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O Ovo e a Galinha

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De manhã na cozinha sobre a mesa vejo o ovo.
Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo. Ver o ovo nunca se mantêm no presente: mal vejo um ovo e já se torna ter visto o ovo há três milênios. – No próprio instante de se ver o ovo ele é a lembrança de um ovo. – Só vê o ovo quem já o tiver visto. – Ao ver o ovo é tarde demais: ovo visto, ovo perdido. – Ver o ovo é a promessa de um dia chegar a ver o ovo. – Olhar curto e indivisível; se é que há pensamento; não há; há o ovo. – Olhar é o necessário instrumento que, depois de usado, jogarei fora. Ficarei com o ovo. – O ovo não tem um si-mesmo. Individualmente ele não existe.
Ver o ovo é impossível: o ovo é supervisível como há sons supersônicos. Ninguém é capaz de ver o ovo. O cão vê o ovo? Só as máquinas vêem o ovo. O guindaste vê o ovo. – Quando eu era antiga um ovo pousou no meu ombro. – O amor pelo ovo também não se sente. O amor pelo ovo é supersensível. A gente não sabe que ama o ovo. – Quando eu era antiga fui depositária do ovo e caminhei de leve para não entornar o silêncio do ovo. Quando morri, tiraram de mim o ovo com cuidado. Ainda estava vivo. – Só quem visse o mundo veria o ovo. Como o mundo o ovo é óbvio.
O ovo não existe mais. Como a luz de uma estrela já morta, o ovo propriamente dito não existe mais. – Você é perfeito, ovo. Você é branco. – A você dedico o começo. A você dedico a primeira vez.
Ao ovo dedico a nação chinesa.
O ovo é uma coisa suspensa. Nunca pousou. Quando pousa, não foi ele quem pousou. Foi uma coisa que ficou embaixo do ovo. – Olho o ovo na cozinha com atenção superficial para não quebrá-lo. Tomo o maior cuidado de não entendê-lo. Sendo impossível entendê-lo, sei que se eu o entender é porque estou errando. Entender é a prova do erro. Entendê-lo não é o modo de vê-lo. – Jamais pensar no ovo é um modo de tê-lo visto. – Será que sei do ovo? É quase certo que sei. Assim: existo, logo sei. – O que eu não sei do ovo é o que realmente importa. O que eu não sei do ovo me dá o ovo propriamente dito. – A Lua é habitada por ovos.
O ovo é uma exteriorização. Ter uma casca é dar-se.- O ovo desnuda a cozinha. Faz da mesa um plano inclinado. O ovo expõe. – Quem se aprofunda num ovo, quem vê mais do que a superfície do ovo, está querendo outra coisa: está com fome.
O ovo é a alma da galinha. A galinha desajeitada. O ovo certo. A galinha assustada. O ovo certo. Como um projétil parado. Pois ovo é ovo no espaço. Ovo sobre azul. – Eu te amo, ovo. Eu te amo como uma coisa nem sequer sabe que ama outra coisa. – Não toco nele. A aura de meus dedos é que vê o ovo. Não toco nele – Mas dedicar-me à visão do ovo seria morrer para a vida mundana, e eu preciso da gema e da clara. – O ovo me vê. O ovo me idealiza? O ovo me medita? Não, o ovo apenas me vê. É isento da compreensão que fere. – O ovo nunca lutou. Ele é um dom. – O ovo é invisível a olho nu. De ovo a ovo chega-se a Deus, que é invisível a olho nu. – O ovo terá sido talvez um triângulo que tanto rolou no espaço que foi se ovalando. – O ovo é basicamente um jarro? Terá sido o primeiro jarro moldado pelos etruscos ? Não. O ovo é originário da Macedônia. Lá foi calculado, fruto da mais penosa espontaneidade. Nas areias da Macedônia um homem com uma vara na mão desenhou-o. E depois apagou-o com o pé nu.
O ovo é coisa que precisa tomar cuidado. Por isso a galinha é o disfarce do ovo. Para que o ovo atravesse os tempos a galinha existe. Mãe é para isso. – O ovo vive foragido por estar sempre adiantado demais para a sua época. – O ovo por enquanto será sempre revolucionário. – Ele vive dentro da galinha para que não o chamem de branco. O ovo é branco mesmo. Mas não pode ser chamado de branco. Não porque isso faça mal a ele, mas as pessoas que chamam ovo de branco, essas pessoas morrem para a vida. Chamar de branco aquilo que é branco pode destruir a humanidade. Uma vez um homem foi acusado de ser o que ele era, e foi chamado de Aquele Homem. Não tinham mentido: Ele era. Mas até hoje ainda não nos recuperamos, uns após outros. A lei geral para continuarmos vivos: pode-se dizer “um rosto bonito”, mas quem disser “O rosto”, morre; por ter esgotado o assunto.
