A Maçã no Escuro

sexta-feira, junho 22, 2012

Primeira parte: Como se faz um homem
Oito


Logo nos primeiros dias sentiu-se que havia um homem no sítio. E também se poderia adivinhar que quem mandava era uma mulher: pois apesar da ameaça de seca e das necessidades fundamentais daquela tentativa pobre de fazenda, o que de re­pente mais preocupava Vitória era a aparência do sítio. Como se até a vinda do homem ela não tivesse percebido o desmazelo das terras, encarniçava-se agora em transformá-las. Parecia ter à frente a data certa de uma festa antes da qual tudo deveria estar pronto. Uma febre de precisão a tomara. E as minúcias a que descia lembravam uma mosca se lavando. Na manhã alta, eis que ela apontava a cerca torta. E a força calma do homem desentortava a cerca. De muito longe Francisco, cismarento e céptico, viu a mulher apontando a desordem dos raros canteiros — e sorrindo viu que em silêncio Martim cavava, limpava, po­dava. Entre Martim e Vitória estabelecera-se uma muda relação já mecanizada e em pleno funcionamento: constituída da coin­cidência da mulher querer mandar e dele aquiescer em obedecer. Com avidez, a mulher era dona. E alguma coisa nela se intensi­ficara: a feliz severidade com que ela agora pisava sobre o que era seu, disfarçando a glória da posse com um olhar desafiador para as nuvens que passavam.
— E o curral? interrogou-o um dia atenta, o senhor nunca limpou o curral! disse-lhe impaciente, com aquele piscar de olhos de quem já não sabia o que queria; mas o tempo urgia.
Foi pois assim que Martim — como se estivesse copiando no seu trabalho de se tornar concreto uma evolução fatal cujo rasto ele sentia às apalpadelas — foi assim que o novo e confuso passo do homem foi sair uma manhã de seu reinado no terreno para a meia-luz do curral onde as vacas eram mais difíceis que as plantas.
Seu contato com as vacas foi um esforço penoso. A luz do curral era diferente da luz de fora a ponto de estabelecer-se na porta um vago limiar. Onde o homem parou. Habituado a nú­meros, ele recuava à desordem. É que dentro era uma atmosfera de entranhas e um sonho difícil cheio de moscas. E só Deus não tem nojo. No limiar, pois, ele parou sem vontade.
A névoa evolava-se dos bichos e os envolvia lenta. Ele olhou mais no fundo. Na imundície penumbrosa havia algo de oficina e de concentração como se daquele enleio informe fosse aos poucos se apontando concreta mais uma forma. O cheiro cru era o de matéria-prima desperdiçada. Ali se faziam vacas. Por nojo, o homem que repentinamente se tornara de novo abstrato como uma unha, quis recuar; enxugou com o dorso da mão a boca seca como um médico diante de sua primeira ferida. No limiar do estábulo no entanto ele pareceu reconhecer a luz mortiça que se exalava do focinho dos bichos. Aquele homem já vira esse vapor de luz evolando-se de esgotos em certas ma­drugadas frias. E vira essa luz se emanar de lixo quente. Vira-a também como uma auréola em torno do amor de dois cachorros; e seu próprio hálito era essa mesma luz. Ali se faziam vacas profundas. Uma pessoa pouco corajosa poderia vomitar à fragrância imunda, e ao ver a atração que as moscas tinham por aquela chaga aberta, uma pessoa limpa podia se sentir mal diante da tranqüilidade com que as vacas de pé molhavam pesa­das o chão. Martim era essa pessoa pouco corajosa que nunca tinha posto mãos na parte íntima de um curral. No entanto, embora desviando os olhos, ele a contragosto pareceu entender que as coisas se tivessem arranjado de modo a que num estábulo um dia tivesse nascido um menino. Pois estava certo aquele grande cheiro de matéria. Só que Martim ainda não estava pre­parado para tal avanço espiritual. Mais que temor, era um pudor. Ê hesitou à porta, pálido e ofendido como uma criança ao lhe ser revelada de chofre a raiz da vida.
Então disfarçou sua covardia com uma súbita revolta: res­sentia-se por Vitória tê-lo empurrado do silêncio das plantas para aquele lugar. Onde, com repugnância e curiosidade, ele inesperadamente se lembrou de que houve uma morta época em que répteis enormes tinham asas. É que ali uma pessoa não escapava de certos pensamentos. Ali ele não escaparia de sentir, com horror e alegria impessoal, que as coisas se cumprem.
Será por acaso isso o que lhe revolveu o estômago, ou ape­nas o cheiro morno? Não se sabe. No entanto bastar-lhe-ia um passo para trás, e ele se encontraria em plena fragrância da manhã que já é coisa aperfeiçoada nas menores folhas e nas menores pedras, e é trabalho acabado e sem fissuras — e que uma pessoa pode olhar sem nenhum perigo porque não tem por onde entrar e perder-se. Bastar-lhe-ia um passo para trás.
Ele então deu um passo para a frente. E ofuscado, estacou. No começo nada viu, como quando se entra numa grota. Mas as vacas habituadas à obscuridade haviam percebido o estranho. E ele sentiu no corpo todo que seu corpo estava sendo experimen­tado pelas vacas: estas começaram a mugir devagar e moviam as patas sem ao menos olhá-lo — com aquela falta de necessi­dade de ver para saber que os animais têm, como se já tivessem atravessado a infinita extensão da própria subjetividade a ponto de alcançarem o outro lado: a perfeita objetividade que não precisa mais ser demonstrada. Enquanto ele, no curral, se redu­zira ao fraco homem: essa coisa dúbia que nunca foi de uma margem a outra.
Num suspiro resignado, pareceu ao homem lento que “não olhar” também seria o seu único modo de entrar em contato com os bichos. Imitando as vacas, num mimetismo quase calculado, ele ali em pé não olhou para parte alguma, tentando ele também dispensar a visão direta. E numa inteligência forçada pela própria inferioridade de sua situação deixou-se ficar sub­misso e atento. Depois, por um altruísmo de identificação, foi que ele quase tomou a forma de um dos bichos. E foi assim fazendo que, com certa surpresa, inesperadamente pareceu en­tender como é uma vaca.
Tendo de algum modo entendido, uma pesada astúcia fez com que ele, agora bem imóvel, se deixasse ser conhecido por elas. Sem que um olhar fosse trocado, agüentou de dentes aper­tados que as vacas o conhecessem intoleravelmente devagar como se mãos percorressem o seu segredo. Foi com mal-estar que sentiu as vacas escolhendo nele apenas a parte delas que havia nele; assim como um ladrão veria nele a parte que ele, Martim, tinha de avidez de roubo, e assim como uma mulher queria dele o que já uma criança não entenderia. Só que as vacas escolhiam nele algo que ele próprio não conhecia — e que foi pouco a pouco se criando.
Foi um grande esforço, o do homem. Nunca, até então, ele se tornara tanto uma presença. Materializar-se para as vacas foi um grande trabalho íntimo de concretização. A unha final­mente doía.
Por um momento de falta de fé, o homem teve a certeza de que ia perder e que jamais conseguiria a ascensão ao curral. Pois um ou outro largo olhar passava sem pressa por ele, seguido de um mugido longo de cabeça pesada erguida para o alto: repu-diando-o. No meio do cheiro intenso do curral, elas percebiam o seu cheiro ácido de pessoas.
Mas também é verdade que, a essa altura, a alegria de viver já o tomara, essa alegria fina que às vezes nos toma no meio da própria vida como se a mesma nota de música se intensificasse: essa alegria o tomara e o guiava instintivamente na luta. Martim já não saberia se estava apenas obedecendo à ordem informulada com que as vacas terminam por forçar um vaqueiro a um modo peculiar de olhar e de ficar em pé. Ou se, na verdade, era ele próprio quem estava buscando, em doloroso esforço espiri­tual, libertar-se enfim do reinado dos ratos e das plantas — e alcançar a respiração misteriosa de bichos maiores.
O que apenas sabia — pois já alcançara a mesma inteli­gência somente essencial de uma vaca — o que apenas sabia era uma lei simples. Que não devia brutalizar-lhes o ritmo próprio, e que lhes devia dar tempo, o tempo delas. Que era um tempo inteiramente escuro, e elas ruminavam feno com baba. Aos pou­cos também este se tornou o tempo do homem. Redondo, lento, incontável por um calendário, pois assim é que uma vaca atraves­sa um campo.
Então — já que as coisas tendem a chegar a uma conclusão e a descansar num estágio — o curral enfim começou a serenar. O calor do corpo do homem e dos bichos se confundiu na mesma mornidão amoniacada do ar. O silêncio do homem automatica­mente se transformara. Ele enfim ganhara uma dimensão que uma planta não tem. E as vacas, apaziguadas com a justificação que Martim lhes dera, deixaram de se ocupar dele.
Em júbilo trêmulo, o homem sentiu que alguma coisa enfim acontecera. Deu-lhe então uma aflição intensa como quan­do se é feliz e não se tem em que aplicar a felicidade, e se olha ao redor e não há como dar esse instante de felicidade — o que até agora tinha acontecido com mais freqüência àquele homem em noites de sábado.
Alguma coisa tinha acontecido. E embora os elos continuas­sem a lhe escapar, ele tinha enfim alguma coisa na mão e seu peito se inflou de sutil vitória. Martim respirou profundamente. Pertencia agora ao curral.
E enfim pôde olhá-lo como uma vaca o veria.
O curral era um lugar quente e bom que pulsava como uma veia grossa. Era à base dessa larga veia que homens e bichos tinham filhos. Martim suspirou cansado com o enorme esforço: acabara de “descortinar”. Era a partir dessa veia larga que um grande animal atravessava um riacho espalhando água que brilha — o que o homem já havia visto, tendo porém tido apenas aquele mínimo aviso de beleza que agora repousava em base profunda. Era por causa dessa pulsação que as montanhas eram longe e altas. Era por isso que as vacas molhavam o chão com um barulho forte. Era à base de um curral que o tempo é indefinidamente substituído pelo tempo. Era por causa desse latejar que levas migratórias saíram de zonas frias para as tem­peradas. Aquele — aquele era um lugar quente que pulsava.
Tudo isso o homem talvez tivesse sentido pois ficou tão satisfeito que cuspiu no chão. Depois do quê, com o coração cheio de pesado vigor, escondendo a emoção, estendeu a mão e deu algumas palmadas no corpo enxuto de uma vaca. Uma grande confusão tranqüila começara entre ele e os animais.
— O senhor precisa dar terra ao milho! disse-lhe Vitória irritada.
Ele então dava terra ao milho. Mas as vacas esperavam-no, e ele sabia.

