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Texto para a Páscoa: A Repartição dos Pães

Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. Quanto a meu sábado - que fora da janela se balançava em acácias e sombras - eu preferia, a gastá-lo mal, fechá-lo na mão dura, onde eu o amarfanhava como a um lenço. À espera do almoço, bebíamos sem prazer, à saúde do ressentimento: amanhã já seria domingo. Não é com você que eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e soprávamos devagar a fumaça do cigarro seco. A avareza de não repartir o sábado ia pouco a pouco roendo e avançando como ferrugem, até que qualquer alegria seria um insulto à alegria maior. Só a dona da casa não parecia economizar o sábado para usá-lo numa quinta de noite. Ela, no ent...

Pinturas de Clarice Lispector: Medo - 1975

Pinturas de Clarice Lispector: Explosão - 1975

Explosão - 1975.

Visão de Clarice Lispector

O poema abaixo foi escrito por Carlos Drummond de Andrade. Visão de Clarice Lispector Clarice, veio de um mistério, partiu para outro. Ficamos sem saber a essência do mistério. Ou o mistério não era essencial, era Clarice viajando nele. Era Clarice bulindo no fundo mais fundo, onde a palavra parece encontrar sua razão de ser, e retratar o homem. O que Clarice disse, o que Clarice viveu por nós em forma de história em forma de sonho de história em forma de sonho de sonho de história (no meio havia uma barata ou um anjo?) não sabemos repetir nem inventar. São coisas, são jóias particulares de Clarice que usamos de empréstimo, ela dona de tudo. Clarice não foi um lugar-comum, carteira de identidade, retrato. De Chirico a pintou? Pois sim. O mais puro retrato de Clarice só se pode encontrá-lo atrás da nuvem que o avião cortou, não se percebe mais. De Clarice guardamos gestos. Gestos, tentativas de Clarice sair de Clarice para ser igual a nós todos em cor...

A Maçã no Escuro

Primeira parte: Como se faz um homem Onze Mas na tarde em que Martim e Vit ória foram a cavalo para que a dona da fazenda lhe mostrasse onde seriam cavadas as valas de sustentação de águas, nessa tarde em que subiram a mesma encosta por onde o homem uma vez viera sozinho — foi quando ele se destacou maduro da escuridão das vacas. Porque do alto da encosta, a mulher pesquisava o ch ão, ele inocente e desprevenido reconheceu de súbito o campo como o divisara ao chegar pela primeira vez à fazenda. Daquela vez em que, bêbedo de fuga, apoiara-se exausto naquela coisa vaga que é a promessa que é feita a uma criança quando esta nasce. Montado no cavalo, num lampejo de incompreens ão genial, ele viu o campo. Estonteado, atento, no alto da encosta era aque­la mesma liberdade como se algo se desfraldasse ao vento. E como da primeira vez, a glória do ar livre aproximou-o de alguma coisa que lhe bateu dura no peito e que doeu na extrema perturbação da felicidade que às vezes se s...

O presente

Novas publicações no Blog: o livro "De amor e amizade – Crônicas para jovens" é organizado por Pedro Karp Vasquez. Clarice Lispector, p. 55: ... Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si.

Do Rio de Janeiro e seus personagens - Uma coisa

Novas publicações no Blog: o livro "Do Rio de Janeiro e seus personagens – Crônicas para jovens" é organizado por Pedro Karp Vasquez. Clarice Lispector, página 33: Eu vi uma coisa. Coisa mesmo. Eram dez horas da noite na Praça Tiradentes e o táxi corria. Então eu vi uma rua que nunca mais vou esquecer. Não vou descrevê-la: ela é minha. Só posso dizer que estava vazia e eram dez horas da noite. Nada mais. Fui porém germinada. Como cronista, Clarice Lispector sempre procurou seus temas nas ruas da cidade ou em conversas com seus mais bem informados habitantes. Em Do Rio de Janeiro e seus personagens – Crônicas para jovens, a autora conduz o jovem leitor a um instigante passeio pela Cidade Maravilhosa por meio de suas crônicas. Nessa coletânea de crônicas – terceira de uma coleção que reúne textos de Clarice por temas, com o objetivo de apresentar a faceta cronista de umas das maiores escritoras brasileiras às novas gerações –, o leitor conhecerá tanto o Rio pessoal ...