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A Maçã no Escuro (trecho)

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Primeira parte: Como se faz um homem
Quatro


Com a nova limpidez da visibilidade, o torpor do homem desapareceu. E como se agora sua energia estivesse a seu pró¬prio alcance e medida, ele se ergue sem nenhum esforço. Uma alerteza impessoal o tomara como a de um tigre de patas ma¬cias. Agora ele era real e silencioso.
Quando chegou ao ponto da encosta de onde só poderia descer, divisou a casa rodeada de terras verdes lá embaixo, como a seus pés, mas num tamanho diminuto que lhe deu uma idéia da verdadeira distância. Começou então a descer o declive, suavemente encorajado nas costas pelo próprio declive. Guiado pela sede como único pensamento, o homem não sentiu os pas¬sos progressivos e achou-se enfim no mesmo nível do seguinte: a casa distante, um outro homem que ao longe estava sentado sob uma árvore, vários cachorros espalhados pelo chão.
Agora Martim viu o casarão em pé de igualdade: era maior do que pensara e havia um denso agrupamento de árvores es¬curas, ele não podia saber a que espaço da casa mas certamente apenas aos fundos desta. O fim escuro do bosque se confundiu com a própria distância, e moveu-se para a frente e para trás aos seus olhos, como para um homem que pisa em terra firme depois do alto-mar.
Com a leveza do cansaço, como se usasse sapatos de tênis, ele avançava. Uma elegância astuciosa já o tomara: ele estava se preparando para defrontar gente. E quanto mais se aproxi¬mava, mais reconhecia aquele quieto tumulto de vida que horas antes ele farejara e ao qual parecia ter dado o nome íntimo de “ideal” — e que agora, mesmo ainda não dividido em sons, lhe era familiar. Sem a falsa alegria do alto da encosta, que se tor¬nara apenas morto passado, e sem nenhuma promessa; mas assegurador como um lugar onde há água. Sua tontura radiosa do alto da encosta já se transformara em sede apenas, e em indistinta esperteza. É verdade que o roxo céu altíssimo ainda o embebedava um pouco.
Ele avançava flexível. A essa altura sua cabeça vazia já não lhe era mais de nenhum socorro. Na verdade seu avanço parecia ser guiado unicamente pelo fato daquele homem estar entre terra e céu. E o que o sustentava era a impessoalidade extraordi¬nária que ele alcançara, como um rato cuja única individualidade é aquilo que ele herdou de outros ratos. Essa impessoalidade, o homem a manteve em leve repressão de si próprio como se soubesse que, do momento em que se tornasse ele mesmo, cairia emborcado no chão. A própria extrema individualidade que ele tinha alcançado na montanha não devia ter sido senão um es-pasmo da cega totalidade com que ele avançava: levitado pelo cansaço, transladava-se sem sentir os pés tocarem no chão, tendo como único ponto fixo a esperá-lo a nítida casa cada vez maior, cada vez maior. Muito erguida dentro daquela finura de ar que a envolvia e que seria, por mais intocável, o que tanto prende¬ria aquele homem àquele lugar.
Embora soubesse que os cães inquietos já o haviam pres¬sentido, postou-se atrás de uma árvore para observar. Afastando ramos podia investigar bem a situação da casa, agora totalmente visível. O que o confundia é que, bem maior que a casa, era a formiga na folha perto do olho que espiava, emoldurando — eqüestre, ruiva, monumento de um instante — a sua visão. Martim sacudiu várias vezes a cabeça até se libertar do tamanho que a monstruosa formiga tomara.
O andar mais alto da casa não acompanhava a extensão maior do andar térreo, e alteava-se em canhestra torre. Martim, na sua vida anterior, aprendera a almejar torres; sentiu, pois, uma grande satisfação. À beira da casa, tufos de margarida for¬maram a seus olhos cansados nuvens amareladas e vacilantes.