Com o tempo, o ovo se tornou um ovo de galinha. Não o é. Mas, adotado, usa-lhe o sobrenome. – Deve-se dizer “o ovo da galinha”. Se eu disser apenas “o ovo”, esgota-se o assunto, e o mundo fica nu. – Em relação ao ovo, o perigo é que se descubra o que se poderia chamar de beleza, isto é, sua veracidade. A veracidade do ovo não é verossímil. Se descobrirem, podem querer obrigá-lo a se tornar retangular. O perigo não é para o ovo, ele não se tornaria retangular. (Nossa garantia é que ele não pode: não poder é a grande força do ovo: sua grandiosidade vem da grandeza de não poder, que se irradia como um não querer.) Mas quem lutasse por torná-lo retangular estaria perdendo a própria vida. O ovo nos expõe, portanto, em perigo. Nossa vantagem é que o ovo é invisível. E quanto aos iniciados, os iniciados disfarçam o ovo.
Quanto ao corpo da galinha, o corpo da galinha é a maior prova de que o ovo não existe. Basta olhar para a galinha para se tornar óbvio que o ovo é impossível de existir.
E a galinha? O ovo é o grande sacrifício da galinha. O ovo é a cruz que a galinha carrega na vida. O ovo é o sonho inatingível da galinha. A galinha ama o ovo. Ela não sabe que existe o ovo. Se soubesse que tem em si mesma o ovo, perderia o estado de galinha. Ser galinha é a sobrevivência da galinha. Sobreviver é a salvação. Pois parece que viver não existe. Viver leva a morte. Então o que a galinha faz é estar permanentemente sobrevivendo. Sobreviver chama-se manter luta contra a vida que é mortal. Ser galinha é isso. A galinha tem o ar constrangido.
É necessário que a galinha não saiba que tem um ovo. Senão ela se salvaria como galinha, o que também não é garantido, mas perderia o ovo. Então ela não sabe. Para que o ovo use a galinha é que a galinha existe. Ela era só para se cumprir, mas gostou. O desarvoramento da galinha vem disso: gostar não fazia parte de nascer. Gostar de estar vivo dói. – Quanto a quem veio antes, foi o ovo que achou a galinha. A galinha não foi sequer chamada. A galinha é diretamente uma escolhida. – A galinha vive como em sonho. Não tem senso de realidade. Todo o susto da galinha é porque estão sempre interrompendo o seu devaneio. A galinha é um grande sono. – A galinha sofre de um mal desconhecido. O mal desconhecido é o ovo. – Ela não sabe se explicar: “ sei que o erro está em mim mesma”, ela chama de erro a vida, “não sei mais o que sinto”, etc.
“Etc., etc., etc.,” é o que cacareja o dia inteiro a galinha. A galinha tem muita vida interior. Para falar a verdade a galinha só tem mesmo é vida interior. A nossa visão de sua vida interior é o que chamamos de “galinha”. A vida interior na galinha consiste em agir como se entendesse. Qualquer ameaça e ela grita em escândalo feito uma doida. Tudo isso para que o ovo não se quebre dentro dela. Ovo que se quebra dentro de galinha é como sangue.
A galinha olha o horizonte. Como se da linha do horizonte é que viesse vindo um ovo. Fora de ser um meio de transporte para o ovo, a galinha é tonta, desocupada e míope. Como poderia a galinha se entender se ela é a contradição de um ovo? O ovo ainda é o mesmo que se originou na Macedônia. A galinha é sempre tragédia mais moderna. Está sempre inutilmente a par. E continua sendo redesenhada. Ainda não se achou a forma mais adequada para uma galinha. Enquanto meu vizinho atende ao telefone ele redesenha com lápis distraído a galinha. Mas para a galinha não há jeito: está na sua condição não servir a si própria. Sendo, porém, o seu destino mais importante que ela, e sendo o seu destino o ovo, a sua vida pessoal não nos interessa.
Dentro de si a galinha não reconhece o ovo, mas fora de si também não o reconhece. Quando a galinha vê o ovo pensa que está lidando com uma coisa impossível. É com o coração batendo, com o coração batendo tanto, ela não o reconhece.
De repente olho o ovo na cozinha e vejo nele a comida. Não o reconheço, e meu coração bate. A metamorfose está se fazendo em mim: começo a não poder mais enxergar o ovo. Fora de cada ovo particular, fora de cada ovo que se come, o ovo não existe. Já não consigo mais crer num ovo. Estou cada vez mais sem força de acreditar, estou morrendo, adeus, olhei demais um ovo e ele me foi adormecendo.
