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A Maçã no Escuro

Segunda parte: Nascimento do herói
Quatro

Nesse intervalo amanheceu.
E abrindo a primeira vala na luz da manhã, ao mesmo tempo que as mãos grossas lhe obedeciam, Martim já começara a se aplicar num trabalho de infinita exatidão e vigilância. Que era o de açambarcar-se e, consigo, o mundo? Era isso mesmo o que ele fazia? Mas será realmente importante saber o que ele fazia? Ele estava fazendo um sonho — que era o único modo como a verdade podia vir a ele e como ele podia vivê-la. Será então indispensável entender perfeitamente o que lhe acontecia? Se nós profundamente o entendemos, precisamos também entendê-lo superficialmente? Se reconhecemos no seu mover-se lento o nosso próprio formar-se — assim como se reconhece um lugar onde pelo menos uma vez se esteve — será necessário traduzi-lo em palavras que nos comprometem?
Às cegas, embora, e tendo como bússola apenas a intenção, Martim parecia querer começar pelo exato começo. E re¬construir a seu modo pela primeira pedra, até que chegasse ao instante em que houvera o grande desvio — qual fora o seu impalpável erro como homem? Até que chegasse de novo ao instante em que o grande equívoco uma vez se dera provocando a vastidão inútil do mundo. E quando, refeito pouco a pouco o caminho já andado, ele chegasse ao ponto em que o erro acontecera, então ele tomaria a direção oposta ao desvio. Na luz da manhã pareceu-lhe simples assim, e ele estava tão fresco e limpo como um menino que vai de manhã cedo à escola. Na luz da manhã pareceu-lhe simples assim: quando o mundo estivesse refeito dentro dele, ele então saberia agir. E sua ação não seria a ação abstrata do pensamento, mas a real.
Qual? “Qualquer que fosse”, disse ele com insolência tranqüila. E se o tempo fosse curto, se Vitória o denunciasse antes dele estar pronto, e não lhe sobrasse liberdade para a ação — ele pelo menos teria chegado a saber qual é a ação de um homem. E isso também era um máximo. (Oh, bem foi avisado que se explicasse ninguém entenderia, pois explicando como é que um pé segue o outro ninguém reconhece o andar.) Oh havia pouco tempo, sim, ele sabia. Quase podia ouvir o enorme silêncio com que ponteiros de relógio avançavam. Mas não se sentia revoltado por ser o guardião de tempo tão curto: o tempo de uma vida inteira também seria curto. Aquele homem já aceitara a grande contingência.
No primeiro dia, pois, ele pediu de si mesmo apenas a objetividade. O que se tornou uma fonte de cuidados e enganos. Por exemplo, um passarinho estava cantando. Mas do momento em que Martim tentou concretizá-lo, o passarinho deixou de ser um símbolo e de repente não era mais aquilo que se pode chamar de passarinho. Para compensá-lo, os galos e galinhas se tornaram a seus olhos rigorosos o próprio dia: andavam apressados, brancos entre a fumaça, a manhã de sol, se Martim não fosse rápido a perderia, os galos corriam, às vezes abriam as asas, galinhas sem ocupação dos ovos eram livres, tudo isso era a própria manhã e quem não fosse rápido a perderia — a objetividade era um vertiginoso relance. Martim logo aprendeu a questão do ritmo: quando seus olhos tentavam mais do que descrever as coisas, de seu esforço restava uma forma vazia de galo. Aliás, no seu trabalho de construção da reali¬dade, havia em desfavor de Martim a novidade das coisas não serem mais óbvias; ele esbarrava a cada momento. Contra si, também, havia a consciência do tempo preciso. Embora Martim tivesse uma grande vantagem: se a vida era curta, os dias eram longos. Ainda a seu favor ele tinha o fato de saber que devia andar em linha reta, pois seria pouco prático perder o fio da meada. A seu desfavor tinha um perigo à espreita: é que havia um gosto e uma beleza em uma pessoa se perder. A seu desfavor tinha ainda o fato de entender pouco. Mas sobretudo a seu favor tinha o fato de que não entender era o seu limpo ponto de partida.
Está bem: isso era uma primeira tentativa de reconstrução e com um limpo ponto de partida.
Mas — mas teria ele começado demais pelo começo?
Pois olhou para o campo vazio e pareceu-lhe que remontara à criação do mundo. No seu pulo para trás, por um erro de cálculo tinha recuado demais — e por um erro de cálculo pareceu-lhe que se colocara inconfortavelmente em face da primeira perplexidade de um macaco. Como macaco, pelo menos seria suprido pela sabedoria que faria com que ele se coçasse e com que o campo fosse gradualmente alcançável aos saltos. Mas ele não tinha os recursos de um macaco.
