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A Maçã no Escuro

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Segunda parte: Nascimento do herói
Cinco

Com o decorrer dos dias, percebendo-o mais presente, as mulheres confundiram com estabilidade o ar moroso que Mar¬tim tomara e que vinha do fato de ele treinar instante por instante, com a cara estúpida de homem pensando, com a pa¬ciência dos sapateiros da gravura, um modo de abrir caminho. Certa então de que enfim receberia a resposta tranqüilizadora, Ermelinda perguntou-lhe com a segurança com que uma mulher estabelece domínios para se instalar com filhos:
—  Quanto tempo você fica?
—  Não sei, respondeu ele.
De novo Ermelinda se assustou. E como se seu estremeci¬mento se tivesse comunicado impalpável para Vitória, ambas mais ativas começaram a agir como se o tempo estivesse aca¬bando, Vitória se impacientava com as valas que mal progre¬diam, vigiava-o a cavalo. E um novo ritmo se sentiu no sítio.
E Martim? Martim trabalhava — olhava e trabalhava, pas-sando o mundo a limpo. Seu pensamento rude continuava no entanto a se ancorar obstinadamente no que ele considerava mais primário — de onde ele gradualmente passaria a com¬preender tudo, desde uma mulher que lhe perguntara durante anos “que horas são” até o sol que se erguia todos os dias e as pessoas então se levantavam da cama, compreender a pa¬ciência dos outros, compreender por que uma criança era o nosso investimento e a seta que disparamos. Seria isso o que ele queria? não se sabe propriamente. Ele por enquanto estava se moldando, e isso é sempre lento; ele estava dando forma ao que ele era, a vida se fazendo era difícil como arte se fazendo.
Tudo isso está se tornando pouco demonstrável. A verdade mais reconhecível por todos é que aquele homem estava con¬fuso. Como se disse, só a ambição persistente fazia com que ele não visse obstáculo num caminho que, pela graça da estu¬pidez, lhe era fácil. Sua grandiloqüência, no entanto, tinha al¬guma humildade: pois ele já chegara a aceitar que cada mo¬mento não tivesse força em si mesmo, começara a contar com a força acumulativa do tempo — “o decorrer de muitos momentos levá-lo-ia aonde ele queria chegar”. E assim sua humildade se tornou instrumento de paciência: ele trabalhava sem parar, as valas se abriam fundas.
A pequena população do sítio olhava para o céu, perscrutando e trabalhando. Tudo estremecia num calor que aumentava gradativamente sem que se sentissem suas transições. Os ramos tremiam, o calor duplicava cada objeto em refração fulgurada. Do fundo de seu próprio mistério, Martim olhava as plantas que no seu viço inocente ainda não pareciam sentir a ameaça que o sol rubro chispava: a seca. Ele olhava. Agora que tinha coragem — tudo era dele, o que não era nada fácil. Olhava, por exemplo, a campina que se tornara seu campo de batalha, e não havia uma brecha por onde entrar no que lhe pertencia. O que via apenas? que tudo era um prolongamento suave de tudo, o que existia unia-se ao que existia, as curvas se faziam repletas, harmoniosas, o vento comia as areias, batia inútil contra as pedras. É bem verdade que, de um modo estranho, quando não se entendia, tudo se tornava evidente e harmonioso, a coisa era bastante explícita. No entanto, olhando, ele tinha dificuldade de compreender aquela evidência de sentido, como se tivesse que divisar uma luz dentro de uma luz.
E foi desse modo que Martim de vez em quando se perdeu de seus objetivos. Houvera mesmo uma finalidade planejada, ou ele apenas seguia uma necessidade incerta? até que ponto estava ele determinando? Martim bem poderia chegar rapida¬mente a uma conclusão. Mas se você se purificou, o caminho se torna longo. E se o caminho é longo, a pessoa pode esquecer para onde ia e ficar no meio do caminho olhando deslumbrado uma pedrinha ou lambendo com piedade os pés feridos pela dor de andar ou sentando-se um instante só para esperar um pouquinho. O caminho era duro e bonito; a tentação era a beleza.
E com isso se quer dizer que nesse ínterim alguma coisa acontecera.
Uma coisa insidiosa começara a roer a viga mestra. E era algo com o qual Martim não contara. É que ele começava a amar o que via.
Livre, pela primeira vez livre, que fez Martim? Fez o que pessoas presas fazem: amava o vento áspero, amava o seu tra¬balho nas valas. Como um homem que tivesse marcado o grande encontro de sua vida e jamais chegasse porque se distraísse leso examinando folhinhas verdes. Era assim que ele amava e se perdia. E o pior é que amava sem ter uma razão concreta. Apenas por que uma pessoa que nascia, amava? e sem saber para quê. Agora que criara com suas próprias mãos a opor¬tunidade de não ser mais vítima nem algoz, de estar fora do mundo e não precisar mais perturbar-se com a piedade nem com o amor, de não precisar mais castigar nem castigar-se — inesperadamente nascia o amor pelo mundo. E o perigo disso é que, se não tomasse cuidado, ele teria desistido de ir adiante.
