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O Tesouro Exposto (trecho)

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NÃO havia um gesto sequer que pudesse exprimir a nova realidade.
E, no meio dessa riqueza, estava Lucrécia Correia despenteada em "robe de chambre", sem conseguir reinar sobre o tesouro, mal adivinhando até onde ia o magnífico porão. Perdera agora certos cuidados consigo, intensa­mente feliz, arrastando-se, espiando, tentando inventariar o novo mundo que Mateus provocara com o brilhante no dedo médio.
Parecia enfim não ter tempo para nada, como as pessoas.
O hotel, onde Mateus e Lucrécia se instalaram, apresentava uma comodidade já fora de moda. Nenhum dos hóspedes porém o trocaria por outro mais moderno. Mesmo a decadência dos salões recordava-lhes o tempo de nobreza e fartura que se teve em família — e sobretudo "a outra cidade" de onde todos vieram.
No hall ornado de palmeiras os frisos das paredes já deixavam ver o fundo podre da madeira, e as moscas na saía de jantar recuavam a grande cidade à época em que havia moscas. Embora, em poucos dias, parecesse à recém-casada não ver há anos uma vaca ou um cavalo.
Foi nesse meio, favorável a um amadurecimento e a uma decomposição, que Mateus instalou regiamente Lucrécia Neves. Logo depois do primeiro almoço esta compreendia o anel do marido.
[...]

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