juntos para ao menos terem a garantia primária de não serem interrom¬pidos. Talvez tivesse ouvido mais histórias do que pudera en¬tender — e o que lhe restara, inquietantemente incompleta, fosse a noção de um tempo propício. Oh, seus planos eram vagos, muito vagos. Ela nem sequer tinha plano: seus planos eram tão vagos que ela entrefechou os olhos encabulada, e sorriu. Se por acaso seus planos se tornavam por um instante mais claros, sinceramente espantada, ela se ofendia. É que andava muito suscetível.

Quando é que Martim começou finalmente a individualizá-la? Era quase feia, embora graciosa. Os cílios curtos e muito negros delineavam olhos que eram percebidos mesmo a distân¬cia, no meio da claridade de uma pele onde nem a boca tomara cor. Os olhos piscavam sempre, sabidos ou talvez aflitos, como se a moça estivesse sempre a calcular a distância entre ela própria e as coisas. Só os olhos eram positivos. Os outros traços eram tanto mais indecisos quanto se podia imaginar que eles poderiam se desmanchar para formar novo conjunto, tão prudente em não se definir quanto o primeiro. Era uma adolescente envelhecida e, se houvera pesares, não teriam sido de molde a lhe dar rugas ou durezas, mas a afiná-la e a apagá-la. Os rápidos instantes esparsos em que o homem a olhara de frente tinham sido inúteis, pois ele não havia encontrado apoio em nenhum ponto rememorável, mais feio ou mais bonito. Embora, em certos momentos em que ficava desprotegida, lhe aparecesse no rosto uma certa franqueza expectante que se lhe dava beleza era a de uma cara paciente de cão. Seu rosto era então visto em toda a sua nudez como a de um cego.

Foi essa cara fraca, auditiva e confiante — sem as mentiras de expressão com que a moça se enfeitava tanto — que o homem terminou enfim por gravar. E ele passou a “não pensar nela”, como forma de pensar. — Quando eu era casada, eu tinha tudo, não me faltava nada! retornou ela no dia seguinte, perseverantemente cercando-o e abrindo a cesta de ovos duros para fazer piquenique enquan¬to ele trabalhava. Falando sem parar, a moça viu de novo aquela cara de duras rugas, e de novo foi tocada pela firmeza do homem en¬quanto o vento parecia tentar em vão desgastá-lo. E, quem sabe, se ela se agarrasse a ele, como que o vento também não a sacudiria. Então a moça se encheu de uma esperança tão forte, e maligna que sem parar de falar tirou da cesta o calmante, engoliu com dificuldade a pílula seca: — Quanto tempo mesmo o senhor fica aqui? perguntou-lhe. E quando ele disse que não sabia, de novo a pressa vazia e dolorosa a turbilhonou, o tempo era curto, o tempo era curto, ela não sabia para quê, só sabia que tinha que se apressar. Então começou a falar com tal volubilidade que o homem sentiu seu trabalho tornar-se suave como se as suas marteladas tivessem agora um contraponto, e a moça fosse a repercussão de um homem enchendo a distância. Martim então olhou para o sol e cuspiu longe com orgulho. Ermelinda abaixou os olhos com pudor.

Clarice Lispector por Beth Goulart

terça-feira, dezembro 11, 2012


UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES
Autora: Clarice Lispector
ISBN: 978-85-64126-03-9
Narração: Beth Goulart
Duração: 4 horas e 10 minutos
CD´s: 1 CD MP3

http://www.claricelispector.com.br/Audio/orelha_umaApredizagem.html

Blog Clarice Lispector: um milhão de visitas!

quarta-feira, dezembro 05, 2012


No dia 03 de outubro de 2007, coloquei na cabeça – como uma espécie de dogma: lerei tudo o que Clarice Lispector já escreveu, E LI! A alternativa mais viável para atingir a esse objetivo me pareceu ser a internet. Decidi, então, popularizar a obra da “Flor de Lis” (sem hifens mesmo) pelo ciberespaço. Criei – com o que na época era um conhecimento extremamente introdutório de design – o mais importante blog sobre Clarice Lispector do BRASIL e do MUNDO:

http://claricelispector.blogspot.com.br

Um site que, pela visibilidade e organização, chamou a atenção da Editora Rocco, responsável por publicar as obras de Clarice. A página tornou-se, então, parceira da Editora (como todos podem atestar através de uma  consulta ao site oficial de Lispector):

http://www.claricelispector.com.br/editorarocco.aspx

Por fim, tenho trabalhado diariamente na popularização da obra de alguém que nunca conheci e que conheço como ninguém: para entender Clarice não basta ler suas obras: é preciso ler e ter a sorte de sentir! Eu sinto Clarice Lispector e por isso a defendo incessantemente (como se ela precisasse de defensores...): Clarice, autêntica e autônoma como sempre, faz com que algumas pessoas sintam a literatura sem qualquer obrigação. E literatura é isso: é ler sem obrigação – é uma libertação – é se achar nos escritos.

