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O Abrigo no Professor (trecho)

Joana bem se lembrava: dias antes de casar pro­curara o professor.
Subitamente precisara encontrá-lo, senti-lo fir­me e frio antes de ir embora. Porque de algum modo parecia-lhe estar traindo toda a sua vida pas­sada com o casamento. Queria rever o professor, sentir seu apoio. E quando lhe surgiu a idéia de visitá-lo, acalmara-se aliviada.
Ele haveria de lhe dar a palavra justa. Que pa­lavra? Nada, respondia-se misteriosamente, queren­do numa repentina vontade de fé e de boa espera guardar-se para ouvi-lo completamente nova, sem ter sequer uma idéia do que ia ganhar. Um dia já lhe sucedera isso: quando pela primeira vez se pre­parava para o circo, em pequena. Teve os melhores momentos aprontando-se para ele. E quando se aproximou do largo campo onde branqueava o bar­racão redondo e imenso, como uma dessas cúpulas que escondem ate certo instante o melhor prato da mesa, quando se aproximou na mão da criada, sen­tiu o medo e a angústia e a alegria trêmula no cora­ção, queria voltar, fugir. No momento em que a criada lhe disse: seu pai deu dinheiro para pipocas, então Joana olhou estupefata para as coisas, sob a tarde cheia de sol, como se elas estivessem loucas.
Sabia que o professor adoecera, que fora aban­donado pela mulher. Mas apesar de envelhecido, encontrara-o mais gordo, o olhar brilhante. Tam­bém temera a princípio que a última cena em co­mum, quando fugira assustada para a puberdade, dificultasse a visita, deixasse-os em mal-estar, na­quela mesma sala estranha e sonsa onde agora a poeira vencera o brilho.
O professor recebera-a com ar sereno e distraí­do. Com as olheiras escuras parecia uma fotografia antiga. Fazia perguntas a Joana e mal ela iniciava a resposta ele deixava de ouvir, como enfim deso­brigado . Várias vezes se interrompia, a atenção vol­tada para o relógio e para a mesinha dos remédios. Ela olhava ao redor e a meia escuridão era úmida e ofegante. O professor parecia um grande gato castrado reinando num porão.
[...]

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