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A Paixão Segundo G.H. (trecho)

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Era com alegria infernal que eu como que ia morrer. Eu começava a sentir que meu passo mal-assombrado seria irremediável, e que eu estava pouco a pouco abandonando a minha salvação humana. Sentia que o meu de dentro, apesar de matéria fofa e branca, tinha no entanto força de rebentar meu rosto de prata e beleza, adeus beleza do mundo. Beleza que me é agora remota e que não quero mais estou sem poder mais querer a beleza - talvez nunca a tivesse querido mesmo, mas era tão bom! eu me lembro como o jogo da beleza era bom, a beleza era uma transmutação contínua.
Mas com alívio infernal eu me despeço dela. O que sai do ventre da barata não é transcendentável - ah, não quero dizer que é o contrário da beleza, “contrário de beleza” nem faz sentido o que sai da barata é: “hoje”, bendito o fruto de teu ventre - eu quero a atualidade sem enfeitá-la com um futuro que a redima, nem com uma esperança - até agora o que a esperança queria em mim era apenas escamo tear a atualidade.
Mas eu quero muito mais que isto: quero encontrar a redenção no hoje, no já, na realidade que está sendo, e não na promessa, quero encontrar a alegria neste instante - 82 83 quero o Deus naquilo que sai do ventre da barata - mesmo que isto, em meus antigos termos humanos, signifique o pior, e, em termos humanos, o infernal.
Sim, eu queria. Mas ao mesmo tempo segurava com as duas mãos a boca do estômago: “não posso!”, implorei para um outro homem que também ele nunca pudera e jamais poderia. Não posso! não quero saber de que é feito aquilo que até agora eu chamaria de “o nada!” não quero sentir diretamente na minha boca tão delicada o sal dos olhos da barata, porque, minha mãe, eu me habituei ao encharcado das camadas e não à simples umidade da coisa.

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