Hoje, o que criei como uma espécie de diário/manual atingiu 1.000.000 de visitantes. E isso não é pouco! Obrigado a todos os que sentem!

Blog Clarice Lispector:

Administração: Keidy Caetano Matias (24 anos), historiadora, natural do Rio Grande do Norte.

Seu link no Blog - Resultado

domingo, agosto 26, 2012

Links vencedores:

Autor(a): Elandia Duarte
Link: http://www.elandiafduarte.blogspot.com.br

Autor(a): Paulo Roberto Wovst Leite
Link: http://prwleite.blogspot.com.br

Autor(a): Fabiana Novaes
Link: http://anafavas.blogspot.com.br

Autor(a): Mateus Gomes
Link: http://poesiaanexa.blogspot.com.br

Autor(a): Vencer Barreiras
Link: http://poemasepoesias1914.blogspot.com.br

Autor(a): Anita Garibalde Ramos Carneiro
Link: http://gabecarneiro.blogspot.com.br

Autor(a): Claudete da Mata
Link: http://oficinaliterariabocadeleao.blogspot.com.br

Autor(a): Nat Nunes
Link: www.blogdanatnunes.blogspot.com

Seu link no Blog

quinta-feira, agosto 02, 2012

Na barra lateral do Blog Clarice Lispector, há um espaço - denominado “visite” - destinado a divulgar blogs e sites.

Para que possas concorrer a uma das vagas disponíveis, envie o link de seu espaço como comentário nessa postagem.

Critério de escolha:

O Blog Clarice Lispector se reserva no direito de vetar a indicação de blogs que não possuam qualquer relação de conteúdo com o do Blog Clarice Lispector.

De 02 a 25 de agosto.
Prazo para que o concorrente envie o link de seu blog como comentário nessa postagem.

Resultado:

Dia 26 de agosto.

Boa sorte!

