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A Maçã no Escuro (trecho)

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Primeira parte: Como se faz um homem
Cinco

Vitória era uma mulher tão poderosa como se um dia tivesse encontrado uma chave. Cuja porta, é verdade, havia anos se perdera. Mas, quando precisava, ela podia se pôr instantaneamente em contato com o velho poder. Já sem nomeá-lo, ela por dentro chamava de chave aquilo que sabia. Não se indagava mais o que tanto soubera; mas vivia disso.
Foi, pois, procurando o auxílio de tudo o que sabia que ela mais tarde olhou absorta o prato de comida que o homem esvaziara na cozinha. Tentou também imaginá-lo a instalar a porta do depósito de lenha. Ela lhe dera a porta do depósito, grande e estranho objeto a se dar. Como a vinda totalmente imprevisível do homem já tinha quebrado um certo círculo de ordem em que ela se movia como dentro de uma lei, com relutância foi obrigada pelo menos a reconhecer que alguma coisa sucedera, embora não soubesse dizer o quê. Então pensou, um pouco constrangida com seu próprio ato livre, e de algum modo curiosa: “é a primeira vez que dou uma porta a alguém”. O que a enraizou numa sensação sem saída. Era a segunda vez que o homem a perturbava.
Sem saber o que fazer com o pensamento sobre a porta, saiu deste procurando imaginar que o homem devia agora estar adaptando-a com dificuldade nos gonzos enferrujados. Prova¬velmente mantendo aquele mesmo rosto de cansaço e quase riso, e aquela infantilidade impudica que os gigantes têm. Ou, quem sabe, talvez trabalhando na instalação da porta com aquela mesma concentração remota com que engolira, numa minúcia de migalhas, a comida. Há muito tempo a mulher não via a fome, e, olhando agora o prato vazio, franziu as sobrancelhas. Ela não conseguiu determinar em que momento é que sentira a crueldade daquele homem. Olhando o prato vazio, pensou então como se pensa de um cachorro: ele é cruel porque come carne. Mas talvez a impressão de crueldade viesse de que, diante do alpendre, ele estava com fome e no entanto sorria: via-se a fome na sua cara mas ele, numa capacidade de crueldade feliz, sorria. Não ter carinho por si mesmo era o começo de uma crueldade para com tudo. Ela o sabia em si mesma. Mas ela, ela pelo menos possuía tudo o que sabia.
Pela primeira vez então, com uma desagradável clareza que não pôde ocultar de si por mais tempo, a mulher percebeu que o homem não procurara lhe dar a menor garantia nem lhe prometera nada. Ela mesma tomara a si todos os riscos. Como quando um dia, cuidando com mãos hábeis de um ca¬chorro ferido — este perdera os sentidos. E ela, sentindo no regaço o inesperado peso total do cão, erguera os olhos solitá¬ria e responsável junto daquele corpo sem alma que era agora inteiramente dela, como um filho. Aquele homem que ali caíra em todo o seu peso.
— Velha precipitada, disse de súbito muito fatigada em¬purrando o prato sujo; a falta de amor por si mesma a envolveu com altivez.
E como anunciaria a Ermelinda o novo homem, sem que esta ficasse feliz? Mas este seria problema para resolver mais tarde. Agora, o que importava com uma urgência inexplicável, era tentar adivinhar que cara o homem fazia enquanto insta¬lava a porta. Sem ligar um fato a outro, foi examinar a gar¬rucha. Estava precisando de limpeza e óleo. Na velha arma a senhora se concentrou durante algum tempo com seu rosto obstinado e severo, sentada na cozinha. Era um rosto de quem fez da própria desistência uma arma e um insulto para os outros.
O pior ainda era, porém, avisar a Ermelinda. “Um tra-balhador a mais não tinha importância, embora fosse resisten¬te”, pensou Vitória argumentando relutante e convencendo-se aos poucos — pois tantas vezes um ou dois homens trabalha¬vam por um mês e iam embora; havia três dias ainda dois homens tinham se despedido. Por que hesitava então? Talvez porque tivesse que confessar a Ermelinda que o homem era, ou dizia ser, engenheiro. E se a ela própria pouco importava — pensou sombria, e acusando-o de ser engenheiro — contanto que ele trabalhasse, já que Francisco se encarregaria de vigiá-lo, a Ermelinda o fato iria...