A Maçã no Escuro

sexta-feira, maio 04, 2012

Primeira parte: Como se faz um homem
Sete

Era a quente e inexpressiva cara de um homem — e uma tarde Ermelinda olhou para Martim espantada de vê-lo tão con¬creto no meio da vaguidão do campo. Materializando o vasto espanto que ela nunca sabia bem em que aplicar — ela então se espantou da coincidência daquele homem estar exatamente no sítio, e se espantou da coincidência extremamente curiosa dela mesma estar no sítio. Mas — pensou forçando-se a alguma modéstia — não há um fato que não se ligue a outro, sempre há uma grande coincidência nas coisas. Logo na primeira semana Ermelinda se apaixonou por Martim. Em primeiro lugar porque ele era um homem e ela por assim dizer nunca se apaixonara, senão de outras vezes que não contam. E depois porque Martim, sem o saber, era homem junto do qual uma mulher não se sentia humilhada: ele não tinha vergonha. Ela estava sentada de tarde debulhando milho.
O fato de ter aceito a tarefa já fora talvez um começo da necessidade de estar sozinha e deixar-se ficar absorta. Ficar absorta era o modo usual como Ermelinda chamava “estar pensando”. Nessa tarde, de onde Ermelinda o via, a distância tornava o homem um ponto negro que a moça fixamente acompanhou como único ponto de referência no campo. Até que sua visão se ofuscou pela claridade, e milhares de pontos negros e luminosos fizeram-na fechar os olhos como se o homem se tivesse esti¬lhaçado. Quando reabriu os olhos agora penumbrosos, o campo es¬tava de novo vazio: Martim desaparecera. O que lhe restou a ver foram os passarinhos odiados voando calmos. E as ervas altas e mal-assombradas estremecendo à menor hesitação da brisa. Tudo se tornara de novo antena sensível ao que jamais chegava a ser dito. Como numa visitação, com ânsia de espera Ermelinda olhou. Estava muito pensativa. Foi a essa altura que Martim apareceu de novo no seu campo de visão.
Ele, o homem concreto que parecia impedir que as coisas voassem. Pois o modo de ver de Ermelinda costumava deixar tudo tão instável e leve como ela própria. Ele, o homem, reapareceu. Assegurando a realidade. E aquele corpo grosseiro contrabalançava a suavidade do milharal, a suavidade das mu¬lheres e das flores. Com a firmeza ingênua que um homem tem, e que é a sua força, ele contrabalançava a nauseante delicadeza da morte. Aquela firmeza inocente que mesmo o marido de Ermelinda tivera, mesmo Francisco, mesmo todos os outros ho¬mens que haviam temporariamente trabalhado no sítio.
Com uma solidez que ignorava o próprio valor, o corpo estúpido de Martim parecia garantir que nunca a morte, a morte delicadíssima, venceria. E a força do homem justificava que ela, Ermelinda, fosse tão suave — essa suavidade que sem um homem era tão gratuita como uma flor e, como uma flor, parecia se dar ao nada, e o nada era a morte espalhada com tal sutileza que até parecia vida. Ermelinda não estava pensando em nada: estava absorta. Com o rosto inclinado, descaroçou automaticamente o mi¬lho. E distinta das marteladas de Martim — que ela ouvia uma a uma, esperando em doce tortura pela próxima — ela se disse com o maior cuidado, no começo de uma sensação de exasperante prazer que ela temeu destruir se lhe desse mais força: “mas quem está falando em morte, mulher? estou tão viva”, disse ela como se fruísse de um desfalecimento e de um coração no campo. Seu rosto inclinado para o milho não via Martim. Mas a cada martelada ele dava enfim matéria ao campo desfral¬dado, e dava ao corpo daquela moça, tão vago, um corpo. Erme¬linda sentiu uma moleza envergonhada contra a qual, sem mo¬tivo nenhum, lutou erguendo a cabeça com certo brio. É verdade que seu desafio não conseguiu se sustentar por muito tempo, e aos poucos a cabeça pesada de novo se inclinou meditando. Os dedos mecânicos continuaram pois a trabalhar. Mas às vezes ela fazia um leve movimento de cabeça, muito quieto e bonito, como se afastasse uma mosca. Meditar era olhar o vazio.
A moça meditava. Foi então que levantou a cabeça e fitou o ar com alguma intensidade. É que alguma coisa branca e insidiosa se misturara a seu sangue, e ela se lembrou de como se falava de amor como de um veneno, e concordou submissa. Era alguma coisa adoci¬cada e cheia de mal-estar. Que ela, conivente, reconheceu com suavidade supliciada como uma mulher que apertando os dentes reconhece com altivez o primeiro sinal de que a criança vai nascer. Reconheceu, pois, com alegria e impassível resignação, o ritual que se fazia nela. Então suspirou: era a gravidade pela qual ela esperara a vida inteira. Depois, como uma mulher que se torna desordenadamente ativa em momentos críticos, imprimiu mais força na espiga crua, vários caroços tombaram, um relinchar de cavalo atravessou o campo e Francisco deu-lhe ordem de parada, vários caroços tom¬baram na lata. Era alguma coisa que seria amor ou não seria. Caberia a ela, entre milhares de segundos, dar a leve ênfase de que o amor apenas carecia para ser. Ermelinda parou com a espiga na mão, sua cabeça rodava um pouco, satisfeita, vexada. Porque, num segundo perdido en¬tre milhares de outros na vastidão do campo, sujeita à lei da única célula que se fecunda entre as que fenecem, ela acabara de saber, como se escolhesse, que o amava. Não diretamente, pois não era moça com hábitos de coragem. Mas deste modo ela escolhera saber que o amava: “estou viva”, pensara ela. E ao pensar “estou viva” tomara pela primeira vez consciência de que antes também pensara na morte, e que também pensara no homem.
A ignorância de seu próprio processo deu-lhe a surpresa da inocência. E somente então percebeu que agora era tarde demais, que só poderia amá-lo. Dolorosamente, altivamente, perdera para sempre a possibilidade de resolver. Com alívio, como quando é tarde demais. Um segundo antes ainda poderia não amá-lo. Mas agora, suavemente, vaidosamente: nunca mais. No mesmo instante teve uma sensação de tragédia. E agora era tarde demais — qualquer que tivesse sido o sentimento gerador, este para sempre se volatizara. Era tarde demais: a dor ficara na carne como quando a abelha já está longe. A dor, tão reconhecível, ficara. Mas para suportá-la fo¬mos feitos. Um pouco espantada, o calor da tarde então envolveu-a, inquieto, pesado. Nada se transformara no campo que continuou cheio de imóvel sol. No entanto por um instante a moça não o reconheceu e não se reconheceu, e se se olhasse ao espelho veria grandes olhos olhando-a mas não se veria. Com a acuidade da estranheza, notou na própria mão uma veia que havia anos não notava, e viu que tinha dedos magros e curtos, e viu uma saia cobrindo os joelhos. E sob tudo o que ela era, sentiu alguma coisa: sua própria atenção. Um pouco aflita, olhou em torno. Por uma obscura necessidade de preservação, estava procurando recuperar no campo aquele minuto em que ela ousadamente aceitara amar o homem: procurava recuperar o minuto para des¬truí-lo. Mas, estonteada, talvez soubesse que também a neces¬sidade de destruir amor era o próprio amor porque amor é tam¬bém luta contra amor, e se ela o soube é porque uma pessoa sabe. Procurou, desesperada e ofendida, aquele minuto que já agora nunca mais ela saberia se fora fatal a ponto de submetê-la — ou se nesse minuto ela própria fora tão extremamente livre que, numa gratuidade que já era pecado e que depois se pagava, ela o apontara.
Procurou recuperar o instante para destruí-lo, mas isso foi penoso e inútil. Pois tudo acontecera rápido demais. E a moça ficou apenas com o seguinte: com um balde cheio de caroços de milho, sem ter sequer contra o que lutar. E tão abandonada, e tão solitária, como se tudo o que no futuro se fosse seguir nada tivesse a ver com o solitário minuto de glória que há muito já se perdera para sempre entre as mar¬teladas. Essas marteladas que a moça, agora emergida e espan¬tada, ouviu mais fortes e mais próximas, fatais, fatais, fatais. Sua estranha liberdade: ela escolhera ir de encontro ao fatal. Era a gravidade pela qual esperara a vida toda. De novo um senso de tragédia a envolveu. E, estranhamente, dentro desta ela era apenas anônima. Olhou então as moscas sobre a roseira. A graça do que ela estava vivendo encheu-a de modéstia cristã, e ela humilde¬mente procurou apoio moral nas moscas que por dentro eram azuis. Mas o que viu apenas foram moscas azuladas e a rosa trêmula pela mosca que acabara de deixá-la trêmula. Depois que por um instante o mundo inteiro se tornara seu cúmplice, a moça fora largada por sua própria conta. Então abaixou a cabeça e retomou o trabalho: os caroços de milho tombaram na lata cadenciadamente, gota dura por gota dura. O sol se alargara subitamente em grande luz, o vento quente soprou. Mas alguma coisa certamente acontecera. Por¬que o grito da mulata no fundo da casa crispou o rosto da moça como se o tivesse ferido. Inconfortável dentro da inesperada grandeza que sua vida tomara, a moça fingiu não perceber nada. Depois, revoltada e refugiando-se na consoladora mesquinharia, onde pelo menos ela era ela própria, ela se disse em desafio: “se não cuidar de mim, ninguém cuida! vou é tomar mais leite para me fortificar que não sou tola!”, disse com brutalidade. Mas ao que disse, ela própria abaixou uma cabeça inteiramente distraída, respirando, respirando.
Depois enxugou o suor. — A cerca ainda não foi consertada! disse neste momento Vitória a Martim. Ermelinda estremeceu espantada pelo fato de alguém falar com o homem: ela não o imaginara, então! Ressentiu-se com a intrusão do estranho como se ele tivesse se imiscuído no amor que acabara de nascer. — A cerca está em pedaços, acrescentou Vitória exigente. Martim jamais parecia se perturbar por ter que interromper o trabalho que apenas começara e iniciar outro: começava a nova tarefa com a mesma indiferença concentrada com que fora perfeito no trabalho anterior. — O senhor não prefere acabar antes o que está fazendo? sugeriu Vitória afinal, ela mesma tendo que suprir o argumento que ele não dera. Mas ele não parecia se surpreender com coisa alguma do que Vitória pudesse lhe dizer. A princípio a obediência com que ele a ouvia deu a Vitória uma escura raiva no peito. Nas suas fantasias, Vitória tinha a impressão de que, se dissesse ao ho¬mem: “de noite eu durmo embaixo da cama”, ele responderia: “pois não, minha senhora”. O fato dele admitir nela o que quer que fosse e as ordens mais contraditórias, ofendia-a; e, pior ainda, isso tirava sub-repticiamente uma viga do heroísmo vago de que ela vivia e cujos motivos já se haviam perdido. Mas, aos poucos, foi sendo envolvida pelo modo como ele admitia tudo nela ou em si mesmo. Era como se ele dissesse: “não vejo mal nem bem em se dormir embaixo da cama”. Pouco à vontade, ela não conseguiu descobrir o mal que haveria em dormir sob uma cama: a mulher piscou os olhos, perturbada. A solidez e a calma do homem não lhe transmitiam nem solidez nem calma — irritavam-na apenas. Quanto ao homem, seus músculos trabalhavam com exatidão, lentidão e certeza. E nada o alterava como se ele carregasse consigo, em defesa intransponível pelos outros, o grande silêncio das plantas de seu terreno terciário. Para as quais voltava todas as tardes como um homem volta à sua casa.

E onde ficava sentado sobre uma pedra. E lá era bom. Lá nenhuma planta sabia quem ele era; e ele não sabia quem ele era; e ele não sabia o que as plantas eram; e as plantas não sabiam o que elas eram. E todos no entanto estavam tão vivos quanto se pode estar vivo: esta provavelmente era a grande meditação daquele homem. Assim como o sol brilha e assim como rato é apenas um passo além da grossa folha espalmada daquela planta — esta era a sua meditação. Martim tinha olhos azuis e sobrancelhas baixas; seus pés e mãos eram grandes. Tratava-se de um homem pesado, com uma idéia na cabeça. Tinha uma presença móvel, atenciosa, como se só fosse replicar depois de ouvir tudo. Esse era o seu lado verdadeiro, e também o seu lado de fora, visível pelos outros. Por dentro — custando muito mais a atingir a sua forma exterior que o precedera — por dentro ele era um homem de compreensão lenta, o que no fundo era uma paciência, um homem com um modo de pensar atrapalhado que às vezes, num sorriso embaraçado de criança, se sentia intimidado pela própria estupidez, como se ele não merecesse tanto: é verdade que por dentro ele também era sagaz, com uma possibilidade sempre pronta a tirar proveito e vantagem.
O que no passado o levara a ignorar vários escrúpulos e a fazer vários atos que seriam pecaminosos se ele fosse uma pessoa importante. Mas ele era uma dessas pessoas que morrem sem se saber o que realmente aconteceu com elas. Na verdade, sentado na pedra de seu reinado, sua medita¬ção por assim dizer se reduzia a ser um homem de pés grandes sentado numa pedra. O que ele não notou é que já estava começando a tomar algum cuidado em ser exatamente apenas aquilo que ele estava sendo. No seu alerta adormecimento às vezes um pensamento já faiscava nele como numa lasca de pedra: — A região é árida, meditava ele com bastante profundeza. Todavia o carvão existe, parecia ele pensar, sentado ereto na pedra. Constatar era de uma surda virilidade. E era como se um homem, sabendo esperar sentado na pedra, pois bem! se um homem soubesse esperar sentado numa pedra, então a umidade favorecia o apodrecimento de raízes, nozes, frutos e sementes. Essa lógica obscura lhe parecia perfeita e suficiente. Sentado na pedra, ele também se sentia satisfeito pelo fato de agora saber trabalhar tão bem no campo. Seu conhecimento era pouco, mas suas mãos tinham ganho uma sabedoria. “Um homem é lento e demora muito para entender suas mãos”, pensou ele olhando-as. Seus pensamentos eram quase que voluntariamente enigmáticos. E no seu terreno ele sentia aquele prazer que em certos momentos nulos se sente, como se tudo na ver¬dade fosse essencialmente feito de prazer.
A planta, por exemplo, era apenas prazer. É verdade que às vezes a intensa quietude das plantas já parecia surdamente perturbá-lo, e dava-lhe uma primeira inquie¬tação. Então ele mudava a posição das pernas, paciente, sem entender. Não se dava conta de que ali estava lentamente fabri¬cando a sua primeira flecha e polindo o seu primeiro dardo. Nem se deu conta de que já era totalmente diferente daque¬le homem que olhara o terreno de madrugada. Não se deu conta de que, mudando tantas vezes a posição das pernas, estava tendo a sua primeira impaciência, ao olhar esse mundo pronto para ser caçado. Obscuramente, inquietava-se por começar a se sentir superior às plantas, e por sentir-se de algum modo homem em relação a elas. Pois só homem era impaciente: ele então mudou de novo a posição das pernas. E mais: só um homem se orgulhava da própria impaciência. Como ele, mudando de novo a posição das pernas, perturbadoramente se orgulhou.
Era uma vaidade generalizada que às vezes o tomava, e que ainda não se embaraçava por existir ao mesmo tempo que a prudência em não se arriscar além da sonolência asseguradora do terreno do depósito. Asseguradora mas já não suficiente. O homem estava incomodamente crescendo. Mas essa inquietação quase apenas física sucedia-lhe apenas por instantes. E ainda lhe acontecia tão distante dele próprio que ainda não alterara a inteireza do sistema de mundo em que ele se movia. E, em breve, com o grande prazer que existe na contenção da própria energia, de novo ele se punha em estado de “pouco saber”. Pois essa era a condição essencial ao terreno. Em não saber, havia no homem uma alegria sem sorriso assim como a planta se cumpre, grossa. Às vezes aquele homem, a quem sempre haviam escapado elos importantes, pegava na terra como uma pessoa que possui uma terra. E ficava com o punhado de terra na mão. Bronco, com a terra na mão; como melhor forma de ser. Quais eram os pensamentos daquele homem? Eram pensamentos apenas pro¬fundos, satisfatórios e substanciais. Uma tarde ele chegou ao ponto de pensar assim: — A fauna extinta é uma legião. Esse era o tipo de pensamento sem contestação possível. Ainda nesse mesmo dia ele pensou assim: — Há mais de um bilhão de anos, uma vez... — Martim não estava informado de quanto tempo exato existia atrás dele, mas como não havia ali ninguém que o impedisse de errar, ele se aprumou impassível, grande. E continuou a fazer constatações da melhor qualidade. Por exemplo, outra vez pensou assim: “sob dois metros de despojos, talvez haja aqui um crânio de mastodonte”. Pensar se transformara agora num modo de se esfregar no chão. Foi, pois, com o prazer mais legítimo da meditação que ele numa tarde se lembrou, sem mais nem menos, de que “existem búfalos”. O que deu grande espaço ao terreno, pois búfalos se movem devagar e longe.
E quem o olhasse — tão satisfeito o dominador — balançaria a cabeça em inveja pela sorte que aquele homem tivera em nascer quando as massas de gelo do globo já se haviam fundido; ele estava usufruindo de uma terra favorável. Veio-lhe, por exemplo, a vontade de comer — e ele anotou-a com aprovação. Tinha agora todos os sentidos que um rato tem, e mais um com o qual constatava o que acontecia: o pensamento. Era o modo menos pervertido de usá-lo. Deixava-se sanear pela coisa completa que havia nas plantas: com alívio, encostava seus pedaços crestados na frescura do que existe. Era danado de bom não mentir. Pois, sentado na pedra, ele não fazia nada mais que isso: não mentia. Por exemplo, Martim não estava triste. O que era estar enfim livre de todo um dever moral de ternura. Aquele homem tinha vindo de uma cidade onde o ar estava cheio dos sacrifícios de pessoas que, sendo infelizes, se aproximavam de um ideal. — Rebento a cara de quem mexer comigo! disse então alto exercitando sua alma e talvez procurando provocar em si uma cólera que de algum modo o sintonizaria com aquela calma energia ao seu redor. Depois do quê, levantou-se e urinou sereno olhando para o céu. As nuvens passavam altas. Ficou de pé, estúpido, modesto, aureolado. Sua unidade se dava como unidade. — A região é árida, pensou em seguida. O que lhe deu um gosto muito satisfatório. Olhou para o árido céu. O céu ali estava, alto. E ele embaixo. Perfeição maior não se pode imaginar. Quando dormia, dormia. Quando trabalhava, trabalhava. Vitória mandava nele, ele mandava no próprio corpo. E algo crescia com rumor informe.