Mas se com a aproximação a casa ganhara em nitidez, per- dera a síntese anterior da distância. E de detrás da árvore o olhar do homem não conseguiu reunir numa única visão a falta de lógica do que via: um alpendre coberto de telhas, janelas que o simples cálculo não lhe ajudou a descobrir para onde po¬deriam dar, portas que estavam entreabertas para ele nada per¬ceber senão a sombra criada pela distância; cercas delimitando cantos que não seriam cantos se não houvesse as cercas arbitrá¬rias. Via-se que aquilo tudo se fizera aos poucos, acrescentando-se à mercê da necessidade ou da fantasia. Era um lugar pobre e pretensioso. Ele gostou logo.
Dando-se conta do que poderia haver de suspeito em estar escondido atrás da árvore, o homem afinal se expôs. Sem sentir, abrira um pouco os braços demonstrando que era indefeso. E à medida em que avançava — recebido pelos cachorros que agora latiam furiosos — percebeu de longe a figura indistinta movendo-se no alpendre.
Já perto dele, porém, estava o homem sentado no chão sob a árvore. O homem comia, e o cheiro de comida fria nau¬seou Martim de desejo. Seu rosto se tornou urgente, tímido e vil como quando uma cara implora. O cheiro voltou-lhe cru ao nariz, ele quase vomitou de nojo, tão puro estava de comida. Mas seu corpo ganhara um impulso novo, os passos difíceis o ultrapassaram — e em breve ele estava à frente do homem, olhando-o com minuciosa sofreguidão.
Sem interromper o mastigar, o trabalhador olhava fixa¬mente para os próprios pés descalços como se deliberadamente não visse o estranho. Com a agudez que a fome dera à sua per¬cepção, Martim não se deixou ludibriar: uma comunicação muda se estabelecera entre ambos como dois homens numa arena, e aquele que não o olhava aguardava para poder saltar. Um leve prazer de raiva tomou então Martim, em vaga promessa de luta que ele só conseguiu manter por um instante. Ter tido uma sensação de força cobriu sua testa de suor frio. Uma alegria levíssima pôs-lhe algum cinismo no rosto.
— De quem é este sítio? perguntou cedendo afinal ao silêncio mais poderoso do outro.
O homem descalço não estremeceu sequer. Afastou deva¬gar o prato, enxugou a boca farta:
— Isto tudo é dela, disse lento fazendo um gesto com a cabeça, e Martim, seguindo com os olhos franzidos a direção apontada, viu agora de mais perto a figura no alpendre. Sou daqui também, acrescentou o homem acompanhando a infor¬mação com um falso bocejo.
Quem fizesse o primeiro movimento dúbio teria dado di¬reito ao outro. A tarde estava linda, clara.
— Eu me perdi, disse Martim suave.
— Saindo de Vila muita gente se perde por aqui, disse o outro ainda mais suave.
— De Vila?
— De Vila Baixa, disse o homem apontando vagamente a cabeça para a esquerda, e pela primeira vez erguendo os olhos com uma desconfiança declarada.
Martim olhou, e à esquerda nada havia senão a infinita extensão de terra, o céu mais baixo e mais sujo. Sentindo-se examinado, tornou-se ainda mais macio:
— Foi o que me aconteceu, disse. Vou voltar para Vila Baixa. Mas antes queria um pouco d’água. Quero água! disse-lhe então arriscando-se totalmente.
O homem olhou-o com fixidez. Em trégua de luta mediu a sede do outro. No seu olhar não havia misericórdia mas humano reconhecimento — e, como se as duas lealdades se encontrassem, olharam-se limpos nos olhos. Que aos poucos foram se enchendo de alguma coisa mais pessoal. Não era ódio — era um amor ao contrário, e ironia, como se ambos despre¬zassem a mesma coisa.
