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O Encontro de Otávio (trecho)

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A noite densa e escura foi cortada ao meio, sepa­rada em dois blocos negros de sono. Onde estava? Entre os dois pedaços, vendo-os — o que já dor­mira e o que ainda iria dormir —, isolada no sem-tempo e no sem-espaço, num intervalo vazio. Esse trecho seria descontado de seus anos de vida.
O teto e as paredes uniam-se sem arestas, cala­das, de braços cruzados, e ela estava dentro de um casulo. Joana espiou-o sem pensamentos, sem emo­ção, uma coisa olhando para outra coisa. Aos pou­cos, de um movimento com a perna, nasceu-lhe lon­ginquamente a consciência misturada a um gosto de sono na boca, estirando-se, depois por todo o corpo. O luar empalidecia o quarto, a cama. Um momento, mais um momento, mais um momento, mais um momento. De repente, como um pequeno raio, alguma coisa acendeu dentro dela, disse rapida­mente sem mover um só músculo do rosto: olhe para o lado. Continuou fixando o teto, aparente­mente sem ligar sequer, mas o coração batendo as­sustado. Olhe para o lado. Adivinhava que termi­naria olhando, vagamente sabia o que havia ao lado, mas agia como se não pretendesse olhar, como se ignorasse o resto da cama. Olhe para o lado. En­tão vencida, diante de uma multidão de caras as­sistindo à cena lá do palco, voltou lentamente a cabeça sobre o travesseiro e espiou. Lá estava um homem. Compreendeu que esperara exatamente isto.
[...]

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