A galinha não queria sacrificar a sua vida. A que optou por querer ser “feliz”. A que não percebia que, se passasse a vida desenhando dentro de si como numa iluminura o ovo, ela estaria servindo. A que não sabia perder-se a si mesma. A que pensou que tinha penas de galinha para se cobrir por possuir pele preciosa, sem entender que as penas eram exclusivamente para suavizar, a travessia ao carregar o ovo, porque o sofrimento intenso poderia prejudicar o ovo. A que pensou que o prazer lhe era um dom, sem perceber que era para que ela se distraísse totalmente enquanto o ovo se faria. A que não sabia que “eu” é apenas uma das palavras que se desenham enquanto se atende ao telefone, mera tentativa de buscar forma mais adequada. A que pensou que “eu” significa ter um si-mesmo. As galinhas prejudiciais ao ovo são aquelas que são um “eu” sem trégua. Nelas o “eu” é tão constante que elas já não podem mais pronunciar a palavra “ovo”. Mas, quem sabe, era disso mesmo que o ovo precisava. Pois se elas não estivessem tão distraídas, se prestassem atenção à grande vida que se faz dentro delas, atrapalhariam o ovo.
Comecei a falar da galinha e há muito já não estou falando mais da galinha. Mas ainda estou falando do ovo.
E eis que não entendo o ovo. Só entendo o ovo quebrado: quebro-o na frigideira. É deste modo indireto que me ofereço à existência do ovo: meu sacrifício é reduzir-me à minha própria vida pessoal. Fiz do meu prazer e da minha dor o meu destino disfarçado. E ter apenas a própria vida é, para quem viu o ovo, um sacrifício. Como aqueles que, no convento, varrem o chão e lavam a roupa, servindo sem a glória de função maior, meu trabalho é o de viver os meus prazeres e as minhas dores. É necessário que eu tenha a modéstia de viver.
Pego mais um ovo na cozinha, quebro-lhe a casca e forma. E a partir deste instante exato nunca existiu um ovo. É absolutamente indispensável que eu seja uma ocupada e uma distraída. Sou indispensavelmente um dos que renegam. Faço parte da maçonaria dos que viram uma vez o ovo e o renegam como forma de protegê-lo. Somos os que se abstêm de destruir, e nisso se consomem. Nós, agentes disfarçados e distribuídos pelas funções menos reveladoras, nós às vezes nos reconhecemos. A um certo modo de olhar, há um jeito de dar a mão, nós nos reconhecemos e a isto chamamos de amor. E então, não é necessário o disfarce: embora não se fale, também não se mente, embora não se diga a verdade, também não é necessário dissimular. Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque o amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões. Há os que voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. E não é prêmio, por isso não envaidece, amor não é prêmio, é uma condição concedida exclusivamente para aqueles que, sem ele, corromperiam o ovo com a dor pessoal. Isso não faz do amor uma exceção honrosa; ele é exatamente concedido aos maus agentes, àqueles que atrapalhariam tudo se não lhes fosse permitido adivinhar vagamente.
A todos os agentes são dadas muitas vantagens para que o ovo se faça. Não é o caso de se ter inveja pois, inclusive algumas das condições, piores do que as dos outros, são apenas as condições ideais para o ovo. Quanto ao prazer dos agentes, eles também o recebem sem orgulho. Austeramente vivem todos os prazeres: inclusive é o nosso sacrifício para que o ovo se faça. Já nos foi imposta, inclusive uma natureza adequada a muito prazer. O que facilita. Pelo menos torna menos penoso o prazer.
Há casos de agentes que se suicidam: acham insuficientes as pouquíssimas instruções recebidas e se sentem sem apoio. Houve o caso do agente que revelou publicamente ser agente porque lhe foi intolerável não ser compreendido, e ele não suportava mais não ter o respeito alheio: morreu atropelado quando saía de um restaurante. Houve um outro que nem precisou ser eliminado: ele próprio se consumiu lentamente na sua revolta, sua revolta veio quando ele descobriu que as duas ou três instruções recebidas não incluíam nenhuma explicação. Houve outro também eliminado, porque achava que “a verdade deve ser corajosamente dita”, e começou em primeiro lugar a procurá-la; dele se disse que morreu em nome da verdade com sua inocência; sua aparente coragem era tolice, e era ingênuo o seu desejo de lealdade, ele compreendera que ser leal não é coisa limpa, ser leal é ser desleal para com todo o resto. Esses casos extremos de morte não são por crueldade. É que há um trabalho, digamos cósmico, a ser feito, e os casos individuais infelizmente não podem ser levados em consideração. Para os que sucumbem e se tornam individuais é que existem as instituições, a caridade, a compreensão que não discrimina motivos, a nossa vida humana enfim.
