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Era Uma Vez

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Respondi que gostaria mesmo era de poder um dia afinal escrever uma história que começasse assim: "era uma vez...". Para crianças? perguntaram. Não, para adultos mesmo, respondi já distraída, ocupada em me lembrar de minhas primeiras histórias aos sete anos, todas começando com "era uma vez"; eu as enviava para a página infantil das quintas-feiras do jornal de Recife, e nenhuma, mas nenhuma, foi jamais publicada. E era fácil de ver por quê. Nenhuma contava propriamente uma história com os fatos necessários a uma história. Eu lia as que eles publicavam, e todas relatavam um acontecimento. Mas se eles eram teimosos, eu também.
Mas desde então eu havia mudado tanto, quem sabe eu agora já estava pronta para o verdadeiro "era uma vez". Perguntei-me em seguida: e por que não começo? agora mesmo? Seria simples, senti eu.
E comecei. Ao ter escrito a primeira frase, vi imediatamente que ainda me era impossível. Eu havia escrito:
"Era uma vez um pássaro, meu Deus".

3 Clariceanos:

Ester disse...

Oi, entrei no blogger depois de ver a reportagem da Folha de SP...
Vcs têm algum trecho de ´A paixão segundo GH?`? Eh tão dificil achar esse livro!

Fernanda Papandrea disse...

Que ama ela tem,meu Deus.

Psilocybe disse...

É... Clarice afirma que o adulto é triste e solitário. Enquanto a criança tem a fantasia, por isso foi tão difícil a ela escrever o "era uma vez" para adultos, Keidy. O adulto é o pássaro que perdeu as asas - passou a andar de carro... ou mesmo táxi como a autora costumava fazer quando cronista. Mas ela não perdeu as asas. Porque você não posta as crônicas dela, algumas são menores e pouca gente as leu. No livro "A descoberta do mundo" tem muitas, além disso elas mostram mais o cotidiano da vida da autora. Uma sugestão!