“Contratei um homem, ele diz que é engenheiro mas tra¬balha em qualquer coisa!”, imaginou-se falando com aspereza para cortar qualquer comentário da prima. De que comentário tinha medo? Parou de limpar a garrucha, e olhou sonhadora e dura para o ar. Ou dizer-lhe apenas: “Ermelinda, tem mais um trabalhador que vai dormir no depósito de lenha, de modo que de agora em diante você não pode mais ir lá, é quarto dele”.
Nenhuma das frases pareceu-lhe bastante definitiva para cortar a exclamação de arrebatamento de Ermelinda. E, ao imaginar o rosto enlevado da prima, a senhora subitamente desviou o seu da imagem pressentida como se não a suportasse; sem poder impedir que dentro de si, quase com fúria, seu coração começasse a bater de espanto. Mas tendo transferido para Ermelinda o desgosto que sentia contra a própria estu¬pidez, sentiu-se sem culpa nenhuma; e, livre para ter raiva, passou a não tolerar a curiosidade com que a prima ouviria a notícia. Não era o que Ermelinda ia dizer o que antecipada¬mente a enchia de rancor; pois na verdade nunca pudera sequer reproduzir uma frase concreta da moça. Era a expressão de extrema alegria disfarçada desta, mal acontecia alguma coisa. E era sentir-se forçada, por ter que lhe explicar a presença do homem, a entrar de novo em intimidade com aquela cara que revelava astúcia e suave insídia — como se no nebuloso sistema da prima os meios de contato de uma pessoa nunca pudessem ser diretos, porque também o perigo e a esperança fossem indiretos. Ermelinda parecia estar sempre escondendo que compreendia. E seu rosto se mantinha quase deliberada-mente informe e suspenso — à espera de uma confirmação?
Oh não, não era isso. O que era então? Fora uma infância de doença o que fizera aquela moça se desenvolver na sombra? essa infância de fraqueza que Ermelinda guardava como se fosse o seu tesouro.
Mas nada disso a explicava. E ao pensar em Ermelinda sem ao menos vê-la, esta parecia se esquivar ao pensamento dos outros. E mal Vitória a acusava, embora apenas mentalmente, Ermelinda parecia de súbito apresentar-se inocente e espantada. Como conhecê-la jamais? Qualquer contato direto era impos¬sível. Era surpreendente como, se Ermelinda estivesse pensando no inexplicável ódio que sentia por pássaros e lhe perguntas-sem em que estava pensando, ela apenas responderia que estava pensando em “‘pássaros”. Era surpreendente como a única solu¬ção seria não lhe perguntar nunca. Ermelinda agia como se uma árvore fosse azul — mas se Vitória lhe perguntasse de que cor era uma árvore, ela responderia imediatamente, piscando de esperteza, que a árvore era verde. O que Vitória se indagava era se Ermelinda realmente sabia que a árvore era verde — ou se apenas sabia que Vitória achava a árvore verde. O jeito seria nada lhe perguntar. Como conhecê-la jamais? “O que é que faz com que eu, não fazendo um ato de maldade, seja ruim? e Ermelinda, não fazendo um ato de bondade, seja boa?” O mistério das coisas serem como nós sabemos que elas são, deixou a senhora bastante absorta.
Durante toda a permanência de Ermelinda na fazenda, Vitória não conseguira interessá-la nos trabalhos diários nem sacudir a calculada doçura com que a outra disfarçadamente esperava. E isso sem que Ermelinda tivesse uma vez sequer dito “não”. O fato de ter passado “a infância presa ao leito” parecia lhe ter dado para sempre o direito de uma vagabunda¬gem que não se executava sem certa minúcia de ritual, e só aos viciados não escapavam as secretas delícias do vício — Vitória, fascinada, via a outra cuidar de seu ócio com precisão e vagares de carinho.
No começo, paralisada pelo modo de ser da outra, Vitória se deixara arrastar pelo que a visitante trouxera para o sítio quase transformando-o. O medo do escuro — aquela escuridão tranqüila que depois da chegada da prima ganhara uma po¬tência informe. E a alusão disfarçada à morte como se esta fosse um segredo a não ser jamais confessado. E a esperança. O medo, a morte, a esperança. Uma esperança que se concre¬tizava em aguardar acontecimentos, como se o imprevisível estivesse ao alcance da mão. “De um momento para outro podia acontecer alguma coisa” — fora isso talvez o que se insinuara na fazenda, e fora isso o que por um tempo conta¬giara Vitória. Até que esta, em súbita cólera, despertara afinal, e recomeçara sua própria vida.