Os ovos estalam na frigideira, e mergulhada no sonho preparo o café da manhã. Sem nenhum senso da realidade, grito pelas crianças que brotam de várias camas, arrastam cadeiras e comem, e o trabalho do dia amanhecido começa, gritado e rido e comido, clara e gema, alegria entre brigas, dia que é o nosso sal e nós somos o sal do dia, viver é extremamente tolerável, viver ocupa e distrai, viver faz rir.
E me faz sorrir no meu mistério. O meu mistério é que eu ser apenas um meio, e não um fim, tem-me dado a mais maliciosa das liberdades: não sou boba e aproveito. Inclusive, faço um mal aos outros que, francamente. O falso emprego que me deram para disfarçar a minha verdadeira função, pois aproveito o falso emprego e dele faço o meu verdadeiro; inclusive o dinheiro que me dão como diária para facilitar a minha vida de modo a que o ovo se faça, pois esse dinheiro eu tenho usado para outros fins, desvio de verba, ultimamente comprei ações na Brahma e estou rica. A isso tudo ainda chamo de ter a necessária modéstia de viver. E também o tempo que me deram, e que nos dão apenas para que no ócio honrado o ovo se faça, pois tenho usado esse tempo para prazeres ilícitos e dores ilícitas, inteiramente esquecida do ovo. Esta é a minha simplicidade.
Ou é isso mesmo que eles querem que me aconteça, exatamente para que o ovo se cumpra? É liberdade ou estou sendo mandada? Pois venho notando que tudo que é erro meu tem sido aproveitado. Minha revolta é que para eles eu não sou nada, eu sou apenas preciosa: eles cuidam de mim segundo por segundo, com a mais absoluta falta de amor; sou apenas preciosa. Com o dinheiro que me dão, ando ultimamente bebendo. Abuso de confiança? Mas é que ninguém sabe como se sente por dentro aquele cujo emprego consiste em fingir que está traindo, e que termina acreditando na própria traição. Cujo emprego consiste em diariamente esquecer. Aquele de quem é exigida a aparente desonra. Nem meu espelho reflete mais um rosto que seja meu. Ou sou um agente, ou é a traição mesmo.
Mas durmo o sono dos justos por saber que minha vida fútil não atrapalha a marcha do grande tempo. Pelo contrário: parece que é exigido de mim que eu seja extremamente fútil, é exigido de mim inclusive que eu durma como justo. Eles me querem preocupada e distraída, e não lhes importa como. Pois, com minha atenção errada e minha tolice grave, eu poderia atrapalhar o que se está fazendo através de mim. É que eu própria, eu propriamente dita, só tenho mesmo servido para atrapalhar. O que me revela que talvez eu seja um agente é a idéia de que meu destino me ultrapassa: pelo menos isso eles tiveram mesmo que me deixar adivinhar, eu era daqueles que fariam mal o trabalho se ao menos não adivinhassem um pouco; fizeram-me esquecer o que me deixaram adivinhar, mas vagamente ficou-me a noção de que meu destino me ultrapassa, e de que sou instrumento do trabalho deles. Mas de qualquer modo era só instrumento que eu poderia ser, pois o trabalho não poderia ser mesmo meu. Já experimentei me estabelecer por conta própria e não deu certo; ficou-me até hoje essa mão trêmula. Tivesse eu insistido um pouco mais e teria perdido para sempre a saúde. Desde então, desde essa malograda experiência, procuro raciocinar desse modo: que já me foi dado muito, que eles já me concederam tudo o que pode ser concedido; e que os outros agentes, muito superiores a mim, também trabalharam apenas para o que não sabiam. E com as mesmas pouquíssimas instruções. Já me foi dado muito; isto, por exemplo: uma vez ou outra, com o coração batendo pelo privilégio, eu pelo menos sei que não estou reconhecendo! Com o coração batendo de emoção, eu pelo menos não compreendo! Com o coração batendo de confiança, eu pelo menos não sei.
Mas e o ovo? Este é um dos subterfúgios deles: enquanto eu falava sobre o ovo, eu tinha esquecido do ovo. “Falai, falai”, instruíram-me eles. E o ovo fica inteiramente protegido por tantas palavras. Falai muito, é uma das instruções, estou tão cansada.
Por devoção ao ovo, eu o esqueci. Meu necessário esquecimento. Meu interesseiro esquecimento. Pois o ovo é um esquivo. Diante de minha adoração possessiva ele poderia retrair-se e nunca mais voltar. Mas se ele for esquecido. Se eu fizer o sacrifício de esquecê-lo. Se o ovo for impossível. Então – livre, delicado, sem mensagem alguma para mim – talvez uma vez ainda ele se locomova do espaço até esta janela que desde sempre deixei aberta. E de madrugada baixe no nosso edifício. Sereno até a cozinha. Iluminando-a de minha palidez.