Porque também uma outra coisa acontecera, tão importante e grave e real como a tristeza ou a dor ou a cólera: ele estava contente.
Martim estava contente. Não previra esse obstáculo a mais: a luta contra o prazer. Estava gostando demais das minúcias do curral. Com surpresa, ele se satisfazia com tão pouco: em executar tarefas... Bastava-lhe tanto ser uma pessoa que acorda de manhã. Bastava-lhe o céu quase escuro. E a terra enevoada e as árvores frescas, e ele tinha aprendido a tirar leite das vacas que na madrugada mugiam mornas. Assim: eu sou um homem que tira leite das vacas. A corrente da graça era forte de manhã, e ter um corpo que vivia bastava. Se ele não tomasse cuidado, se sentiria dono. Se não tomasse cuidado, uma árvore mais alta o faria se sentir completo, e um prato de comida o compraria no momento de sua fome e ele se agre¬garia a seus inimigos que eram comprados pela comida e pela beleza. Inquieto, ele se sentia culpado se não transformasse, pelo menos com o pensamento, o mundo em que vivia. Martim estava se perdendo. ‘‘Houvera mesmo uma finalidade?” Agora já lhe acontecia ter uma vaidade admirativa e benevolente em relação a suas “escapadas”, e visualizar-se como um grande cavalo que temos em casa e que de vez em quando dá suas voltas fantásticas por aí, impunemente livre, guiado pela beleza da contenção de espírito que equivale ao modo como o nosso corpo não se desagrega. Exercícios de viver. Martim estava tendo prazer em si mesmo. Miseravelmente, apenas isso. Como se vê, mais feliz ele não poderia estar.
Foi com esforço sobre-humano que Martim procurou ven¬cer cada dia a vaidade de pertencer a um campo tão grande que crescia sem sentido; foi com austeridade que ele venceu o gosto que tinha pela harmonia oca. Com esforço se sobrepujava, obrigando-se — contra a corrente que o arrastava na sua graça — a não trair o seu crime. Como se, com o contentamento, ele estivesse apunhalando a sua própria revolta. Então forçava-se duramente a não esquecer o seu compromisso. E de novo punha-se por dentro em estado espiritual de trabalho: uma espécie de transe em que aprendera a cair quando precisava.
Seu estado de trabalho consistia em tomar uma atitude besta de pureza e vulnerabilidade. Aprendera a técnica de ficar vulnerável e alerta, com cara de idiota. Não era nada fácil, até muito difícil. Até que — até que atingia certa imbecilidade de que precisava. Como ponto de partida, criava para si uma ati¬tude de pasmo, tornava-se indefeso, sem nenhuma arma na mão; ele que não queria sequer usar instrumentos; queria ser o seu próprio instrumento, e de mãos nuas. Porque, afinal, cometera um crime para ficar exposto.
Mas se essa tentativa de inocência o levava a uma objeti¬vidade, era à objetividade de uma vaca: sem palavras. E ele era um homem que precisava de palavras. Então, com paciência, corrigia o exagero de sua imbecilidade: “é preciso também não me forçar a ser mais burro do que sou”, pois também não havia lá tantas vantagens em ser imbecil, era preciso não esquecer que o mundo também não era só dos imbecis. Tomou, pois, como novo método de trabalho, o caminho oposto e assumiu uma atitude resoluta que lembrava um desafio. Essa atitude não foi difícil ter. Porém mais que ela, não conseguiu — e todo dis¬posto como um homem que se embala para uma corrida de um quilômetro e esbarra com o fato de ter apenas dois metros para correr — ele desinchou desapontado. Revelou-se que a atitude de deixar de ser imbecil fora tarefa acima de sua capacidade real de deixar de sê-lo.
É verdade que quando lhe ocorria que o fim não estava longe, ele já não precisava mais se fustigar ou criar técnicas para continuar sua tarefa monstruosa. Quando lhe ocorria que tinha que ter violentamente tudo, e a “revelação” também — de novo sua pressa se tornava perfeita, tranqüila e concentrada como a dos sapateiros embaixo da caldeira. E seu próprio contentamento parecia fazer parte necessária do lento trabalho de artesão.