[...]
É possível que se Ermelinda tivesse conseguido explicar o absurdo do que queria dizer e se a outra conseguisse entender — então a paz se fizesse entre ambas, ou pelo menos o cansaço. Mas Vitória lhe respondera que “a infância presa ao leito” não fazia com que Ermelinda deixasse na verdade de ser forte como um cavalo; ao que a outra, inesperadamente, abaixara olhos modestos — o que intrigara Vitória que, após um instante de surpresa, voltara a acusações mais graves. Ermelinda, ator¬doada pelo mugido das vacas assustadas ao vento, começara então a falar em carrascos — o que levara Vitória a dizer com muita ironia que, “pelo que sabia”, seu marido não tinha sido nenhum carrasco, “que ele lhe dera tudo, que nada faltara a Ermelinda enquanto o homem fora vivo”; o que levara Erme¬linda a dizer que tinha tido o melhor dos maridos e que não admitia que falassem mal de um morto; ao que Vitória acrescen¬tara que nunca lhe ocorreria falar mal de um homem que su¬portara durante anos que a mulher o chamasse de “minha flor”; o que levara Ermelinda a chorar de saudade — ambas desespe-radas pelo vento insuportável, pela poeira que entrava na sala, as nuvens se fechando baixas e fazendo escuridão súbita.
E quando a água enfim desabara, fazia tanto barulho que elas teriam podido continuar a falar sem gritar. Com o vento amainado e mais fresco, o suor começara a secar agradavelmente — e uma paz repentina se estabelecera entre ambas como se tivessem chegado a uma conclusão. Altiva, coberta de vergonha, Vitória saíra da sala. E passara a evitar a prima. Algumas pessoas conseguiam fazer isso com ela: fazer com que ela as odiasse e se odiasse. Vitória não as perdoava. Essas pessoas estavam no seu caminho. Depois, como se já tivesse acontecido o máximo que poderia acontecer entre ambas, elas não se precisaram mais.
Mas esse único contato direto sucedera havia muito tempo. E sua incompreensível memória não ajudou Vitória, sentada na cozinha, a encontrar um meio de anunciar a Ermelinda a vinda de mais um trabalhador. Com olhar estóico, ela segurava a garrucha; suportando tudo o que sabia. “Com a chave ge¬lada junto do coração, grito de meu castelo”, pensou ela bonito, porque se não desse magnificência ao mundo estaria perdida. Ela tornava magnífico o que ela sabia — mas o que sabia já se tornara tão vasto que mais parecia uma ignorância. A esta, por um instante, ela sucumbiu:
— Se eu pudesse dar um tiro e a chuva então desabasse, pensou por um instante em que a cabeça falhou em fadiga.
Porque da lembrança da cena com Ermelinda ficara-lhe apenas a visão da chuva abençoada desabando. E seria tão necessária agora outra grande chuva, pensou com a força de novo reassumida como se desse uma ordem ou como se de novo tivesse tocado em si a chave. O milharal talvez secasse antes da colheita... E secasse o capim para o pasto. Talvez não, indagou com os olhos no céu.
Mas o céu alto e a diária relutância do poente em se fazer noite — nada prometiam senão a probabilidade de mais uma seca. É verdade que a terra ainda estava úmida. E o verde viçoso. Mas por quanto tempo? Há dias Vitória fingia não perceber que havia menos sapos: eles já estavam desertando... E que pouco a pouco as cigarras enchiam persistentes o cre¬púsculo. Mas a mulher encarou o ar com luta; é que os pássaros ainda não haviam emigrado! O que alargou seu olhar na dureza da esperança, como se a autoridade de sua fé impedisse a deserção das aves. Enquanto estas estivessem por ali, ela se conservaria silenciosamente batalhadora.
Enfim — suspirou de repente alquebrada — quanto antes falasse com Ermelinda melhor seria, para evitar que esta des¬cobrisse sozinha e viesse pálida avisar: “há um homem no depósito de lenha!” Não suportaria essa frase estúpida. E só em imaginar ouvi-la, seu impulso agora seria o de despedir a prima como se despede uma criada.
