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O Lustre (trecho)

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Esses eram momentos em que ela sofria mas amava seu sofrimento. Atravessava o dia, a necessidade de cumprir os pequenos deveres, a arrumação dos quartos, a espera, a realidade e as ruas — entre séria e ansiosa, perscrutando-se e ao espaço como se já estivesse misteriosamente ligada a Vicente através da distância. Porque mal acordada sabia que hoje era dia de vê-lo. Talvez não fosse tão subitamente — ela se proporcionava a pequena surpresa para dar-se felicidade mesmo à custa de conservar fechada a consciência e lá encerrada a obscura e estimulante mentira. As primeiras horas queimavam-se difíceis e lentas mas perto das dez da manhã limpa o tempo se precipitava alegre e fugitivo, claro com o dia e num sorriso ela se assistia movendo-se dagora em diante fácil e mansa. Quase não almoçava, era difícil cozinhar só para si e mesmo hoje ela jantaria bem com Vicente — comia uma fruta para contentar a mãe distante. E assim preparava-se para viver-diariamente, disposta a transformar-se no que não era para ficar bem com coisas ao redor. Se Vicente amanhecera informe e áspero ela se conservaria em espera, as mãos delicadas, não se manifestando em nenhum sentido para que ele pudesse mudar sozinho, livre de sua existência. Se ele se mantinha calado e nervoso ela buscava ser larga e apesar de não consegui-lo inteiramente — nem seus olhos um pouco absortos nem seu corpo de gestos pequenos ajudavam essa atitude — Vicente notava seu esforço em apaziguá-lo; e isso tantas vezes bastara para ele sorrir e melhorar com benevolência.

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