56 Clariceanos:

Leonardo Alcantara disse...

Ótimo.

Joh Ribeiro disse...

muito, muito bom mesmo!
clarice foi, e sempre será uma pessoa admirável!
parabéns pelo trabalho! :)

beijos!

Thaís Rocha Mello disse...

Acho que fala da simplicidade, aliás, de como é difícil ser simples, como um ovo. A partir do momento que você tenta definir isso,a simplicidade, já complicou e o sentido se perdeu. Por isso mesmo, nem li inteiro e pulei muitas partes.

Alle disse...

Lispector é Lispector... Não tenho nem o que dizer. Vim ler esse conto à pedidos de uma professora e não me arrependo nem um pouquinho.

Anônimo disse...

Procurei o conto pela peça lançada essa semana. Muito bom! Sem dùvidas um conto existêncial, irônico, meio àcido (como quase tudo dela que li) e até jocoso.
Vamos ver como adaptaram essa grande escritora.

Ana karollyne disse...

amei ela não é presa a esquemas fala o que deseja e gosta ... nem se importou com o título... ela se revelou muito nesse conto... amo Clarice... sou igual a ela não gosto de escrever o que me pedem mais sim o que quero e gosto...

Vinicius Dias disse...

Seria desleal ao ovo definir esse conto, por isso, nem mesmo Clarice o fez.

Thiago disse...

Eu li esse conto, como todo o livro Felicidade Clandestina em 1999, pro vestibular da UFMG. Então eu contava 18 anos. Lembro bem que na época o livro me causou um arrebatamento, uma angústia, um deslumbramento, uma descoberta... minha cabeça adolescente estava cheia de ideias de Carl Sagan, Stephen Hawking e, sobretudo, Richard Dawkins; não consegui esconder meu assombro com a poderosa ideia do Gene Egoísta subentendida no conto do Ovo!! Fiquei maravilhado, estupefato e assombrado.

Hoje, 11 anos depois, releio este conto e, após ler quase toda a obra de Dawkins, ainda consigo me assombrar!

A propósito, achei que eu estava apto a entender Lispector após ler Felicidade Clandestina; fui ler Perto do Coração Selvagem e não entendi nada.

Carolina Veiga disse...

No início do texto, já tentaram substituir a palavra "ovo" pela "amor"? Tentem.

Acredito que é disto que Clarice fala. Não do amor carnal apenas. Mas, do amor a vida, do amor ao próximo, do amor subjetivo, sem preconceito, sem definições.

Se ela desejou transmitir uma mensagem com esse texto, para mim foi: No amor está a felicidade. Na simplicidade está o amor. O julgamento, os rótulos, as definições nos tiram a possibilidade de olhar para o mundo e ver a verdade contida nele. Não vendo a verdade, vendo através de nossos olhos (entupidos por nossas opiniões e pré-conceitos) deixamos de ver o simples, deixamos de ver o fato como ele é.

Prestem a atenção quando ela fala da cor do ovo, por exemplo.

Lenita Gabriela Duarte Figueiredo disse...

Reflexões sobre o ovo e a galinha de Clarisse Lispector:
Que loucura o ovo, Clarisse!
Já não posso mais carregá-lo. Tem dias que me abstraio e sou só galinha. Deixo o ovo adormecido. Mas sei que ele esta nas entranhas. Se parar um minuto sequer, posso senti-lo.
Em outros dias sou ovo! Nesses dias não sou eu mesma. Sou algo maior. Não caibo em mim! Nesses dias sinto-me uma fraude de mim mesma. Angustia. Decepção.
Tento escolher ser só galinha de novo. Ser só galinha não dói, o problema é uma hora ter que parir o ovo...
So posso ser quando sou ovo. Nos outros dias apenas existo, não sou.

Desculpem, mas nao acho que seja sobre o amor... Acho que seja sobre o pensamento criador, sobre as ideias... pelo menos é exatamente assim que me sinto.
Lenita Gabriela Duarte Figueiredo

Mente Hiperativa disse...

NA SUA ÚLTIMA ENTREVISTA ELA PRÓPRIA DISSE QUE NÃO ENTENDIA BEM O TAL CONTO DO OVO E DA GALINHA.

Mente Hiperativa disse...

Sendo assim nao me cabe interpretar, apenas admirar as perolas dessa autora Magnifica.

Pryscylla93 disse...

Que difícil.

Glória. disse...

O Ser humano é MUITO ENGRAÇADO. Nem se entende e quer entender tudo à sua volta.

Anônimo disse...