A Maçã no Escuro

sexta-feira, junho 22, 2012

Primeira parte: Como se faz um homem
Oito


Logo nos primeiros dias sentiu-se que havia um homem no sítio. E também se poderia adivinhar que quem mandava era uma mulher: pois apesar da ameaça de seca e das necessidades fundamentais daquela tentativa pobre de fazenda, o que de re­pente mais preocupava Vitória era a aparência do sítio. Como se até a vinda do homem ela não tivesse percebido o desmazelo das terras, encarniçava-se agora em transformá-las. Parecia ter à frente a data certa de uma festa antes da qual tudo deveria estar pronto. Uma febre de precisão a tomara. E as minúcias a que descia lembravam uma mosca se lavando. Na manhã alta, eis que ela apontava a cerca torta. E a força calma do homem desentortava a cerca. De muito longe Francisco, cismarento e céptico, viu a mulher apontando a desordem dos raros canteiros — e sorrindo viu que em silêncio Martim cavava, limpava, po­dava. Entre Martim e Vitória estabelecera-se uma muda relação já mecanizada e em pleno funcionamento: constituída da coin­cidência da mulher querer mandar e dele aquiescer em obedecer. Com avidez, a mulher era dona. E alguma coisa nela se intensi­ficara: a feliz severidade com que ela agora pisava sobre o que era seu, disfarçando a glória da posse com um olhar desafiador para as nuvens que passavam.
— E o curral? interrogou-o um dia atenta, o senhor nunca limpou o curral! disse-lhe impaciente, com aquele piscar de olhos de quem já não sabia o que queria; mas o tempo urgia.
Foi pois assim que Martim — como se estivesse copiando no seu trabalho de se tornar concreto uma evolução fatal cujo rasto ele sentia às apalpadelas — foi assim que o novo e confuso passo do homem foi sair uma manhã de seu reinado no terreno para a meia-luz do curral onde as vacas eram mais difíceis que as plantas.
Seu contato com as vacas foi um esforço penoso. A luz do curral era diferente da luz de fora a ponto de estabelecer-se na porta um vago limiar. Onde o homem parou. Habituado a nú­meros, ele recuava à desordem. É que dentro era uma atmosfera de entranhas e um sonho difícil cheio de moscas. E só Deus não tem nojo. No limiar, pois, ele parou sem vontade.
A névoa evolava-se dos bichos e os envolvia lenta. Ele olhou mais no fundo. Na imundície penumbrosa havia algo de oficina e de concentração como se daquele enleio informe fosse aos poucos se apontando concreta mais uma forma. O cheiro cru era o de matéria-prima desperdiçada. Ali se faziam vacas. Por nojo, o homem que repentinamente se tornara de novo abstrato como uma unha, quis recuar; enxugou com o dorso da mão a boca seca como um médico diante de sua primeira ferida. No limiar do estábulo no entanto ele pareceu reconhecer a luz mortiça que se exalava do focinho dos bichos. Aquele homem já vira esse vapor de luz evolando-se de esgotos em certas ma­drugadas frias. E vira essa luz se emanar de lixo quente. Vira-a também como uma auréola em torno do amor de dois cachorros; e seu próprio hálito era essa mesma luz. Ali se faziam vacas profundas. Uma pessoa pouco corajosa poderia vomitar à fragrância imunda, e ao ver a atração que as moscas tinham por aquela chaga aberta, uma pessoa limpa podia se sentir mal diante da tranqüilidade com que as vacas de pé molhavam pesa­das o chão. Martim era essa pessoa pouco corajosa que nunca tinha posto mãos na parte íntima de um curral. No entanto, embora desviando os olhos, ele a contragosto pareceu entender que as coisas se tivessem arranjado de modo a que num estábulo um dia tivesse nascido um menino. Pois estava certo aquele grande cheiro de matéria. Só que Martim ainda não estava pre­parado para tal avanço espiritual. Mais que temor, era um pudor. Ê hesitou à porta, pálido e ofendido como uma criança ao lhe ser revelada de chofre a raiz da vida.
Então disfarçou sua covardia com uma súbita revolta: res­sentia-se por Vitória tê-lo empurrado do silêncio das plantas para aquele lugar. Onde, com repugnância e curiosidade, ele inesperadamente se lembrou de que houve uma morta época em que répteis enormes tinham asas. É que ali uma pessoa não escapava de certos pensamentos. Ali ele não escaparia de sentir, com horror e alegria impessoal, que as coisas se cumprem.
Será por acaso isso o que lhe revolveu o estômago, ou ape­nas o cheiro morno? Não se sabe. No entanto bastar-lhe-ia um passo para trás, e ele se encontraria em plena fragrância da manhã que já é coisa aperfeiçoada nas menores folhas e nas menores pedras, e é trabalho acabado e sem fissuras — e que uma pessoa pode olhar sem nenhum perigo porque não tem por onde entrar e perder-se. Bastar-lhe-ia um passo para trás.
Ele então deu um passo para a frente. E ofuscado, estacou. No começo nada viu, como quando se entra numa grota. Mas as vacas habituadas à obscuridade haviam percebido o estranho. E ele sentiu no corpo todo que seu corpo estava sendo experimen­tado pelas vacas: estas começaram a mugir devagar e moviam as patas sem ao menos olhá-lo — com aquela falta de necessi­dade de ver para saber que os animais têm, como se já tivessem atravessado a infinita extensão da própria subjetividade a ponto de alcançarem o outro lado: a perfeita objetividade que não precisa mais ser demonstrada. Enquanto ele, no curral, se redu­zira ao fraco homem: essa coisa dúbia que nunca foi de uma margem a outra.