Oh ele estava muito desamparado. Simplesmente não sabia como se aproximar do que queria. Perdera o estágio em que tivera a dimensão de um bicho, e no qual a compreensão era silenciosa assim como uma mão pega uma coisa. E também já perdera aquele momento quando, no alto da encosta, só lhe fal¬tara mesmo a palavra — tudo estivera tão perfeito e tão quase humano que ele dissera a si mesmo: fala! e só faltara a palavra. Em que ponto estava agora? No ponto em que estivera antes do crime: como antes, ele era algo que talvez tivesse um sen¬tido se fosse olhado de uma distância que o colocasse na pro¬porção de uma folha de árvore. Visto de perto, ele era grande demais ou deixava de se enxergar. No fundo, ele era nada. E foi com esforço que ele se deu alguma importância: ele só vivia uma vez.
E o fato é que agora era tarde demais: apesar do conten¬tamento, teria que continuar. Não só porque era obrigado a salvar seu crime. Mas porque, mesmo aos recuos, ele sentia que avançava.
Sentia que — pois é — que quase entendia. É verdade que, por um erro de cálculo, começara pelo começo demais; é verdade que o verde das ervas era tão violento que seus olhos não podiam traduzi-lo; é verdade que já ocorria ao homem ter destruído o mundo para jamais recebê-lo inteiro de novo, nem mesmo uma só vez como se recebe a extrema-unção. Tudo isso era verdade, sim. Mas é que às vezes a resistência parecia pres¬tes a ceder...
Havia uma resistência tranqüila em tudo. Uma resistência imaterial como tentar lembrar-se e não conseguir. Mas assim como a lembrança estava na ponta da língua, assim a resistência parecia prestes a ceder. Foi assim que, na manhã seguinte, ao abrir a porta do depósito à frescura da manhã, ele sentiu a resistência cedendo. O ar da manhã limpa estremecia nos arbus¬tos, a xícara rachada de café ligou-se à manhã sem névoa, as folhas das palmeiras luziam escuras; a cara das pessoas estava avermelhada pelo vento como a de uma nova raça andando pelo campo; todo o mundo trabalhando sem pressa e sem parar; a fumaça amarela saía do fundo da cerca. E, por Deus, isso tem que ser mais que a grande beleza, tinha que ser. Então, com escrúpulos, a resistência cedendo, ele quase compreendeu. Com escrúpulos como se não tivesse direito de usar certos processos. Como se estivesse compreendendo alguma coisa inteiramente incompreensível assim como a Santa Trindade, e hesitasse. Hesi¬tasse porque soubesse que depois de compreender, seria de algum modo irremediável. Compreender podia se tornar um pacto com a solidão.
Mas como escapar à tentação de entender? sem conseguir vencer certa sensualidade, ele entendeu. Para não se comprome¬ter de todo, tornou-se enigmático, a fim de poder recuar logo que se tornasse mais perigoso. Então, cuidadoso e sonso, ele entendeu assim: “Como se impedir de compreender, se uma pessoa sabe tão bem quando uma coisa está ali!”, e a coisa estava ali, ele sabia, a coisa estava ali. “Sim, assim era, e havia o futuro.” O largo futuro que tinha começado desde o começo dos séculos e do qual é inútil fugir, pois somos parte dele, e “é inútil fugir porque alguma coisa será”, pensou o homem bas¬tante confuso. E quando for — oh como poderia ele se explicar diante de uma manhã tão inocente? — “e quando for, então será”, disse ele humilhado com o pouco que dizia. E quando for, o homem que nascer se espantará de que antes... “Mas quem sabe se já não é?”, ocorreu a Martim com grande argúcia. “Acho até que já é”, concluiu com dignidade de pensamento. Então, de algum modo satisfeito, tomou uma atitude oficial de meditação. Ele meditou, enquanto olhava a manhã no campo. E quem há de jamais responder por que borboletas num campo alargam em compreensão obscura a vista de um homem?
Foi assim que por meios escusos Martim alcançou enfim um estado, pulando como um herói por cima de si mesmo. E foi assim que, por meios impossíveis de se recapitular, ele ter¬minou finalmente por se livrar do começo dos começos — onde por inépcia se enganchara tanto tempo. Uma fase se encerrara, a mais difícil.

1 Clariceanos:

APENAS PALAVRAS disse...

A maioria das pessoas pensa que os fatores externos são as causas de suas infelicidades ou dificuldades, e se queixa: "Fulano é que causou isso; Sicrano é o culpado disso". Na verdade, a atitude dos outros é reflexo da mente da própria pessoa.
Vemos nos outros a imagem refletida de nossa atitude mental. Desde já Coloquemos a lealdade e a confiança acima de qualquer coisa; para que a bondade transpareça... Verá que a bondade em palavras cria confiança; a bondade em pensamento cria profundidade; a bondade em dádiva cria amor. O amor, para durar, tem de ser também confiança, também estima. Isto é, deve adquirir algumas das propriedades da amizade que esta afiliada com a palavra confiança... Com isso vera o seu reflexo... E verá que a verdade gritará em praça publica os atos das nossas ações Deixo-te um acalorado bj em seu coração... Amei sua postagem... Escreves com o coração. É por isso que venho de longe ouvir o pulsar dele... mesmo em dias chuvosos.