— Só lá dentro, disse afinal o trabalhador. Ergueu-se com uma dificuldade fingida e uma lentidão deliberada. De pé, por um instante os estranhos se mediram com o olhar. A raiva mútua fez com que se olhassem e nada tivessem a se dizer. Embora um permitisse a raiva no outro como inimigos que se respeitam antes de se matarem. Mais fraco que a tranqüila potência do outro, Martim foi o primeiro a desviar os olhos. O outro aceitou sem tirar proveito. Martim, de novo experimentando o cálido contato de uma aversão, co¬meçou a andar rumo a casa, seguido a certa distância pelo vencedor e sentindo na nuca a sua ameaça calma.
Os cães rosnavam indecisos, contendo o esfogueteamento e a alegria de uma luta. A tarde toda, aliás, era de uma grande alegria tranqüila. Um cachorro manco se agregou penoso aos outros, numa aflita expectativa de inválido. Tudo era suave e estimulantemente perigoso, no fundo ninguém parecia se impressionar com o que estava acontecendo, e todos apenas gozavam a mesma oportunidade. As coisas rodavam um pouco, felizes fora de hora. Por Deus, nunca vi nada tão redondo, pensou o homem entontecido. Um cão mais negro de repente afundou a tarde como se Martim tivesse caído num buraco insuspeito. Foi esse cão que o alertou vagamente e pareceu lhe lembrar outras realidades. Ele se sentia tão leve que estava mesmo precisando amarrar uma pedra no pescoço. Então for¬çou-se com dificuldade a lembrar-se. Mas, para a sua própria desvantagem, o lugar era bonito demais, e para a sua própria desvantagem ele estava se sentindo bem — o que lhe tirava da percepção a sua principal utilidade de luta.
O sítio ou fazenda não era muito grande, se se considerasse apenas a parte coberta de trabalho: algumas casinholas quebra¬das, o curral, o campo lavrado. Mas seria enorme se também se contasse com as terras largadas que, em alguns pontos, só para assinalar posse, a cerca mal traçada delimitava. O verde das árvores se balançava sujo, folhas novas espiavam entre as empoeiradas.
As raízes eram grossas e cheirosas naquele fim de tarde — e provocaram em Martim uma inexplicável fúria de corpo como um amor indistinto. Faminto que estava, os cheiros o excitavam como a um cachorro esperançoso. A terra, numa promessa de doçura e submissão, parecia friável — e Martim, aparentemente sem outra intenção que a do contato, abaixou-se e quase sem interromper os passos tocou-a um instante com os dedos. Sua cabeça se tonteou ao contato delicioso da umi¬dade, ele se apressou de boca aberta. Mais perto da casa, viu que o alpendre estava agora vazio. O telhado do curral caía aos pedaços, parecia em certos pontos sustentado apenas pela pró¬pria altura do gado invisível, cujos movimentos revolviam len¬tamente a luz vazia.
A água da lata enferrujada escorreu de sua boca para o peito, ensopou a roupa dura de poeira. Do curral veio de novo um tranqüilo mover-se de patas. O sol desaparecera, e uma claridade infinitamente delicada dava a cada coisa a sua calma forma final. Uma casinhola à parte tivera uma porta, cuja lembrança não existia mais senão nos gonzos vazios. Martim molhava o rosto e os cabelos — e mais adiante estava a coberta tosca de garage...
Tendo chegado ao tenso limiar do impossível, Martim re¬cebeu o milagre como o único passo natural ao seu encontro. Não havia como não aceitar o que acontecia pois para tudo o que pode acontecer um homem nascera. Ele não se perguntou se o milagre era a água que o encharcava até a saturação, ou o caminhão sob a garage de lona, ou a luz que se evaporava da terra e da boca iluminada dos cães. Como um homem que alcança, ali estava ele exausto, sem interesse nem alegria. Estava envelhecido como se tudo o que lhe pudesse ser dado já viesse tarde demais.
Sob a coberta, o caminhão velho mas perfeitamente limpo e cuidado. E os pneus? ocorreu-lhe. Seus olhos míopes não distinguiam os detalhes dos pneus. A dificuldade, enchendo-o da dúvida da esperança, rejuvenesceu-o. Depositou fascinado e lento a lata na terra e, com os cílios gotejando, examinou o caminhão, abaixou-se para olhar os pneus calculando suas possi¬bilidades em termos de quilômetros.
