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O Lustre (trecho)

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Sentada à sombra de uma árvore, em breve era rodeada de instantes vazios porque há vários momentos nada sucedia e os segundos futuros nada trariam — pressentia ela. Aquietava-se — não conseguia disfarçar-se o largo bem-estar inexplicável que a aprofundava no próprio corpo pensa­tivo, o ente inclinado para uma sensação delicada e difícil — mas dissimu­lava-se por algum motivo procurando ver as pedras do chão, as sobrance­lhas franzidas, mentirosas, toda ela sonsa e estúpida. Alguma coisa curiosa e fria ocorria-lhe, alguma coisa um pouco sorrindo com desprezo mas atenta de ir até o fim, fazendo-a quase pensar num impulso irônico e fútil: se és como dizes uma criatura viva, move-te... e ela quase desejaria erguer-se e colher uma erva clara um pouco tenra. Dentro de seu rosto as noções sussurravam liquefazendo-se em decomposição — ela era uma menina descansando. Olhava, olhava. Fechava os olhos atentando a todos os pontos indevassáveis de seu estreito corpo, pensando-se toda sem pala­vras, recopiando o próprio existir. Olhava, olhava. Aos poucos, do silêncio, seu ser começava a viver mais, um instrumento abandonado que de si mesmo começasse a fazer som, os olhos enxergando porque a primeira matéria dos olhos era olhar. Nada a inspirava, ela estava isolada dentro de sua capacidade, existindo pela mesma fraca energia que a fizera nascer. Pensava simples e claro. Pensava música pequena e límpida que se alon­gava num só fio e enrolava-se clara, fluorescente e úmida, água em água, meditando um arpejo tolo. Pensava sensações intraduzíveis distraindo-se secretamente como se cantarolasse, profundamente inconsciente e obsti­nada, ela pensava um só traço fugaz: para nascer as coisas precisam ter vida, pois nascer é um movimento — se disserem que o movimento é necessário apenas à coisa que faz nascer e não à nascida não é certo porque a coisa que faz nascer não pode fazer nascer algo fora de sua natureza e assim sempre dá nascimento e uma coisa de sua própria espécie e assim com movimentos também — desse modo nasceram as pedras que não têm força própria mas já foram vivas senão não teriam nascido e agora elas estão mortas porque não têm movimento para fazer nascer uma outra pedra. Nenhum pensamento era extraordinário, as palavras é que o seriam. Ela pensava sem inteligência a própria realidade como se enxergasse e nunca poderia usar o que sentia, sua meditação era um modo de viver. Chegava-lhe informe de si mesma porém ao mesmo tem­po nela tilintava alguma qualidade precisa e delicada como números finos penetrando em números finos e de súbito um novo número leve soando polido e seco — enquanto a verdadeira sensação do corpo todo era expectante. E afinal algo sucedia tão distante, ah tão distante e talvez reduzido a um sim que ela se cansava aniquilada, pensando agora em palavras: estou muito, muito cansada, sabe. Vai, vai, murmurava com certa ânsia algo profundamente saciado e já sabido no seu corpo. Mas para onde? O vento, o vento soprava. Apenas quieta e à escuta, como voltada para o norte ou para leste ela parecia dirigir-se a alguma coisa verdadeira atra­vés do grande formar-se incessante de mínimos acontecimentos mortos, guiando a delicadeza do ser para um sentimento quase exterior como se tocando a terra com o pé descalço e atento sentisse água inacessível rolan­do. Ultrapassava longas distâncias apenas dando-se uma direção imóvel, sincera. Mas não conseguia ser inteiramente aspirada, como por sua pró­pria culpa. Ajudava-se sentindo uma vaga noção de viagem, do dia de partir para a cidade com Daniel, um pouco de fome e cansaço, mal tocava no almoço. Às vezes quase aproximava de um pensamento porém jamais o alcançava embora tudo ao redor lhe soprasse o seu começo; olhava com estranheza o espaço sem mistério, a brisa levantava na sua pele arre­pios de compreensão; um instante ainda penetrava no