Teria começado excessivamente pelo começo? E depois acontece que, apesar de seu heroísmo, havia uma questão prá¬tica: ele não tinha tempo material de começar de tão longe. Já era pouco o tempo que lhe restava para percorrer o que lhe levara quase quarenta anos para andar; e não só para percorrer de um modo novo o caminho já andado, mas para fazer o que não pudera fazer até então: atingindo a compreensão, ultra¬passá-la aplicando-a. Já para isso era pouco o tempo. Quanto mais para começar, por assim dizer, do nada! No entanto, se quisesse ser leal para com a própria necessidade, não poderia enganá-la: tinha que começar pelo começo primeiro.
O que, cavando e cavando, de repente lhe pareceu de novo fácil. Pois cada minuto podia ser o tempo inteiro — se uma pessoa estivesse bastante livre para atender a esse minuto. Martim sabia disso porque uma vez, em um minuto já perdido, ele aceitara a cólera, e um caminho se abrira como um destino em um minuto. E mais tarde, em um minuto, ele não tivera medo de ser grande; e sem pudor, em um minuto, aceitara, como sendo seu, o papel de homem.
Foi assim, pois, que já tendo perdido na montanha a primeira modéstia, Martim foi perdendo sem sentir as derradeiras amarras, até que já não era monstruoso uma pessoa se dar função de pessoa e de “reconstruir”. O que lhe pareceu facílimo. Até hoje tudo o que vira fora para não ver, tudo o que fizera fora para não fazer, tudo o que sentira fora para não sentir. Hoje, que se rebentassem seus olhos, mas eles veriam. Ele que nunca tinha encarado nada de frente. Poucas pessoas teriam tido a oportunidade de reconstruir em seus próprios termos a existência. À nous deux, disse de repente interrompendo o trabalho e olhando. Porque era só começar.
Mas como se tivesse tido um sonho infantil olhou de novo o passarinho que cantava e se disse: que faço dele?
Pois já na sua primeira visão um passarinho não cabia. Tudo lhe fora dado, sim. Mas desmontado e aos pedaços. E ele, com peças sobrando na mão, não pareceu saber como montar a coisa de novo. Tudo era dele para o que quisesse fazer. No en¬tanto a própria liberdade o desamparava. Como se Deus tivesse atendido demais o seu pedido e lhe entregasse tudo. Mas tivesse ao mesmo tempo se retirado. A campina era toda de Martim, e mais um passarinho que cantava. E dele também, nesse tempo curto, era a vida inteira. E ninguém e nada podia ajudá-lo: fora exatamente isso o que ele próprio preparara com cuidado, e até com um crime preparara. Mas se astuciosamente come¬çara pelo mais fácil — que mais simples que um passarinho? — então perguntou-se embaraçado: que faço de um passarinho cantando?
Olhou então o passarinho com severidade. Mas ele — ele não soube deduzir. É verdade que, concentrado e cheio de muito boa vontade, à força de fixar o passarinho, conseguiu uma tensão máxima que se assemelhou a uma sensação de beleza. Mas só isso. Nada mais. Ver o passarinho cantando seria o limite de sua intuição? dois-e-dois-são-quatro é o grande pulo que um homem pode dar?
Como se vê, esse primeiro dia de objetividade foi sonambúlico. Se ele procurasse passar do espírito de geometria para o de finesse, as coisas obstinadamente não tinham uma finesse alcançável pela sua grande boca e pelas suas mãos pouco hábeis. Foi, pois, grande esforço espiritual o seu. E um pouco chato. O que lhe valeu é que ele tinha a teimosia dos que, não sendo bastante previdentes para enxergar a dificuldade, não vêem obstáculos. O que também lhe valeu é que, tendo se habituado ao fato de não ser brilhante, pensou que mais uma vez a dificuldade era apenas sua; de modo que se forçou. Até que chegou a um ponto de responsabilidade preocupada em que lhe pareceu que se ele não estivesse consciente de que as flores cresciam, as flores não cresceriam.
No entanto — no entanto, nesse mesmo dia houve momentos em que, à força de se aplicar em procurar entender, foi como se, batendo com uma vara na terra seca, ele sentisse que ali havia água. É verdade, também, que aí parava o seu engenho.
Foi de noite que Martim teve um pensamento mais ou menos assim: se a história de uma pessoa não seria sempre a história de seu fracasso. Através do qual. . . o quê? através do qual, ponto. Em seguida, relutante em utilizar esse pensamento, refugiou-se no pensamento sobre seu filho. Pois o amor pelo seu filho era uma das verdades de que ele mais gostava.
 

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