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Livro de Ângela

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[...] Preciso tomar cuidado. Ângela já está se sentindo impulsionada por mim. É preciso que ela não perceba a minha existência, quase como que não percebemos" a existência de Deus.
Ângela ao que parece quer escrever um livro estu­dando as coisas e objetos e sua aura. Mas duvido que ela agüente o compromisso. Suas observações em vez de serem construídas em livro saem descompromissadamente de seu modo de falar. Como ela gosta de escrever, eu quase não escrevo sobre ela, deixo ela mesma falar.
[...]
— Quanto a mim também me distancio de mim. Se a voz de Deus se manifesta no silêncio, eu também me calo silencioso. Adeus.
Recuo meu olhar minha câmera e Ângela vai fi­cando pequena, pequena, menor — até que a perco de vista.
E agora sou obrigado a me interromper porque. Ângela interrompeu a vida indo para a terra. Mas não a terra em que se é enterrado e sim a terra em que se revive. Com chuva abundante nas florestas e o sussur­ro das ventanias.
Quanto a mim, estou. Sim.
"Eu... eu... não. Não posso acabar."
Eu acho que...

FIM

9 Clariceanos:

Ana Diniz disse...

...Postei meus primeiros agradecimentos num post anterior. Mais uma vez, obrigada pelo selo.

Clarice estende suas mãos sobre minha novela e, antes de tudo, acompanha-me espiritualmente pela vida. O seu universo me abarca, ensina-me caminhos inesperados e irrestritos. Para além do "eu" e do "id"...


ANA DINIZ
relatonatural.blogspot.com

Rafaela Abreu disse...

O selo mais importante da minha vida de blog... muiiiiito obrigada, é lindo e eu adorei!

;)

Boa Semana!

Ana Diniz disse...

Querida Keidy.

Estou te enviando um poema - "Versos Brancos" -, extraído do meu mais antigo livro de poesias - "Buquê de Versos (E Protestos)" - (Ano: 2000). Compus os versos em homenagem à Clarice.

Estou concorrendo então.


Grande Beijo.

ANA DINIZ




XI

Versos Brancos


(ANA DINIZ)


Tenho medo da loucura
Assim como temo esta folha em branco
Espaços vazios
Frio sentimento
Silêncio implacável
Há quanto tempo não te escrevo?

“A coisa estava ótima”
Mas agora nem em Clarice encontro as respostas
Ela está distante
Dorme
Eu te chamo
Grito em silêncio
Rompo com as palavras
Imploro em cem livros...

Onde está você?
Nem Clarice sabe
Ela que dantes tudo sabia
Agora a autora se assusta
Com a pergunta
Com o vazio
E o silêncio desses versos brancos...
Vem-me ajudar, Lispector!
Cá está minha mão.
...

Paixão, M. disse...

Aí vai um poeminha meu:


Sozinhez

Sozinhez é sina
E não vem da sala vazia
Nem da cadeira sem sentante
Nem do bodoque sem menino
Ela não vem de cima
Feito castigo divino
É destino
É por dentro
Nascida e crescida
Banhada em ungüento
De batismo
É cataclismo
Silencioso
Que quase mata
Mas não
(a sádica)
É calo na ponta do coração
Pendendo pro lado esquerdo
E, esporádica,
Causa inqüietância
Medo
Sede
Transparência
Ou cor da mais próxima parede.
Sozinhez é amiga de infância
Mal de filho único
Ou de quem tem mais irmãos
Que os dedos podem contar
E, cadela, é mancomunada
Com todo o silêncio que há
Nos telefones que não tocam
Nas cartas que não chegam
Nas pessoas que não sentem saudade
Nem nada.

Sozinhez não é coisa de idade
É marca de nascença na testa
É maldade
Da simples natural seleção
É festa
Em sótão cheio de fantasma
Esse calo pressionando o pulmão
Essa falta de ar que me pasma.

Sozinhez é asma.

(Milena Paixão)

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dedos cruzados e beijos!

Gerlane disse...

Clarice que fala da paixão como nenhum outro escrito é capaz de fazê-lo.

Obrigada pelo selo, Keidy! É lindo!

Beijos!

Miranda Fowles disse...

não entendi se o texto era pra ser colocado aqui ou mandado por e-mail, mas mandei mesmo assim.

Miranda Fowles disse...

enviando de novo, pra constar, ok?!

Nautilus: 1,618034...

-Não precisa ter medo. É só uma brincadeira.

A casa estava vazia. Apenas as luzes do terraço e da cozinha pareciam estar ligadas. Da penumbra, eu podia sentir as paredes respirando. Assim que dei o primeiro passo em direção ao cômodo, todo o quarto prendera a respiração. Era um quarto pequeno, como todo o quarto de casas habitacionais. Estava escuro, mas havia uma luz forte e branca, provavelmente da lua. Ela entrava pela única janela bem no canto direito da parede em frente a porta. Uma única janela com grades. Por causa dela, a cama encostada no canto oposto era iluminada por grandes losangos, bem como uma espécie de hack onde só se conseguia distingüir um rádio. O rolo de uma fita k7 girava. Não lembro bem da melodia, se havia uma letra, se era cantada ou não. Nem sei direito como sei, mas lembro que eram sons de guitarra e havia uma batida pesada e arrastada. Ele estava bem em frente a mim, mas eu não conseguia ver seu rosto. Tudo o que eu percebia era uma silhueta negra recortada por uma silhueta mais negra ainda do que parecia ser um armário:

-Entra.

Todas as coisas daquele lugar, cheias de sombras, pareciam um único vulto: avisando, avisando. Eu sentia que tudo aquilo eram instantes e que quando esboçasse uma reação, seria muito tarde.
Um único vulto. "Saia já daqui. Saia já daqui."
Desde aquela época, eu tinha uma forte intuição. Mas não tinha força alguma.
Até então, eu só era uma menina que pulava o portão de casa escondido pra poder brincar com os amigos.
Eu só tinha 9 anos.

Alice Salles disse...

Gostaria de participar do portal da Clarice. Como posso fazer?
Um abraco!

http://ilumine.thedharmabum.org/

•— tati nantes disse...

Tudo lindo por aqui, belo como as palaras bem desenhadas de clarice, postei em homenagem a clarice no meu ultimo post!
se pudessem visitar, ficaria honrada!

beijos!