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A Mulher da Voz e Joana (trecho)

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Joana não a olhou mais atentamente senão quan­do ouviu sua voz. O tom baixo e curvo, sem vibra­ções, despertou-a. Fitou a mulher com curiosidade. Deveria ter vivido alguma coisa que Joana ainda não conhecera. Não compreendia aquela entonação, tão longe da vida, tão longe dos dias...
Joana lembrou-se de como uma vez, poucos meses depois de casada, dirigira-se ao marido perguntando-lhe qualquer coisa. Estavam na rua. E antes mesmo de terminar a frase, com surpresa de Otávio, ela parara — a testa franzida, o olhar diver­tido. Ah — descobrira — então ela repetia uma daquelas vozes que ouvira em solteira tantas vezes, sempre vagamente perplexa. A voz de uma mulher jovem junto de seu homem. Como a dela própria que soara naquele instante para Otávio: aguda, vazia, lançada para o alto, com notas iguais e claras. Algo inacabado, extático, um pouco saciado. Tentando gritar... Claros dias, límpidos e secos, voz e dias assexuados, meninos de coro em missa campal. E alguma coisa perdida, encaminhando-se para um brando desespero... Aquele timbre de recém-casada tinha uma história, uma história frágil que passava despercebida da dona da voz, mas não desta.
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