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A Maçã no Escuro

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Primeira parte: Como se faz um homem

Onze

Mas na tarde em que Martim e Vitória foram a cavalo para que a dona da fazenda lhe mostrasse onde seriam cavadas as valas de sustentação de águas, nessa tarde em que subiram a mesma encosta por onde o homem uma vez viera sozinho — foi quando ele se destacou maduro da escuridão das vacas.
Porque do alto da encosta, a mulher pesquisava o chão, ele inocente e desprevenido reconheceu de súbito o campo como o divisara ao chegar pela primeira vez à fazenda. Daquela vez em que, bêbedo de fuga, apoiara-se exausto naquela coisa vaga que é a promessa que é feita a uma criança quando esta nasce.
Montado no cavalo, num lampejo de incompreensão genial, ele viu o campo. Estonteado, atento, no alto da encosta era aque­la mesma liberdade como se algo se desfraldasse ao vento. E como da primeira vez, a glória do ar livre aproximou-o de alguma coisa que lhe bateu dura no peito e que doeu na extrema perturbação da felicidade que às vezes se sente.
Mas a que desta vez ele quis, numa primeira fome inespe­rada, dar um nome.
Desejar algo mais do que apenas sentir pareceu afligir Martim, este sinal confuso de transição para o desconhecido inquietou-o, sua inquietação se transmitiu ao cavalo que escoi-ceou obscuramente tocado, com o olhar deslumbrado que um cavalo tem.
É que diante daquela extensão de terra enorme e vazia, em sufocado esforço Martim penosamente se aproximava — com a dificuldade de quem nunca vai chegar — se aproximava de alguma coisa a que um homem a pé chamaria humildemente de desejo de homem mas a que um homem montado não pode­ria fugir à tentação de chamar de missão de homem. E o nasci- mento dessa estranha ânsia foi provocado, agora como da primeira vez em que pisara a encosta, pela visão de um mundo enorme que parece fazer uma pergunta. E que parecia clamar por um novo deus que, entendendo, concluísse desse modo a obra do outro Deus. Ali, confuso sobre um cavalo assustado, ele próprio assustado, num segundo apenas de olhar Martim emergiu totalmente e como homem.
No mesmo instante também se sentiu inteiramente incompensado.
Com o rosto batido pelo vento que logo passou a simbolizar alguma coisa, Martim viu embaixo os animais soltos no pasto. Desde que havia entendido as vacas, pela primeira vez se achava acima delas na encosta. E também isto lhe bateu no peito. Com o coração batendo Martim então se lembrou inesperadamente de como um homem costuma ser: era como ele estava sendo agora! Numa sensação agonizante, ele se sentiu uma pessoa.
Martim estava de algum modo humilde, se era ser humilde o modo involuntariamente triunfante como estava montado num cavalo — o que lhe dava altura e espanto e determinação e visão mais larga. Nessa inesperada humildade ele pareceu reconhecer mais um sinal de que estava emergindo porque só os animais eram orgulhosos, e só um homem também era humil­de. Também a essa coisa indefesa e no entanto audaciosa ele quis dar um nome, mas não existia.
De algum modo foi bom que não existisse: não encontrar um nome aumentou imperceptivelmente a inquietação de que ele agora gozava. Pois a verdade é que, embora intimidado, ele estava fruindo a própria inquietação. Como se a tensão em que se achava fosse a medida de sua própria resistência, e ele fruísse as primícias de uma dificuldade como os músculos de um homem se intensificam ao levantar um peso. E ele, ele era o seu próprio peso. O que quer dizer que aquele homem se tinha feito.
Nesse ínterim a impaciência mal refreada dos cavalos au­mentara a instabilidade de Martim e empurrava-o a uma decisão que ele no entanto desconhecia. O vento unia a figura recor­tada de Vitória à dele, o ar puro deixara os cavalos mais negros e maiores. O ar era tão leve que o homem não pôde respirá-lo todo, pois é aos poucos que se respira, pois é aos poucos que uma pessoa vive — e ele sufocou por não ter capacidade de mais ar, e no entanto “não poder” intensificou sua felicidade, a enorme vastidão rodeou-o sem que ele pudesse dominá-la, seu coração bateu grande, generoso, inquieto, os cavalos mexiam as patas com galanteria e destreza. O vento constante terminara por dar ao rosto da mulher um arrebatamento físico suave que não condizia com suas palavras sobre a abertura das valas, e os corpos solitários de ambos estavam tendo um tácito mútuo entendimento assim como concordam corpos com o mesmo último destino: o coração daquele homem bateu grande e con­fuso, reconhecendo. Ser uma pessoa era ser isso tudo.