Passando pela sala para subir ao quarto de Ermelinda, viu-a, porém, pela janela, ajoelhada diante da roseira nova. Parou um instante para olhá-la antes de se dirigir ao terreiro — com aquele hábito inútil que tinha de examinar as pessoas quando estas não se sabiam examinadas. Espiou um instante, suspirou de novo heróica, e, como se fosse obrigada a chegar a uma conclusão, já que a olhara, pensou: “ela é moça, é por isso que ainda tem medo; ela é moça, é por isso que tem medo da morte”. Mas eu também tenho direito de ter medo! disse-se escura, reivindicando. Era como se a outra ainda pudesse ser ofendida. E ela, ela nunca mais seria.
Parou junto de Ermelinda. Sabia que esta já a tinha visto se aproximar, embora não tivesse sequer erguido os olhos; como se assim devesse agir alguém que tem medo do escuro ou que foi iniciada no espiritismo e no segredo de um modo de viver.
A moça, fingindo que só agora ouvira os passos, levantou enfim um rosto sonso de surpresa. E era como se a doçura dessa mentira tivesse feito seu rosto atingir uma expressão ao mesmo tempo de desamparo e dádiva — e tudo tudo era fingido. Vitória fechou as mãos dentro dos bolsos da calça:
— Que é que você está fazendo, perguntou tranqüila.
— Podando a roseira brava.
— A roseira não assusta você? perguntou suave; tinha necessidade de ferir aquela moça ajoelhada como se esta fosse a culpada do absurdo dela própria ter contratado o homem.
— Esta não: esta tem espinhos. Vitória franziu as sobrancelhas:
— E que diferença faz se tem espinhos?
— É que só tenho medo, disse Ermelinda com certa voluptuosidade, quando uma flor é bonita demais: sem espinhos, toda delicada demais, e toda bonita demais.
— Não seja tola, disse Vitória com brutalidade, é de qualquer modo no corpo que se passam as coisas! E se você ajudasse nos trabalhos não teria tempo de ter horror de rosas bonitas ou de detestar a fazenda!
— E você gosta muito da fazenda? perguntou a outra maciamente.
— Tem um homem no depósito de lenha! cortou Vitória. E como se tivesse dito algo que até este momento nem
ela própria soubesse, ficou olhando espantada, ferida. Refez-se logo:
— Ele diz que é engenheiro, o motivo de estar aqui é que deve estar mesmo sem trabalho. Vou aproveitá-lo em mil ta¬refas. Francisco vai ficar de olho nele.
Tinha dito. Fechou os olhos um instante com cansaço e alívio. Quando os abriu, viu que Ermelinda se interrompera com a tesoura no ar, e seu rosto — seu rosto de novo atingira uma extrema nota aguda e tenra como se para chegar um dia a essa expressão é que um rosto tivesse sido feito. “E eu”, pensou Vitória, “que sei tudo, e tudo o que sei envelheceu na minha mão e se tornou um objeto.” Ela abafou a voz como pôde:
— Que foi? que foi que eu disse de tão extraordinário para você ficar assim?
Ermelinda estremeceu:
— Você não disse nada, você disse que tem um homem no depósito! obedeceu ela depressa.
— Pois então, se está podando roseira, que é trabalho inútil quando a seca vem aí, continue a podar! exclamou sem se conter. E não fique radiante! — sem conseguir mais se interromper, prosseguiu: radiante, sim! disse com dor, de novo você está pensando que hoje é um grande dia! basta uma batida de palmas e você se alegra, e me assusta! é um homem que veio trabalhar, se não prestar vai embora, e se ele pensa que por ser engenheiro vai mandar, está muito enganado! e é só isto, não passa disto!
Ermelinda fingiu estar tão surpreendida que a olhou de boca entreaberta. Ou estava realmente surpreendida, não se poderia nunca saber. “Fui muito repentina”, pensou Vitória. Ermelinda examinou-a de lado, fugaz — e recomeçou o vago trabalho junto à roseira, e era como se quisesse ser tão discreta a ponto de não lhe dar a perceber que a entendia; Vitória enrubesceu, atingida.
Algum tempo se passou. Ficaram em silêncio, sentindo o vento suave rodar em torno delas. A escuridão se fazia aos poucos. Por um instante o perfume das rosas deu doçura e meditação às duas mulheres.
— As flores, disse Ermelinda envolvida pela desmaiada ânsia da penumbra, as flores, disse ela.
— “As flores assombram o jardim”? indagou Vitória atenta.