A Maçã no Escuro (trecho)

domingo, abril 15, 2012

Primeira parte: Como se faz um homem
Seis

Enquanto isso, erguendo a lamparina acima da cabeça, Martim parecia quase tão grande quanto o depósito. Lenha úmida se amontoava perto da enxerga que ele olhou com sen¬sualidade como se não dormisse há anos.
A lucidez a que se forçara para responder às perguntas de Vitória já desaparecera, e de suas mãos sumira a habilidade de que precisara para instalar a porta. Com um abrutamento que as vacilações do clarão nas paredes faziam gaguejar e tro¬peçar, respirou fundo o cheiro de couro molhado do depósito, sacudiu a cabeça com força lutando por não submergir. Em¬bora não precisasse de si para nada, uma luta elementar fa¬zia-se nele no sentido de não soçobrar. É que a impressão ameaçadora de estar perdendo elos importantes fazia com que ele se forçasse a ter consciência de tudo: quando a luz esfumaçada da lamparina passava por cima da enxerga, ele anotou com uma nitidez inútil um cinturão imóvel no grande prego enferrujado e o quadro de papelão duro sem moldura.
Deste o homem aproximou com obediência a lamparina e o próprio rosto anestesiado que tentava se acordar: sob a gra¬vura, em letras graúdas e femininamente desenhadas como num bordado paciente, estava inscrito “S. Crispim e S. Crispiniano”. Os olhos avermelhados do homem viram os dois san¬tos em seu trabalho de sapateiros. Gostou muito da gravura. As mãos dos santos estavam por um instante paralisadas nas sandálias, num silêncio perfeito que o artista dera por acaso.
Acima da auréola dos santos — dentro de um círculo esfumaçado para convencionar a distância futura do acontecimento
— estavam os mesmos S. Crispim e S. Crispiniano dessa vez fervendo dentro da caldeira. “Diabo”, grunhiu o homem, “qual foi o crime deles?” Mas embaixo da caldeira, enquanto o fu¬turo não sucedia, os santos verdes, azuis e amarelos — cores que em vez de violência davam à gravura o grande espaço que cabe numa igreja — enquanto o futuro não sucedia, os santos tinham a tranqüila concentração que sandálias a consertar exi¬giam, como se nossa tarefa fossem as sandálias.
Na sua pesada estupidez, que se manifestou num sorriso de submissão, o homem insistiu em aproximar de novo a lam¬parina. É que, ainda deformado pela necessidade de atenção da fuga, pareceu-lhe que também ali havia um elo importante a lhe escapar, e ele então tocou com dedos tímidos o rosto de papelão dos mártires como quem se achega furtivamente daquilo que poderá se enfurecer. Depois, com vagares de mi¬núcia, pôs os óculos. Mas a verdade é que o elo continuou a lhe escapar, e seus olhos aumentados pelos óculos só consegui¬ram obstinadamente repetir a visão sem compreendê-la: no círculo esfumaçado a caldeira borbulhando, embaixo dela ins¬tante calmo por instante calmo os sapatos se consertando. O homem não conseguiu ir um passo adiante. Embora a muda cena do quadro desse ao depósito uma perspectiva. O próprio depósito de lenha cheirava a sapateiro.
Se aquele homem ainda se lembrava de como era o mundo
— naquele quadro havia alguma coisa a que ele certamente responderia se ainda fosse gente. Aquilo que o homem apren¬dera e não esquecera de todo, ainda o incomodava; era difícil esquecer. As coisas simbólicas sempre o haviam incomodado muito. Mas estava tão bruto quanto a comida que lhe pesava no estômago. Quando soprou a lamparina, a escuridão se fez cheia de vento pela janela. E como se trevas encontrassem outras trevas, o cansaço derrubou-o com alguma misericórdia no sono.
Até que uma aurora pálida começou a se mexer. E a brisa soprou a primeira fraca vida naquele depósito amornado por respiração, couro e entranhas. Sem saber ainda o que fazia, o homem sentou-se na enxerga. Depois, pessoa de fortes hábitos que era, ergueu-se.
Era uma madrugada muito bonita. Quando ainda não há luz, e a luz é apenas o ar, e a pessoa não sabe se está respirando ou vendo. Além do mais, do longe veio-lhe o cheiro das vacas, o que sempre nutre de enlevo uma pessoa: o cheiro de vacas amanhecidas veio misturado com a grande distância que ele enxergou. Os olhos de Martim, tornados ignorantes pela longa noite, olharam então com estranheza o terreno baldio que a meia claridade de sonho revelou pela janela atrás do depósito. Aparentemente esquecera de que dormira no campo. No ter¬reno, através da névoa rasa, viu com curiosidade infantil uma terra suja e seca, endurecida pela madrugada. O homem não antecipou nada: viu o que viu. Como se olhos não fossem fei¬tos para concluir mas apenas para olhar.
Até que, mais um segundo dessa própria isenção, e tam¬bém sua cabeça foi atingida com graça pela incompreensão do que ele via. E num engano de que certamente precisou, um engano tão certo quanto a queda certa de uma maçã, ele teve um sentimento de encontro: pareceu-lhe que no grande silêncio ele estava sendo saudado por um terreno da era terciária, quando o mundo com suas madrugadas nada tinha a ver com uma pessoa; e quando, o que uma pessoa poderia fazer, era olhar. O que ele fez.
É verdade que seus olhos custaram a entender aquela coisa que nada mais do que: acontecia. Que mal acontecia. Apenas acontecia. O homem estava “descortinando”.
O terreno fora provavelmente uma tentativa, por fim aban¬donada, de jardim ou horta. Percebiam-se restos de um trabalho e de uma vontade. Certamente haviam alguma vez tentado esta¬belecer ali ordem inteligível. Até que a natureza, antes expulsa pelo plano de ordem, voltara sorrateiramente e lá se instalara. Mas em seus próprios termos.
Porque, qualquer que tivesse sido a sua época de glória e viço, agora o terreno tinha o silêncio do que é entregue a si mesmo. Havia algumas pedras cinzentas e duras. Um pedaço de tronco deitado. Raízes expostas de uma árvore havia muito tem¬po cortada, pois nenhuma umidade porejava mais no corte oblí¬quo. Ervas cresciam verticais. Algumas haviam atingido uma altura que já as tornava sensíveis à brisa adstringente da aurora. Outras eram rasteiras e coladas ao chão, e deste não se arranca¬riam sem morte. Terra grossa se esfarelava junto de um formi¬gueiro; era uma desordem tranqüila.
O homem ficou olhando até que a vida que se instalara no terreno começou a acordar. Mosquitos brilhantes, como se transportassem para ali o primeiro carregamento de luz. O passarinho cauteloso entre folhas secas. De uma pedra para outra, se cru¬zaram ratos e ratas. Mas na irmanação do silêncio, como um fuso trabalhando, um movimento não se distinguia do outro. Essa foi a sossegada confusão onde Martim caíra.
Durante os incompreensíveis dias que se seguiram — to¬dos os elos lhe escapando, recebendo atordoado as primeiras ordens de Vitória, examinado de longe por Ermelinda e ouvindo as risadas contidas da mulata — foi com um esforço atoleimado que o homem suportou a luz intensa do campo, como se não estivesse à altura de entender a claridade.
Mas, dia após dia — acabado o trabalho penoso que não saberia fazer se Vitória não o comandasse — ele descia da luz aberta e superior do campo, de onde vinha cego de incompreen¬são. E guiado por uma obstinação de sonâmbulo, como se o tremor incerto de uma agulha de bússola o chamasse — ia enfim ao terreno terciário de vida apenas fundamental, a par da sua. E com um suspiro de quem voltasse a si mesmo, encon¬trava a sombra vacilante, o movimento dos ratos, as grossas plantas. Naquele porão vegetal, que a luz mal nimbava, o ho¬mem se refugiava calado e bruto como se somente no princípio mais grosseiro do mundo aquela coisa que ele era coubesse: no terreno rastejante a harmonia feita de poucos elementos não o ultrapassava nem ao seu silêncio. O silêncio das plantas estava no seu próprio diapasão: ele grunhia aprovando. Ele que não tinha uma palavra a dizer. E que não queria falar nunca mais. Ele que em greve deixara de ser uma pessoa. No seu terreno, ali sentado, ficava gozando o vasto vazio de si mesmo. Esse modo de não entender era o primeiro mistério de que ele fazia parte inextricável.
É que o terreno terciário era de uma grande perfeição. Nem mesmo quando a luz se aproximava, chegava a transformar o ar do silêncio: a claridade, chegando através de etapas e etapas, de silêncio e silêncio, se reduzia ali a mera visibilidade, que é o máximo de que olhos precisam. Porque, àquele homem, sempre tinha sido dado muito mais do que ele precisara; pelo menos foi o que lhe pareceu agora, sentado no seu território que tanto lhe bastava. E se a visibilidade atingia o terreno, revelavam-se folhas mortas se decompondo, pardais que se confundiam com o chão como se fossem feitos de terra, as ratas negras e miúdas que haviam feito ninho naquele mundo rudimentar.
Como acontecia que Martim nunca entendera nem de plantas nem de animais, encontrou ali plantas e animais de novas e raras espécies. A ratazana era um ser grande de espécie rara e peluda com um longo rabo. A planta grudava uma boca no chão. O pássaro, levantando vôo baixo, era uma advertência que o homem acompanhava com a boca entreaberta. E ninguém guiava os passos de ninguém: a planta suja de poeira se compreendia assim como se enroscava. Ali era o escuro ar de que vive uma coisa. E Martim estava bem cercado pelas coisas que ele enten¬dia: as moscas desovavam. E o sentido daquilo era o sentido mais primeiro daquele homem: estava ali como se houvesse um plano que ele ignorava mas a que uma planta se agregava com a boca e a que ele próprio correspondia sentando-se muito evidentemente na pedra — sentar-se numa pedra estava se tor¬nando sua atitude mais inteligível e mais ativa.
E a coisa era de tal modo perfeita que até a perspectiva da distância se agregava àquele mundo sem Deus. Pois quando o homem erguia os olhos — as árvores distantes eram tão altas, tão altas como uma beleza: o homem grunhia aprovando. Quan¬to mais estúpido, mais em face das coisas ele estava.
Assim é que, aos poucos, a força de Martim foi se recons¬tituindo.
Apesar de ter querido da fazenda apenas pouso, comida e o uso do caminhão no momento mais favorável — os dias come¬çaram a ser ocupados como ele não esperara. E seguiram-se em marteladas certas e ritmadas, mesmo que os dias fossem os pró¬prios elos que lhe escapavam. As manhãs eram frescas, as árvo¬res folhudas, os deveres se sucediam. A mulata examinava-o e ria, a criança negra vivia escondida a vigiá-lo. Mas ele se habi¬tuara. E movia-se lento como um homem que semeia. Seu gran¬de silêncio não era apatia. Era uma profunda sonolência em guarda, e uma meditação quase metafísica sobre o próprio cor¬po, no que ele parecia estar atentamente imitando as plantas de seu terreno.
Lentamente sua força se reconstituía, e foi assim que se passou a primeira semana, a maior de todas as que ele passou no sítio. No fim da primeira semana, Vitória havia meses o governava arduamente, havia meses o homem suava num apren¬dizado penoso. E de tal modo nesta semana já havia acontecido o que quer que fosse, e de tal modo se haviam ligado os elos invisíveis que, ao fim de sete dias, sucedera essa coisa de que inesperadamente se toma consciência: um passado. E ao fim de uma semana havia inquietação e rumor indistinto no sítio como acontece quando, tudo tendo permanecido muito tempo sem evoluir, tudo quer se transformar.
Martim também se habituara sem resistência a ser cons¬tantemente mandado por Vitória que parecia ter descoberto um jogo incessante e impaciente: vigiá-lo e inventar trabalho para ele:
— Tenho um anglo-árabe que precisa ser rasquiado!
— Sim.
— Na verdade, disse ela então muito atenta, preciso me¬nos que um engenheiro.
Mas a mulher chegou a duvidar que ele a tivesse ouvido ou compreendido.
— Eu disse, repetiu examinando-o surpreendida, que na verdade precisava de muito menos que um engenheiro!
— Se precisasse mais, é que ficava difícil, respondeu afinal o homem sem ao menos parecer importunado.
Seu rosto tranqüilo dava, no entanto, à mulher impaciente a idéia de que ele estava permanentemente divertido ou ocupado com alguma coisa que escapava aos outros:
— Isto, encerrou ela, isto é uma bobagem.
O ar do campo deixara-o cru e enrugado, com os olhos mais claros. Ele se movia devagar na grande extensão, desimpe¬dido enfim pela ausência de pensamentos. Mas se sua compacta ausência de pensamento era um embotamento — era o embota-mento de uma planta. Pois como uma planta, ele estava alerta a si mesmo e ao mundo, com aquela mesma tensão delicada com que a grossa planta é planta até as suas últimas extremidades, com aquela delicada tensão com que a planta cega sente o ar onde suas duras folhas se engastam. O homem todo se reduzira a essa espécie de vigilância. O que estava lhe acontecendo era um desses períodos dos quais, depois que passam, se diz: nada aconteceu.