Foi então que lhe pareceu que a promessa que lhe tinha sido feita era a sua própria missão. Embora ele não entendesse por que cabe a nós cumprir uma promessa que no entanto nos foi feita.
Neste momento estava particularmente bom existir pois havia também o ar muito límpido da tarde. E nesse momento a mulher montada de repente riu de enervamento porque o cavalo recuara e a assustara. Com certa surpresa o homem ouviu o riso naquela mulher que jamais ria. É que tudo estava provavelmente se manifestando para Martim, assim como as flores se abrem em determinado momento e nunca estamos perto para ver. Mas ele estava. Pela primeira vez estava presente no momento em que acontece o que acontece. E ele! ele era esse homem que pela primeira vez se dava conta, não apenas por ouvir dizer, mas inquietantemente de primeira mão. Ele era exatamente esse homem. Estranhou-se então como modo arrebatado de se reconhecer. Acabara de decidir ser, não um outro, mas esse homem.
E mais que isso: ele próprio se tornara de repente o senti­do das terras e da mulher, ele próprio era o aguilhão daquilo que ele via. Foi isso o que sentiu, embora recebesse de seu pensamento apenas o latejar. E contido, alvoroçado, lembrou-se de que este é o lugar-comum onde um homem pode enfim pisar: querer dar um destino ao enorme vazio que aparentemente só um destino enche.
Então, num impulso da mesma natureza do impulso de querer dar nome, procurou se lembrar que gesto se usava para exprimir aquele instante de vento e de alusão ao desconhecido. Procurou se lembrar do que fizera quando estivera um dia no alto do Corcovado com uma namorada. Mas, que se lembrasse, não havia como exprimir. Nessa primeira impotência, por um instante Martim se sentiu angustiadamente preso.
Mas também sentir-se angustiadamente preso era ser uma pessoa, ele bem se lembrava ainda! oh ele bem se lembrou: com angústia lembrou-se de que essa angústia era ser gente — e no alto do Corcovado ele beijara a namorada com uma fero­cidade de amor. Lembrou-se a tempo de que não havia como exprimir a alegria e então se construía uma casa ou se fazia uma viagem ou se amava. Também ele, montado no cavalo, com o ar apreensivo de quem pode errar, estava atentamente pro­curando copiar para a realidade o ser que ele era, e nesse parto estava se fazendo a sua vida. E a coisa se fez de um modo tão impossível — que na impossibilidade estava a dura garra da beleza. São momentos que não se narram, acontecem entre trens que passam ou no. ar que desperta nosso rosto e nos dá o nosso final tamanho, e então por um instante somos a quarta dimensão do que existe, são momentos que não contam. Mas quem sabe se é essa ânsia de peixe de boca aberta que o afogado tem antes de morrer, e então se diz que antes de mergulhar para sempre um homem vê passar a seus olhos a vida inteira; se em um instante se nasce, e se morre em um instante, um instante é bastante para a vida inteira.
O homem, pois, se lembrara enfim do que fizera com a namorada ao vento do Corcovado. Para se exprimir ele poderia talvez apoderar-se de Vitória, já que sendo ele agora um homem, ela se tornara uma mulher. Mas não só ela não era dócil, como este seria um ato gratuito sem o peso perfeito de fatali­dade que o desejo de corpo dá. Ficou pois quieto, embaraçado, sem saber que fazer de tudo aquilo em que tão subitamente ele se transformara. Foi então que, vindo do nada, por puro estabanamento, ele quis ser “bom” como solução. Quis tanto ser bom que de novo sentiu uma espécie de impotência.
É verdade que o pensamento fugitivo que tivera sobre a mulher não se perdeu de todo no ar. Alguns restos dele a mulher os sentiu, obscuramente ofendida como os gatos se ofendem no telhado. Vitória voltou-se para ele e enquanto falava sobre as valas encarou-o, e ele era indubitavelmente aquele homem: nele, ela viu ele. O que foi inesperado. Com a curiosi­dade de quem visse se rebentar uma artéria e um sangue insus­peito jorrar, com repugnância e grande altivez, ela o olhou — e ele era aquele homem, não um outro jamais, mas ele mesmo, o que a fez desviar os olhos severa. Ela se lembrou de que uma noite passara pelo depósito e ouvira o homem roncar. A lem­brança disso não só o tornou inegável, como a probabilidade razoável dele não saber que roncava entregou-o de novo a ela mesma em todo o seu peso de inconsciência, como uma vez o cão desmaiado fora dela.