— Não é? exclamou Ermelinda surpreendida e grata, você sempre diz tão bem! disse bajuladora.
Vitória estava calma. Olhou-a- profundamente, de novo isenta de tudo aquilo que aquela moça era:
— Eu mesma nunca disse isso. Mas já que moramos junto tive que aprender sua linguagem.
— Por que é que ele diz que é engenheiro? perguntou a outra muito cuidadosa.
— Ah, eu sabia. A pergunta tinha que vir.
— Mas que foi que eu disse agora de errado? — e uma inocência quase real infantilizou um rosto implorante; mas am¬bas sabiam que tudo era mentira.
— Ermelinda, disse Vitória fechando os olhos bravamente, há três anos você diz: “tenho medo de passarinhos”. Há três anos você diz: “que coisa esquisita quando a árvore se mexe”. Há três anos eu ouço até os seus silêncios. E não suporto mais sua infância no leito, isso não lhe dá direitos sobre mim. Ah, não me interrompa: já sei que da cama você tinha tempo de ver os pássaros pela janela e de ter medo deles! Moramos junto, está bem, você tinha que morar em alguma parte; também sei que você uma vez cuidou de meu pai, mas também sei que foram apenas os três dias de que precisei! sei de tudo. Mas eu disse claramente a você que — queria calma, queria — queria calma. Senão por que é que eu não vendi o sítio quando titia morreu? responda! por que é que não vendi e vim para cá, já que nem conhecia isto aqui direito? E se tivesse vendido, teria dinheiro na mão e continuaria a morar na ci¬dade. É isso mesmo — acrescentou admirada — e eu teria ficado onde sempre vivi... — Vitória despertou com súbita violência: O que esqueci de perguntar era se você também que¬ria calma quando veio para cá. Este, Ermelinda, é um lugar para uma pessoa serena como eu. Não, não responda. Não importa. Há três anos você me incomoda, tenho que lhe dizer isto. E hoje lhe digo ainda mais: basta. Você altera minha vida com suas — com sua espera. É intolerável. Isso já não se chama há muito de calma. É como se eu estivesse criando ratos em casa, eles correm sem que eu veja, mas eu sinto, ouviu? eu sinto os pés deles — seus pés, Ermelinda — fazendo a casa toda vibrar.
— Para que você quer calma? desviou Ermelinda mali¬ciosa, tentando lisonjeá-la com uma careta de graça.
— Quero silêncio, quero ordem, quero firmeza — e en¬quanto ela falava parecia-lhe cada vez mais absurdo ter admitido um homem totalmente estranho como trabalhador. — Pelo amor de Deus, não diga que tem hoje um pressentimento só porque o homem foi contratado numa quinta-feira! Diariamente você tem pressentimentos. Antes era o seu papagaio dando gritos secos que pareciam arranhar minha garganta, mas ele felizmente morreu. Seu papagaio, seus pressentimentos, sua gentileza, seu medo de morrer, isso mesmo! seu medo de morrer.
A outra estremeceu um rosto inquieto:
— Você acha que vem seca de novo? cortou depressa, pálida.
Vitória estacou, desequilibrada pela interrupção. Seca?
A mulher ruim olhou a doçura com que a noite vinha, úmida e cheia, esse modo como em certa hora o mundo nos ama. Era março e uma palidez vertiginosa alargava a amplidão. Perturbada ela sentiu o cheiro podre que vinha das valas. Na escuridão nascente as valas pareciam precipícios que arrastaram invencivelmente seu olhar para uma meditação vazia e involuntariamente suave. A extensão das terras era ilimitada, repousada. . . E no depósito de lenha ela viu com sobressalto alumiar-se a lanterna.
A luz ora se erguia, ora quase se extinguia. Com uma intensidade onde havia ânsia e aspiração, a mulher se entregou à luta da lanterna como se fosse obscura luta sua. A luz afinal, quase a se apagar, sobreviveu. A princípio trêmula, enevoada. Em torno a escuridão total se fizera.
— Seca? repetiu a mulher olhando o depósito como se não o visse. Talvez não, disse absorta. O que tem que ser, tem muita força.

1 Clariceanos:

Felicidade Clandestina disse...

Clariceanos,
o blog A Arte da Literatura mudou de link, agora é: http://consideracaodopoema.blogspot.com/

Penetra surdamente no reino das palavras.

Obrigada, abraços a todos e boas leituras.