A Maçã no Escuro (trecho)

domingo, fevereiro 12, 2012

Primeira parte: Como se faz um homem
Cinco

Vitória era uma mulher tão poderosa como se um dia tivesse encontrado uma chave. Cuja porta, é verdade, havia anos se perdera. Mas, quando precisava, ela podia se pôr instantaneamente em contato com o velho poder. Já sem nomeá-lo, ela por dentro chamava de chave aquilo que sabia. Não se indagava mais o que tanto soubera; mas vivia disso.
Foi, pois, procurando o auxílio de tudo o que sabia que ela mais tarde olhou absorta o prato de comida que o homem esvaziara na cozinha. Tentou também imaginá-lo a instalar a porta do depósito de lenha. Ela lhe dera a porta do depósito, grande e estranho objeto a se dar. Como a vinda totalmente imprevisível do homem já tinha quebrado um certo círculo de ordem em que ela se movia como dentro de uma lei, com relutância foi obrigada pelo menos a reconhecer que alguma coisa sucedera, embora não soubesse dizer o quê. Então pensou, um pouco constrangida com seu próprio ato livre, e de algum modo curiosa: “é a primeira vez que dou uma porta a alguém”. O que a enraizou numa sensação sem saída. Era a segunda vez que o homem a perturbava.
Sem saber o que fazer com o pensamento sobre a porta, saiu deste procurando imaginar que o homem devia agora estar adaptando-a com dificuldade nos gonzos enferrujados. Prova¬velmente mantendo aquele mesmo rosto de cansaço e quase riso, e aquela infantilidade impudica que os gigantes têm. Ou, quem sabe, talvez trabalhando na instalação da porta com aquela mesma concentração remota com que engolira, numa minúcia de migalhas, a comida. Há muito tempo a mulher não via a fome, e, olhando agora o prato vazio, franziu as sobrancelhas. Ela não conseguiu determinar em que momento é que sentira a crueldade daquele homem. Olhando o prato vazio, pensou então como se pensa de um cachorro: ele é cruel porque come carne. Mas talvez a impressão de crueldade viesse de que, diante do alpendre, ele estava com fome e no entanto sorria: via-se a fome na sua cara mas ele, numa capacidade de crueldade feliz, sorria. Não ter carinho por si mesmo era o começo de uma crueldade para com tudo. Ela o sabia em si mesma. Mas ela, ela pelo menos possuía tudo o que sabia.
Pela primeira vez então, com uma desagradável clareza que não pôde ocultar de si por mais tempo, a mulher percebeu que o homem não procurara lhe dar a menor garantia nem lhe prometera nada. Ela mesma tomara a si todos os riscos. Como quando um dia, cuidando com mãos hábeis de um ca¬chorro ferido — este perdera os sentidos. E ela, sentindo no regaço o inesperado peso total do cão, erguera os olhos solitá¬ria e responsável junto daquele corpo sem alma que era agora inteiramente dela, como um filho. Aquele homem que ali caíra em todo o seu peso.
— Velha precipitada, disse de súbito muito fatigada em¬purrando o prato sujo; a falta de amor por si mesma a envolveu com altivez.
E como anunciaria a Ermelinda o novo homem, sem que esta ficasse feliz? Mas este seria problema para resolver mais tarde. Agora, o que importava com uma urgência inexplicável, era tentar adivinhar que cara o homem fazia enquanto insta¬lava a porta. Sem ligar um fato a outro, foi examinar a gar¬rucha. Estava precisando de limpeza e óleo. Na velha arma a senhora se concentrou durante algum tempo com seu rosto obstinado e severo, sentada na cozinha. Era um rosto de quem fez da própria desistência uma arma e um insulto para os outros.
O pior ainda era, porém, avisar a Ermelinda. “Um tra-balhador a mais não tinha importância, embora fosse resisten¬te”, pensou Vitória argumentando relutante e convencendo-se aos poucos — pois tantas vezes um ou dois homens trabalha¬vam por um mês e iam embora; havia três dias ainda dois homens tinham se despedido. Por que hesitava então? Talvez porque tivesse que confessar a Ermelinda que o homem era, ou dizia ser, engenheiro. E se a ela própria pouco importava — pensou sombria, e acusando-o de ser engenheiro — contanto que ele trabalhasse, já que Francisco se encarregaria de vigiá-lo, a Ermelinda o fato iria...
“Contratei um homem, ele diz que é engenheiro mas tra¬balha em qualquer coisa!”, imaginou-se falando com aspereza para cortar qualquer comentário da prima. De que comentário tinha medo? Parou de limpar a garrucha, e olhou sonhadora e dura para o ar. Ou dizer-lhe apenas: “Ermelinda, tem mais um trabalhador que vai dormir no depósito de lenha, de modo que de agora em diante você não pode mais ir lá, é quarto dele”.
Nenhuma das frases pareceu-lhe bastante definitiva para cortar a exclamação de arrebatamento de Ermelinda. E, ao imaginar o rosto enlevado da prima, a senhora subitamente desviou o seu da imagem pressentida como se não a suportasse; sem poder impedir que dentro de si, quase com fúria, seu coração começasse a bater de espanto. Mas tendo transferido para Ermelinda o desgosto que sentia contra a própria estu¬pidez, sentiu-se sem culpa nenhuma; e, livre para ter raiva, passou a não tolerar a curiosidade com que a prima ouviria a notícia. Não era o que Ermelinda ia dizer o que antecipada¬mente a enchia de rancor; pois na verdade nunca pudera sequer reproduzir uma frase concreta da moça. Era a expressão de extrema alegria disfarçada desta, mal acontecia alguma coisa. E era sentir-se forçada, por ter que lhe explicar a presença do homem, a entrar de novo em intimidade com aquela cara que revelava astúcia e suave insídia — como se no nebuloso sistema da prima os meios de contato de uma pessoa nunca pudessem ser diretos, porque também o perigo e a esperança fossem indiretos. Ermelinda parecia estar sempre escondendo que compreendia. E seu rosto se mantinha quase deliberada-mente informe e suspenso — à espera de uma confirmação?
Oh não, não era isso. O que era então? Fora uma infância de doença o que fizera aquela moça se desenvolver na sombra? essa infância de fraqueza que Ermelinda guardava como se fosse o seu tesouro.
Mas nada disso a explicava. E ao pensar em Ermelinda sem ao menos vê-la, esta parecia se esquivar ao pensamento dos outros. E mal Vitória a acusava, embora apenas mentalmente, Ermelinda parecia de súbito apresentar-se inocente e espantada. Como conhecê-la jamais? Qualquer contato direto era impos¬sível. Era surpreendente como, se Ermelinda estivesse pensando no inexplicável ódio que sentia por pássaros e lhe perguntas-sem em que estava pensando, ela apenas responderia que estava pensando em “‘pássaros”. Era surpreendente como a única solu¬ção seria não lhe perguntar nunca. Ermelinda agia como se uma árvore fosse azul — mas se Vitória lhe perguntasse de que cor era uma árvore, ela responderia imediatamente, piscando de esperteza, que a árvore era verde. O que Vitória se indagava era se Ermelinda realmente sabia que a árvore era verde — ou se apenas sabia que Vitória achava a árvore verde. O jeito seria nada lhe perguntar. Como conhecê-la jamais? “O que é que faz com que eu, não fazendo um ato de maldade, seja ruim? e Ermelinda, não fazendo um ato de bondade, seja boa?” O mistério das coisas serem como nós sabemos que elas são, deixou a senhora bastante absorta.
Durante toda a permanência de Ermelinda na fazenda, Vitória não conseguira interessá-la nos trabalhos diários nem sacudir a calculada doçura com que a outra disfarçadamente esperava. E isso sem que Ermelinda tivesse uma vez sequer dito “não”. O fato de ter passado “a infância presa ao leito” parecia lhe ter dado para sempre o direito de uma vagabunda¬gem que não se executava sem certa minúcia de ritual, e só aos viciados não escapavam as secretas delícias do vício — Vitória, fascinada, via a outra cuidar de seu ócio com precisão e vagares de carinho.
No começo, paralisada pelo modo de ser da outra, Vitória se deixara arrastar pelo que a visitante trouxera para o sítio quase transformando-o. O medo do escuro — aquela escuridão tranqüila que depois da chegada da prima ganhara uma po¬tência informe. E a alusão disfarçada à morte como se esta fosse um segredo a não ser jamais confessado. E a esperança. O medo, a morte, a esperança. Uma esperança que se concre¬tizava em aguardar acontecimentos, como se o imprevisível estivesse ao alcance da mão. “De um momento para outro podia acontecer alguma coisa” — fora isso talvez o que se insinuara na fazenda, e fora isso o que por um tempo conta¬giara Vitória. Até que esta, em súbita cólera, despertara afinal, e recomeçara sua própria vida.
[...]
É possível que se Ermelinda tivesse conseguido explicar o absurdo do que queria dizer e se a outra conseguisse entender — então a paz se fizesse entre ambas, ou pelo menos o cansaço. Mas Vitória lhe respondera que “a infância presa ao leito” não fazia com que Ermelinda deixasse na verdade de ser forte como um cavalo; ao que a outra, inesperadamente, abaixara olhos modestos — o que intrigara Vitória que, após um instante de surpresa, voltara a acusações mais graves. Ermelinda, ator¬doada pelo mugido das vacas assustadas ao vento, começara então a falar em carrascos — o que levara Vitória a dizer com muita ironia que, “pelo que sabia”, seu marido não tinha sido nenhum carrasco, “que ele lhe dera tudo, que nada faltara a Ermelinda enquanto o homem fora vivo”; o que levara Erme¬linda a dizer que tinha tido o melhor dos maridos e que não admitia que falassem mal de um morto; ao que Vitória acrescen¬tara que nunca lhe ocorreria falar mal de um homem que su¬portara durante anos que a mulher o chamasse de “minha flor”; o que levara Ermelinda a chorar de saudade — ambas desespe-radas pelo vento insuportável, pela poeira que entrava na sala, as nuvens se fechando baixas e fazendo escuridão súbita.
E quando a água enfim desabara, fazia tanto barulho que elas teriam podido continuar a falar sem gritar. Com o vento amainado e mais fresco, o suor começara a secar agradavelmente — e uma paz repentina se estabelecera entre ambas como se tivessem chegado a uma conclusão. Altiva, coberta de vergonha, Vitória saíra da sala. E passara a evitar a prima. Algumas pessoas conseguiam fazer isso com ela: fazer com que ela as odiasse e se odiasse. Vitória não as perdoava. Essas pessoas estavam no seu caminho. Depois, como se já tivesse acontecido o máximo que poderia acontecer entre ambas, elas não se precisaram mais.
Mas esse único contato direto sucedera havia muito tempo. E sua incompreensível memória não ajudou Vitória, sentada na cozinha, a encontrar um meio de anunciar a Ermelinda a vinda de mais um trabalhador. Com olhar estóico, ela segurava a garrucha; suportando tudo o que sabia. “Com a chave ge¬lada junto do coração, grito de meu castelo”, pensou ela bonito, porque se não desse magnificência ao mundo estaria perdida. Ela tornava magnífico o que ela sabia — mas o que sabia já se tornara tão vasto que mais parecia uma ignorância. A esta, por um instante, ela sucumbiu:
— Se eu pudesse dar um tiro e a chuva então desabasse, pensou por um instante em que a cabeça falhou em fadiga.