Até que — até que nova onda de brisa apagou tudo. Deixando como realidade apenas o homem e a mulher sobre os cavalos.
E de tudo restou para o homem apenas a sensação um pouco inútil de ter enfim emergido. E o coração de uma pessoa viva. O que, se era pouco, lhe deu um poder muito grande; como pessoa ele era capaz de tudo. Talvez tenha sido isso o que ele sentiu. E para lhe mostrar até que ponto tudo estava convergindo para uma realização — como quando a graça existe — Vitória neste mesmo momento estendeu o braço apontando ao longe uma montanha de encostas suavizadas pela impossibi­lidade de serem tocadas... Martim teve então uma espécie de certeza de que este era o gesto que ele procurara: tanto as distâncias parecem precisar de alguém que as determine com um gesto. Assim o homem escolheu concluir que é este o gesto humano com que se alude: apontar.
E não lhe importou sequer que a mulher o tivesse feito inconscientemente. Nem sequer que fosse ela, e não ele, a executá-lo. Na muda potência em que estava, qualquer coisa que falasse seria considerado por ele como voz sua e qualquer coisa que se mexesse seria movimento seu; e ele poderia talvez dizer “o melhor momento de minha vida foi quando as tropas de Napoleão entraram em Paris”, e poderia dizer “o melhor momento de minha vida foi quando um homem disse dai pão aos que têm fome”, e tornar-se trabalho seu dos mais duros e deslumbrados o crescimento das árvores — a largueza do mundo alargara penosamente seu peito. E se assim foi é porque, tendo-se feito, de muito ele passou a precisar, e de muito mais do que ele era. De modo que, tendo a mulher apontado com a mão estendida a montanha ao longe, já não importava ao homem que fosse ela ou uma pedra ou uma ave que o executasse, o que importava é que o gesto fosse cumprido. Isso, sem relutância, ele admitiu. Só que, em reivindicação, queria pegar a tarefa no ponto em que a mulher a deixara, e pleiteava que de agora em diante se incumbisse ele mesmo de determinar. E nesse instante foi como se todo um futuro ali mesmo se estivesse esboçando, e ele só fosse conhecer os detalhes à medida que os criasse. Martim passara a pertencer a seus próprios passos. Ele era dele mesmo.
Nesse ínterim, o que aconteceu apenas é que a mulher olhava em torno procurando boa terra onde as valas se cavassem sem obstáculos. E para reduzir a verdade à pura realidade, o que é que acontecia com Martim?
Na verdade Martim tivera apenas uma consciência física muito aguda de ambos alteados pelos cavalos, e, numa percep­ção mais aguda ainda, sentia os cavalos soltos no ar. O que lhe dera uma vaga sensação de beleza, do modo como se tem uma sensação inquietante de beleza: quando alguma coisa parece dizer alguma coisa e há aquele encontro obscuro com um sentido. Perceber mesmo, pode-se dizer honestamente que Martim não percebeu nada. De modo que, com o relinchar dos cavalos, eles simplesmente se voltaram um para o outro e, sem que tivesse havido um instante sequer de interrupção na conversa sobre as valas, a mulher falou sobre a seca, e ele ouviu-a, e concordou. E assim como, se houvesse reencarnação do espírito depois da morte, a lei mandaria que não se tivesse consciência de ter vivido, o momento de contato de Martim com aquilo que se é passou despercebido dele. Restou claro apenas o pen­samento de que o sítio era um lugar onde ele bem poderia ficar mais tempo. Martim estava muito satisfeito consigo mesmo.
O que fazia com que a satisfação já não lhe bastasse era a espécie de dura tenacidade que, como primeiro passo geral, foi se tornando sua atitude à medida que desciam devagar a encosta. Eles eretos, os cavalos bamboleando as ilhargas.

2 Clariceanos:

Anônimo disse...

acho que naquelas terras tinha um tesouro, ou eram o próprio tesouro, pra Clarice escrever assim. obrigado pelo texto.

Fanzine Episódio Cultural disse...

Quero sussurrar-lhe ao ouvido,

Todo verso que te emociona,

Reger a sinfonia de sua natureza,

Ser o motivo de sua alegria

A razão de sua existência.



(Agamenon Troyan)