Num suspiro resignado, pareceu ao homem lento que “não olhar” também seria o seu único modo de entrar em contato com os bichos. Imitando as vacas, num mimetismo quase calculado, ele ali em pé não olhou para parte alguma, tentando ele também dispensar a visão direta. E numa inteligência forçada pela própria inferioridade de sua situação deixou-se ficar sub­misso e atento. Depois, por um altruísmo de identificação, foi que ele quase tomou a forma de um dos bichos. E foi assim fazendo que, com certa surpresa, inesperadamente pareceu en­tender como é uma vaca.
Tendo de algum modo entendido, uma pesada astúcia fez com que ele, agora bem imóvel, se deixasse ser conhecido por elas. Sem que um olhar fosse trocado, agüentou de dentes aper­tados que as vacas o conhecessem intoleravelmente devagar como se mãos percorressem o seu segredo. Foi com mal-estar que sentiu as vacas escolhendo nele apenas a parte delas que havia nele; assim como um ladrão veria nele a parte que ele, Martim, tinha de avidez de roubo, e assim como uma mulher queria dele o que já uma criança não entenderia. Só que as vacas escolhiam nele algo que ele próprio não conhecia — e que foi pouco a pouco se criando.
Foi um grande esforço, o do homem. Nunca, até então, ele se tornara tanto uma presença. Materializar-se para as vacas foi um grande trabalho íntimo de concretização. A unha final­mente doía.
Por um momento de falta de fé, o homem teve a certeza de que ia perder e que jamais conseguiria a ascensão ao curral. Pois um ou outro largo olhar passava sem pressa por ele, seguido de um mugido longo de cabeça pesada erguida para o alto: repu-diando-o. No meio do cheiro intenso do curral, elas percebiam o seu cheiro ácido de pessoas.
Mas também é verdade que, a essa altura, a alegria de viver já o tomara, essa alegria fina que às vezes nos toma no meio da própria vida como se a mesma nota de música se intensificasse: essa alegria o tomara e o guiava instintivamente na luta. Martim já não saberia se estava apenas obedecendo à ordem informulada com que as vacas terminam por forçar um vaqueiro a um modo peculiar de olhar e de ficar em pé. Ou se, na verdade, era ele próprio quem estava buscando, em doloroso esforço espiri­tual, libertar-se enfim do reinado dos ratos e das plantas — e alcançar a respiração misteriosa de bichos maiores.
O que apenas sabia — pois já alcançara a mesma inteli­gência somente essencial de uma vaca — o que apenas sabia era uma lei simples. Que não devia brutalizar-lhes o ritmo próprio, e que lhes devia dar tempo, o tempo delas. Que era um tempo inteiramente escuro, e elas ruminavam feno com baba. Aos pou­cos também este se tornou o tempo do homem. Redondo, lento, incontável por um calendário, pois assim é que uma vaca atraves­sa um campo.
Então — já que as coisas tendem a chegar a uma conclusão e a descansar num estágio — o curral enfim começou a serenar. O calor do corpo do homem e dos bichos se confundiu na mesma mornidão amoniacada do ar. O silêncio do homem automatica­mente se transformara. Ele enfim ganhara uma dimensão que uma planta não tem. E as vacas, apaziguadas com a justificação que Martim lhes dera, deixaram de se ocupar dele.
Em júbilo trêmulo, o homem sentiu que alguma coisa enfim acontecera. Deu-lhe então uma aflição intensa como quan­do se é feliz e não se tem em que aplicar a felicidade, e se olha ao redor e não há como dar esse instante de felicidade — o que até agora tinha acontecido com mais freqüência àquele homem em noites de sábado.
Alguma coisa tinha acontecido. E embora os elos continuas­sem a lhe escapar, ele tinha enfim alguma coisa na mão e seu peito se inflou de sutil vitória. Martim respirou profundamente. Pertencia agora ao curral.
E enfim pôde olhá-lo como uma vaca o veria.
O curral era um lugar quente e bom que pulsava como uma veia grossa. Era à base dessa larga veia que homens e bichos tinham filhos. Martim suspirou cansado com o enorme esforço: acabara de “descortinar”. Era a partir dessa veia larga que um grande animal atravessava um riacho espalhando água que brilha — o que o homem já havia visto, tendo porém tido apenas aquele mínimo aviso de beleza que agora repousava em base profunda. Era por causa dessa pulsação que as montanhas eram longe e altas. Era por isso que as vacas molhavam o chão com um barulho forte. Era à base de um curral que o tempo é indefinidamente substituído pelo tempo. Era por causa desse latejar que levas migratórias saíram de zonas frias para as tem­peradas. Aquele — aquele era um lugar quente que pulsava.
Tudo isso o homem talvez tivesse sentido pois ficou tão satisfeito que cuspiu no chão. Depois do quê, com o coração cheio de pesado vigor, escondendo a emoção, estendeu a mão e deu algumas palmadas no corpo enxuto de uma vaca. Uma grande confusão tranqüila começara entre ele e os animais.
— O senhor precisa dar terra ao milho! disse-lhe Vitória irritada.
Ele então dava terra ao milho. Mas as vacas esperavam-no, e ele sabia.