— Que é que o senhor deseja, perguntou uma voz baixa e serena.
Sem susto nem pressa, Martim voltou o corpo todo. E seu rosto defrontou um rosto inquisitivo de mulher. Atrás de si, sentiu o homem parado em guarda. Acercou-se do alpendre, gingando devagar. A fome acendia-lhe os olhos em grande ma¬lícia, os lábios escuros sorriam rachando. Ao pé do alpendre, o chão estava coberto de papoulas púrpura, caídas e amontoa¬das. Aquela visão pareceu ao homem a da fartura e da abastança. Olhou as flores vivas, umas despetaladas, outras ainda por abrir em desperdício tranqüilo: seus olhos piscaram de cobiça. Percebia tudo ao mesmo tempo, gingando, gozando a limpidez dos olhos que era a da própria luz.
Mas, sem que soubesse de onde, aparecera de alguma parte uma mulata moça de cabelos enrolados em cachos, e que ali se postara com olhos rápidos, rindo. Não só Martim não sabia de onde ela viera, como em que momento aparecera — o que fez com que ele tomasse cautelosa consciência da possibilidade de outras coisas estarem também lhe escapando. Os cachorros haviam se aproximado arfando, sem coragem de atacar. O vento e o silêncio os rodeavam. O homem sungou o cinturão.
— Então, que é que o senhor deseja.
— Eu estava olhando, respondeu sem pudor.
E aprumou o torso fazendo um esforço de ser citadino.
— Disto eu sei, disse a mulher do alpendre.
— Ele estava com sede, é o que diz, falou o homem atrás de Martim, e a mulher ouviu-o sem no entanto desviar os olhos do estrangeiro.
— Já bebi, disse este com alguma candura, apontando a lata vazia. O sol estava quente, acrescentou mudando a posição das pernas.
Martim tinha uma qualidade de cujo gozo não usufruía porque essa qualidade era ele próprio — uma qualidade a que, em determinadas circunstâncias favoráveis, poucas mulheres resistiriam: a da inocência. O que despertava certa cobiça cor¬rupta numa mulher que é sempre tão maternal e gosta de coisas puras. Salvaguardada a pureza, a mulher era um ogre. A mulher do alpendre olhou-o então com muita frieza:
— Que o senhor bebeu, eu também sei.
De algum modo tudo o que ainda iria suceder àquela mu¬lher já estava acontecendo naquele instante. Ele o percebeu do seguinte modo indireto: passou a mão pela testa.
O excesso de água bebida borbulhava dentro dele, e deu-lhe uma náusea que se confundiu com uma avidez de sono ou de vômito, e a seu rosto uma bondade de sofrimento, como uma auréola:
— Bem, disse então Martim virando-se sem pressa, adeus. Vitória pareceu despertar:
— Que é que o senhor queria?
O olhar de ambos se cruzou e se penetrou sem que um encontrasse nada no outro, como se os dois já tivessem visto muitos outros rostos. Ambos pareciam saber por experiência que aquela era uma das muitas cenas a serem esquecidas. E como se ambos soubessem o que significa essa capacidade de isenção, sem se dar conta do motivo, um procurou calcular a idade do outro. A mulher há muito passara dos cinqüenta. O homem estava pelos seus quarenta. A mulata esperava rindo. Parte da cabeça do homem continuou teimosamente ocupada em procurar determinar o elo que lhe escapara: em que mo¬mento a mulata aparecera?
O que fez com que de novo ele perdesse outro elo impor¬tante: passos miúdos se tinham aproximado e Martim mal teve tempo de distinguir a figura de uma menina preta antes que esta se escondesse como um pássaro dentro de uma moita.

2 Clariceanos:

Anônimo disse...

Boa noite. Gostaria de saber se o poema " Há momentos" é da autora Clarice Lispector?

Blog Clarice Lispector disse...

Olá,

Clarice Lispector jamais escreveu poemas.

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