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A Mudez Cantada, a Mudez Dançada

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Quase não era canto, no sentido em que este é aproveitamento musical da voz. Quase não era voz, no sentido em que esta tende a dizer palavras. É antes da voz ainda, é fôlego. Uma palavra ou outra às vezes escapava, revelando de que era feita aquela mudez cantada: de história de viver, amar, e morrer. Essas três palavras não ditas eram interrompidas por lamentos e modulações. Modulações de fôlego, primeiro estágio de voz que capta o sofrimento no seu primeiro estágio de gemido, e capta a alegria no seu primeiro estágio de gemido. E de grito. E mais outro grito, este de alegria por se ter gritado. Em torno à assistência aconchegava-se escura e suja. Depois de uma das modulações que de tão prolongada morre em suspiro, o grupo esgotado como cantor murmura um "olé" em amém, última brasa.
Mas há também o canto impaciente que a voz apenas não exprime: então um sapateado nervoso e firme o entrecorta, o "olé" que interrompe a cada instante não é mais amém, é incitamento, é touro negro.

2 Clariceanos:

Daniela Filipini disse...

É muito bonito (:

RogBar disse...

Este texto (completo) é um escândalo! Creio que ninguém, não tendo brotado em chão andaluz, jamais (d)escrevera com tanta propriedade e ousadia de criar imagens, sons, gestos e cheiros em texto tão bem composto. Eu me arrepio a cada vez que o leio. Desde a primeira vez.