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A Hora da Estrela (trecho)

[...]
Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?
Quero antes afiançar que essa moça não se conhece senão através de ir vivendo à toa. Se tivesse a tolice de se perguntar "quem sou eu?'' cairia estatelada e em cheio no chão. É que "quem sou eu?" provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto.
A pessoa de quem vou falar é tão tola que às vezes sorri para os outros na rua. Ninguém lhe responde ao sorriso porque nem ao menos a olham.
[...]
Será mesmo que a ação ultrapassa a palavra? Mas que ao escrever - que o nome real seja dado às coisas. Cada coisa é uma palavra. E quando não se a tem, inventa-se-a. Esse vosso Deus que nos mandou inventar.Justificar

Comentários

Anônimo disse…
Obrigado pelo retorno ao meu comentário aqui deixado antes.

Mude,
mas comece devagar,
porque a direção é mais importante que a velocidade.
(...)

Muita gente pensa que esse poema (MUDE) é de autoria de Clarice Lispector. Até o filho dela, Paulo Gurgel Valente, pensa da mesma forma. Parece que os herdeiros todos de Clarice, também. Tanto que chegaram a assinar um contrato com a FIAT "vendendo" ilicitamente esse poema, para que com ele fosse feito (como realmente foi) um comercial veiculado na tv.

E o venderam por quarenta mil dólares, manchando, de certo modo, a honra da maior escritora do Brasil!

Entretanto, seis anos depois de estarem sendo acionados, recusam-se a devolver o dinheiro apropriado indevidamente...

Agora, todos os herdeiros de Clarice Lispector (repito, todos!) estarão sendo acionados judicialmente, em seqüência ao Processo de violação de Direitos Autorais, em que obtive pleno sucesso, com sentença promulgada em 28 de fevereiro de 2008.

Detalhes em http://desafiat.weblogger.com.br

Abraços, flores, estrelas..

Ressalto que nada tenho contra Clarice, coitada. Seus "herdeiros" é que não a merecem...

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