Porque da lembrança da cena com Ermelinda ficara-lhe apenas a visão da chuva abençoada desabando. E seria tão necessária agora outra grande chuva, pensou com a força de novo reassumida como se desse uma ordem ou como se de novo tivesse tocado em si a chave. O milharal talvez secasse antes da colheita... E secasse o capim para o pasto. Talvez não, indagou com os olhos no céu.
Mas o céu alto e a diária relutância do poente em se fazer noite — nada prometiam senão a probabilidade de mais uma seca. É verdade que a terra ainda estava úmida. E o verde viçoso. Mas por quanto tempo? Há dias Vitória fingia não perceber que havia menos sapos: eles já estavam desertando... E que pouco a pouco as cigarras enchiam persistentes o cre¬púsculo. Mas a mulher encarou o ar com luta; é que os pássaros ainda não haviam emigrado! O que alargou seu olhar na dureza da esperança, como se a autoridade de sua fé impedisse a deserção das aves. Enquanto estas estivessem por ali, ela se conservaria silenciosamente batalhadora.
Enfim — suspirou de repente alquebrada — quanto antes falasse com Ermelinda melhor seria, para evitar que esta des¬cobrisse sozinha e viesse pálida avisar: “há um homem no depósito de lenha!” Não suportaria essa frase estúpida. E só em imaginar ouvi-la, seu impulso agora seria o de despedir a prima como se despede uma criada.
Passando pela sala para subir ao quarto de Ermelinda, viu-a, porém, pela janela, ajoelhada diante da roseira nova. Parou um instante para olhá-la antes de se dirigir ao terreiro — com aquele hábito inútil que tinha de examinar as pessoas quando estas não se sabiam examinadas. Espiou um instante, suspirou de novo heróica, e, como se fosse obrigada a chegar a uma conclusão, já que a olhara, pensou: “ela é moça, é por isso que ainda tem medo; ela é moça, é por isso que tem medo da morte”. Mas eu também tenho direito de ter medo! disse-se escura, reivindicando. Era como se a outra ainda pudesse ser ofendida. E ela, ela nunca mais seria.
Parou junto de Ermelinda. Sabia que esta já a tinha visto se aproximar, embora não tivesse sequer erguido os olhos; como se assim devesse agir alguém que tem medo do escuro ou que foi iniciada no espiritismo e no segredo de um modo de viver.
A moça, fingindo que só agora ouvira os passos, levantou enfim um rosto sonso de surpresa. E era como se a doçura dessa mentira tivesse feito seu rosto atingir uma expressão ao mesmo tempo de desamparo e dádiva — e tudo tudo era fingido. Vitória fechou as mãos dentro dos bolsos da calça:
— Que é que você está fazendo, perguntou tranqüila.
— Podando a roseira brava.
— A roseira não assusta você? perguntou suave; tinha necessidade de ferir aquela moça ajoelhada como se esta fosse a culpada do absurdo dela própria ter contratado o homem.
— Esta não: esta tem espinhos. Vitória franziu as sobrancelhas:
— E que diferença faz se tem espinhos?
— É que só tenho medo, disse Ermelinda com certa voluptuosidade, quando uma flor é bonita demais: sem espinhos, toda delicada demais, e toda bonita demais.
— Não seja tola, disse Vitória com brutalidade, é de qualquer modo no corpo que se passam as coisas! E se você ajudasse nos trabalhos não teria tempo de ter horror de rosas bonitas ou de detestar a fazenda!
— E você gosta muito da fazenda? perguntou a outra maciamente.
— Tem um homem no depósito de lenha! cortou Vitória. E como se tivesse dito algo que até este momento nem
ela própria soubesse, ficou olhando espantada, ferida. Refez-se logo:
— Ele diz que é engenheiro, o motivo de estar aqui é que deve estar mesmo sem trabalho. Vou aproveitá-lo em mil ta¬refas. Francisco vai ficar de olho nele.
Tinha dito. Fechou os olhos um instante com cansaço e alívio. Quando os abriu, viu que Ermelinda se interrompera com a tesoura no ar, e seu rosto — seu rosto de novo atingira uma extrema nota aguda e tenra como se para chegar um dia a essa expressão é que um rosto tivesse sido feito. “E eu”, pensou Vitória, “que sei tudo, e tudo o que sei envelheceu na minha mão e se tornou um objeto.” Ela abafou a voz como pôde:
— Que foi? que foi que eu disse de tão extraordinário para você ficar assim?
Ermelinda estremeceu:
— Você não disse nada, você disse que tem um homem no depósito! obedeceu ela depressa.
— Pois então, se está podando roseira, que é trabalho inútil quando a seca vem aí, continue a podar! exclamou sem se conter. E não fique radiante! — sem conseguir mais se interromper, prosseguiu: radiante, sim! disse com dor, de novo você está pensando que hoje é um grande dia! basta uma batida de palmas e você se alegra, e me assusta! é um homem que veio trabalhar, se não prestar vai embora, e se ele pensa que por ser engenheiro vai mandar, está muito enganado! e é só isto, não passa disto!
Ermelinda fingiu estar tão surpreendida que a olhou de boca entreaberta. Ou estava realmente surpreendida, não se poderia nunca saber. “Fui muito repentina”, pensou Vitória. Ermelinda examinou-a de lado, fugaz — e recomeçou o vago trabalho junto à roseira, e era como se quisesse ser tão discreta a ponto de não lhe dar a perceber que a entendia; Vitória enrubesceu, atingida.
Algum tempo se passou. Ficaram em silêncio, sentindo o vento suave rodar em torno delas. A escuridão se fazia aos poucos. Por um instante o perfume das rosas deu doçura e meditação às duas mulheres.
— As flores, disse Ermelinda envolvida pela desmaiada ânsia da penumbra, as flores, disse ela.
— “As flores assombram o jardim”? indagou Vitória atenta.
— Não é? exclamou Ermelinda surpreendida e grata, você sempre diz tão bem! disse bajuladora.
Vitória estava calma. Olhou-a- profundamente, de novo isenta de tudo aquilo que aquela moça era:
— Eu mesma nunca disse isso. Mas já que moramos junto tive que aprender sua linguagem.
— Por que é que ele diz que é engenheiro? perguntou a outra muito cuidadosa.
— Ah, eu sabia. A pergunta tinha que vir.
— Mas que foi que eu disse agora de errado? — e uma inocência quase real infantilizou um rosto implorante; mas am¬bas sabiam que tudo era mentira.
— Ermelinda, disse Vitória fechando os olhos bravamente, há três anos você diz: “tenho medo de passarinhos”. Há três anos você diz: “que coisa esquisita quando a árvore se mexe”. Há três anos eu ouço até os seus silêncios. E não suporto mais sua infância no leito, isso não lhe dá direitos sobre mim. Ah, não me interrompa: já sei que da cama você tinha tempo de ver os pássaros pela janela e de ter medo deles! Moramos junto, está bem, você tinha que morar em alguma parte; também sei que você uma vez cuidou de meu pai, mas também sei que foram apenas os três dias de que precisei! sei de tudo. Mas eu disse claramente a você que — queria calma, queria — queria calma. Senão por que é que eu não vendi o sítio quando titia morreu? responda! por que é que não vendi e vim para cá, já que nem conhecia isto aqui direito? E se tivesse vendido, teria dinheiro na mão e continuaria a morar na ci¬dade. É isso mesmo — acrescentou admirada — e eu teria ficado onde sempre vivi... — Vitória despertou com súbita violência: O que esqueci de perguntar era se você também que¬ria calma quando veio para cá. Este, Ermelinda, é um lugar para uma pessoa serena como eu. Não, não responda. Não importa. Há três anos você me incomoda, tenho que lhe dizer isto. E hoje lhe digo ainda mais: basta. Você altera minha vida com suas — com sua espera. É intolerável. Isso já não se chama há muito de calma. É como se eu estivesse criando ratos em casa, eles correm sem que eu veja, mas eu sinto, ouviu? eu sinto os pés deles — seus pés, Ermelinda — fazendo a casa toda vibrar.
— Para que você quer calma? desviou Ermelinda mali¬ciosa, tentando lisonjeá-la com uma careta de graça.
— Quero silêncio, quero ordem, quero firmeza — e en¬quanto ela falava parecia-lhe cada vez mais absurdo ter admitido um homem totalmente estranho como trabalhador. — Pelo amor de Deus, não diga que tem hoje um pressentimento só porque o homem foi contratado numa quinta-feira! Diariamente você tem pressentimentos. Antes era o seu papagaio dando gritos secos que pareciam arranhar minha garganta, mas ele felizmente morreu. Seu papagaio, seus pressentimentos, sua gentileza, seu medo de morrer, isso mesmo! seu medo de morrer.
A outra estremeceu um rosto inquieto:
— Você acha que vem seca de novo? cortou depressa, pálida.
Vitória estacou, desequilibrada pela interrupção. Seca?
A mulher ruim olhou a doçura com que a noite vinha, úmida e cheia, esse modo como em certa hora o mundo nos ama. Era março e uma palidez vertiginosa alargava a amplidão. Perturbada ela sentiu o cheiro podre que vinha das valas. Na escuridão nascente as valas pareciam precipícios que arrastaram invencivelmente seu olhar para uma meditação vazia e involuntariamente suave. A extensão das terras era ilimitada, repousada. . . E no depósito de lenha ela viu com sobressalto alumiar-se a lanterna.
A luz ora se erguia, ora quase se extinguia. Com uma intensidade onde havia ânsia e aspiração, a mulher se entregou à luta da lanterna como se fosse obscura luta sua. A luz afinal, quase a se apagar, sobreviveu. A princípio trêmula, enevoada. Em torno a escuridão total se fizera.
— Seca? repetiu a mulher olhando o depósito como se não o visse. Talvez não, disse absorta. O que tem que ser, tem muita força.

Que personagem de Clarice Lispector é você?

quarta-feira, janeiro 18, 2012

Clique aqui e responda o teste elaborado pelo site "Educar para Crescer".

Informações do site:
O teste foi elaborado com a consultoria da professora Mona Lisa Bezerra Teixeira, doutora em Letras pela Universidade de São Paulo. Descubra quem é você na obra de Clarice Lispector.

Divida o resultado com todos, postando-o como comentário nessa postagem.

3ª Investigação Estética (Clarice Lispector e Marisa Monte)

terça-feira, janeiro 17, 2012

Caros leitores,

A "Associação Pauloafonsina de Dança e Teatro (APDT)" está organizando um evento que envolve a obra de Clarice Lispector, o projeto requisita a ajuda de vocês através da resposta da seguinte pergunta:

"Qual a influência de Clarice Lispector em suas vidas?"

A resposta poderá ser usada pela organização do evento no âmbito da realização do mesmo.
Respondam como comentário nessa postagem, a organização do evento colherá os depoimentos.

O Blog agradece a atenção de todos.

Texto escrito pelos idealizadores do projeto:

O projeto “3ª Investigação Estética” consiste na realização de um processo de pesquisa das linguagens artísticas focadas nas obras dos artistas selecionados pela organização do evento que considerará a representatividade destes no contexto da sua obra para a produção artística. Difundir e expandir a leitura das diversas possibilidades criadoras no universo das artes em geral. A 3ª Investigação opta por reunir a obra de duas grandes artistas, que possuem um espírito de inquietação e ousadia.

Data do evento: 31/03/12.
Local: Paulo Afonso, Bahia.
E-mail: dancaeteatro@yahoo.com.br.
Organização: Associação Pauloafonsina de Dança e Teatro (APDT).


Observação: O Blog Clarice Lispector não é responsável pela organização, realização ou qualquer outro tipo de ligação em relação ao evento, apenas se dispôs a divulgá-lo através desse post.