A Maçã no Escuro

sexta-feira, maio 04, 2012

Primeira parte: Como se faz um homem
Sete

Era a quente e inexpressiva cara de um homem — e uma tarde Ermelinda olhou para Martim espantada de vê-lo tão con¬creto no meio da vaguidão do campo. Materializando o vasto espanto que ela nunca sabia bem em que aplicar — ela então se espantou da coincidência daquele homem estar exatamente no sítio, e se espantou da coincidência extremamente curiosa dela mesma estar no sítio. Mas — pensou forçando-se a alguma modéstia — não há um fato que não se ligue a outro, sempre há uma grande coincidência nas coisas. Logo na primeira semana Ermelinda se apaixonou por Martim. Em primeiro lugar porque ele era um homem e ela por assim dizer nunca se apaixonara, senão de outras vezes que não contam. E depois porque Martim, sem o saber, era homem junto do qual uma mulher não se sentia humilhada: ele não tinha vergonha. Ela estava sentada de tarde debulhando milho.
O fato de ter aceito a tarefa já fora talvez um começo da necessidade de estar sozinha e deixar-se ficar absorta. Ficar absorta era o modo usual como Ermelinda chamava “estar pensando”. Nessa tarde, de onde Ermelinda o via, a distância tornava o homem um ponto negro que a moça fixamente acompanhou como único ponto de referência no campo. Até que sua visão se ofuscou pela claridade, e milhares de pontos negros e luminosos fizeram-na fechar os olhos como se o homem se tivesse esti¬lhaçado. Quando reabriu os olhos agora penumbrosos, o campo es¬tava de novo vazio: Martim desaparecera. O que lhe restou a ver foram os passarinhos odiados voando calmos. E as ervas altas e mal-assombradas estremecendo à menor hesitação da brisa. Tudo se tornara de novo antena sensível ao que jamais chegava a ser dito. Como numa visitação, com ânsia de espera Ermelinda olhou. Estava muito pensativa. Foi a essa altura que Martim apareceu de novo no seu campo de visão.
Ele, o homem concreto que parecia impedir que as coisas voassem. Pois o modo de ver de Ermelinda costumava deixar tudo tão instável e leve como ela própria. Ele, o homem, reapareceu. Assegurando a realidade. E aquele corpo grosseiro contrabalançava a suavidade do milharal, a suavidade das mu¬lheres e das flores. Com a firmeza ingênua que um homem tem, e que é a sua força, ele contrabalançava a nauseante delicadeza da morte. Aquela firmeza inocente que mesmo o marido de Ermelinda tivera, mesmo Francisco, mesmo todos os outros ho¬mens que haviam temporariamente trabalhado no sítio.
Com uma solidez que ignorava o próprio valor, o corpo estúpido de Martim parecia garantir que nunca a morte, a morte delicadíssima, venceria. E a força do homem justificava que ela, Ermelinda, fosse tão suave — essa suavidade que sem um homem era tão gratuita como uma flor e, como uma flor, parecia se dar ao nada, e o nada era a morte espalhada com tal sutileza que até parecia vida. Ermelinda não estava pensando em nada: estava absorta. Com o rosto inclinado, descaroçou automaticamente o mi¬lho. E distinta das marteladas de Martim — que ela ouvia uma a uma, esperando em doce tortura pela próxima — ela se disse com o maior cuidado, no começo de uma sensação de exasperante prazer que ela temeu destruir se lhe desse mais força: “mas quem está falando em morte, mulher? estou tão viva”, disse ela como se fruísse de um desfalecimento e de um coração no campo. Seu rosto inclinado para o milho não via Martim. Mas a cada martelada ele dava enfim matéria ao campo desfral¬dado, e dava ao corpo daquela moça, tão vago, um corpo. Erme¬linda sentiu uma moleza envergonhada contra a qual, sem mo¬tivo nenhum, lutou erguendo a cabeça com certo brio. É verdade que seu desafio não conseguiu se sustentar por muito tempo, e aos poucos a cabeça pesada de novo se inclinou meditando. Os dedos mecânicos continuaram pois a trabalhar. Mas às vezes ela fazia um leve movimento de cabeça, muito quieto e bonito, como se afastasse uma mosca. Meditar era olhar o vazio.
A moça meditava. Foi então que levantou a cabeça e fitou o ar com alguma intensidade. É que alguma coisa branca e insidiosa se misturara a seu sangue, e ela se lembrou de como se falava de amor como de um veneno, e concordou submissa. Era alguma coisa adoci¬cada e cheia de mal-estar. Que ela, conivente, reconheceu com suavidade supliciada como uma mulher que apertando os dentes reconhece com altivez o primeiro sinal de que a criança vai nascer. Reconheceu, pois, com alegria e impassível resignação, o ritual que se fazia nela. Então suspirou: era a gravidade pela qual ela esperara a vida inteira. Depois, como uma mulher que se torna desordenadamente ativa em momentos críticos, imprimiu mais força na espiga crua, vários caroços tombaram, um relinchar de cavalo atravessou o campo e Francisco deu-lhe ordem de parada, vários caroços tom¬baram na lata. Era alguma coisa que seria amor ou não seria. Caberia a ela, entre milhares de segundos, dar a leve ênfase de que o amor apenas carecia para ser. Ermelinda parou com a espiga na mão, sua cabeça rodava um pouco, satisfeita, vexada. Porque, num segundo perdido en¬tre milhares de outros na vastidão do campo, sujeita à lei da única célula que se fecunda entre as que fenecem, ela acabara de saber, como se escolhesse, que o amava. Não diretamente, pois não era moça com hábitos de coragem. Mas deste modo ela escolhera saber que o amava: “estou viva”, pensara ela. E ao pensar “estou viva” tomara pela primeira vez consciência de que antes também pensara na morte, e que também pensara no homem.
