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O Passeio de Joana (trecho)

— Eu me distraio muito, disse Joana a Otávio.
Assim como o espaço rodeado por quatro pa­redes tem um valor específico, provocado não tanto pelo fato de ser espaço mas pelo de estar rodeado por paredes. Otávio transformava-a em alguma coisa que não era ela mas ele mesmo e que Joana recebia por piedade de ambos, porque os dois eram incapa­zes de se libertar pelo amor, porque aceitava sucum­bida o próprio medo de sofrer, sua incapacidade de conduzir-se além da fronteira da revolta. E também: como ligar-se a um homem senão permitindo que ele a aprisione? como impedir que ele desenvolva sobre seu corpo e sua alma suas quatro paredes? E havia um meio de ter as coisas sem que as coisas a possuíssem?
A tarde era nua e límpida, sem começo nem fim. Pássaros leves e negros voavam nítidos no ar puro, voavam sem que os homens os acompanhassem com um olhar sequer. Bem longe a montanha pairava grossa e fechada. Havia duas maneiras de olhá-la: imaginando que estava longe e era grande, em pri­meiro lugar; em segundo, que era pequena e estava perto. Mas de qualquer modo, uma montanha estúpida, castanha e dura. Como odiava a natureza às vezes. Sem saber por que, pareceu-lhe que a última reflexão, misturada à montanha, concluía alguma coisa, batendo com a mão aberta sobre a mesa: pron­to! pesadamente. Aquilo cinzento e verde estendido dentro de Joana como um corpo preguiçoso, magro e áspero, bem dentro dela, inteiramente seco, como um sorriso sem saliva, como olhos sem sono e enervados, aquilo confirmava-se diante da montanha pa­rada. O que não conseguiria pegar com a mão es­tava agora glorioso e alto e livre e era inútil tentar resumir: ar puro, tarde de verão. Porque havia segu­ramente mais do que isso. Uma vitória inútil sobre as árvores folhudas, um sem que fazer de todas as coisas. Oh, Deus. Isso, sim, isso: se existisse Deus, é que ele teria desertado daquele mundo subitamen­te, excessivamente limpo, como uma casa ao sába­do, quieta, sem poeira, cheirando a sabão. Joana sorriu. Por que uma casa encerada e limpa deixava-a perdida como num mosteiro, desolada, vagando pe­los corredores? E muitas coisas que observava ainda. Assim, se suportava o gelo sobre o fígado, era atra­vessada por sensações longínquas e agudas, por idéias luminosas e rápidas, e se então tivesse que falar diria: sublime, com as mãos estendidas para frente, talvez os olhos cerrados.
[...]

Comentários

Paixão, M. disse…
Olá! Acabei de ler a reportagem sobre a fotobiografia na folha de São Paulo (deixada gentilmente por um amigo na recepção do meu trabalho) e não perdi tempo para vir checar seu blog :) Que espaço lindo, está de parabéns!

Também sou uma dessas pessoas que Clarice conseguiu tocar na alma, e gostaria de deixar o link pra o meu blog aqui, exatamente para um texto que escrevi pra ela, caso queira visitar:

http://pao-de-sol.blogspot.com/2008/04/clarice-uma-moa-bonita-demais.html

Um grande abraço, e com certeza voltarei sempre!

Milena
Anônimo disse…
keyde esta lindOoOoooOoOo
demaisssssss..

xeruuuuu

arrasouuuu

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