silêncio buscando no fundo dele um fio por onde se prender. E se um pássaro voava ou o grito de uma ave esguichava da mata próxima, ela era envolta por um turbilhão frio, o vento rodando folhas secas e poeira, vagos inícios inaca­bados, num redemoinho dela e do que já não era ela. Chegara o instante de deixar subir até os últimos nervos a onda que se formava aquém de sua fraqueza e que poderia morrer do próprio impulso. De partícula a partícula, porém, o pensamento indistinto veio descendo violentamente mudo até abrir-se no centro do corpo, os lábios, completo, perfeito, in­compreensível de tão livre de sua própria formação — preciso comer. Tomou-a então a suavidade apenas, mal pousando em seu ser ela poderia caminhar para diante sem ser empurrada, sem ser chamada, andando simplesmente porque mover-se era a qualidade de seu corpo. Era essa a impressão e o estômago aprofundava-se alegre, faminto. Mas continuou sentada. Parecia não saber erguer-se e na verdade dirigir-se, faltava-lhe angustiosamente um sentido. Alongava-se para a distância como se aos poucos pudesse perder a forma — pretendia ouvir as vozes e os ruídos do casarão e inclinava-se para distinguir. Encostava-se de novo à árvore, esfregava um dos pés empoeirados, ultrapassava a compreensão e por uma espécie de esforço irreprimível atingia a incompreensão como uma descoberta. Já inquieta, imóvel, a realidade parecia perturbá-la. Pensava com a voz frouxa da mãe: estou nervosa. Numa apreensão sem doçura, vibrava aridamente na imobilidade caprichosa e histérica. Até que se rom­pia a corda mais tensa, como que uma presença abandonava seu corpo e ela restava aquém de seu próprio existir comum. Empurrada, extraordi­nariamente indiferente e já sem muita fome, esquecia tudo para sempre como quem é esquecida.
Mas o que ela amava acima de tudo era fazer bonecos de barro, o que ninguém lhe ensinara. Trabalhava numa pequena calçada de cimen­to em sombra, junto à última janela do porão. Quando queria com muita força ia pela estrada até o rio. Numa de suas margens, escalável embora escorregadia, achava-se o melhor barro que alguém poderia desejar: bran­co, maleável, pastoso, frio. Só em pegá-lo, em sentir sua delicadeza alegrezinha e cega, aqueles pedaços timidamente vivos, o coração da pessoa se enternecia úmido, quase ridículo. Virgínia cavava com os dedos aquela terra pálida e lavada — na lata presa à cintura iam-se reunindo os trechos amorfos. O rio em pequenos gestos molhava-lhe os pés descalços e ela mexia os dedos miúdos com excitação e clareza. Com as mãos livres, então, cuidadosamente galgava a margem até a extensão plana. No pe­queno pátio de cimento depunha sua riqueza. Misturava o barro à água, as pálpebras frementes de atenção — concentrada, o corpo à escuta, ela podia obter uma proporção exata e nervosa de barro e de água numa sabedoria que nascia naquele mesmo instante, fresca e progressivamente criada. Conseguia uma matéria clara e tenra de onde se poderia modelar um mundo. Como, como explicar o milagre... Amedrontava-se pensativa. Nada dizia, não se movia mas interiormente sem nenhuma palavra repetia: eu não sou nada, não tenho orgulho, tudo pode me acontecer, se... quiser me impedirá de fazer a massa de barro... se quiser pode me pisar, me estragar tudo, eu sei que não sou nada... era menos que uma visão, era uma sensação no corpo, um pensamento assustado sobre o que lhe permi­tia conseguir tanto no barro e na água e diante de quem ela devia humi­lhar-se com seriedade. Agradecia-lhe com uma alegria difícil, frágil e tensa, sentia em... alguma coisa como o que não se vê de olhos fechados — mas o que não se vê de olhos fechados tem uma existência e uma força, como o escuro, como o escuro, como a ausência, compreendia-se ela assentindo, feroz e muda com a cabeça. Mas nada sabia de si própria, passaria inocente e distraída pela sua realidade sem reconhecê-la, como uma criança, como uma pessoa.

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