A ignorância de seu próprio processo deu-lhe a surpresa da inocência. E somente então percebeu que agora era tarde demais, que só poderia amá-lo. Dolorosamente, altivamente, perdera para sempre a possibilidade de resolver. Com alívio, como quando é tarde demais. Um segundo antes ainda poderia não amá-lo. Mas agora, suavemente, vaidosamente: nunca mais. No mesmo instante teve uma sensação de tragédia. E agora era tarde demais — qualquer que tivesse sido o sentimento gerador, este para sempre se volatizara. Era tarde demais: a dor ficara na carne como quando a abelha já está longe. A dor, tão reconhecível, ficara. Mas para suportá-la fo¬mos feitos. Um pouco espantada, o calor da tarde então envolveu-a, inquieto, pesado. Nada se transformara no campo que continuou cheio de imóvel sol. No entanto por um instante a moça não o reconheceu e não se reconheceu, e se se olhasse ao espelho veria grandes olhos olhando-a mas não se veria. Com a acuidade da estranheza, notou na própria mão uma veia que havia anos não notava, e viu que tinha dedos magros e curtos, e viu uma saia cobrindo os joelhos. E sob tudo o que ela era, sentiu alguma coisa: sua própria atenção. Um pouco aflita, olhou em torno. Por uma obscura necessidade de preservação, estava procurando recuperar no campo aquele minuto em que ela ousadamente aceitara amar o homem: procurava recuperar o minuto para des¬truí-lo. Mas, estonteada, talvez soubesse que também a neces¬sidade de destruir amor era o próprio amor porque amor é tam¬bém luta contra amor, e se ela o soube é porque uma pessoa sabe. Procurou, desesperada e ofendida, aquele minuto que já agora nunca mais ela saberia se fora fatal a ponto de submetê-la — ou se nesse minuto ela própria fora tão extremamente livre que, numa gratuidade que já era pecado e que depois se pagava, ela o apontara.
Procurou recuperar o instante para destruí-lo, mas isso foi penoso e inútil. Pois tudo acontecera rápido demais. E a moça ficou apenas com o seguinte: com um balde cheio de caroços de milho, sem ter sequer contra o que lutar. E tão abandonada, e tão solitária, como se tudo o que no futuro se fosse seguir nada tivesse a ver com o solitário minuto de glória que há muito já se perdera para sempre entre as mar¬teladas. Essas marteladas que a moça, agora emergida e espan¬tada, ouviu mais fortes e mais próximas, fatais, fatais, fatais. Sua estranha liberdade: ela escolhera ir de encontro ao fatal. Era a gravidade pela qual esperara a vida toda. De novo um senso de tragédia a envolveu. E, estranhamente, dentro desta ela era apenas anônima. Olhou então as moscas sobre a roseira. A graça do que ela estava vivendo encheu-a de modéstia cristã, e ela humilde¬mente procurou apoio moral nas moscas que por dentro eram azuis. Mas o que viu apenas foram moscas azuladas e a rosa trêmula pela mosca que acabara de deixá-la trêmula. Depois que por um instante o mundo inteiro se tornara seu cúmplice, a moça fora largada por sua própria conta. Então abaixou a cabeça e retomou o trabalho: os caroços de milho tombaram na lata cadenciadamente, gota dura por gota dura. O sol se alargara subitamente em grande luz, o vento quente soprou. Mas alguma coisa certamente acontecera. Por¬que o grito da mulata no fundo da casa crispou o rosto da moça como se o tivesse ferido. Inconfortável dentro da inesperada grandeza que sua vida tomara, a moça fingiu não perceber nada. Depois, revoltada e refugiando-se na consoladora mesquinharia, onde pelo menos ela era ela própria, ela se disse em desafio: “se não cuidar de mim, ninguém cuida! vou é tomar mais leite para me fortificar que não sou tola!”, disse com brutalidade. Mas ao que disse, ela própria abaixou uma cabeça inteiramente distraída, respirando, respirando.
Depois enxugou o suor. — A cerca ainda não foi consertada! disse neste momento Vitória a Martim. Ermelinda estremeceu espantada pelo fato de alguém falar com o homem: ela não o imaginara, então! Ressentiu-se com a intrusão do estranho como se ele tivesse se imiscuído no amor que acabara de nascer. — A cerca está em pedaços, acrescentou Vitória exigente. Martim jamais parecia se perturbar por ter que interromper o trabalho que apenas começara e iniciar outro: começava a nova tarefa com a mesma indiferença concentrada com que fora perfeito no trabalho anterior. — O senhor não prefere acabar antes o que está fazendo? sugeriu Vitória afinal, ela mesma tendo que suprir o argumento que ele não dera. Mas ele não parecia se surpreender com coisa alguma do que Vitória pudesse lhe dizer. A princípio a obediência com que ele a ouvia deu a Vitória uma escura raiva no peito. Nas suas fantasias, Vitória tinha a impressão de que, se dissesse ao ho¬mem: “de noite eu durmo embaixo da cama”, ele responderia: “pois não, minha senhora”. O fato dele admitir nela o que quer que fosse e as ordens mais contraditórias, ofendia-a; e, pior ainda, isso tirava sub-repticiamente uma viga do heroísmo vago de que ela vivia e cujos motivos já se haviam perdido. Mas, aos poucos, foi sendo envolvida pelo modo como ele admitia tudo nela ou em si mesmo. Era como se ele dissesse: “não vejo mal nem bem em se dormir embaixo da cama”. Pouco à vontade, ela não conseguiu descobrir o mal que haveria em dormir sob uma cama: a mulher piscou os olhos, perturbada. A solidez e a calma do homem não lhe transmitiam nem solidez nem calma — irritavam-na apenas. Quanto ao homem, seus músculos trabalhavam com exatidão, lentidão e certeza. E nada o alterava como se ele carregasse consigo, em defesa intransponível pelos outros, o grande silêncio das plantas de seu terreno terciário. Para as quais voltava todas as tardes como um homem volta à sua casa.