Eu, recolhido a minha insignificancia, me senti parcialmente satisfeito coma idéia de que o ovo seria vida, e que eu seria a galinha... Acho que lendo dessa forma o texto começa a fazer sentido!

Anônimo disse...

Experimentem trocar as palavra OVO por Espírito, e GALINHA por Corpo! :)

André disse...

Acho que todos que definiram o ovo, o mataram. É indefinível e para cada um ele adquire um formato de ovo diferente. Para mim significou, a cada momento algo diferente e, aposto que se lesse amanhã o mesmo conto, significaria muitas outras.
Cada leitor absorverá desse conto algo diferente, e cada um poderá adaptá-lo as ideias do que acredita ser o ovo. No final, o ovo é. Inspire-se por ele e o adore, mas não o defina. Definir é restringir e nem sempre entender é necessário.

Eduardo disse...

Concordo com o que foi dito pela Thaís Rocha de Mello (30/07/2009): O texto fala sobre a complexidade de ser simples. Vemos, no caso do texto, o ovo como sendo 1,000,000 de coisas que não o ovo: Vida, Liberdade, Comida, Brancura, Perfeição... Por isso que somente as máquina vêem o ovo: elas não criam conceitos sobre ele, vêem-no pelo que é: um ovo. Mas para nós, que não vemos a supervisibilidade do ovo, o enxergamos com incontáveis que melhor se encaixam no texto, para compreender, e ignoramos que de fato, se trata de um ovo.

Marco Romer disse...

Fiquei arrepiado ao ler mais uma vez esse conto. O que me intrigou foi a parte em que ela fala que morre e o ovo é tirado ainda vivo de dentro dela. Pois Clarice morreu devido a uma obstrução do intestino provocada por um tumor irreversível no ovário. Teria sido coincidência ou clarividência? "Quando morri, tiraram de mim o ovo com cuidado. Ainda estava vivo."

Luiz Augusto Alves Valore disse...

Pura Poesia!

ballesta disse...

Clarice in pectore


Mi abuelo huevo
Tenía un gallinero y un palomar
Las palomas mensajeras
Las gallinas batarazas
Y el mar

Su Palma de Mallorca
Mas que una orca fue un manto
Como los cuentos da Lispector
Pero no tanto

Para cada árbol una sombra
Para cada raiz
Clarice.

Andressa Guimaraes disse...

estou escrevendo uma peça de teatro, contando sobre a vida da Clarice e estou adorando!
Irá acontecer na minha escola um festival de teatro e a escritora escolhida este ano foi ela.
Ela foi incrível e eu Amei ser escolhida para dirigir a peça!
Minha escola é Pa. Tiago Albeione,
e irá ser em Outubro ...
Tds os Clariceanos estão convidados!
=D
Bjuh*

Anônimo disse...

É simplemente Clarisse é uma das Escritoras mais, sei lá o que como ela mesmo disse: "Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento". Simplemente Ela é fantastica.

Anônimo disse...

A Clarice ñ fala somente do a vida, amor ou espirito, ela engloba uma série de aspectos,cita as teorias do criacionismo e evolucionismo,faz criticas ao cristianismo,envolve a mulher, o fim da sua vida reprodutiva , usa aspectos nietzschianos, fala dos pensadores, da prepotência humana diante dos fatos e varios outros aspectos, onde limitar vida, espirito e amor pode ser q não caibam em seus reais significados no texto

Serjo disse...

O ovo é o conhecimento que nos leva ao eterno presente...Clarice nos dá, com sabedoria, o não-entendimento do que se chama vida. Ela fica estupefada ao constatar que a vida é, na prática apenas um ovo. Não podemos ter o conhecimento completo do mistério da vida representado pelo ovo.Numa entrevista que eu vi com Clarice, ela dizia que até para ela mesma este conto era muito misterioso...

Anônimo disse...

Eu acho que todas as historias da Clarice,com essa subjetividade que nós deixa um leque de interpretações,é proposital. Ela quer que exploremos nosso eu,nossa capacidade de interpretar,de entender o mundo a nossa volta,por isso talvez todas as interpretações que todos estão fazendo aqui,estão corretas.O ovo e a galinha pode ser o amo,pode ser Deus e a humanidade,o ovo pode ser a essência da vida(que afinal,nós esquecemos dela e é difícil pensar nela).Esse conto,é como aquele conto em que ela fala do tripé,e como ela sente falta da sua terceira perna,apesar de saber que ela não precisa mais e por isso ela se sente egoísta e etc. É a liberdade de interpretação,é isso além de tudo a grande essência do modernismo : A LIBERDADE!

Luis Leite disse...

