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Mostrando postagens com o rótulo amacanoescuro

A Maçã no Escuro

Segunda parte: Nascimento do herói Cinco Com o decorrer dos dias, percebendo-o mais presente, as mulheres confundiram com estabilidade o ar moroso que Mar¬tim tomara e que vinha do fato de ele treinar instante por instante, com a cara estúpida de homem pensando, com a pa¬ciência dos sapateiros da gravura, um modo de abrir caminho. Certa então de que enfim receberia a resposta tranqüilizadora, Ermelinda perguntou-lhe com a segurança com que uma mulher estabelece domínios para se instalar com filhos: —  Quanto tempo você fica? —  Não sei, respondeu ele. De novo Ermelinda se assustou. E como se seu estremeci¬mento se tivesse comunicado impalpável para Vitória, ambas mais ativas começaram a agir como se o tempo estivesse aca¬bando, Vitória se impacientava com as valas que mal progre¬diam, vigiava-o a cavalo. E um novo ritmo se sentiu no sítio. E Martim? Martim trabalhava — olhava e trabalhava, pas-sando o mundo a limpo. Seu pensamento rude continuava no entanto a se ancorar o...

A Maçã no Escuro

Segunda parte: Nascimento do herói Quatro Nesse intervalo amanheceu. E abrindo a primeira vala na luz da manhã, ao mesmo tempo que as mãos grossas lhe obedeciam, Martim já começara a se aplicar num trabalho de infinita exatidão e vigilância. Que era o de açambarcar-se e, consigo, o mundo? Era isso mesmo o que ele fazia? Mas será realmente importante saber o que ele fazia? Ele estava fazendo um sonho — que era o único modo como a verdade podia vir a ele e como ele podia vivê-la. Será então indispensável entender perfeitamente o que lhe acontecia? Se nós profundamente o entendemos, precisamos também entendê-lo superficialmente? Se reconhecemos no seu mover-se lento o nosso próprio formar-se — assim como se reconhece um lugar onde pelo menos uma vez se esteve — será necessário traduzi-lo em palavras que nos comprometem? Às cegas, embora, e tendo como bússola apenas a intenção, Martim parecia querer começar pelo exato começo. E re¬construir a seu modo pela primeira pedra, até que ch...

A Maçã no Escuro

Segunda parte: Nascimento do herói Três Mas foi só de noite, sentado ereto na cama e sem acender a lamparina, que Martim entendeu plenamente o que quisera significar quando pensara que restava pouco tempo. Com espanto percebeu que na verdade não se referira ao tempo que lhe restava para planejar a fuga. Embora, desde o momento em que falara com Vitória no alpendre, tivesse agido como se fosse óbvio que a fuga deveria ser naquela mesma noite, antes que o caminhão fosse usado por Vitória, e se ele quisesse estar bem longe quando ela se encontrasse com o alemão. Mas como se a escuridão do depósito o levasse à sua própria escuridão, ele se entendeu afinal: não era para a fuga que restava pouco tempo. Estivera tão ocupado em planejar a escapada que não percebera que não pretendia fugir. “Ele tinha que possuir tudo antes do fim e tinha que viver uma vida inteira antes do fim.” Era para isso que o tempo se tornara curto. Com um espanto deslumbrado — porque a verdade é que até esse in...

A Maçã no Escuro

Segunda parte: Nascimento do herói Dois   At é que nessa tarde na encosta Martim começou a se jus­tificar. Chegara o duro tempo de explicação. Ali, antes de prosseguir, ele devia ser inocente ou culpado. Ali ele tinha que saber se sua m ãe, que jamais o entenderia se fosse viva, o amaria sem entendê-lo. Ali ele devia saber se o fantasma de seu pai lhe daria a mão sem espanto. Ali ele se julgaria — e dessa vez com a linguagem dos outros. Agora teria de chamar de crime o que fizera. O homem estremeceu com medo de tocar errado em si, ele que ainda estava todo ferido. Mas porque profundamente sabia que at é a farsa usaria contanto que conseguisse sair inteiro de seu próprio julgamento — de tal modo, se não se absolvesse, ficaria perplexo com um crime nas m ãos — porque sabia que não se permitiria sair senão inteiro do perigoso confronto é que teve coragem de se encarar e, se necessário, de se horrorizar. E mais: como s ó se permitiria vencer, pois no ponto em que estava...

A Maçã no Escuro

Segunda parte: Nascimento do herói Um Mas nessa mesma noite, andando excitado de um lado para outro dentro da pequenez do dep ósito, Martim mal se conteve com o que ganhara. Era a alegria. Não sabia o que fazer de si como se tivesse uma notícia e não houvesse a quem dá-la. Estava muito contente de ser uma pessoa, este era um dos grandes pra­zeres da vida. No entanto, inconsolável, parecia-lhe que jamais seria indenizado. E pela primeira vez desde que fugira tinha necessidade de se comunicar. Sentou-se no bordo da cama, a cabe ça feliz entre as mãos. Não sabia por onde começar a pensar. Então lembrou-se de seu filho que um dia dissera na hora do jantar: não quero esta comida! A mãe retrucara: que comida você quer? O me­nino terminara dizendo com o doloroso espanto da descoberta: —   Nenhuma! Ele, Martim, ent ão lhe dissera: —   É muito simples: se você não está com fome, não pre­cisa comer. Mas a crian ça começara a chorar: —   Não estou com fome, não ...