E onde ficava sentado sobre uma pedra. E lá era bom. Lá nenhuma planta sabia quem ele era; e ele não sabia quem ele era; e ele não sabia o que as plantas eram; e as plantas não sabiam o que elas eram. E todos no entanto estavam tão vivos quanto se pode estar vivo: esta provavelmente era a grande meditação daquele homem. Assim como o sol brilha e assim como rato é apenas um passo além da grossa folha espalmada daquela planta — esta era a sua meditação. Martim tinha olhos azuis e sobrancelhas baixas; seus pés e mãos eram grandes. Tratava-se de um homem pesado, com uma idéia na cabeça. Tinha uma presença móvel, atenciosa, como se só fosse replicar depois de ouvir tudo. Esse era o seu lado verdadeiro, e também o seu lado de fora, visível pelos outros. Por dentro — custando muito mais a atingir a sua forma exterior que o precedera — por dentro ele era um homem de compreensão lenta, o que no fundo era uma paciência, um homem com um modo de pensar atrapalhado que às vezes, num sorriso embaraçado de criança, se sentia intimidado pela própria estupidez, como se ele não merecesse tanto: é verdade que por dentro ele também era sagaz, com uma possibilidade sempre pronta a tirar proveito e vantagem.
O que no passado o levara a ignorar vários escrúpulos e a fazer vários atos que seriam pecaminosos se ele fosse uma pessoa importante. Mas ele era uma dessas pessoas que morrem sem se saber o que realmente aconteceu com elas. Na verdade, sentado na pedra de seu reinado, sua medita¬ção por assim dizer se reduzia a ser um homem de pés grandes sentado numa pedra. O que ele não notou é que já estava começando a tomar algum cuidado em ser exatamente apenas aquilo que ele estava sendo. No seu alerta adormecimento às vezes um pensamento já faiscava nele como numa lasca de pedra: — A região é árida, meditava ele com bastante profundeza. Todavia o carvão existe, parecia ele pensar, sentado ereto na pedra. Constatar era de uma surda virilidade. E era como se um homem, sabendo esperar sentado na pedra, pois bem! se um homem soubesse esperar sentado numa pedra, então a umidade favorecia o apodrecimento de raízes, nozes, frutos e sementes. Essa lógica obscura lhe parecia perfeita e suficiente. Sentado na pedra, ele também se sentia satisfeito pelo fato de agora saber trabalhar tão bem no campo. Seu conhecimento era pouco, mas suas mãos tinham ganho uma sabedoria. “Um homem é lento e demora muito para entender suas mãos”, pensou ele olhando-as. Seus pensamentos eram quase que voluntariamente enigmáticos. E no seu terreno ele sentia aquele prazer que em certos momentos nulos se sente, como se tudo na ver¬dade fosse essencialmente feito de prazer.
A planta, por exemplo, era apenas prazer. É verdade que às vezes a intensa quietude das plantas já parecia surdamente perturbá-lo, e dava-lhe uma primeira inquie¬tação. Então ele mudava a posição das pernas, paciente, sem entender. Não se dava conta de que ali estava lentamente fabri¬cando a sua primeira flecha e polindo o seu primeiro dardo. Nem se deu conta de que já era totalmente diferente daque¬le homem que olhara o terreno de madrugada. Não se deu conta de que, mudando tantas vezes a posição das pernas, estava tendo a sua primeira impaciência, ao olhar esse mundo pronto para ser caçado. Obscuramente, inquietava-se por começar a se sentir superior às plantas, e por sentir-se de algum modo homem em relação a elas. Pois só homem era impaciente: ele então mudou de novo a posição das pernas. E mais: só um homem se orgulhava da própria impaciência. Como ele, mudando de novo a posição das pernas, perturbadoramente se orgulhou.