Pintura: Medo. Clarice Lispector

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Pintura: Medo. Clarice Lispector


Não Soltar os Cavalos

Como em tudo, no escrever também tenho uma espécie de receio de ir longe demais. Que será isso? Por que? Retenho-me, como se retivesse as rédeas de um cavalo que pudesse galopar e me levar Deus sabe onde. Eu me guardo. Por que e para quê? Para o que estou eu me poupando? Eu já tive clara consciência disso quando uma vez escrevi: "é preciso não ter medo de criar". Por que o medo? Medo de conhecer os limites de minha capacidade? Ou medo do aprendiz de feiticeiro que não sabia como parar? Quem sabe, assim como uma mulher que se guarda intocada para dar-se um dia ao amor, talvez eu queira morrer toda inteira para que Deus me tenha toda.

A Maçã no Escuro (trecho)

quinta-feira, dezembro 08, 2011

Primeira parte: Como se faz um homem
Quatro


Com a nova limpidez da visibilidade, o torpor do homem desapareceu. E como se agora sua energia estivesse a seu pró¬prio alcance e medida, ele se ergue sem nenhum esforço. Uma alerteza impessoal o tomara como a de um tigre de patas ma¬cias. Agora ele era real e silencioso.
Quando chegou ao ponto da encosta de onde só poderia descer, divisou a casa rodeada de terras verdes lá embaixo, como a seus pés, mas num tamanho diminuto que lhe deu uma idéia da verdadeira distância. Começou então a descer o declive, suavemente encorajado nas costas pelo próprio declive. Guiado pela sede como único pensamento, o homem não sentiu os pas¬sos progressivos e achou-se enfim no mesmo nível do seguinte: a casa distante, um outro homem que ao longe estava sentado sob uma árvore, vários cachorros espalhados pelo chão.
Agora Martim viu o casarão em pé de igualdade: era maior do que pensara e havia um denso agrupamento de árvores es¬curas, ele não podia saber a que espaço da casa mas certamente apenas aos fundos desta. O fim escuro do bosque se confundiu com a própria distância, e moveu-se para a frente e para trás aos seus olhos, como para um homem que pisa em terra firme depois do alto-mar.
Com a leveza do cansaço, como se usasse sapatos de tênis, ele avançava. Uma elegância astuciosa já o tomara: ele estava se preparando para defrontar gente. E quanto mais se aproxi¬mava, mais reconhecia aquele quieto tumulto de vida que horas antes ele farejara e ao qual parecia ter dado o nome íntimo de “ideal” — e que agora, mesmo ainda não dividido em sons, lhe era familiar. Sem a falsa alegria do alto da encosta, que se tor¬nara apenas morto passado, e sem nenhuma promessa; mas assegurador como um lugar onde há água. Sua tontura radiosa do alto da encosta já se transformara em sede apenas, e em indistinta esperteza. É verdade que o roxo céu altíssimo ainda o embebedava um pouco.
Ele avançava flexível. A essa altura sua cabeça vazia já não lhe era mais de nenhum socorro. Na verdade seu avanço parecia ser guiado unicamente pelo fato daquele homem estar entre terra e céu. E o que o sustentava era a impessoalidade extraordi¬nária que ele alcançara, como um rato cuja única individualidade é aquilo que ele herdou de outros ratos. Essa impessoalidade, o homem a manteve em leve repressão de si próprio como se soubesse que, do momento em que se tornasse ele mesmo, cairia emborcado no chão. A própria extrema individualidade que ele tinha alcançado na montanha não devia ter sido senão um es-pasmo da cega totalidade com que ele avançava: levitado pelo cansaço, transladava-se sem sentir os pés tocarem no chão, tendo como único ponto fixo a esperá-lo a nítida casa cada vez maior, cada vez maior. Muito erguida dentro daquela finura de ar que a envolvia e que seria, por mais intocável, o que tanto prende¬ria aquele homem àquele lugar.
Embora soubesse que os cães inquietos já o haviam pres¬sentido, postou-se atrás de uma árvore para observar. Afastando ramos podia investigar bem a situação da casa, agora totalmente visível. O que o confundia é que, bem maior que a casa, era a formiga na folha perto do olho que espiava, emoldurando — eqüestre, ruiva, monumento de um instante — a sua visão. Martim sacudiu várias vezes a cabeça até se libertar do tamanho que a monstruosa formiga tomara.
O andar mais alto da casa não acompanhava a extensão maior do andar térreo, e alteava-se em canhestra torre. Martim, na sua vida anterior, aprendera a almejar torres; sentiu, pois, uma grande satisfação. À beira da casa, tufos de margarida for¬maram a seus olhos cansados nuvens amareladas e vacilantes.
Mas se com a aproximação a casa ganhara em nitidez, per- dera a síntese anterior da distância. E de detrás da árvore o olhar do homem não conseguiu reunir numa única visão a falta de lógica do que via: um alpendre coberto de telhas, janelas que o simples cálculo não lhe ajudou a descobrir para onde po¬deriam dar, portas que estavam entreabertas para ele nada per¬ceber senão a sombra criada pela distância; cercas delimitando cantos que não seriam cantos se não houvesse as cercas arbitrá¬rias. Via-se que aquilo tudo se fizera aos poucos, acrescentando-se à mercê da necessidade ou da fantasia. Era um lugar pobre e pretensioso. Ele gostou logo.
Dando-se conta do que poderia haver de suspeito em estar escondido atrás da árvore, o homem afinal se expôs. Sem sentir, abrira um pouco os braços demonstrando que era indefeso. E à medida em que avançava — recebido pelos cachorros que agora latiam furiosos — percebeu de longe a figura indistinta movendo-se no alpendre.
Já perto dele, porém, estava o homem sentado no chão sob a árvore. O homem comia, e o cheiro de comida fria nau¬seou Martim de desejo. Seu rosto se tornou urgente, tímido e vil como quando uma cara implora. O cheiro voltou-lhe cru ao nariz, ele quase vomitou de nojo, tão puro estava de comida. Mas seu corpo ganhara um impulso novo, os passos difíceis o ultrapassaram — e em breve ele estava à frente do homem, olhando-o com minuciosa sofreguidão.
Sem interromper o mastigar, o trabalhador olhava fixa¬mente para os próprios pés descalços como se deliberadamente não visse o estranho. Com a agudez que a fome dera à sua per¬cepção, Martim não se deixou ludibriar: uma comunicação muda se estabelecera entre ambos como dois homens numa arena, e aquele que não o olhava aguardava para poder saltar. Um leve prazer de raiva tomou então Martim, em vaga promessa de luta que ele só conseguiu manter por um instante. Ter tido uma sensação de força cobriu sua testa de suor frio. Uma alegria levíssima pôs-lhe algum cinismo no rosto.
— De quem é este sítio? perguntou cedendo afinal ao silêncio mais poderoso do outro.
O homem descalço não estremeceu sequer. Afastou deva¬gar o prato, enxugou a boca farta:
— Isto tudo é dela, disse lento fazendo um gesto com a cabeça, e Martim, seguindo com os olhos franzidos a direção apontada, viu agora de mais perto a figura no alpendre. Sou daqui também, acrescentou o homem acompanhando a infor¬mação com um falso bocejo.
Quem fizesse o primeiro movimento dúbio teria dado di¬reito ao outro. A tarde estava linda, clara.
— Eu me perdi, disse Martim suave.
— Saindo de Vila muita gente se perde por aqui, disse o outro ainda mais suave.
— De Vila?
— De Vila Baixa, disse o homem apontando vagamente a cabeça para a esquerda, e pela primeira vez erguendo os olhos com uma desconfiança declarada.
Martim olhou, e à esquerda nada havia senão a infinita extensão de terra, o céu mais baixo e mais sujo. Sentindo-se examinado, tornou-se ainda mais macio:
— Foi o que me aconteceu, disse. Vou voltar para Vila Baixa. Mas antes queria um pouco d’água. Quero água! disse-lhe então arriscando-se totalmente.
O homem olhou-o com fixidez. Em trégua de luta mediu a sede do outro. No seu olhar não havia misericórdia mas humano reconhecimento — e, como se as duas lealdades se encontrassem, olharam-se limpos nos olhos. Que aos poucos foram se enchendo de alguma coisa mais pessoal. Não era ódio — era um amor ao contrário, e ironia, como se ambos despre¬zassem a mesma coisa.
— Só lá dentro, disse afinal o trabalhador. Ergueu-se com uma dificuldade fingida e uma lentidão deliberada. De pé, por um instante os estranhos se mediram com o olhar. A raiva mútua fez com que se olhassem e nada tivessem a se dizer. Embora um permitisse a raiva no outro como inimigos que se respeitam antes de se matarem. Mais fraco que a tranqüila potência do outro, Martim foi o primeiro a desviar os olhos. O outro aceitou sem tirar proveito. Martim, de novo experimentando o cálido contato de uma aversão, co¬meçou a andar rumo a casa, seguido a certa distância pelo vencedor e sentindo na nuca a sua ameaça calma.
Os cães rosnavam indecisos, contendo o esfogueteamento e a alegria de uma luta. A tarde toda, aliás, era de uma grande alegria tranqüila. Um cachorro manco se agregou penoso aos outros, numa aflita expectativa de inválido. Tudo era suave e estimulantemente perigoso, no fundo ninguém parecia se impressionar com o que estava acontecendo, e todos apenas gozavam a mesma oportunidade. As coisas rodavam um pouco, felizes fora de hora. Por Deus, nunca vi nada tão redondo, pensou o homem entontecido. Um cão mais negro de repente afundou a tarde como se Martim tivesse caído num buraco insuspeito. Foi esse cão que o alertou vagamente e pareceu lhe lembrar outras realidades. Ele se sentia tão leve que estava mesmo precisando amarrar uma pedra no pescoço. Então for¬çou-se com dificuldade a lembrar-se. Mas, para a sua própria desvantagem, o lugar era bonito demais, e para a sua própria desvantagem ele estava se sentindo bem — o que lhe tirava da percepção a sua principal utilidade de luta.
O sítio ou fazenda não era muito grande, se se considerasse apenas a parte coberta de trabalho: algumas casinholas quebra¬das, o curral, o campo lavrado. Mas seria enorme se também se contasse com as terras largadas que, em alguns pontos, só para assinalar posse, a cerca mal traçada delimitava. O verde das árvores se balançava sujo, folhas novas espiavam entre as empoeiradas.
As raízes eram grossas e cheirosas naquele fim de tarde — e provocaram em Martim uma inexplicável fúria de corpo como um amor indistinto. Faminto que estava, os cheiros o excitavam como a um cachorro esperançoso. A terra, numa promessa de doçura e submissão, parecia friável — e Martim, aparentemente sem outra intenção que a do contato, abaixou-se e quase sem interromper os passos tocou-a um instante com os dedos. Sua cabeça se tonteou ao contato delicioso da umi¬dade, ele se apressou de boca aberta. Mais perto da casa, viu que o alpendre estava agora vazio. O telhado do curral caía aos pedaços, parecia em certos pontos sustentado apenas pela pró¬pria altura do gado invisível, cujos movimentos revolviam len¬tamente a luz vazia.
A água da lata enferrujada escorreu de sua boca para o peito, ensopou a roupa dura de poeira. Do curral veio de novo um tranqüilo mover-se de patas. O sol desaparecera, e uma claridade infinitamente delicada dava a cada coisa a sua calma forma final. Uma casinhola à parte tivera uma porta, cuja lembrança não existia mais senão nos gonzos vazios. Martim molhava o rosto e os cabelos — e mais adiante estava a coberta tosca de garage...
Tendo chegado ao tenso limiar do impossível, Martim re¬cebeu o milagre como o único passo natural ao seu encontro. Não havia como não aceitar o que acontecia pois para tudo o que pode acontecer um homem nascera. Ele não se perguntou se o milagre era a água que o encharcava até a saturação, ou o caminhão sob a garage de lona, ou a luz que se evaporava da terra e da boca iluminada dos cães. Como um homem que alcança, ali estava ele exausto, sem interesse nem alegria. Estava envelhecido como se tudo o que lhe pudesse ser dado já viesse tarde demais.
Sob a coberta, o caminhão velho mas perfeitamente limpo e cuidado. E os pneus? ocorreu-lhe. Seus olhos míopes não distinguiam os detalhes dos pneus. A dificuldade, enchendo-o da dúvida da esperança, rejuvenesceu-o. Depositou fascinado e lento a lata na terra e, com os cílios gotejando, examinou o caminhão, abaixou-se para olhar os pneus calculando suas possi¬bilidades em termos de quilômetros.
— Que é que o senhor deseja, perguntou uma voz baixa e serena.
Sem susto nem pressa, Martim voltou o corpo todo. E seu rosto defrontou um rosto inquisitivo de mulher. Atrás de si, sentiu o homem parado em guarda. Acercou-se do alpendre, gingando devagar. A fome acendia-lhe os olhos em grande ma¬lícia, os lábios escuros sorriam rachando. Ao pé do alpendre, o chão estava coberto de papoulas púrpura, caídas e amontoa¬das. Aquela visão pareceu ao homem a da fartura e da abastança. Olhou as flores vivas, umas despetaladas, outras ainda por abrir em desperdício tranqüilo: seus olhos piscaram de cobiça. Percebia tudo ao mesmo tempo, gingando, gozando a limpidez dos olhos que era a da própria luz.
Mas, sem que soubesse de onde, aparecera de alguma parte uma mulata moça de cabelos enrolados em cachos, e que ali se postara com olhos rápidos, rindo. Não só Martim não sabia de onde ela viera, como em que momento aparecera — o que fez com que ele tomasse cautelosa consciência da possibilidade de outras coisas estarem também lhe escapando. Os cachorros haviam se aproximado arfando, sem coragem de atacar. O vento e o silêncio os rodeavam. O homem sungou o cinturão.
— Então, que é que o senhor deseja.
— Eu estava olhando, respondeu sem pudor.
E aprumou o torso fazendo um esforço de ser citadino.
— Disto eu sei, disse a mulher do alpendre.
— Ele estava com sede, é o que diz, falou o homem atrás de Martim, e a mulher ouviu-o sem no entanto desviar os olhos do estrangeiro.
— Já bebi, disse este com alguma candura, apontando a lata vazia. O sol estava quente, acrescentou mudando a posição das pernas.
Martim tinha uma qualidade de cujo gozo não usufruía porque essa qualidade era ele próprio — uma qualidade a que, em determinadas circunstâncias favoráveis, poucas mulheres resistiriam: a da inocência. O que despertava certa cobiça cor¬rupta numa mulher que é sempre tão maternal e gosta de coisas puras. Salvaguardada a pureza, a mulher era um ogre. A mulher do alpendre olhou-o então com muita frieza:
— Que o senhor bebeu, eu também sei.
De algum modo tudo o que ainda iria suceder àquela mu¬lher já estava acontecendo naquele instante. Ele o percebeu do seguinte modo indireto: passou a mão pela testa.
O excesso de água bebida borbulhava dentro dele, e deu-lhe uma náusea que se confundiu com uma avidez de sono ou de vômito, e a seu rosto uma bondade de sofrimento, como uma auréola:
— Bem, disse então Martim virando-se sem pressa, adeus. Vitória pareceu despertar:
— Que é que o senhor queria?
O olhar de ambos se cruzou e se penetrou sem que um encontrasse nada no outro, como se os dois já tivessem visto muitos outros rostos. Ambos pareciam saber por experiência que aquela era uma das muitas cenas a serem esquecidas. E como se ambos soubessem o que significa essa capacidade de isenção, sem se dar conta do motivo, um procurou calcular a idade do outro. A mulher há muito passara dos cinqüenta. O homem estava pelos seus quarenta. A mulata esperava rindo. Parte da cabeça do homem continuou teimosamente ocupada em procurar determinar o elo que lhe escapara: em que mo¬mento a mulata aparecera?
O que fez com que de novo ele perdesse outro elo impor¬tante: passos miúdos se tinham aproximado e Martim mal teve tempo de distinguir a figura de uma menina preta antes que esta se escondesse como um pássaro dentro de uma moita.