Clarice, infelizmente a conheci a pouco tempo. Já me apaixonei. Sinto saudades de não tela conhecido antes. Todas as pessoas que ela foi estão nela, a menina, a mocinha, a jovem mãe, a mulher fascinante. Me perdoe meu Deus por eu pensar(Clarice). Já aprendi isso com ela. Me perdoe Clarice por só te conhecer agora, eu tava ocupado com um monte de bobagens que não importam. Nos veremos na eternidade.

juliana disse...

fico feliz pelo fato de conhecer clarice somente hj, aos 33 anos, por força da existencia do face book... antes nem teria me interessado... me descobri em um texto dela e me sinto uma continuidade dela... fascinante!!!!

Anônimo disse...

Pura magia. Não tentem interpretar, pode atrapalhar o ovo.

Anônimo disse...

Eu adoro essa escritora e aqui vai uma dica: leiam o livro, biográfico :Clarice,(vírgula) de Benjamim Mozart, talvez entenderão esse e outros contos. Realmente a autora diz que nem ela conseguiu entender esse conto,porém através dos fatos relatados de sua vida dá para entender que o ovo envolve nuances de seu nascimento.
Ana

denise stucchi disse...

nota sobre o comentário anterior:
o autor da mencionada biografia de
Clarice Lispector é Benjamin MOSER.

Godisson Davis disse...

Egraçado....ela mesma dizia que não entendia direito esse conto.

Gustavo disse...

o Ovo é o ''real'' que não se mostra verdadeiro. Dessa forma é incompreensível decifrá-lo.

Isadora Bonfim disse...

Texto simplesmente FANTÁSTICO. Clarice, em si, é fantástica. E nisto se basta.

Anônimo disse...

ESTOU SEM PALAVRAS PARA DEFINIR MEU SENTIMENTO, ACHEI SIMPLESMENTE COMPLEXO E AO MESMO TEMPO SIMPLES.( CADA PESSOA INTERPRETA DE FORMA PESSOAL)

Anônimo disse...

Procurei o conto por dica de um colega que assim como eu e apaixonado em Clarice...Amei o conto!

Mylena Karine disse...

O ovo é o amor. A metáfora mais linda que já vi. É meio confuso, mas como a própria Clarisse disse, "O ovo e a galinha" é um enigma.

Anônimo disse...

ela nao escreve pensando em ser obvia mais um pensamento paradoxal transcendente que se estende na linha mais sensivel de um pensamento instintivo humano, se complexando e completando transformando unilateralmente com outros de uma forma que por meios se estendem de varias formas e jeitos diferentes dependendo da personalidade de quem escreve.

Maria Laura disse...

Entendo ser um texto existencialista. Assim como Sartre. Cada um leva em si o poder para transformar o mundo que lhe cerca, através da ação. Veja que ela fala na China (Comunista) onde através da ação homens tomaram o poder. Penso que o "ovo" seria algo de transformador que cada uma carrega em si, com a possibilidade de o usufruindo poder criar algo novo. Mas ela usa tanta metáfora, para nao ser chamada de comunista numa época de perseguições. Acho que pode ser isso....

Apologia Groove disse...

Também penso que ela esta falando sobre criador e criação... Ela é a galinha e o ovo são os textos que ela ainda guarda dentro de si.

Josenilton disse...

Cada vez que leio esse conto tendo a associa-lo com o Sermao da Flor de lotus dado pelo Buddha.

Aprendendo a ver.

Buda reuniu seus discípulos, e mostrou uma flor de lótus.

- Quero que me digam algo sobre isto que tenho nas mãos.

O primeiro fez um verdadeiro tratado sobre a importância das flores. O segundo compôs uma linda poesia sobre suas pétalas. O terceiro inventou uma parábola usando a flor como exemplo.

Chegou a vez de Mahakashyap. Este aproximou-se de Buda, cheirou a flor, e acariciou seu rosto com uma das pétalas.

- É uma flor de lótus - disse Mahakashyap. - Simples, como tudo que vem de Deus. E bela, como tudo que vem de Deus.

- Você foi o único que viu o que eu tinha nas mãos - foi o comentário de Buda.

B. H. Agostinho disse...

Josenilton tem razão.. isso está repleto de Buda.. de Induismo.. de Eckhart Tolle .. de Neale Donald Walsch.. esvaziar pensamentos, e se concentrar no que vc esta vendo.. no presente.. no agora.. sobre vc ser tudo ao seu redor.. vc ser Deus.. vc ser o que vc quiser ser.. e que tudo existe por vc a através de vce... isso tudo tem muito a ver com a maçonaria.. Clarice Lispector parece ter uma relação mto forte com a Orient Estern Star... ao meu ver.. ela com certeza levava o pentateuco invertido no peito.
acredito que não morrerei por comentar isso.
Estou protegido.
mas advirto que abram os olhos. a história é contada invertidamente por eles... não está certa.
a história do Universo, esta na Bíblia.
vejam, não ha muito tempo para cair nessa escuridão e poder voltar.
por favor, não caiam.

