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A Paixão Segundo G.H. (trecho)

Foi pensando no sal dos olhos da barata que, num suspiro de quem vai ser obrigado a ceder mais um passo, percebi que ainda estava usando a antiga beleza humana: sal.
Também a beleza do sal e a beleza das lágrimas eu teria de abandonar. Também isso, pois o que eu estava vendo era ainda anterior ao humano.
Pois o que eu estava vendo era ainda anterior ao humano.
Não, não havia sal naqueles olhos. Eu tinha a certeza de que os olhos da barata eram insossos. Para o sal eu sempre estivera pronta, o sal era a transcendência que eu usava para poder sentir um gosto, e poder fugir do que eu chamava de “nada”. Para o sal eu estava pronta, para o sal eu toda me havia construído. Mas o que minha boca não saberia entender - era o insosso, O que eu toda não conhecia - era o neutro.
E o neutro era a vida que eu antes chamava de o nada. O neutro era o inferno.
O sol caminhara um pouco e fixara-se em minhas costas. Também ao sol estava a barata bipartida. Não posso fazer nada por você, barata. Não quero fazer nada por você.
[...]
Não escuro mas apenas sem luz. Então percebi que o quarto existia por si mesmo, que ele não era o calor do sol, ele também podia ser frio e tranqüilo como a lua. Ao imaginar a sua possível noite enluarada, respirei profundamente como se entrasse num açude calmo. Embora eu também soubesse que a lua fria também não seria o quarto. O quarto era em si mesmo. Era a alta monotonia de uma eternidade que respira. Isso me amedrontava. O mundo só não me amedrontaria se eu passasse a ser o mundo. Se eu for o mundo, não terei medo. Se a gente é o mundo, a gente é movida por um delicado radar que guia.Quando a nuvem passou, o sol no quarto ficou ainda mais claro e branco.

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