Sem medo algum de ser Clarice Lispector

segunda-feira, novembro 21, 2011

Por Isabelle Barros

Praça Maciel Pinheiro, Boa Vista, centro do Recife. Lugar onde Clarice Lispector (1920-1977) passou alguns dos anos mais importantes de sua infância e a fez afirmar, em entrevista próxima à sua morte: “O Recife está todo em mim”. Para evocar a memória da moradora ilustre, o lugar abriga uma das 12 estátuas de concreto que integram o Circuito da Poesia, homenagem feita a artistas que tiveram Pernambuco como parte integrante de sua vida e obra. Esta é uma imprecisão histórica, pois a escritora jamais publicou poemas.

A Clarice de cimento está sentada, com a máquina de escrever no colo. Tem como vizinhança os trapos da lendária Juraci, moradora de rua conhecida como a Rainha do Real. Dizem os taxistas da região que, de vez em quando, ônibus escolares e turísticos fazem uma rápida parada para tirar fotos da escultura antes de seguirem viagem. A atenção atraída pela homenagem é medida por outra variável, distante do mundo literário. “Não tem aquele abajur vermelho ali, ao lado da estátua? Sempre roubam”, alertam os flanelinhas.

Era sábado de liquidação nas lojas de móveis dos arredores. No meio do burburinho, uma família de classe média fazia imagens de todos os ângulos da praça. Quem empunhava a câmera era uma mulher, de aproximadamente 40 anos, que fazia parte de um clube de fotografia chamado Amantes da Zona Norte. Pergunto se ela estaria lá também para ver a antiga casa da escritora. Ela, a princípio, nega, mas se apressa a dizer que adora a obra de Clarice e vai, sim, tirar fotos do sobrado de número 387. “Ela é muito do nosso dia-a-dia, não é?”. A frase tamborila nos ouvidos. Não deixa de ser irônico ouvir isso a respeito de uma escritora conhecida por seus saltos metafísicos, com trechos de tons epifânicos procurando tatear um espaço além da linguagem.

Mais do que qualquer outro autor da língua portuguesa, Clarice virou um fenômeno pop, ao mesmo tempo em que se transformou em uma espécie de panaceia intelectual. Sua obra, dedicada ao espanto do estar no mundo, passou a ser considerada como prova de bom gosto em presentes de aniversário ou usada em epígrafes ao final de e-mails. “Em vida, ela era admirada principalmente por intelectuais e artistas. Próximo à sua morte, também atraiu os leitores da classe media carioca que a conheceram por meio de suas crônicas no Jornal do Brasil. Ela chega tão ao âmago das pessoas que nos vemos refletidos nela como em poucos escritores - até diria em nenhum escritor - que conheço. “Clarice escreveu: ‘Eu sou vós mesmos’. Então, eu diria: as pessoas esperam tudo dela. E, hoje, ela se tornou realmente um objeto de culto”, avalia o escritor e autor da biografia Clarice, Benjamin Moser.

CLARICE, A ELEITA
A profundidade e amplidão de sua literatura, junto à sua figura misteriosa, propensa a mitificações, a tornaram uma tábula rasa, sobre a qual nenhuma interpretação parece ser suficientemente absurda. Quem a lê e se deixa envolver por sua prosa quer tomá-la para si, o que acontece até hoje com intelectuais, estudantes, celebridades. Pilhas de livros tentaram compreendê-la, ligá-la ao feminismo, ao judaísmo e até ao zen-budismo. As hipóteses para decodificar esse estado de coisas são variadas. “Ela não era banal. Ucraniana, falava iídiche e teve uma vida de peripécias. Belíssima, tinha mesmo tudo para se transformar em ícone. As pessoas se identificam porque a sensibilidade dela está em um ponto entre a mulher e o homem. Ainda não há quem possa ocupar o seu lugar”, avalia a poetisa e professora de Letras da UFPE, Lucila Nogueira.

Para o crítico literário e escritor José Castello, sua morte deu curso a um processo involuntário e, ao mesmo tempo, relativamente comum a quem se destaca como artista: o de santificação. “Quando Clarice estava viva, muita gente dizia que ela era uma mulher desequilibrada, difícil, intratável até. Que escrevia uma literatura ilegível, que não passava de um transe. O que não tem relação alguma com sua grandeza como escritora. Ela é um dos maiores nomes da literatura em língua portuguesa em todos os tempos, mas não foi uma mulher perfeita. Ao contrário, acentuou sempre sua humanidade e sua imperfeição. Sua literatura, em vez de explicar, abre um rombo. Ela nos deixa diante da fragilidade absoluta do existir”.

Outra razão apontada pelo interesse despertado por essa brasileira nascida na Ucrânia é a divulgação consistente de seus livros ao longo das últimas décadas. Atualmente, a editora Rocco é a única dona dos direitos de publicação de seu material, o que facilita as reedições. “É preciso lembrar uma coisa: a obra de Clarice Lispector sempre teve repercussão significativa. Ela mesma declarou ter recebido muitas cartas e telefonemas dos leitores. O investimento em publicações após sua morte, as inúmeras adaptações de sua obra para o teatro e o cinema e a organização de exposições também ajudaram a mantê-la em evidência”, sentencia a pesquisadora Teresa Montero, autora da biografia Eu sou uma Pergunta, lançada em 1999, e organizadora de seis dessas edições póstumas. “A ampliação dos meios de comunicação também tornaram possível uma circulação mais rápida de seus livros”, emenda.

O resultado disso é uma constante renovação dos leitores, o que a reveste de uma característica adicional. “Ela é muito lida por adolescentes entre 15 e 20 anos, mas continua sendo procurada após essa fase da vida, ao contrário de outros criadores. Quem cai de amores, vai lê-la sempre, o que não ocorre com outros autores de romances de formação”, observa o professor de Letras da UFPE, Anco Márcio. “É como se o escritor criasse uma ambiência, um modo de estar no mundo talvez almejado pelo leitor. A literatura revela o mundo e Clarice tinha essa consciência”.

CLARICE E A INTERNET
A internet opera um papel especial – e ambíguo - com relação ao legado da autora de A hora da estrela. Frases retiradas de contexto se tornaram aforismos a serem pinçados de sites, onde disputam espaço com anúncios de compras coletivas e de encontros amorosos. Trechos das obras se multiplicam em redes sociais como Orkut, Twitter e Facebook, vocalizando os mais diversos estados de espírito para pessoas as mais surpreendentes.

Um exemplo curioso é o da autointitulada atriz, apresentadora e empresária Ângela Bismarchi. Conhecida por suas apresentações no Carnaval carioca e pelas especulações sobre quantas vezes já passou por cirurgias plásticas, ela citou a escritora em seu perfil no Twitter. “Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito”. Perguntei se ela já havia lido algum livro de Clarice Lispector, mas não houve resposta. “Acho que essas passagens (da internet) são sintomas do nosso tempo. É uma carência das pessoas. Vivemos numa época muito impessoal. E essa obra tão singular é dada a frases lapidares, então é possível fragmentar sua obra dessa forma”, diz Lucila.

No dia 1º de setembro, foram colocados mais alguns tijolos no muro de admiração construído em torno da imagem da escritora. A partir de uma coluna do jornal O Globo, espalhou-se o boato de que a atriz Meryl Streep viveria Clarice no cinema. A “barriga” repercutiu nos meios de comunicação do país inteiro e entrou nos trending topics do Twitter, com reações variando entre a histeria (“Seria a glória!”) e o enfado (“Já pode dar block nesse filme?”). Difícil foi ficar indiferente. “Acho que devemos colocar isso como mais um exemplo da ‘lenda de Clarice Lispector’. Só fiquei sabendo pelo filho dela, que viu essa história no jornal e teve de passar dias e dias desmentindo. Acho fascinante ver como sua obra tem se expandido depois de sua morte, como se ela ainda escrevesse”, pontua Moser.

É fácil encontrar quem se disponha a espalhar pílulas de Clarice em 140 caracteres. Pululam no Twitter perfis como @FrasesdeClarice, @C_Lispector, @clariclispector e afins. O mais popular deles, @clalispector, tem pouco mais de 159 mil seguidores e foi criado por Lucas Freire, designer, escritor em formação e mantenedor do blog Conversa oca. “As frases que eu posto tem, em média, mais de 500 retweets. As que contêm as palavras ‘amor’ ou ‘paixão’ são sempre as mais populares, mas não acho isso bom. A maioria das pessoas não separa um minuto para prestar atenção, tentar captar o que aquilo representa. Parece inacreditável, mas muita gente quer entrar em contato com a Clarice Lispector em pessoa, e não comigo. Há até quem responda ‘eu te amo’. Tenho de relembrar várias vezes aos seguidores da minha conta que ela morreu há mais de 30 anos, e quem tuíta sou eu, um leitor”.

Entre os sites de divulgação feitos por admiradores, o mais acessado é o blog Clarice Lispector, alimentado pela historiadora e poetisa Keidy Costa, de Natal. A página tem mais de 500 mil pageviews e uma média de 1300 visitas diárias. A ideia é reunir tudo o que Clarice escreveu para uso pessoal. “O conteúdo reflete a minha disponibilidade de tempo, o livro que leio no momento e a necessidade de levar ao conhecimento público um trecho de uma obra que deixo de citar por muito tempo”. Embora acredite que gostar de Clarice se tornou moda, ela não acredita que a obra dela se torne “gasta” algum dia. “Sempre há alguém querendo se libertar por meio de seus escritos. O importante é as pessoas desenvolverem o hábito de lê-la, seja algumas frases ou a obra inteira”.

A escritora dispõe de outros indicadores de popularidade mais controversos, como a profusão de escritos atribuídos a ela cuja autenticidade é duvidosa. Para verificar isso, basta digitar “Clarice Lispector poemas” em qualquer site de busca. Um dos links tem como resultado os versos “Não te amo mais / Estarei mentindo dizendo que / Ainda te quero como sempre quis”, com a indicação de leitura na ordem inversa. Não é preciso ler mais para descartar a suposição de autoria. “Uma das maiores deferências que se pode fazer a um escritor é colocar o nome dele em algo feito por outros. É como se o apropriador dissesse: eu não mostro minha cara, mas digo tudo o que tenho para dizer por meio desse artista”, observa Anco.