Anônimo disse...

Fiquei arrepiado ao ler mais uma vez esse conto. O que me intrigou foi a parte em que ela fala que morre e o ovo é tirado ainda vivo de dentro dela. Pois Clarice morreu devido a uma obstrução do intestino provocada por um tumor irreversível no ovário. Teria sido coincidência ou clarividência? "Quando morri, tiraram de mim o ovo com cuidado. Ainda estava vivo.

lalita soares disse...

nem mesmo clarisse compreende este conto, ela relata em uma entrevista a tv cultura, eu particularmente quando o li , so me veio sobre a Razao da existencia humana!

Renier disse...

Descrever "O Ovo e a galinha" é como... SANGUE!
Depois de lido, o máximo que se pode fazer é indica-lo, mais que isso é colocar-se em perigo.

Anônimo disse...

É, depois de ler inúmeros livros da Clarice e ter assistido a entrevista que ela mesmo relata não ter entendido esse conto, penso que vai a interpretação de cada um, sobre o que está sentindo no momento que se lê. Podemos interpretar da forma que bem entendermos. Afinal, ela não usa rótulos totalmente certos, ela deixa as coisas meio vagas mesmo. Sobretudo, penso que ela quis passar o seu sentimento apenas. Não definir nada.
Clarice tinha uma escrita sagrada e por isso é imortal.

Se tiverem a oportunidade, leiam 'Perdoando Deus' do livro Felicidade Clandestina.

Beijos,
Luíza Zacarias

Anônimo disse...


nunca li um livro de Clarice, apenas me interessei pela sua figura assistindo a histórica entrevista na tv cultura e quis ler esse conto que nem ela disse que entendia mto.

é ocultismo puro.

e isso é a verdadeira ciência, filosofia e religião que existe.

vejo o fato de os homens não enchergarem isso parecido com os demais animais, incapazes de se dar conta que existem. é assim com o homem. vc não vai aprender sobre isso em livros, mas sim observando friamente o seu redor e o seu cotidiano.

o porquê de esse texto e outros vários de autores ocultistas não serem diretos ou "não poderem serem", como clarice disse no texto, é que eu não sei...

B. H. Agostinho disse...

Aônimo, sim.. com certeza é puro ocultismo, Neale Donald, ao escrever o livro Conversando com Deus, disse que ele não escreviam, mas escreviam por ele. O resultado foi um livro panteísta enganador e persuasivo, tão bem escrito a ponto de fazer o "escritor" trocar seu barraco por uma mansão. O ovo, é o Governo dos Anjos caídos. a antiga serpente vem dizendo aos seus discípulos que o proximo passo á fazer as pessoas se esquecerem dele.
Esse poema me parece muito uma instrução.
uma instrução dada pelos anjos caídos.
qualquer coisa me mandem um e-mail normafederal@gmail.com

Kelvin Castro disse...

Não entendi, alias todas a vezes que eu leio eu entendo uma coisa diferente,acho que essa era a intenção de Clarisse :D

Anônimo disse...

nunca iquei tão confusa em toda minha vida !

Anônimo disse...

Loucura...a mais real das loucuras.Penso que, numa manhã de depressão,chegando a cozinha, sem ter o que fazer,resolveu dissertar sobre a primeira coisa que visse.Pronto, uma cesta de ovos sobre a mesa foi o bastante.Fora isso,tudo é possível,inclusive a loucura.

Unknown disse...

Está em cartaz a peça "O ovo e a galinha", em São Paulo. Vai de 24/08 até 08/09.

Mais informações aqui: http://citecum.com.br/o-ovo-e-a-galinha/

Acabei de assistir. Gostei bastante!

Anônimo disse...

O ovo é o eu mais essencial, a alma do mundo, a essência da vida. A galinha é ela. Ela faz referência a maçonaria. Ela é uma iniciada, uma pessoa que encontra com o ovo. Inominável, mas metafórico.

Anônimo disse...

O conto é misterioso para ela, pois foi escrito aleatoriamente.

Diego Olliveira disse...

Clarice é simplesmente fabulosa, nesse conto parece-nos a principio que ela está divagando, mas na verdade eu percebi o jogo fabuloso de palavras com o qual ela revela na sombra de um ovo toda sua genialidade.Adoro.

pimenta na cara disse...

a própria autora disse que este conto lhe fascina pelo fato de não compreende-lo, ela mesmo escreveu e não consegue discernir seu significado então quem sou eu para dizer que compreendendo.
Digo somente que é magnifico.