Era uma vaidade generalizada que às vezes o tomava, e que ainda não se embaraçava por existir ao mesmo tempo que a prudência em não se arriscar além da sonolência asseguradora do terreno do depósito. Asseguradora mas já não suficiente. O homem estava incomodamente crescendo. Mas essa inquietação quase apenas física sucedia-lhe apenas por instantes. E ainda lhe acontecia tão distante dele próprio que ainda não alterara a inteireza do sistema de mundo em que ele se movia. E, em breve, com o grande prazer que existe na contenção da própria energia, de novo ele se punha em estado de “pouco saber”. Pois essa era a condição essencial ao terreno. Em não saber, havia no homem uma alegria sem sorriso assim como a planta se cumpre, grossa. Às vezes aquele homem, a quem sempre haviam escapado elos importantes, pegava na terra como uma pessoa que possui uma terra. E ficava com o punhado de terra na mão. Bronco, com a terra na mão; como melhor forma de ser. Quais eram os pensamentos daquele homem? Eram pensamentos apenas pro¬fundos, satisfatórios e substanciais. Uma tarde ele chegou ao ponto de pensar assim: — A fauna extinta é uma legião. Esse era o tipo de pensamento sem contestação possível. Ainda nesse mesmo dia ele pensou assim: — Há mais de um bilhão de anos, uma vez... — Martim não estava informado de quanto tempo exato existia atrás dele, mas como não havia ali ninguém que o impedisse de errar, ele se aprumou impassível, grande. E continuou a fazer constatações da melhor qualidade. Por exemplo, outra vez pensou assim: “sob dois metros de despojos, talvez haja aqui um crânio de mastodonte”. Pensar se transformara agora num modo de se esfregar no chão. Foi, pois, com o prazer mais legítimo da meditação que ele numa tarde se lembrou, sem mais nem menos, de que “existem búfalos”. O que deu grande espaço ao terreno, pois búfalos se movem devagar e longe.
E quem o olhasse — tão satisfeito o dominador — balançaria a cabeça em inveja pela sorte que aquele homem tivera em nascer quando as massas de gelo do globo já se haviam fundido; ele estava usufruindo de uma terra favorável. Veio-lhe, por exemplo, a vontade de comer — e ele anotou-a com aprovação. Tinha agora todos os sentidos que um rato tem, e mais um com o qual constatava o que acontecia: o pensamento. Era o modo menos pervertido de usá-lo. Deixava-se sanear pela coisa completa que havia nas plantas: com alívio, encostava seus pedaços crestados na frescura do que existe. Era danado de bom não mentir. Pois, sentado na pedra, ele não fazia nada mais que isso: não mentia. Por exemplo, Martim não estava triste. O que era estar enfim livre de todo um dever moral de ternura. Aquele homem tinha vindo de uma cidade onde o ar estava cheio dos sacrifícios de pessoas que, sendo infelizes, se aproximavam de um ideal. — Rebento a cara de quem mexer comigo! disse então alto exercitando sua alma e talvez procurando provocar em si uma cólera que de algum modo o sintonizaria com aquela calma energia ao seu redor. Depois do quê, levantou-se e urinou sereno olhando para o céu. As nuvens passavam altas. Ficou de pé, estúpido, modesto, aureolado. Sua unidade se dava como unidade. — A região é árida, pensou em seguida. O que lhe deu um gosto muito satisfatório. Olhou para o árido céu. O céu ali estava, alto. E ele embaixo. Perfeição maior não se pode imaginar. Quando dormia, dormia. Quando trabalhava, trabalhava. Vitória mandava nele, ele mandava no próprio corpo. E algo crescia com rumor informe.