NÃO ESTOU LÁ
Em certos casos, a atenção dispensada à obra de Clarice chega às raias da falsidade ideológica, como ilustra uma experiência vivida por Moser. “Alguém no Pará tentou me vender uma segunda edição autografada de A hora da estrela. Achei muito interessante, pois a primeira foi publicada semanas antes da morte de Clarice. Tenho um desses raríssimos livros autografados. Mas, para mim, a segunda edição seria mais rara ainda, pois não sabia de nenhuma reimpressão feita antes de sua morte”. Para se garantir, o biógrafo pediu uma foto da dedicatória e da página de copyright. “Lá, havia o seguinte: ‘Lispector, Clarice, 1925-1977 ... José Olympio, 1978.’. Ela estava autografando livros depois de sua morte! Por um lado, essa fraude é muito séria, ainda que malfeita, mas é possível ver esse caso como uma perversa homenagem”.

A ânsia em ver Clarice mesmo onde ela não existe levou até a pendengas judiciais. Em 1997, o empresário e escritor Edson Marques diz ter escrito o poema Mude, atribuído posteriormente a autores tão díspares quanto Pedro Bial, Paulo Coelho, Cecília Meireles e também à caçula da família Lispector. “O que pode ter levado as pessoas a supor que meu poema é ‘de Clarice’, imagino, é que ambos escrevemos bem. E que ambos, cada um a seu modo, somos existencialistas. Os temas dela são o amor e a liberdade, a solidão e o nada. E as pessoas geralmente gostam disso. Vistos de bem perto, nossos estilos não se parecem, mas, no fundo, sinto-me altamente lisonjeado por ser ‘confundido’ com ela”.

Mas, em 2001, quando os versos foram declamados no comercial de uma montadora, o autor entrou com uma ação contra o filho da escritora, Paulo Gurgel Valente, que supostamente teria vendido os direitos à agência de publicidade que detinha a conta da multinacional. A ação está em segunda instância. Na primeira, o ganho de causa foi de Edson. “A maioria dos leitores de Clarice não acredita que sou eu o autor, mesmo depois de ter publicado o registro na Biblioteca Nacional. Seus fãs se recusam a supor que tal poema não seja dela”. Mesmo que a escritora tivesse, algum dia, escrito poemas, a leitura rápida de dois versos não deixa margem a especulações estilísticas. “O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. / Só o que está morto não muda”.

CLARICE E A HISTERIA
Se os livros de Clarice pedem a renúncia à ideia de um cotidiano plácido para dar lugar à intensidade da experiência humana, o efeito que sua obra causa em seus leitores dá margem a reações exaltadas. É famoso o episódio no qual a cantora Maria Bethânia, contrariando sua postura reservada, se curvou diante de Clarice e exclamou “minha deusa!”, para desgosto da escritora. Outro exemplo é um comentário retirado da postagem de uma entrevista de Clarice Lispector no YouTube. “Não se gosta de Clarice como se gosta de abacaxi! Você não gosta de Clarice, você ama Clarice! Você não entende Clarice, você sente Clarice!”. Doze pessoas “curtiram” essa observação no site. “Vivemos uma era de tecnologia avançada, mas nosso fascínio pelos mitos se parece com o dos homens primitivos. Muitos adotam Clarice como Grande Mãe, outros a odeiam como uma bruxa doida. As duas posições conduzem à mesma cegueira diante de Clarice e de sua obra. A propósito, a literatura dela fala justamente disso. É uma questão de lê-la com atenção, sem idealização”, reflete Castello.

Tanta paparicação de seus leitores também dá margem a reações de desagrado, embora Clarice esteja em uma situação próxima da unanimidade. “Vejo certa irritação na área de Letras, pois ela é uma das escritoras mais lidas e, ao mesmo tempo, faz parte de uma vanguarda. Ainda vivemos em um país muito machista, e pessoas de visão conservadora talvez se chateiem com seus textos”, opina Lucila. Segundo a poetisa, é surpreendente que ela seja bem aceita em um país como o Brasil, onde a expressão mais adotada é o realismo, situação muito diferente do resto da América Latina. “Basta ver qual é o maior escritor brasileiro vivo: Rubem Fonseca. Clarice, por sua vez, não pode ser chamada de realista”.

Não à toa, quem se identifica com a autora se dá o nome de “clariciano” ou “clariciana”, como se fosse membro de um universo à parte, uma comunidade secreta. Para Castello, Clarice é vítima de muitos preconceitos. Eles começam não com seus inimigos, mas com seus admiradores. “Alguns a leem como uma filósofa, outros como uma bruxa, outros ainda como um mestre. Ou seja: congelam suas ideias, transformam-nas em ‘lições’, reduzem-na a meia dúzia de chavões. Mas transformá-la em mestre das grandes respostas é recusá-la, é não ler o que ela escreveu”.

Muitas vezes, essa leitura redutora ou incompleta não é privilégio duvidoso de neófitos ou desavisados. “A impressão geral é de que ninguém entende o que ela de fato escreveu, exceto os textos mais elementares, como Laços de família. A paixão segundo G.H e Água viva já são outra história. Durante uma das minhas aulas, perguntei a meus alunos sobre o que esse último livro tratava e ninguém soube responder”, recorda Lucila.

Castello argumenta que Clarice foi um gênio e eles são, quase sempre, reduzidos a imagens grandiosas e fixas. E que a literatura dela não foi feita para jogos de espíritos de intelectuais, ou divertimentos para beiras de piscinas e salas de espera de aviões. “Isso mata seu pensamento e a mata pela segunda vez. Ela coloca-nos diante do humano, sempre vivo e por isso mesmo instável e ‘sem solução’. Mas as pessoas, em geral, não suportam isso, então a transformam numa autora de frases do ‘bem viver’ e assumem o papel de seguidores. Formam-se comunidades, séquitos, clubes. Ela odiaria tudo isso”.

Dona de uma obra que devassa o íntimo do leitor, como se o atravessasse, Clarice paira acima da vida e da morte para seus leitores, para o bem e para o mal. Uma pista sobre o que Clarice realmente pensaria de toda a atenção em torno de si após sua morte estaria em seus textos, como nas palavras escritas em Um sopro de vida (Pulsações), da fase final de sua carreira. “Quando acabardes este livro chorai por mim um aleluia. Quando fechardes as últimas páginas deste malogrado e afoito e brincalhão livro da vida então esquecei-me. Que Deus vos abençoe então e este livro acabará bem. Para enfim eu ter repouso. Que a paz esteja entre nós, entre vós e mim. Estou caindo no discurso? Que me perdoem os fieis do templo: eu escrevo e assim me livro de mim e posso, então, descansar”.

Isabelle Barros é jornalista e mestranda em Comunicação Social

Fonte: http://www.suplementopernambuco.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=437&Itemid=2

Parte 2: http://www.suplementopernambuco.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=440&Itemid=2

A Maçã no Escuro (trecho)

sábado, setembro 03, 2011

Primeira parte: Como se faz um homem
Três

De tardinha Martim começou a imaginar — pela qualida¬de da terra mais fina e pelo encontro eventual de árvores com frutas — que se aproximava talvez de algum povoado. Tentou comer uma das frutas desconhecidas que, verdes e sem sumo, apenas lhe arranharam a boca ávida. Mas um ar mais fresco soprava, e trazia cheiro de água corrente. A terra ali era mais negra. E o encontro de samambaiaçu lhe deu uma sensação de molhado que arrepiou em lubricidade suas costas secas.
O próprio silêncio se tornara diferente. Embora o homem não percebesse nenhum som, os passarinhos voavam mais agi¬tados como se ouvissem o que ele não ouvia. O homem parou atento. Havia um deslocamento de ar como se um dinossauro se transladasse lento em alguma parte do globo.
E, continuando a andar, por vezes o vento lhe trazia um clamor vago, uma reivindicação mais intensa. Era um alarme de vida que delicadamente alertou o homem. Mas com o qual ele nada soube fazer como se visse uma flor se entreabrir e apenas olhasse.
Martim mal e mal constatou a própria sensação, tendo o cuidado de não constatar demais e deixar de perceber. O des¬feito alarido lhe chegava como se de muito longe lhe soprassem perto do ouvido: foi esta a obscura noção de distância que ele teve, e parou farejando. Embaraçadamente entregue ao recurso de si mesmo, parecia tentar usar o próprio desamparo como bússola. Experimentou calcular se estaria perto ou infinitamente longe daquilo que acontecia em algum lugar. Mas parava, e de novo o silêncio do sol se refazia e o desorientava.

[...]

Com que sentido o homem cansado o percebeu, não se sabe dizer, talvez com a aguda sede e com sua derradeira desis¬tência e com a nudez de sua incompreensão: mas havia júbilo no ar. Que na verdade lhe foi tão inassimilável quanto aquele azul quase inventado do céu e que, como todo azul suavíssimo, terminou por tonteá-lo em glória tola e em nobre glória. A ar¬madura interior do homem faiscou. Inatingível, sim, mas havia júbilo no ar como lhe tinha sido prometido alguma vez em pro¬cissões ou em algum rosto quieto de mulher ou na idéia de um dia alcançar que termina por precipitar o alcance. E àquele homem, que era um exagerado, pareceu que por assim dizer trabalhara duramente para chegar a essa coisa valiosa e inútil. Seria um sorriso imbecil o seu, se um espelho o refletisse.

A Maçã no Escuro (trecho)

quarta-feira, julho 13, 2011

Primeira parte: Como se faz um homem
Dois

Aquele homem andou léguas deixando o casarão cada vez mais para trás. Procurou andar em linha reta e às vezes se imo¬bilizava um segundo agarrando com cautela o ar. Como andava nas trevas não poderia sequer adivinhar em que direção deixara o hotel. O que o guiava no escuro era apenas a própria inten¬ção de andar em linha reta. O homem bem poderia ser um negro, tão pouco lhe servia a claridade da própria pele, e ele só sabia quem era pela sensação em si próprio dos movimentos que ele próprio fazia.
Com a mansidão de um escravo, ele fugia. Certa doçura o tomara, só que ele vigiava a própria submissão e de algum modo a dirigia. Nenhum pensamento perturbava sua marcha constante e já insensível, senão de vez em quando a idéia mal aclarada de que talvez estivesse andando em círculos, com a desconcertante possibilidade de se achar de novo diante das paredes do hotel.
Sempre, além do chão que os passos alcançavam, era a escuridão. Já caminhara horas, o que pôde calcular pelos pés grossos de cansaço. Só descobriria aonde se delineava o horizon¬te quando o dia raiasse e dissolvesse as brumas. Como a escuri¬dão ainda se mantinha tão colada aos olhos inutilmente abertos, terminou por concluir que escapara do hotel não de madrugada, mas em plena noite. Tendo dentro de si o grande espaço vazio de um cego, ele avançava.
Já que não precisava de olhos, experimentou andar de olhos fechados, pois numa precaução generalizada ele economi¬zava o que podia. De olhos cerrados pareceu-lhe que rodava em torno de si próprio numa tontura não de todo desagradável.
À medida que caminhava o homem sentia nas narinas aquela aguda falta de cheiro que é peculiar a um ar muito puro e que se mantém distinta de qualquer outra fragrância que tam¬bém se possa sentir — e isso o guiava como se seu único des¬tino fosse encontrar-se com o mais fino do fundo do ar. Mas seus pés tinham a milenar desconfiança da possibilidade de pisar em alguma coisa que se mova — os pés apalpavam a moleza suspeita daquilo que aproveita a escuridão para existir. Pelos pés ele entrou em contato com esse modo de ceder e poder ser moldado que é por onde se entra no pior da noite: na sua per¬missão. Não sabia onde pisava, se bem que através dos sapatos que se haviam tornado um meio de comunicação, ele sentisse a dubiedade da terra.
O homem nada poderia fazer senão esperar que a primeira penumbra lhe revelasse um caminho. Enquanto isso poderia dormir no chão que, distanciado pelas trevas, lhe pareceu inalcançável. Já não mais atiçado pelo perigo, desaparecera a saga¬cidade que lhe seria agora apenas um entrave. E de novo o embrutecimento suave o dominava. O chão era tão longe que, abandonando o corpo, este por um instante experimentou a queda no vácuo. Mal porém tocara numa terra que aos pés se esquivara, e esta instantaneamente se desencantou em algo re¬sistente, cujas duras rugas estáveis pareciam as do céu da boca de um cavalo. O homem estirou as pernas e encostou a cabeça. Agora que se imobilizara, o ar afiara-se e doía extremamente limpo. O homem não estava com sono mas no escuro não sa¬beria o que fazer da grande vigília. Além do mais não tinha assunto.
A essa altura já se havia habituado à música estranha que de noite se ouve e que é feita da possibilidade de alguma coisa piar e da fricção delicada do silêncio contra o silêncio. Era um lamento sem tristeza. O homem estava no coração do Brasil. E o silêncio fruía a si mesmo. Mas se a brandura era o modo como se ouvia a noite, para a noite a brandura era a sua pró¬pria espada, e na brandura a noite toda estava contida. O homem não se deixou enfeitiçar pela delícia que sentiu na sua¬vidade; adivinhava que léguas além a escuridão sabia que ele estava ali. Manteve-se pois em espreita, tendo sob um perfeito controle os meios de comunicação da noite.